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A arte é um grande negócio

28 de julho de 2013 0

Passados mais de 30 anos atuando em grandes multinacionais paulistas, Helga Tytlik mudou para Joinville em 2002 e aqui passou a vivenciar o exercício artístico, além de enveredar pela gestão pública como coordenadora de desenvolvimento cultural. Mas em 2006 conheceu Ana Carla Fonseca, referência na introdução do assunto no Brasil, e abraçou fervorosamente a economia criativa. Privilegiada pela vivência em três áreas distintas, ela imaginou numa forma de aproveitar o potencial criativo artístico como meio de sensibilizar o pensamento corporativo e incentivar projetos de desenvolvimento comunitários. Nascia assim, há dois anos, a Tucunaré Desenvolvimento Cultural, que, entre outras propostas, procura abrir demanda para os artistas dentro da área corporativa e mostrar aos empresário o poder da cultura na melhoria das relações. Parte da conversa com Helga está aí embaixo, mas com um assunto tão vasto, há muito mais no blog.

Em linhas gerais, o que é economia criativa?
Helga Tytlik
- É a utilização do conhecimento no desenvolvimento de processos de inovação que tenham como sustentação a valorização dos intangíveis (bem estar, felicidade, respeito, tranquilidade), melhoria de qualidade de vida e humanização das relações. Entende-se que qualquer empreendimento sustentável só será possível com o equilíbrio entre as relações onde todos ganham. A criatividade, o conhecimento e o acesso a tecnologia são reconhecidos pelos poderosos mecanismos como impulso e estímulo ao desenvolvimento sustentável.

Que exemplos concretos você pode dar quanto aos resultados da economia criativa?
Helga
– Em termos mundiais, um dos cases mais divulgados é da Islândia, onde os artistas foram os protagonistas do êxito econômico. Criou-se Ministérios de Idéias, que desenvolve várias alternativas de sucesso para o país. Outro case criativo, bastante curioso até, é de Santiago do Chile: para resolver comportamento indisciplinado no trânsito, foram criadas duas placas: uma com “positivo” (dedão pra cima) em verde, e outra com “negativo” (dedão para baixo), vermelho, que foram distribuídas para a população. Ao presenciar uma ação indisciplinada ou proibida, as pessoas simplesmente mostravam a placa vermelha, provocando vaias ao infrator pela população em volta. Com esta simples ação de baixo investimento que envolveu a comunidade, houve grande melhoria no trânsito, contribuindo para o bem estar de toda população.
No Brasil, Guaramiranga é um ótimo exemplo. Uma cidadezinha ao pé da serra no Ceará que inicialmente acolhia alguns amigos para um encontro de jazz e, por uma ação de desenvolvimento criativo, hoje recebe o maior festival do gênero do País, alavancando o desenvolvimento local, além de abrigar outros festivais, que aproveitam a estrutura construída na cidade. Em Joinville, temos algumas iniciativas que se mostram bem interessantes. Silvane Silva, que dirige a Escola Hermann Mueller, é um grande exemplo de empreendedor criativo _ suas ações mudaram a relação da comunidade com a escola e contribuíram muito para o desenvolvimento criativo das crianças.

Como artistas podem se valer da economia criativa?
Helga
– Há muitas possibilidades. Nos últimos ciclos que vivemos, passamos da relação paternalista, do “encaixotamento” do pensamento na ditadura, das exigências de “automação comportamental”, à supervalorização da formação acadêmica e à busca por lucratividade, colocando quem não se enquadrava nos parâmetros a simples número. Durante estes ciclos “encaixotadores”, o artista manteve-se intacto em sua essência _ estimulado em sua criatividade, sensibilidade e capacidade intelectual. Se estamos propondo uma reconstrução de valores, de valorização de conhecimentos, da intuição e do conhecimento vivencial, quem melhor do que os artistas, com sua experiência em estimular o emocional, para quebrar velhas paredes internas, provocar novos olhares e, de forma lúdica, estimular a revisão da autoestima do público, renovando sua fé na capacidade de pensar e criar?

