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Uma vida entre obras raras

25 de maio de 2010 1

Foto Tatiana CavagnolliA Fundação Biblioteca Nacional é a nona maior biblioteca do mundo e a maior da América Latina, com mais de 12 milhões de obras. Entre elas estão muitos livros considerados raros, por sua antiguidade e por sua importâncias histórica — o número exato não está contabilizado, mas esse setor tem 2,1 quilômetros de prateleiras repletos de publicações, o que dá uma ideia da dimensão do acervo.

No comando da Divisão de Obras Raras está a bibliotecária Ana Virginia Pinheiro, 52 anos, que desde 1982 trabalha no setor e o chefia desde 2004. Ana, que nesta terça-feira palestra em Caxias do Sul durante o 3º Seminário Internacional de Literatura e Leitura. Ela conta ao blog Palavra Escrita um pouco mais sobre a divisão que dirige:

— A Divisão de Obras Raras abriga livros que pertenciam à biblioteca real que a corte portuguesa trouxe para o Brasil, em 1808, incluindo obras dos séculos 15 e 16, desde que Gutemberg criou a tipografia, e também os primeiros livros impressos no Brasil — revela.

Há raridades ainda mais antigas, como obras artesanais do século 11, com mil anos de idade.

— São livros que permanecem com o passar do tempo, antigos e de importância histórica, ou de importância dentro de determinada área — explica Ana Virginia.

Ela conta que todo o acervo está microfilmado e digitalizado e pode ser acessado inclusive a distância, mas o público também pode ter acesso à obra em si caso isso for necessário para uma pesquisa, por exemplo.

— Esses novos suportes (como a digitalização) multiplicam o acesso ao material e auxiliam na conservação dos originais, porque eles são menos manuseados, mas nada substitui o acesso ao livro original — defende.

E quem pode ter acesso ao acervo de obras raras? Como a Biblioteca Nacional é uma biblioteca pública — erudita, é verdade, mas pública —, explica a chefe do setor, todos podem ter acesso, desde que sejam maiores de 18 anos. Para isso é preciso preencher um cadastro, explicar o motivo da consulta a determinada obra e levar cartas de apresentação. É um acesso controlado, com restrições (ou seja, não vale querer olhar os livros apenas por curiosidade), mas há acesso.

Ana Virginia, também autora de O que é livro raro, publicado nos anos 1980, enumera alguns fatores que podem caracterizar uma raridade literária. O primeiro, claro, é a antiguidade — um livro de 500 anos será uma raridade, independente do conteúdo. Outro é a contrafação, ou seja, obras que antigos impressores imprimiam como se fossem de um determinado autor que estava em voga na época. Há ainda os livros de importância histórica, como livros proibidos na época da ditadura que tiveram exemplares escondidos ou recuperados por alguém, e os de importância em determinada área do conhecimento científico e que não são mais editados.

Um livro que reúne importância científica, histórica e antiguidade é Divina Proportione, escrito em 1509 por Luca Paciol e ilustrado por ninguém menos que Leonardo Da Vinci. Esse era um dos livros que estavam no “cemitério” da Biblioteca Nacional, ou seja, entre as obras que não podem ser mais manuseadas, devido ao seu desgaste. Para não perder o conhecimento guardado em obras como essa, das quais existem poucos exemplares no mundo, a Fundação desenvolveu o Projeto Fênix, que, com o patrocínio do BNDES, lançou edições facsimilares de cerca de 100 livros raros.

Editados em papel pela própria Fundação Biblioteca Nacional, os exemplares reproduzem as páginas de texto e ilustrações originais – no caso de Divina Proportione, com os textos originais em latim e italiano e as ilustrações de Da Vinci. Outra obra que entrou no projeto é Frutos do Brasil, de Antonio do Rosário, também com quase 500 anos.

Esses livros facsimilares podem ser comprados na livraria da Fundação Biblioteca Nacional ou baixados no site da instituição, o www.bn.br — onde também pode ser encontrado boa parte do acervo digitalizado da Biblioteca.

Comentários (1)

  • Clarissa Padovani diz: 25 de maio de 2010

    Tive a honra de estudar Biblioteconomia na Unirio e de ter sido orientada pela Ana Virginia. A faculdade nos dá um embasamento teórico incrível e os estágios nos permitem ter contato com diversas obras raras. Trabalhar com OR’s nos dá uma visão diferenciada além de entender um pouco da situação histórica da época, por exemplo, os diários oficiais que manuseei quando fui estagiária da ALERJ entre outros. Só quem faz a Biblioteconomia entende o que é esse mundo encantador dos livros, desde a sua produção até a sua disseminação. Amo o que estudei e amo ser bibliotecária e assim será.. até o final da minha vida. Hoje moro em Caxias do Sul e tento passar um pouco da minha vivência para quem está em contato comigo.

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