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Uma mulher de muitas lutas

20 de outubro de 2012 0

Com muita serenidade que dona Irma Felácio relembra como enfrentou o câncer, não apenas uma, mas três vezes. Foi com esse mesmo jeito calmo e realista que essa senhora de 72 anos diz ter aceitado os diagnósticos e, consequentemente, encarado o tratamento ao qual precisou submeter-se diversas vezes nos últimos 17 anos.

E o câncer não foi a única dificuldade pela qual passou. A vida de dona Irma foi marcada por algumas tragédias: perdeu um filho quando ele tinha um ano e ficou viúva por duas vezes.

Mas todos esses acontecimentos não a tornaram uma pessoa amarga, muito menos triste. Ela preferiu olhar para a vida sem rancor e isso diz muito a respeito da personalidade e da fibra dessa mulher, mãe de cinco filhas, bisavó, que assegura não ter tido medo de morrer em nenhuma das vezes que se deparou com a doença. A morte parece não assustá-la.

Irma tinha 55 anos quando um exame apontou o tumor na mama direita. Ela havia sentido uma saliência perto do tórax, fez uma pequena cirurgia para recolher o material para biópsia, mas os exames disseram que era benigno.

No entanto, sete meses depois de ter retirado o nódulo, ele reapareceu sob o queloide formado pelo corte da cirurgia. Foi extraído novamente e, mais uma vez, o resultado da biópsia não foi conclusivo. “Eu fui fazer betaterapia para tratar o queloide e o médico me aconselhou a fazer outros exames em Curitiba porque, pela experiência dele, se o nódulo reapareceu, poderia ser maligno”, conta.

Depois de exames que confirmaram as suspeitas do médico, dona Irma passou pela cirurgia para retirada da mama e começou as seis sessões de quimioterapia e 28 de radioterapia. Ela conta que as filhas ficaram mais preocupadas do que ela quando receberam a notícia. “Em nenhum momento eu fiquei assustada, chorei ou pensei que ia morrer. Nunca!”

Ela não se sentia doente, nem parou de cuidar da casa ou fazer o que gostava. Dona Irma mantinha a mesma rotina, algum tempo depois a saúde estava ótima novamente e, por mais de cinco anos, as mamografias mostravam que o tumor não tinha voltado. No entanto, seis anos e meio depois de operar, ela sentiu outro carocinho no mesmo lugar.

O médico que procurou à época a acalmou, disse que provavelmente seria algum ponto que teria estourado depois da primeira cirurgia. Mesmo assim, ela insistiu para que ele o tirasse e fizesse a biópsia. Infelizmente, o exame detectou células cancerígenas. A insistência e o instinto de dona Irma a ajudaram a descobrir a tempo a volta do câncer.

Novamente, ela precisou passar pela quimioterapia e radioterapia. Para não queimar a pele que havia sido exposta à radiação na primeira vez, ela usava uma proteção de gesso para cobrir a região durante as sessões.
Tudo voltou ao normal novamente depois do tratamento, até que, por uma lamentável coincidência, exatamente seis anos e meio depois, ela descobria a segunda reincidência.

Recomeçou o tratamento e, para não ser exposta novamente à radiação, foi para Florianópolis para as sessões com o acelerador nuclear porque na época Joinville não tinha o aparelho.
Reviver o mesmo drama pela terceira vez não desanimou dona Irma, que dá uma lição de otimismo. “Eu penso assim: se apareceu, vamos fazer o que precisa se feito, não adianta chorar. A gente tem é que lutar, pensar positivo, e foi isso o que eu fiz, eu lutei. E se vier de novo, vou lutar enquanto puder.”

Em 2008, depois de finalmente se curar, sofreria outro abalo: a morte do segundo marido _ o primeiro faleceu de um infarto fulminante quando ela tinha 46 anos.
Ele tinha câncer de próstata, descoberto um ano antes de Irma ter a segunda reincidência, mas morreu por complicações de outra doença. Ela conta que foi mais difícil cuidar do marido porque ele não aceitava o câncer e, na opinião dela, esse é um dos fatores que dificultam a cura.

Além de conviver com o câncer e perder o companheiro de mais de 20 anos, Irma precisou lidar com comentários preconceituosos e perguntas indiscretas de conhecidos e estranhos. Mas ela diz que isso não a afetava. “Eu acho que são pessoas sem sensibilidade que fazem isso. As pessoas olham com pena para a gente, principalmente quando o cabelo cai e algumas, chegavam perguntando se eu tinha ficado sem a mama. Eu respondia que sim e não me fazia a menor falta.”

Na época em que teve o câncer, ainda era recomendado esperar cinco anos para fazer o implante, e dona Irma optou por não fazer a cirurgia. Isso não era um problema para ela, nem para o marido. “Ele nunca ligou para isso. Sempre me deu muita força, minha família toda, aliás. Somos muito unidos e isso é importante quando temos um problema”, comenta.

Religiosa, ela afirma que foi a fé e a perseverança que a ajudaram na luta pela vida. Além disso, encontrou na Rede Feminina de Combate ao Câncer de Joinville uma segunda casa. O apoio recebido pelas voluntárias da ONG, além da ajuda das companheiras que passavam pelo mesmo sofrimento, amenizaram o problema.

Todas as segundas-feiras, Irma pega um ônibus do bairro Boa Vista, onde mora, até a sede da entidade, no Atiradores, para participar dos encontros. Faz questão de prestar solidariedade às mulheres que precisam do mesmo apoio que lhe foi oferecido quando ficou doente. “A pessoa recém-operada chega lá e vê que tem gente bem há 17 anos, como eu, outras que estão há 20, 25 anos curadas. É um estímulo, um exemplo.”

Depois de tudo, ela garante que a vida ganhou mais valor. Procura aproveitar ao máximo todos os momentos ao lado da família e ser generosa com o próximo. “Temos que aproveitar o tempo que estamos aqui, viajar, fazer amizades. A vida é isso. Não sabemos o dia de amanhã.”

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