
Tentar um papo sério com Sandro Schmidt é perda de tempo. Ele parece ter sempre uma piada, um trocadilho, uma observação maliciosa para sacar da manga, que servem para o interlocutor não esquecer que está conversando com o "pai" do Cão Tarado, o mais sacana personagem canino dos quadrinhos já surgido por estes lados. O mesmo humor levou Sandro - então apenas um estudante de arquitetura - para as páginas do Anexo, em 1988, quando o caderno ainda era dominical e trazia a Subterrâneos, página com HQs underground que já era habitada por Luciano Rockembach, Geraldo Poerner, Peter Pahl e Daniel Rodrigues, que mais tarde fariam parte da antológica revista Escarcéu. Eles passaram, mas Sandro ficou. Dos Meninos do Quiosque às charges diárias, às tiras da série La Goela e ao triunfo da tosqueira do Cão Tarado (que ganhou uma compilação em livro em 2009), passaram-se 25 anos de cartunismo. Hoje, aos 44, pai de família e arquiteto, Sandro só não perdeu a veia irônica, que vem à tona gloriosamente nesta entrevista celebrativa para a coluna.
Com você, desenhar teve o início trivial: copiando quadrinhos?
Sandro Schmidt - Não. Comecei vendo filmes de ação e terror,desenhando na escola e, por fim, copiando quadrinhos.
Quais eram os seus gibis de cabeceira?
Sandro - Playboy, Sexy, Zartan... (risos). Mentira. Walt Disney, Maurício de Sousa, Schulz... Depois, Zéfiro! (risos)
A Chiclete com Banana e os artistas que nela participavam tiveram influência sobre você?
Sandro - Com toda a certeza. Assim como com todos os chargistas, cartunistas, quadrinhas e istas da época.
Você é da geração dos anos 80. Considera aquela década especial no humor brasileiro?
Sandro - Era mais artesanal, mais hardcore, mais porra-louca. Nas revistas, na TV, no cinema. Foi uma época muito boa. Depois, veio É o Tchan e f**** tudo! (risos)
O que veio primeiro para você, charge ou tira?
Sandro - Tiras. Charge era consequência do trabalho ser aceito nas tiras.
Aliás, lhe agrada mais fazer charge, tirinha ou uma HQ mais longa?
Sandro - Charges e tiras. História longas demandam tempo e paciência, coisa que não tenho.
Como você chegou ao A Notícia?
Sandro - De ônibus. (risos)
Como surgiu o Cão Tarado?
Sandro - Nas tiras do La Goela, onde tinha a série Sexo Animal. Aparecia qualquer um. Aí, o Alaor (Lino, editor da época) disse: "Faz mais aquele cachorro!". E eu: "Qual? Aquele? Qual?". E ele: "Aquela p**** daquele cão tarado!" (risos). Aí ficou.
Muita gente lembra de você pelo Cão, mas tem vários outros personagems memoráveis...
Sandro - Tem. Acho que no livro do Cão se explicam bem os núcleos Cão Tarado e La Goela, mas gosto muito dos escadas Tomba e Adolf, Vaca e a Galinha, Osiris, Helga...
Tem algum personagem que você nunca teve coragem de publicar?
Sandro - Putz... Acho que não. Já fiz tanta m**** que não sobrou muita na cabeça pra ser polêmico! (risos)
Você chegou a pensar em largar a arquitetura e focar só nas tiras/charges?
Sandro - Já pensei o contrário! (risos). Charges e tiras não dão dinheiro. Nem os f****** do eixo Rio/São Paulo ganham razoavemente bem. Mas não vou ficar chorando pitangas. É o que tem para hoje. Arquitetura me dá segurança, conforto e realização profissional e acadêmica. Charges e tiras me desopilam o fígado.
Alguma vez vieram tirar satisfações com você por causa de uma tira mais pesada?
Sandro - Só o Moacir Thomazi (ex-presidente de AN) e o (Luis) Meneghim (ex-diretor de redação) queriam meu couro, em 1992, porque chamei o Collor de viado de côco roxo e a Rosane Collor de piranha que chora! Aí, o Meneghim disse que eu estava possuído pelo "demonho" para o Moacir e ficou por isso mesmo. Acho que ficaram com medo de mim! (risos)
Você conseguiu editar o livro do Cão. E, agora, qual seu plano como cartunista?
Sandro - Vender aquela porcaria toda que ficou encalhada lá em casa. Minha mulher quer me matar! (risos)
Você tem planos pra comemorar os 20 anos do Cão Tarado, em 2014?
Sandro - Convidar todo mundo para ir na Marlene (conhecido estabelecimento de "diversão adulta" de Joinville) por conta do Cão Tarado, e ainda ganha um exemplar "de grátis"! (risos)
