Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Posts na categoria "contos no blog"

Temporada de Caça

18 de dezembro de 2010 0

(Maristela Scheuer Deves)

Tudo começou certo dia quando, durante o momento cívico, o professor hasteava a bandeira e uma vespa picou-lhe a cabeça. Indignado com a audácia do inseto, o mestre declarou guerra a esses pequenos “bandidos”.
— A partir de hoje, pago um cruzeiro a quem me trouxer 100 vespas, abelhas ou marimbondos mortos — declarou aos alunos, fazendo a alegria da garotada.
Querendo incluir na lista outros animais que considerava peçonhentos, o mestre decidiu que pelo mesmo valor compraria também 10 aranhas ou um rabo de cobra venenosa. Foi um alvoroço na escola da pequena comunidade rural de Rincão Vermelho!
Daquele dia em diante, os meninos das redondezas começaram a passar todo o tempo livre à cata dos “produtos”. Se alguém destruía um ninho de vespas, lá estavam os pequenos, contando os 100 insetos para montar mais um pacotinho e levar ao professor, que pagava por eles e enterrava no quintal da escola. 
— Já ganhei 10 cruzeiros — vangloriava-se Luizinho, contando as moedas comercializadas com a venda dos bichinhos. 
— E eu, 12 — completava Adão, que não podia ficar para trás.
A concorrência era grande, e foi se tornando cada vez mais acirrada. Com o tempo, as crianças foram ficando mais espertas — e malandrinhas, também. Percebendo que o mestre não contava as vespas ou abelhas ao recebê-las, começaram a juntar apenas 80 ou 90 em cada pacote, pois assim rendia mais.
As aranhas também eram muito procuradas, e os alunos desenvolveram até mesmo uma técnica especial para pegá-las: colocavam uma bolinha de cera na ponta de um barbante e a desciam nos buracos do quintal, como isca. Deu até briga quando Adão descobriu que Carlinhos, outro colega da terceira série, havia “pescado” umas aranhas atrás de uma mata da propriedade do seu pai. 
— Se foi no terreno do meu pai, as aranhas são minhas — defendia Adão, mostrando os punhos.
– Eu é que as peguei, então elas são minhas – defendia-se Carlinhos.
O professor teve de apartar a briga, e, como já tinha pagado pelos insetos e não iria pagar duas vezes, apenas aconselhou Carlinhos a não caçar mais nas terras da família do outro menino. Adão não gostou, mas conformou-se.
A temporada de caça seguiu aberta por várias semanas. Numa segunda-feira, Luizinho ia para a escola quando, no caminho, levou um susto: quase pisou numa cobra. Acabou vendo que não era venenosa — os meninos maiores é que a tinham matado e colocado no meio da estrada, para assustar as meninas. Aproveitando a “sorte” de ela já estar morta, Luizinho cortou o rabinho do réptil, vendendo-o ao mestre como se fosse animal peçonhento.
Tendo visto o que o colega fizera, outros o delataram. Foi a gota d’água, e o professor decidiu encerrar sua guerra aos insetos e animais peçonhentos. Até porque, provavelmente, boa parte do seu salário devia estar sendo comprometida com a aquisição dos “troféus”…

Amanhã é dia de conto aqui no blog

17 de dezembro de 2010 0

Não perca, neste sábado, a seção Contos no Blog, aqui no Palavra Escrita.

Desta vez, você poderá ler a divertida história Temporada de Caça.

A greve

04 de dezembro de 2010 0

(Maristela Scheuer Deves)

O problema maior de um escritor, acredito eu, é quando os personagens insistem em tomar o rumo da história. Tudo bem que a história é mesmo deles, mas se eu, seu Criador, não tenho o direito de decidir o que vai acontecer, qual será então o meu papel? Sim, eu sei, no mundo real existe uma coisa chamada livre arbítrio, que é o direito que todos temos de decidir o que fazer de nossas vidas. Mas esse direito não se estende a personagens de faz de conta, onde já se viu.

Por isso, baixei uma lei: nas minhas histórias, ninguém fala se eu não mandar. Até que isso vinha funcionando direito. Vinha, não vem mais. Nos últimos dias, os personagens resolveram fazer greve. Isso mesmo, greve. Dá para acreditar?

