Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
 

Puro idealismo headbanger

24 de novembro de 2013 0

marcus carvalheiro/coletivo metranca, divulgação
Em meados da década passada, chamaram Juliano Ramalho de maluco, só porque ele queria montar um festival de metal numa fazenda do interior de Santa Catarina e chamar bandas gringas para compor o line-up. Só? Parecia mesmo improvável que ele conseguisse o feito na cara e na coragem e contando apenas com a benevolência dos amigos. Pois cinco anos depois da primeira edição, em 2008, o festival Zoombie Ritual transformou Rio Negrinho num oásis para milhares de headbangers extremistas, com uma estrutura sólida que cresce no ritmo das escalações – entre 13 e 15 de dezembro, serão 29 bandas de oito países na Fazenda Evaristo, entre elas Kreator, o ex-Judas Priest Tim “Ripper” Owens, D.R.I e Benediction. Nomes importantes da cena metal mundial e “sonhos de consumo” do próprio Juliano, que nesta conversa com a coluna (leia mais no blog) devaneia sobre o evento e os planos futuros com o coração cheio de idealismo. O porém é que, no caso dele, a “loucura” virou algo real, para quem quiser ver (e ouvir alto).

Qual a história por trás da criação do Zoombie Festival?
Juliano Ramalho – O festival nasceu num momento em que eu, digamos, queria ser alguém ou fazer parte de algo muito maior, em meados de 2004/2005, mas que só veio a se tornar realidade em 2008. Como todos sabem, o evento se chama Zoombie Ritual, uma homenagem ao vocalista e líder da banda Death,  Chuck Schuldiner, e dando espaço para uma linha de som mais agressiva, mais extrema da cena metal nacional e internacional. Quanto ao nome, a escolha foi algo engraçado. Seguíamos eu e dois amigos para a casa de um terceiro amigo, como o DVD Death Live in L.A., e eles comentavam sobre a ideia e o projeto em geral, quando surgiu a pergunta do nome. Na mesma hora olhei a contracapa e visualizei, em meio a tantas outras, a música Zombie Ritual. Foi ali a decisão, andando pela rua mesmo. Acrescentei um “o” no nome pra não ter problemas com direitos autorais.

De 12 bandas em 2008 para quase 30 em 2013. O que mudou nestes cinco anos, além do número de bandas?
Juliano - Muita coisa. O fato de o número de bandas ter aumentado deve se a inclusão de um dia a mais de evento. Já a estrutura vem melhorando ano após ano. A cada edição nos preocupamos ainda mais em atender nosso público, proporcionando aquilo que podemos, o que há de melhor em vários sentidos – infraestrutura, bandas, comodidade e conforto

Você diria que hoje ele é um evento totalmente consolidado?
Juliano – Diria que estamos a cada edição damos um passo à frente para que isso ocorra. É muito cedo pra dizer, mas sigo um ditado antigo: “Confiança não se impõe, se conquista”. Acredito que ter a fidelidade das pessoas desse meio, é um primeiro passo para se fixar em um ramo, tendo em vista que as  satisfazendo, com certeza retornarão. É uma guerra sem fim.

divulgaçãoDe onde vêm os recursos?
Juliano - Esse ponto é o mais complicado (risos). Não existe, por enquanto, nenhuma empresa que resolveu acreditar na ideia e investir. A única forma de pagar as contas do evento é montando um line-up muito atraente. Sem falsa modéstia, tiramos isso de letra, por ser uma das prioridades do ZR. Assim, posso dizer de boca cheia que quem manda é o público. O festival se tornou autossustentável, embora sempre dê aquele friozinho na barriga, porque se não houver um mínimo de vendas, sou eu quem tem que assumir as dividas, doa a quem doer!

Li uma entrevista recente do Andreas Kisser (Sepultura) em que ele reclamava da dificuldade de conseguir patrocínio para o metal. Acontece com vocês também?
Juliano – Sim. Não posso generalizar, pode ser que existam empresas que queiram investir nessa cultura, mas nem procuro me iludir indo atrás delas, pois temo estar perdendo tempo. Isso não quer dizer que não aceito. No meu caso, existem alguns parceiros que me ajudam como podem, como uma empresa de camisetas de Jaraguá do Sul e um rede de supermercados de Rio Negrinho. Um caso à parte, claro.

O festival já chegou ao ponto de receber ofertas de bandas gringas importantes?
Juliano – Sim, recebemos e continuamos recebendo propostas de parcerias, bandas da Europa, EUA e até mesmo asiáticas. Com o passar dos anos, o evento tem tomado proporções muito maiores, buscando não só o seu próprio sucesso, mas selando parcerias que podem beneficiar as bandas, uma espécie de intercâmbio cultural. Bandas da América do Sul se apresentam aqui com o dever de levar bandas daqui para tocar em seus respectivos países, algo totalmente benéfico e incentivador aqueles que fazem disto a sua vida.

Aonde você espera chegar com o festival? E qual o seu “sonho de consumo”?
Juliano - Eu sinceramente só espero manter o respeito e a confiança de todos os interessados, porque as loucuras eu continuarei fazendo (risos). Também espero que o evento seja algo que marque a vida das pessoas, pois se trata de um ideal. Tenho muitos “sonhos de consumo”, muitos deles já passaram pelo ZR, outros estarão neste ano, mas há alguns que ainda quero ver por aqui, como Slayer, Cannibal Corpse, Morbid Angel, o próprio Death (que voltou recentemente). Porém, não vou sossegar enquanto não ver no palco ZR Iron Maiden, AC/DC, Metallica e Kiss. Vendo de fora, pode parecer ambição demais, mas acreditem, já estou no rastro delas (risos).

Conte aí uma boa história passada nos bastidores…
Juliano - Tem algumas, mas vou citar uma. Em 2011, tocou aqui a banda sueca Dark Funeral. Antes de desembarcarem do avião, o tour manager deles, meu amigo por sinal, me mandou mensagem dizendo que precisávamos achar um lugar pra comprar uma calça de couro – em pleno domingo à tarde. Em Joinville, não achamos nenhum local que vendia. Seguimos para Rio Negrinho e ele me enchendo, dizendo que o cara precisava da calça pra tocar, que fazia parte do visual da banda. Em RN, decidi pegar o líder da banda, o sr. Lord Arymã, como é conhecido, coloquei dentro do carro e fomos procurar a tal calça numa cidade vizinha, onde acontecia um encontro de motoclubes em uma fazenda. Não achamos mais ninguém no local. Eu, todo preocupado com aquela causa, pergunto ao cara: “E agora, o que faremos?”. Ele me olha e diz: “Relaxa, cara, relaxa, vou tocar de qualquer jeito, mas preciso de algumas fotos deste lugar, é maravilhoso”. Minha vontade era de esganar alguns pescoços (risos), mas voltamos felizes para o evento.

Envie seu Comentário