Por que estamos atrasados em relação a outros Estados?
Helga
– Considerando-se a importância do polo industrial de Santa Catarina, e sede de um dos maiores seminários corporativos do Brasil, a Expogestão, estamos muito aquém em iniciativas relacionadas a capacitação, informação e difusão sobre economia criativa, mais ainda quando falamos em aplicação. A título de exemplo, a Bahia investiu num circuito de oficinas criativas em mais de 30 cidades, incentivando soluções inovadoras independentes da máquina pública; Tocantins, idem; Goiás tem em Décio Coutinho um gestor público que aplica economia criativa; Pernambuco, Sergipe (que abriga inclusive a Fundação Brasil Criativo, que é nossa parceira) e Espírito Santo já iniciaram várias experimentações, clusters e movimentações criativas; Minas Gerais criou em Belo Horizonte a primeira Casa da Economia Criativa, em parceria público-privada. Isto fora o eixo Rio-São Paulo, que conta com inúmeras iniciativas e ações. Precisa falar mais?

Foi essa resistência que motivou você a criar a Tucunaré?
Helga –
Bem, o que moveu inicialmente foi a paixão pelo assunto e a possibilidade de abrir novas formas de atuação e frentes para a classe artística. Claro que o fato de ser um desafio levar quebra de paradigmas a uma região com comportamento convencional é um plus.

De que forma ela pode contribuir para o próprio crescimento do cenário artístico/cultural de uma cidade como Joinville?
Helga
- Adotar processos de desenvolvimento criativos não mudará apenas o cenário artístico cultural mas sim, toda a forma como a cidade pode se desenvolver. Aliando o potencial dos artistas ou de indústrias criativas (arquitetura, artesanato, joalheria, audiovisual, design, moda) a processos de inovação junto a indústria formal, abriremos “n” novas possibilidades de desenvolvimento sócio econômico e cultural. Há vários exemplos na Argentina, nos EUA e em vários países europeus. Joinville tem grande potencial para ser uma cidade criativa, inclusive partindo de grandes eventos que já são consolidados mas ainda não aproveitados em seu potencial de desenvolvimento criativo.Vejo que a classe artística ainda não se conscientizou da importância que podem ter neste processo. Sempre houve resistência por parte de muitos artistas em apresentar-se em empresas e, realmente, os antigos processos de construção de atividades adaptadas às necessidades da empresa meio que “prostituíam” os artistas que, por questões de sobrevivência, aceitavam esses papéis. O que estamos propondo hoje é manter o processo artístico e pesquisas e, por meio dele, instigar mudanças de pensamento, atitudes e revisão de conceitos. O que pregamos é: ao invés da sua arte adaptar-se ao sistema, use sua arte para mudar o sistema.

Quando se fala em criatividade, é algo obrigatoriamente ligada à arte?
Helga
- Não. Confunde-se muito a economia criativa da cultura como algo ligado a arte. Entende-se por cultura tudo o que complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade. Criatividade é inerente a todo o ser, independente de sua formação ou condição sócio econômica. Há vários processos industriais que compreendem interações criativas e nada tem a ver com arte. Ou seja, qualquer ação diferenciada e inovadora para solução de algum problema ou como caminho para o desenvolvimento é uma ação criativa – é o que sai do convencional, da receita de bolo.

Como isso pode ser aplicado em comunidades carentes?
Helga -
Bem, no formato que desenvolvemos pela Tucunaré, defendemos que um processo de desenvolvimento socioeconômico cultural de uma comunidade de baixo IDH deve partir de valores culturais da própria comunidade. A partir daí, elabora-se oficinas, workshops e atividades que, além de conteúdo técnico e prático, exercitam e instigam o indivíduo a exercitar a criatividade também na busca das soluções que coloquem em prática o projeto desejado. Ou seja, não damos receita e sim, somos tutores de processos que contribuam para que as pessoas se conscientizem de que o conhecimento individual vivencial que possuem é muito importante para o desenvolvimento do grupo.

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