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Hélio Muniz: sem descanso na trincheira teatral

12 de outubro de 2013 0

salmo duarte
Hélio Muniz assina a dramaturgia e a direção de Memórias de Louise, espetáculo sobre a revolucionária francesa Louise Michel (1830-1905) que estreia em março, em São Paulo, e teve leitura dramática em Joinville na semana passada. Deve ter havido uma identificação aí, afinal, o próprio ator/diretor/professor/faz-tudo é uma espécie de guerrilheiro teatral, assistindo da trincheira às mudanças pelos quais a arte cênica passou em seus 67 anos de vida. Nascido em Olímpia (SP), Hélio foi aluno do inovador Augusto Boal, integrou o lendário Teatro de Arena, foi cerceado pela ditadura e acabou em Joinville há exatas duas décadas. Aqui, lutou em tantas frentes que faltaria espaço para relatar todas – a mais recente foi a Casa Iririú, ponto de cultura que busca um novo espaço no momento. Firme e forte no front, Muniz deu a seguinte entrevista à coluna.

Como foi seu começo nas lidas teatrais?
Hélio Muniz - Eu sempre digo que tive a sorte de ter um pai, que apesar de camponês, era muito interessado em artes e literatura e uma avó, sua mãe, eximia contadora de histórias. Também, morei em uma fazenda administrada pelo meu avô materno que, não sei bem porque, tinha um grupo de teatro e apresentações de cinema. Além disso, meus tios (irmãos de minha mãe) tinham uma dupla sertaneja e cantavam em uma rádio e eu, ainda criança, sempre os acompanhava para ouvi-los. Outros tios, irmãos de meu pai, faziam parte de um grupo de Folia de Reis, e a minha vó materna era prima de um ator de cinema, um cômico, Zé Trindade. Como vê, desde criança tive contato com as artes e a cultura. Depois, já em São Paulo, ainda jovem iniciei em teatro na escola e na igreja do bairro. Posteriormente, formei um grupo de teatro amador e já dei meus primeiros passos como, ator e diretor teatral.

Você foi aluno de Augusto Boal. Como foi essa experiência?
Hélio – Nos anos 70, o Boal resolveu transformar o Teatro de Arena em uma escola de teatro. Para isso, contratou professores muitos bons e a intenção era formar atores em um curso com duração de três anos. Eu fiz parte da primeira turma. Neste ínterim, o Boal começou as experiências com o Teatro Jornal e o Teatro Bíblia, embrião do hoje famoso Teatro do Oprimido, conhecido em todo o mundo. Ele selecionou cinco atores do curso e eu tive a sorte e a felicidade de ser um deles. Com o Teatro Arena nós viajamos para festivais de teatro na Argentina, Uruguai e para o Festival Mundial Teatro, em Nancy, na França Infelizmente, por problemas políticos, ele havia sido preso pouco antes no Brasil, o Boal não voltou com a gente e se exilou na Argentina e posteriormente na Europa. Quero registrar que o Boal foi uma das criaturas mais terna, bondosa e amável que eu conheci. Tive a honra e a felicidade de ser seu aluno, seu ator e, depois, seu amigo até o fim de sua vida. Muito do que trago hoje e do faço devo a ele.

Você sofreu muito por fazer teatro durante a ditadura militar?
Hélio – Era muito limitante fazer teatro naquela época, mas também muito prazeroso, pois o teatro representava uma resistência concreta contra os desmandos e as arbitrariedades do regime ditatorial. Apesar de toda a censura, perseguição, enfrentamentos, prisões e até agressões físicas que sofreríamos, o teatro dos anos 70 foi dos mais vigorosos e criativos já realizados no Brasil. A classe teatral teve um comportamento bastante ético e uma postura moral e política exemplares.