Tudo começou quando eu cheguei em casa, fui ao escritório e liguei o computador, pensando em escrever mais um conto. Computador ligado, chamei minha turma de personagens, para selecionar quem iria participar daquela história. Em vez de pularem de alegria, como sempre faziam, disputando para ver quem seria escolhido, eles simplesmente se sentaram lá na escrivaninha, de braços cruzados e cara amarrada.

– O que está acontecendo aqui? – perguntei, estranhando.

Nenhuma resposta. Nem mesmo um piscar de olhos.

– Vocês não querem trabalhar? Olhem que são papéis importantes – tentei eu, novamente.

Eles continuaram lá, mudos, como se não fosse com eles.

Eu já não sabia se ficava irritado ou pagava na mesma moeda, ignorando–os também. Decidi insistir, mas me fixando em um deles em vez de falar com todos.

– Dom Raimundo, o senhor pode me dizer o que houve?

– Poder, eu posso, e já que você disse para eu falar, eu vou falar. Estamos em greve, e não trabalharemos até termos nossas reivindicações atendidas – respondeu o velhote de barba grisalha.

Fiquei perplexo, mas também um pouco divertido.

– E que reivindicações são essas, posso saber? – indaguei.

– Como não recebemos sequer salário, queremos ao menos o direito de escolhermos nossos papéis.

– E nossas falas – acrescentou Dona Joaninha.

– É isso aí – apoiaram os outros, em coro.

Eu fiquei parado, boquiaberto, olhando para eles . Será que adiantava tentar negociar?

– E não aceitamos contrapropostas – disse Dom Raimundo, como se estivesse lendo a minha mente.

– Se vocês escolherem as falas, vocês vão fazer a maior bagunça – argumentei.

– E daí? Então você pode nos meter nas maiores encrencas, e nós nem podemos bagunçar um pouco? – teimou Dona Joaninha.

Dom Raimundo aproveitou e abriu seu caderninho, onde anotara, na sua letra miúda, outra dezena de reivindicações. Seguro para quem atuasse nas histórias policiais e de terror, dublê para as aventuras, mais histórias passadas no Exterior e, por último, dois períodos de férias por ano.

– E desde quando alguém tira férias duas vezes ao ano? – reclamei.

– Nossos colegas que trabalham nos livros escolares tiram – retrucou Dona Joaninha, e os outros aplaudiram.

Sem saber o que fazer, eu apelei: tirei a língua para eles e disse que nada feito. Ora bolas, eu ira era procurar novos personagens para ocupar o lugar deles. Eles iam ver, esses personagens rebeldes.

Só que eu encontrei. Quer dizer, personagens existem aos montes por aí. O problema é que os que estão procurando um escritor são tão desaforados que os meus, ou ainda mais. Um deles chegou a me dizer que só atuaria nas minhas histórias se fossem romances, e não contos, e se ele ganhasse o papel de rei. Ah, tá, vai ganhar, mesmo, mas no dia de São Nunca.

Ou seja, voltei à estaca zero. Sem personagens, não tem histórias. Por isso, vou convocar uma nova reunião para daqui a pouco. Como não tenho escolha, vou aceitar os termos deles. Mas vou colocar um aviso em cada livro, em letras maiúsculas e bem grandes, para deixar claro: ESSA HISTÓRIA É DE RESPONSABILIDADE DOS PERSONAGENS. QUALQUER RECLAMAÇÃO, FALAR COM DOM RAIMUNDO OU DONA JOANINHA, NA PÁGINA TAL. E tenho dito.

Uma Cidade Desassombrada

27 de novembro de 2010 0

(Maristela Scheuer Deves)

Aquela era a cidade mais desassombrada do mundo. Vitor bem que gostaria que não fosse: ele adorava histórias de fantasmas, vampiros e outros seres sobrenaturais. Já pensou a emoção que seria encontrar almas do além vagando pelos corredores, arrastando correntes e gemendo para assustar os mais medrosos? Ele, é claro, não tinha medo de nada. Queria mais era encontrar um desses seres, só não tinha a mínima ideia de como fazer isso.

