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Classe cultural de Joinville rechaça projeto de supersecretaria

13 de fevereiro de 2015 3

bia bittelbrunn
A gritaria é tão grande entre artistas e produtores de Joinville que Orelhada não tem como não fazer ecoar o desgosto generalizado com o desejo do prefeito Udo Döehler de integrar a área cultural a uma supersecretaria que abrangeria ainda educação, turismo e esporte. O motivo, claro, é enxugar a máquina e economizar dinheiro. Mas, mesmo que o projeto ainda dependa da aprovação da Câmara de Vereadores, o setor da cultura rechaça a ideia com uma série de argumentos, vários deles disparados por figuras destacadas da cena local e relacionados abaixo. Quanto à Fundação Cultural, o presidente Rodrigo Coelho foi sucinto: nada a declarar.

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“É um desacerto. Temos o modelo no governo estadual que não funciona bem. A intenção do atual prefeito, de fazer a junção das pastas, vai na contramão da lei prevista no Plano Municipal de Cultura. Quando me coloquei à disposição para atuar na presidência do CMPC, foi com o compromisso de trabalhar no cumprimento do Plano Municipal de Cultura, em prol do desenvolvimento de uma política de estado que represente a vontade da sociedade. A falta de nomeação do diretor executivo é uma prova da verdadeira intenção do prefeito. Na verdade, precisamos é ampliar a atuação da Fundação Cultural, para atender melhor as demandas do PMC.”
Maycon Santos, presidente da Conselho Municipal de Política Cultural (CMPC).

“Temos os planos municipal e nacional de cultura, construídos com a participação democrática de quem realmente entende e trabalha nessa área, e isso deve ser respeitado pelos gestores públicos. O Brasil de hoje merece e necessita de políticas de estado, e não políticas de governo.”
Iraci Seefeldt, presidente do Instituto de Pesquisa da Arte pelo Movimento (Impar).

“Sua única vantagem é a economia com comissionados – o que, por ora, é apenas uma hipótese. Cultura, turismo e esporte são áreas de atividades altamente especializadas, que exigem recursos bem aplicados e gestores qualificados, familiarizados com o meio. Há muito já se economiza com a FCJ. O município deixa de fazer as contrapartidas do governo federal e perde convênios, seca a verba das unidades, mas ao mesmo tempo inaugura e mantém espaços (Museu da Bicicleta, Galeria Valter de Queiroz Guerreiro, Museu do Ferro de Passar) surgidos do nada, sem nenhum projeto ou alinhamento com o Plano Municipal de Cultura.”
Gleber Pieniz, pesquisador e curador de artes visuais.

“(O projeto) vai contra as próprias metas do Plano Nacional de Cultura, e existe a possibilidade de perdermos recursos do Governo Federal”.
Cassio Correia, presidente da Associação Joinvilense de Teatro (Ajote).

“É um desacerto, um retrocesso, não é modernização. Esta decisão está na contramão de tudo que foi discutido e conquistado no âmbito da cultura até agora. O Brasil e Joinville fizeram muitos progressos neste setor nos últimos dez anos, e o governo municipal está conseguindo acabar com tudo em dois. Falo de modo abrangente – o SIMDEC, por exemplo, é somente uma sombra do que foi há três anos. O município tem um CMPC e uma lei de cultura. Não se pode baixar uma decisão arbitrária assim, sem haver consulta. Isso me parece um ato institucional ditador. Não tenho tanto conhecimento jurídico, mas me parece que, entre outras perdas, a extinção da FCJ significa perder a possibilidade de repasses de recursos federais. Mas parece que a geston não sabe disso, ou realmente não se importa. Aliás, como esperar outra postura de uma geston que desaparelhou totalmente a FCJ, nomeando, exonerando e não nomeando pessoas sucessivamente? A Secretaria de Educação não dá conta do que tem sob sua tutela hoje, que dirá com o esporte, a cultura e o turismo. Essa junção ‘franksteiniana’ é míope.”
Marisa Toledo, professora da Casa da Cultura e produtora.

“Não é só um desacerto, é um desacato, um desrespeito ao trabalho de trabalhadores da cultura, do conselho municipal de cultura e a sociedade civil. Esse tipo de junção não acontece nem em cidades com poucos habitantes. Joinville tem mais de 500 mil habitantes e precisamos de uma política pública de cultura que nos represente.”
Fabricio Porto, cineasta, fotógrafo e membro do CMPC.

