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Autora do livro "Força na Peruca" conta sobre sua batalha contra o câncer

28 de outubro de 2012 3

O tema bem-humorado e descontraído do livro “Força na Peruca”, da publicitária paulistana Mirela Janotti, despertou tanto nosso interesse que resolvemos procurá-la para saber um pouco mais sobre a história dessa mulher.
Em entrevista exclusiva para o blog Anexo D no Outubro Rosa, ela conta como enfrentou a doença. Além disso, Mirela nos autorizou a publicar um trecho de seu livro que mostra os momentos inusitados que viveu naquele período.

Como você descobriu o câncer?
Em 2003 eu descobri um nódulo durante o banho. Foi feita a biópsia e o nódulo era benigno. Fiz acompanhamento por três anos e em 2006 tive a surpresa. O nódulo virou maligno e já estava acompanhado de outros dois.

Qual foi sua reação ao receber o diagnóstico?
Achei que fosse morrer pois estava com três tumores (na verdade quatro, um era bem pequenininho) e eu também já vinha de uma situação difícil. Tinha acabado de me separar de um casamento de 12 anos , meses depois tinha perdido o emprego, e em seguida, minha avó faleceu, tudo no mesmo ano.

Quais foram seus maiores medos naquela época?
Senti pena de mim nos primeiros meses. Sentia pena ao pensar que iria morrer. Sentia pena ao pensar que, se sobrevivesse, teria de passar por tudo aquilo. Mas, chega um momento em que as pessoas cansam de te bajular. Mais cedo ou mais tarde a gente tem de levantar a cabeça e seguir com a vida. Quando tomamos esta decisão, coisas boas voltam a acontecer.

Como surgiu a ideia de escrever o livro?
Sou redatora publicitária e como estava desempregada, comecei a escrever. De início era para ser uma espécie de diário. Pensei em deixar uns escritos para minha filha. Depois veio a ideia de fazer um livro otimista para incentivar outras mulheres. Percebi que a doença não era um monstro tão feio assim e resolvi tratar o assunto com um certo alto astral.

Como você conseguiu manter o bom humor diante de uma situação difícil? Você sempre encarou a vida dessa forma humorada?
As pessoas nos avaliam pelo nosso comportamento. Se ficarmos chorando e reclamando o tempo todo, seremos dignos de pena. Mas, se levantarmos a cabeça e assumirmos uma atitude mais corajosa, teremos a admiração das pessoas. Temos sim o direito de nos sentir fragilizados em muitas ocasiões mas tudo tem um limite. Precisamos nos adaptar. Se o cabelo caiu, um lenço bonito ou uma peruca pode resolver a questão. As pessoas em geral fogem da tristeza alheia. Têm medo de serem contaminadas. Se somos ou pelo menos tentamos ser felizes, os amigos permanecem por perto e isso contribui muito para o sucesso de um tratamento ou de uma situação difícil que a pessoa esteja enfrentando.

Poderia nos contar como conheceu seu atual marido?
Fui convidada para uma festa, num barzinho aqui em São Paulo. Coloquei a minha peruca loira e sexy, subi no salto e fui determinada a dar uns beijos no primeiro que aparecesse. Por sorte, apareceu um tipo bem interessante, um dentista com jeito de italiano. Não conseguimos dançar pois eu tinha medo que a peruca caísse e ele estava com uma tala na perna porque tinha se machucado no futebol. Depois de muita conversa, rolaram uns beijos. Mas eu me afastava cada vez que ele tentava acariciar minha nuca. A peruca não estava bem presa e eu pensei: “Se ele perceber que estou careca, vai achar que sou um traveco.” No final da noite, quando ele pediu meu telefone, contei a verdade. Achei que ele nunca me ligaria. Mas ligou no dia seguinte e no outro também. Estamos casados há 5 anos!

O que mudou em sua vida após o câncer?
Percebi que tudo pode acabar num estalar de dedos . Problemas do cotidiano não devem mais me aborrecer. Devo me amar acima de todas as coisas. Se eu faço tudo isso à risca? Claro que não. Mas não me canso de tentar.

Confira um trecho do livro “Força na Peruca”, de Mirela Janotti:

“Segundo os otimistas, tudo de ruim que acontece na vida da gente tem um lado bom. Se o casamento terminou, pode ser a oportunidade de conhecer alguém melhor. Se você perdeu o emprego, quem sabe não vem uma proposta com mais dinheiro?
Mas, e se essas duas coisas acontecerem ao mesmo tempo? E se, para piorar, você descobrir que está com aquela doença? Aquela doença que antigamente não era nem pronunciada. Como o grande vilão de Harry Potter. Aquele que não deve ser nomeado.
Haja falta de sorte. Pois comigo foi assim.
Nem o mais otimista dos meus amigos achou um lado bom quando eu disse que estava com câncer. Eles já tinham me consolado na minha separação. Já tinham ouvido meus lamentos por ter perdido um ótimo emprego. Mas que proveito eu poderia tirar de um câncer? Morrer, talvez. E depois tentar a sorte em uma próxima reencarnação. Nascer em um corpo novo, sem nenhum tumor. De preferência, na pele de alguém mais afortunado. Uma Angelina Jolie, por exemplo. Como admiro aquela mulher. Linda, famosa, bem-sucedida, livre de preconceitos e, ainda por cima, casada com um deus grego.
Passei alguns dias após a notícia esperando pela morte. Rezava para morrer dormindo e já acordar Angelina Jolie. Mas tudo o que eu via quando abria os olhos era a minha empregada Rosângela segurando uma bandeja com suco de beterraba. Minha mãe decidiu que quem tinha câncer deveria tomar muito suco de beterraba. Eu fechava os olhos e pedia mais meia hora, só que antes era obrigada a engolir o suco porque senão ‘perdia a vitamina’.
Anoitecia, amanhecia e, em vez do Brad Pitt ao meu lado na cama, a mesma Rosângela, com o mesmo suco de beterraba. Descobri então que eu não morreria só com a força do pensamento. Dia após dia eu ficava mais vitaminada, com uma feira inteira na hora das refeições: espinafre, escarola, couve, caldo de músculo, fígado, sopa de lentilhas. Decidi viver mais um pouco, nem que fosse só para voltar a comer um hambúrguer com bacon e tomar uma cervejinha.
Passaram-se duas cirurgias, veio a quimioterapia, e por mais incrível que pareça, fui descobrindo coisas bacanas no câncer.
Minha grande amiga Mônica Tritone me disse: ‘Se Deus te der uma folha de papel, agradeça. Diga: nossa, que máximo, eu tenho uma folha de papel’. Então, quando não tive mais meus seios, comprei outros novinhos e concluí que os artificiais eram muito mais durinhos e sensuais do que os originais de fábrica. Mostrava meus peitos novos para todo mundo. Para a família, os médicos, as enfermeiras, os amigos, o guarda da rua, o taxista.
Quando não tive mais meus cabelos, comprei uma peruca loira que me deixava parecendo uma garota de programa e, talvez por isso mesmo, fazia sucesso com o sexo oposto. Na verdade, fazia mais sucesso com os míopes porque brilhava além do necessário e, dependendo da iluminação do ambiente, eu ganhava uns ares de travesti. A peruca tinha outro inconveniente: esquentava e tinha que estar sempre muito bem fixada, quase esmagando o crânio, porque senão balançava e saía do lugar.
Não cheguei a usá-la mais do que umas três ou quatro vezes, e o que acabou mesmo fazendo a minha cabeça foram os lenços. De seda, de malha, estampados, lisos, curtos, compridos. Gastei mais dinheiro com lenços do que se tivesse ido ao cabeleireiro para fazer tinturas ou chapinhas. Um dia eu saía de muçulmana, no outro de cigana, pirata, portuguesa, hippie-chic ou, então, vendedora de acarajé. Era o maior style.
Com o tempo, eu também aprendi a tirar proveito de algumas situações. Furava a fila do cinema dizendo com cara de coitada ao atendente: ‘Não posso ficar muito tempo em pé por causa da quimioterapia’. Imediatamente eu era acomodada no melhor lugar da sala, com direito a pipoca delivery.
Ia para a balada e jogava a mesma conversa: ‘Faço quimioterapia, senhor’. E, logo que o hostess virava as costas, eu pedia ao garçom da minha mesa vip : ‘uma caipirinha de lima-da-pérsia, por favor.’
Também pude comprar um carro bacana ao preço de um popular por ficar isenta dos impostos. Sim, alguns portadores de câncer não pagam IPI, nem IPVA. Meus amigos morriam de inveja.
Por último, voltando à história da folha de papel, escrevi este livro que, graças a você que comprou, ainda pode me render uns bons trocados.”

Comentários (3)

  • CELINHA diz: 29 de outubro de 2012

    Que força e que grande lição de vida! Principalmente p/aquelas pessoas que só pnsam
    no dia de hoje, na estética do corpo. O nosso interior é muito mais valioso.

  • LIgia Tavares da Rocha Oliveira diz: 30 de outubro de 2012

    Parabéns a Mirela por compartilhar sua experiência conosco…ela soube tirar vantagens de uma doença que acomete pessoas de toda classe social…e apesar de estarmos no século 21…ainda gera preconceito…medo e muito sofrimento.
    Sou voluntária na Rede Feminina de São Francisco do Sul e temos muitos pacientes que encararam a doença c/ esta coragem também.

  • Denis diz: 30 de outubro de 2012

    Serve para muitas coisas na vida de qualquer pessoa o exemplo desta mulher. Parabéns e que seu exemplo inspire muitas pessoas. Meu dia já começou bem

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