Que azar, pensava, ter nascido justo ali, naquela cidadezinha esquecida por todos, onde até mesmo os fantasmas se negavam a morar. Já procurara no cemitério, na biblioteca, no porão e no sótão da casa dos avós, naquela ruela escura que todos diziam ser perigosa (e era mesmo, ele quase fora assaltado). E nada. Nadica de nada. Nem um lençolzinho branco para contar a história.

— Você não encontra fantasmas porque fantasmas não existem, nem aqui, nem em outra cidade qualquer — ria o irmão mais velho, fazendo pose de quem sabe tudo.

Mas Vitor não se dava por vencido. Encontrou na internet uma comunidade virtual intitulada “eu acredito em fantasmas” e passou a participar com interesse de todos os debates. Um domingo no começo de agosto, entrou no site e quase não conseguiu acreditar no que via: um fantasma estava anunciando que procurava um lugar para morar.

“Fantasma sem teto busca pessoa simpática para dividir casa. De preferência, casa antiga, mas pode ser nova também. Pode ser até apartamento, na verdade. Sou um fantasminha simpático e organizado, não faço barulho (prometo só arrastar as minhas correntes até as nove horas da noite) e sei fazer vários truques, como atravessar paredes e desaparecer no ar. Interessados, favor deixar mensagem e endereço aqui.”

Excitado, Vitor não perdeu tempo. Escreveu logo um recado, dizendo do seu interesse e contando como era sua casa: grande, antiga, com um grande porão e um sótão espaçoso. Depois, correu contar a novidade ao irmão.

— Você está louco? — enfureceu-se Jacó. — Onde já se viu, dar nosso endereço assim, pela internet, para um desconhecido? E se for um ladrão?

Vitor revirou os olhos.

— Você por acaso já viu algum fantasma roubar?

Jacó desistiu. Não adiantava tentar explicar as coisas para aquele pirralho teimoso.

Enquanto isso, Vitor não cabia em si de emoção. Daquele dia em diante, quase não saía mais da frente do computador, esperando a resposta do tal fantasma sem teto. Demorou três dias até que, enfim, veio a mensagem tão esperada.

“Caro senhor Vitor”, dizia o recado, “fico muito feliz em anunciar-lhe que a sua proposta foi a vencedora. Aqui na cidade onde eu moro não existem mais casas antigas como a que o senhor descreveu. Aliás, praticamente não existem mais casas onde possamos morar. São só prédios, altos e horrorosos, e as pessoas que moram neles não querem saber de nós, pobres fantasmas desamparados. Não acreditam na gente, nos expulsam de seus apartamentos, colocam música alta para não ouvirem as nossas correntes. Chegam até a dizer que não existimos, veja a audácia. Assim, quando comentei com meus amigos que estava me mudando, eles imploraram que eu os levasse juntos. Espero que o senhor não se importe. Nós chegaremos amanhã, à meia-noite.”

Vitor ficou entusiasmado. Em vez de um fantasma, ele teria vários. Quantos seriam? Três? Quatro? Se fossem cinco, seria a glória. Quase contou ao irmão, tão contente estava, mas pensou melhor. Jacó viria outra vez com aquele papo de que fantasmas não existiam e de que era uma armadilha. Pois bem. Quando eles estivessem ali, na sua casa, ele queria ver o irmão dizer que ele era bobo.

Não dormiu nada naquela noite, mas não estava cansado na manhã seguinte. A animação que sentia era suficiente para mantê-lo acordado. No almoço, no entanto, já estava irritado: as horas se arrastavam, e ainda faltava muito para na meia-noite.

— Esse moleque está aprontando alguma coisa — disse Jacó, quando o irmão saiu da mesa direto para a frente do computador.

— Deixa ele… Só está calado — replicou a mãe.

No seu quarto, Vitor vasculhou a comunidade sobre fantasmas no site, em busca de novidades. Quem sabe o seu fantasma tivesse deixado mais algum recado. Quem sabe até tivesse resolvido antecipar o horário de chegada. Mas não — a última mensagem era a do dia anterior.