fernando gomes, 06/11/1999Em São Paulo, você fez teatro na periferia, e em Joinville, atuou na rua. O que o atrai nessa arte visceral, sem barreiras?
Hélio – Já que falamos em Boal (foto à esquerda), vou citar uma de suas frases: “O teatro pode ser feito em qualquer lugar, até no teatro e até com atores.” Eu acho que se bem feito, o teatro pode mesmo ser feito em qualquer espaço. Nos anos 70 na periferia de São Paulo (e em outras cidades brasileiras) o teatro fazia parte da resistência e da luta por direitos, liberdade e justiça sociais. Apesar da ditadura, que não era só no Brasil, e sim em quase toda a América Latina, a sociedade civil estava mais organizada e havia um movimento político intenso nas escolas, sindicatos, igrejas, etc. Como todos nós latino americanos éramos reprimidos, havia uma solidariedade incrível entre os artistas latinoamericanos e até europeus. Nos anos 70, cheguei a me auto-exilar e morar um tempo em Buenos Aires. Voltando à sua pergunta: acho que o teatro está muito acomodado, precisa sair do gueto e ir para a rua, descobrir novos espaços e um novo público. O teatro tem que buscar alternativas e fugir de uma linguagem parecida com a televisão. O teatro tem trabalhado muito pouco com a contradição e a dialética. A experiência do teatro deveria servir para que tanto o público quanto os atores pudesse sair transformados.

Como você vê o atual momento do teatro em Joinville?
Hélio - O teatro em todo o mundo vive períodos cíclicos. Sempre existem altos e baixos. Joinville, na verdade, já viveu momentos melhores em termos de movimento. As pessoas e os grupos formavam um movimento mais compacto. De qualquer maneira, quero registrar que talvez Joinville seja uma das cidades onde as pessoas de teatro são mais unidas e solidárias. A fundação da Ajote deu um impulso bastante grande ao teatro joinvilense. Também temos bons espetáculos e muitos já receberam prêmios em festivais em todo o Brasil. A Dionisos é um grupo que já fez temporadas até no exterior. Porém, para que o teatro em Joinville realmente venha a se consolidar, precisamos, além do apoio do poder público, despertar os empresários locais e, principalmente, o público para as produções locais, que, repito, têm muita qualidade.

Você faz um pouco de tudo – atua, dirige, faz luz, ministra cursos. Consegue viver exclusivamente do teatro?
Hélio – Como tenho uma paixão muito grande pelo teatro, procurei sempre atuar em todas as frentes. Isso possibilita um aprendizado muito grande e também sobreviver exclusivamente de teatro. Mas é preciso esclarecer que, para se viver de teatro, é preciso abrir mão de muita coisa e atuar em todas as áreas, pois, infelizmente, não se pode viver de bilheteria, o que seria ideal para qualquer grupo. Além disso, não por sua culpa, o público não tem a menor ideia do trabalho que dá montar um espetáculo. Tem gente que quando pergunta onde você trabalha e você diz que faz teatro, comenta: “Mas você trabalha onde?”

Nunca pensou em voltar a São Paulo?
Hélio – Confesso que já pensei e até tive propostas para trabalhos, mas cheguei à conclusão, sem narcisismo, que talvez eu seja mais útil aqui do que lá, onde o teatro já está consolidado. Penso que tenho contribuído bastante para o teatro da cidade e quero continuar fazendo teatro aqui. O que não significa que não aceite fazer trabalhos em outros lugares.

pena filho, bd, 17/06/2011Como vê a experiência com a Casa Iririú?
Hélio – A Casa Iririú (foto à direita) é uma das utopias mais lindas que eu estou vivendo e que está sendo realizada junto a um grupo de pessoas maravilhosas. No momento, estamos com problemas por causa da estrutura física da casa, mas para nós, a Casa Iririú não é apenas seu espaço físico, é uma ideia e esta ideia não está morta. Estamos procurando outro espaço e mandamos um projeto de manutenção para a Lei do Mecenato, que se aprovado, irá dar um grande suporte para a continuidade de nosso trabalho. Também temos recebido solidariedade de muita gente e instituições da cidade, oferecendo instalação para nosso projeto. As Partilhas Culturais continuarão sendo realizadas em outros espaços e o Grupo de Teatro Canto do Povo, administrador do espaço, continua atuante e apresentando suas montagens em vários locais.

Você já é um sexagenário, que passou por muita coisa. O que te motiva a seguir tão atuante, no palco e nos bastidores?
Hélio - Como dizia Mário Lago: “Fiz um acordo com o tempo. Ele não me incomoda e eu não o incomodo”. Às vezes penso que sou privilegiado, pois apesar dos 67 anos, ainda me sinto um menino. Acho que a vida, o amor, os sonhos, as utopias e o teatro me alimentam.

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