Ajudar a organizar a próxima Feira do Livro de Caxias do Sul, que ocorre de 1º a 17 de outubro, e atuar como anfitrião do evento são duas das missões do jornalista e escritor Marcos Kirst, 44 anos, escolhido esta semana como patrono da 26ª edição da Feira.
Natural de Ijuí e há 18 anos morando em Caxias, Kirst conta que recebeu com surpresa a notícia de que seu nome havia sido escolhido.
— Minha obra ainda é pequena (são cinco livros publicados, sendo um romance, um infanto-juvenil, um sobre a biblioteca municipal e dois sobre empresas), até pensava em ser patrono um dia, mas imaginava que isso aconteceria daqui a 10, 15 anos — revela.
Com a surpresa e a alegria por ter sido escolhido, veio também a consciência do desafio.
— Fiquei surpreso e lisonjeado, mas também preocupado, pois sei da responsabilidade e seriedade que é ser patrono. Caxias, hoje, é um polo gerador de cultura, inclusive na área literária. Nós temos autores que passam das fronteiras regionais e estaduais, estamos nos transformando também num polo produtor de livros. Eu diria que a Feira de Caxias é a segunda mais importante do Estado, é um desafio muito grande, e preciso corresponder — diz Kirst.
Confira nesta entevista um pouco sobre o que o patrono da 26ª Feira do Livro pensa sobre o livro, a leitura e seus desafios à frente do evento:
Como será sua atuação como patrono?
Minha atuação começa agora, ajudando na organização, dando sugestões sobre a programação, nomes a serem trazidos. Durante a feira, é preciso ser o anfitrião, integrar a comunidade que aceita o convite de ir à feira. Na verdade, é preciso atuar como o embaixador do livro e da leitura, que é algo que eu já venho fazendo no meu cotidiano, desde que eu me conheço por gente. Toda a minha vida é pautada pela paixão que eu tenho pelo livro e por tudo que vem dele. Isso transpira em mim em todas as minhas relações pessoais e profissionais, e acho que o convite (para ser patrono) provavelmente tenha vindo também por esse aspecto meu.
O que você mudaria na Feira do Livro?
Uma valorização maior, durante a feira, dos autores locais, no que se refere à disponibilização visual dos seus livros. Já ocorre a valorização deles em mesas-redondas, debates, como patronos, mas seria preciso que os leitores que circulam pelas barracas da feira deparassem mais claramente com os livros produzidos aqui.
A feira passada comercializou 71 mil livros. Foi um crescimento em relação à edição anterior, mas não seria ainda pouco se comparado ao tamanho da população caxiense?
O número de livros vendidos cresce a cada ano na medida em que a população cresce, mas a proporção de leitores em relação à população ainda é pequena no Brasil. Ainda é um número insatisfatório, na minha opinião, por isso, a necessidade desse nosso engajamento, de fazer a nossa parcela no sentido de democratizar a leitura e de demonstrar a importância e o fundamental do ato de ler.
O que fazer para que se leia mais no país?
Apostar, principalmente, no novo leitor. São raros os casos dos que têm a atenção para a literatura despertada depois de adulto. Na maioria dos casos, o leitor adulto teve estímulo e acesso (ao livro) durante a infância. Então é preciso intensificar ações governamentais, não governamentais, pessoais, focando não só o estímulo à leitura entre as crianças, mas principalmente em métodos para manter essa leitura na medida em que as crianças se transformam em adolescentes. É nesse período que esse exército de leitores diminui. Nas feiras do livro há seções enormes dedicadas ao público infanto-juvenil, que são lotadas, você vê crianças com brilho nos olhos pegando os livros, lendo, um percentual muito grande das crianças é leitora. Só que há um momento em que esse encantamento se desfaz, na mudança da infância para a adolescência, que é quando tem a competição com outros estímulos, como a televisão, a internet, etc. Nosso desafio é manter esses leitores, n essa passagem. Como fazer? Não tem uma fórmula mágica, mas a acredito que a atenção deve ficar mais focada aí.
De que modo o poder público poderia contribuir nesse incentivo à leitura?
Na verdade há iniciativas governamentais, tanto em âmbito municipal quanto federal. O que precisa é a comunidade se dar por conta de que esses canais existem. A Biblioteca Municipal, por exemplo, faz aquisições periódicas de obras atuais, é muito fácil chegar na biblioteca e poder retirar, ler de graça, livros que estão na mídia. E se o livro não está lá, dá para dar a sugestão, a chance desse livro logo estar na biblioteca é muito grande. As pessoas têm de aprender a utilizar mais os canais que estão à sua disposição. Na minha opinião, quem quer ler, consegue.
O alto preço dos livros é normalmente apontado como um dos motivos para o baixo índice de leitura no país. Na sua opinião, isso é efetivamente um motivo, ou seria apenas uma desculpa? O que se pode fazer quanto a isso?
Na minha opinião, para muita gente funciona mais como uma desculpa. Claro que o livro na faixa de R$ 30, R$ 50, não são preços baratos, mas aí entra a questão da relativização dos teus interesses, do que realmente é importante para ti. É o valor que você dá às coisas. É comum ouvir "R$ 40 por um livro? Com esse valor eu poderia ir num rodízio de pizza". Eu uso o raciocínio inverso: "Puxa, R$ 40 por um rodízio de pizza? Com esse valor eu poderia comprar um livro". É legal ir comer pizza, eu adoro, mas um livro dura a vida toda, outras pessoas ao redor de mim também vão poder ler.
E como é o leitor Marcos Kirst?
Desde os 10 anos, eu não paro de ler. Termino um livro, começo outro. Ler, para mim, é um hábito arraigado, faz parte do meu cotidiano, como comer, dormir. Leio diversos gêneros, de acordo com a vontade do momento; leio o que me dá prazer. Leio todo dia, sempre encontro um tempo para a leitura. Essa máxima que muitos usam, de que não têm tempo para ler, não é verdade. Se uma pessoa acha tempo para ir no cabeleireiro, ou para jogar bola, é porque isso é importante para ela. Sempre se acha tempo para o que se gosta, e se ela gosta de ler, vai achar um tempo para isso. Minha agenda é atribulada, mas o tempo para a leitura sempre existe, no mínimo uma hora por dia.
O que você está lendo atualmente?
Machado de Assis. Estou lendo o volume 2 de uma coleção de contos temáticos, com contos de adultério e ciúme.





Depois, um grupo de convidados — Marcos Kirst, Tiago Marcon, Uili Bergamin, Luciana Todeschini Ferreira, Germano Weinrich e esta blogueira aqui —falou dos livros que marcaram sua infância, suscitando muitas reminiscências entre todos os participantes.



