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O hoje quase não existiu para Tatiana

15 de outubro de 2012 3

Tatiana da Costa, de 38 anos, é um exemplo de mulher que, como tantas outras, precisou enfrentar o câncer de mama. Só que, no caso dela, a batalha contra a doença começou bem mais cedo do que para a maioria das mulheres, que costumam ser diagnosticadas depois dos 50 anos.

Formada em jornalismo, a moradora de Brusque resolveu transformar sua experiência em palavras e, gentilmente, nos enviou sua história para ser compartilhada com vocês. Em uma espécie de diário, ela conta sobre os sentimentos de medo, raiva e frustração quando descobriu a doença há pouco mais de um ano e como manteve a esperança, a força e, por vezes, o humor para superar o problema.

Diário de Tatiana
“Desde uma semana atrás minha vida mudou radicalmente, ando dizendo que está de pernas pro ar.
Sentei na cadeira em frente ao médico e ele foi me dizendo, com toda a sensibilidade possível, que não tinha boas notícias e que não gostaria de ter que me dar esse resultado após a maratona de exames pelos quais eu havia passado (…) Meu estômago revirou, subiu e desceu, a partir dali, não consegui mais olhar para o Jorge, foi minha defesa para não chorar e não desmoronar.

Era o infalível, o pior, o terrível. Era câncer… na mama esquerda.

Mas como? Esses nódulos nunca foram nada, os tenho há 18 anos, sempre cuido com ultrassom, punção e tudo mais. Faz exatos dois anos que pisquei e me descuidei um pouco, não os acompanhei. Eu não imaginava que isso poderia acontecer comigo.

Estamos em 2011 e me programei de fazer uma viagem com meu filho a Foz do Iguaçu (…) Quero ir ao Rock in Rio, sempre quis e esse ano será no Brasil. Ah, tem o projeto mais importante de todos, esse ano iria comprar ou construir minha casa, projetei, pensei, vi inúmeras revistas do gênero e depois de análises estou com ela projetada exatamente como a quero.

A primeira coisa que me aconteceu depois de saber da doença é não saber o que poderei fazer, é frear minha rotina, minhas conquistas, meus chopes de fim de semana.

Quero minha vida maravilhosa de volta! Será que alguém pode devolvê-la? Eu a adorava, era exatamente do jeito que sempre quis amigos, companheiro, trabalho instigante e em franco crescimento… se bem que queria meus filhos, Jéssica e Jr (Jota Erre) é assim que o chamamos, morassem comigo, mas estamos bastante próximos e achamos a sintonia certa entre nós. E eu com meu querido Jorgito seguíamos na nossa engraçada relação. Vocês lembram do Rui e da Vani, do seriado “Os Normais”? É nessa linha que vivo meus dias com o Jorge.

Que M. Aumentei a letra proporcionalmente ao que estou sentindo agora.

E tem outro M, que é maior que o anterior, é o Medo.

Medo de tirarem meu seio,

Medo de ficar com um corpo esquisito,

Medo de ficar debilitada e não poder trabalhar,

Medo de Morrer…

Cara! Agora não, né?! Tenho muita vida, muita coisa boa pra viver.

Sei que há um aprendizado nessa história, há uma razão maior que ainda não consigo entender (daqui umas páginas eu conto o que entendi sobre isso tudo)
(…)

Engraçado é como algumas pessoas reagem ao trágico. Saímos na terça-feira do médico em Joinville sabendo que me tirariam o seio esquerdo completamente, estava abaladíssima com a notícia e minha amiga Lili me diz no carro:

- Antes o seio do que a bunda

- O que Lili? Que me tirassem a bunda, meu seio não, né?!

- Que nada Tati, bunda é preferência nacional, todo brasileiro, nossa cultura valoriza a bunda.

- Que se vão os seios e fiquem as bundas! Rimos muito.

Outras sempre tem algum conhecido que morreu dessa M. E tem muitas que me contam de casos de cura e histórias maravilhosas de como se transformaram após a doença.

Descobri que a quantidade de pessoas que me querem bem é quase infinita, incontável. Todos têm necessidade de me dizer o quanto me desejam bem e que tudo dará certo.

As pessoas são maravilhosas!!! Meu nome está em correntes de oração em igrejas católicas, carismáticos, nas evangélicas e em centros espíritas de toda a região em que moro. (…)

Muito Obrigada a todos!!!”


Depois da cirurgia
“Me tiraram o seio, está muito esquisito, mas não dramático. A cirurgia plástica não deu certo e numa outra oportunidade terei que fazer outras cirurgias, talvez com enxertos de partes de meu corpo. Engraçado que me deu pânico quando sentei pela primeira vez e vi a diferença de um lado preenchido e o outro ‘vazio’, mas minha mãe não permitiu que sentisse tristeza, me interpelou dizendo que aquilo era temporário e que resolveríamos daqui um tempo.

Aprendi na terapia que temos que viver todos os sentimentos, para que os superemos, mas nessa situação foi o não vivê-lo que me fez superá-lo. Na vida nada é absoluto.

Num momento assim, acordamos muito além de uma cirurgia, de uma anestesia. Acordamos, renascemos, nos recriamos. E quando se está ‘zerado’, sem saber como será a partir desse momento, começamos tudo de novo feito um bebê, que para viver depende dos outros.
(…)

Quem será que está nascendo? Quem estou me tornando? Tudo tão novo, tudo tão relativo, sem certeza de cura, sem certeza do fim do tratamento, sem certeza do fim da doença, sem certeza de vida e sem certeza de morte.