“Foram necessários séculos para que esse espaço de atuação e de gestão pública que chamamos de cultura se constituísse. O de turismo, também ; o de esportes, idem. Numa cidade bem pequenininha, minúscula, não tem problema de as quatro áreas se reunirem numa secretaria. Agora, num município como Joinville (ou num Estado como Santa Catarina), isto é uma mistura impossível de gerir. Sem contar que os orçamentos misturados ficarão, como acontece no Estado e como acontecia antes em Joinville, ao bel-prazer do “supersecretário” onisciente e onipotente, que dele fará uso conforme sua ilimitada inspiração. Mais: o Sistema Nacional de Cultura, de que Joinville faz parte com seu Sistema Municipal de Cultura, requer que o municípío – principalmente os de grande porte – tenham um órgão específico para a gestão cultural. Do contrário, o acesso do município a verbas do Fundo de Cultura ficará prejudicado.
E tem mais: a Fundação Cultural é uma instituição que pode, estatutariamente, gerar recursos, produzir, vender, negociar. Uma secretaria não pode fazer isso. A área cultural, assim como a turística, é também uma área de negócios, que faz parte da economia da cultura.
E tem m ais: enfiados todos sob o organograma único da “Supersecretaria Geral de Educação e Tudo Mais”, o funcionários serão tão numerosos que a sociedade começará a berrar. Então, os funcionários da cultura, do turismo, do esporte serão escorraçados, porque na área da educação não se pode mexer, por exigência do Sistema de Educação.”
Borges de Garuva, escritor e dramaturgo.

“Considero um retrocesso. Joinville, no último levantamento do IPEA, estava na sétima colocação nacional justamente por ter uma Fundação Cultural independente, Conselho Municipal de Cultura, Plano Municipal de Cultura e  Sistema Municipal de Desenvolvimento pela Cultura (Simdec), resultado de dez anos de batalhas de investimento intelectual e financeiro. Apesar da realidade de que as prefeituras precisam reinventar-se para tornar-se sustentável, cabe uma consideração muito especial com relação a Fundação Cultural e repensar o olhar da gestão sobre o que representa esta pasta. A ação que está sendo proposta coloca a cidade na contramão dos processos de inovação e sustentabilidade defendidos pelas principais entidades mundiais, como ONU e Unesco, onde a cultura  está sendo discutida e aplicada como principal vetor de desenvolvimento econômico e social. Vários Estados também estão encontrando seus caminhos produtivos por meio da economia da cultura.
Se quisermos seriamente escolher o caminho do crescimento sustentável, a ação deveria ser exatamente o contrário – empoderar a Fundação Cultural para ser o agente vetor desta transformação e ter poder de ação para quebrar paradigmas que não se encaixam mais no panorama atual, com reflexos positivos inclusive nas demais secretarias e seções administrativas da gestão. Mesmo que do ponto de vista de tornar a gestão publica sustentável a mudança se mostrasse realmente necessária e um caminho para soluções, deveria ser alocada sob gerenciamento da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, e jamais na pasta da Educação.”
Helga Tytlik, diretora da empresa Tucunaré Desenvolvimento Cultural.

Comentários (3)

  • Ana Lúcia Faleiro De Oliveira diz: 14 de fevereiro de 2015

    O que esperar de governos municipais que elegem o empresariado como única prioridade? A Prefeitura de Joinville já provou que não se interessa por cultura desde o momento em que não se preocupou em aumentar a carga horária de ARTE nas escolas, onde os alunos de 3° ao 9° ano tem apenas uma aula por semana , esta com 48 minutos. Esta secretaria furada provavelmente visa dividir a suada verba do FUNDEB… Retrocesso é pouco… Fazendo um trocadilho: Estamos sendo “acorrentados” ao retrocesso!!!

  • Oscar diz: 16 de fevereiro de 2015

    MInha opinião sobre as últimas ações de Udo Dohler
    http://coletivometranca.com.br/a-metralhadora-giratoria-de-udo-dohler/

  • ricardo diz: 17 de fevereiro de 2015

    Bons devem ser os “governos que elegem o trabalhador como prioridade”. Estamos vendo todos os dias nos noticiários o espetáculo que está sendo. Joinville é uma das melhores cidades do país por causa do empresariado forte que ergueu empresas que pagam uma grande soma em impostos e geram milhares de empregos para os qualificados e competentes trabalhadores joinvilenses. Pensei que esse tipo de conversa já tivesse sido superada. Mas, pelo visto, o velho e surrado argumento de desmerecer ou minimizar o trabalho do empresariado ainda é utilizado.

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