É estranho vivermos sem futuro, nem o mínimo. Minha cunhada me convidou para o chá-de-bebê do meu primeiro sobrinho e não posso dizer se irei ou não.

Assim devem se sentir os velhinhos, sem amanhã tudo se torna mais tranquilo, venha o que vier estou aqui e sem saber o que vem (…)

Os sentimentos estão completamente virados e a quantas idiotices fomos apegados, quantos ressentimentos, quanta bobagem vivida (…)

Não estou com necessidade de fazer uma vida nova, mas sim de viver de outra forma essa que tenho. Sem grandes transformações e grandes reviravoltas, mas me adequar ao que a vida tem me dado. Sem conformismos e sim com capacidade de viver o que tenho, sem necessidade de correr para o outro lado da rua. Correr cansa!

Lutar pelo o que não se tem é mais valorizado do que ter a capacidade de se adaptar ao que é dado.
Nossas vidas estão turbulentas, noites mau dormidas, insônias gerais, foi um corte muito além do cirúrgico.
Nossas noitadas de chopes já não são mais as mesmas, mas as piadas são (…) Minha filha diz que tenho que ter 50% de desconto no preço do sutiã, afinal, só preciso de um bojo.

Fizeram o seguinte cartaz e colaram na entrada da sala da minha casa: “Atenção visitante! Tabela de preço:
* 1 hora R$ 10 reais
* 2 horas R$ 15 reais
* Com acesso a área cirúrgica R$ 50 reais

Moro numa pequena cidade de interior de Santa Catarina, Guabiruba, tem pouco mais de 20 mil habitantes, praticamente toda cidade está comovida e me emanando bons desejos de recuperação (…)

As pessoas nos esperam heróis, superexemplos de superação e condenam quem não quer lutar contra a doença (…) Respeitar a escolha é o apoio que cada um espera, doente ou não.

Livros e mais livros ganho das pessoas e os adoro, são milhões de maneiras de enxergar esse momento, de expressar esses sentimentos tão únicos e estranhos que tenho. Veja esse pequeno trecho: “O câncer representa uma grande oportunidade para descobrirmos nossos próprios erros de pensamentos e enganos…(Dethlefsen, Dahlke – A Doença Como Caminho)”.

Acredito que desenvolvi essa doença por causa da maneira como lido com os meus pensamentos mais escondidos, aqueles quase impronunciáveis. Acumulei sentimentos mau resolvidos dentro de mim e as células com necessidade de liberdade resolveram criar sua própria vida independente, talvez para se libertarem desses esconderijos escuros que criei aqui dentro.

Não aguento mais ficar deitada ociosa, quero uma bela noite de sono, me virar na cama para todos os lados em que meu corpo desejar… Nossa como quero! Dias e dias se passam, já faz dez dias que me tiraram a mama (…)

O Jorge tem sido maravilhoso, muito atencioso e cuidadoso, mas tenho sentido falta do desejo, da mãozinha boba, dos beijos calientes… Quero ser desejada, quero meu corpo de volta. Quero minha vida de volta.

Sou um ser do futuro, quando terminar o tratamento, quando reconstituir a mama, quando, quando , quando!

Quero vitalidade, força, energia. Me sinto cansada, exaurida, apesar de dormir muito. Quero que tudo isso termine. Quero minha vida de volta.”


Um ano se passou…
“Faz pouco mais de um ano do final do tratamento e como já era de se esperar, tudo está muito diferente na minha vida. Achei este arquivo que escrevi durante o tratamento, enquanto conseguia, enquanto eu tinha força física e sanidade para colocar no computador como me sentia naquele momento.

E neste ‘pós-câncer’, minha vida adquiriu um imediatismo, uma finitude, afinal o hoje quase não existiu para mim. Realizei todos os sonhos que adiei por anos, em apenas uma ano me formei na faculdade (que cursava desde 1997), comprei minha casa, estou de carro novo, me casei, meu filho caçula voltou a morar comigo, tenho uma família novamente.

Adquiri respeito pela minha saúde, presto muita atenção a como ela reage, o que como e vivo.
O que mais belo levo disso tudo é que descobri que as pessoas e o mundo são essencialmente bons. Recebi e recebo até hoje desejos bons das pessoas, é impressionante e maravilhoso. Por que vivi isso tudo? Vivi para sentir o que todos nós já sabemos: a vida é finita! Sabemos disso, mas quando se sente esse tal fim, tudo muda”

Comentários (3)

  • renata benvenutti diz: 15 de outubro de 2012

    Gosto muito de ver histórias vitoriosas como a minha. Tive CA de mama muito agressivo aos 29 anos e hoje 2 anos e meio depois sinto-me vitoriosa por tê-lo vencido. Minha preocupação, no entanto, é que cada vez mais encontro mulheres jovens como eu passando pelo mesmo problema e não vejo mudanças nas políticas públicas de prevenção. Acredito que 40 anos para a primeira mamografia pode ser muito tarde.
    Parabéns a todas as vencedoras dessa luta!

  • Orlando diz: 9 de novembro de 2012

    Conheço a Tati e não há como conhece-la e ser indiferente a força dessa mulher. Todas as pessoas que a conhecem se apaixonam por sua vontade de viver, pelo seu sorriso, pelo seus grandes olhos e pela sua competência profissional. Parabéns Tati.

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