Por fim, anoiteceu. Vitor resolveu dar uma olhada no sótão e no porão. Durante a tarde, pensara em limpar um pouco esses lugares, empoeirados pelo tempo sem uso, mas resolvera deixá-los como estavam: afinal, para um fantasma, provavelmente quanto mais abandonado parecessem, melhor seria. Quando o relógio marcou onze horas, avisou que estava indo dormir. O que fez, na verdade, foi ficar acordado sob as cobertas, olhando a cada poucos segundos para o mostrador luminoso do celular, contando os minutos que faltavam para a meia-noite.

Sem perceber, acabou caindo no sono. Acordou assustado algum tempo depois, com sussurros em seu ouvido. Abriu os olhos rapidamente, já se preparando para dar uma bronca no irmão pela brincadeira, mas Jacó não estava no quarto. Na verdade, parecia não ter ninguém ali a não ser ele. Mas quem deixara o abajur ligado? Estava uma claridade estranha no quarto… Será que ainda estava dormindo e aquilo era um sonho?

— Senhor Vitor… senhor Vitor, está me ouvindo?

O menino deu um pulo ao ouvir a voz.

— Quem está aí? — sussurrou de volta, com medo até mesmo de falar alto.

— Sou eu, senhor… Gustav, o fantasminha sem teto. Ou melhor, agora eu não sou mais sem teto, já que o senhor me acolheu — respondeu a voz, materializando-se em um fantasma branco e transparente bem ao lado da cama.

— Você veio mesmo — exclamou Vitor, pulando da cama, animado.

— Claro que eu vim, não podia perder uma oferta dessas. Aliás, deixe eu lhe apresentar meus amigos — disse o fantasma, estalando os dedos.

A cada estalo, uma nova forma branca ia surgindo. Vitor ia contando: um… dois… três… outro estalo… quatro… mais um estalo… cinco… seis… sete… e vários outros estalos em sequência… e oito, nove, dez, quinze, vinte fantasmas ao todo apareceram, um ao lado do outro, todos sorrindo e abanando para Vitor. Quase não havia mais lugar no quarto com todos eles ali.

O que ele faria com tantos fantasmas? Bem, era o que sempre quis, não era?, pensou Vitor. E já que eram tantos, o melhor era distribuí-los direito.

— Bem-vindos todos. Agora, vamos nos organizar… Aqui no meu quarto, ficam Gustav e mais um, que isso também não é a casa da Mãe Joana. No quarto do meu irmão — e Vitor deu um sorriso —, lá podem ficar três. No de visitas, outros três… No de meus pais, vamos deixar sem. Os outros se dividem entre o sótão e o porão, combinado?

Murmúrios fantasmagóricos de aprovação, e todos rumaram para seus quartos. Logo Vitor ouviu os gritos do irmão, e se conteve para não correr até lá e dizer um “eu não falei”. No outro dia, convidou alguns colegas de escola para dormirem na sua casa, e a diversão foi grande — ao menos para ele.

A partir de então, ficou conhecido como o menino mais corajoso da cidade, pois morava na única casa cheia de fantasmas naquela cidade até então desassombrada.

Dúvida Cruel

20 de novembro de 2010 1

(Maristela Scheuer Deves)

Eu não acredito, mas eles insistem em dizer que, ontem, eu morri. Um absurdo, claro: não vejo como isso possa ter acontecido. Ontem foi um dia como outro qualquer. Acordei às sete horas, tomei banho, preparei o desjejum e fui para o escritório. Não vi Maria, minha esposa, porque ela vai cedinho à feira, todas as sextas. As crianças ainda estavam dormindo — estão de férias e, por isso, têm todo o direito de dormir até mais tarde. O porteiro do prédio não me cumprimentou quando eu saí, provavelmente estava de mau humor. O que me irritou, mesmo, foi que nenhum motorista de táxi parou ao meu aceno. Bando de mal-educados!

Acabei andando as nove quadras até a empresa, mas, mesmo assim, não me senti cansado. Por isso, subi as escadas em vez de pegar o elevador. Quando cheguei na porta do escritório, vi que a secretária, Tereza, chorava. Sou uma pessoa discreta, passei reto murmurando apenas um bom-dia, ao qual ela não respondeu. Passei a manhã toda lendo relatórios atrasados, e, milagre dos milagres, o telefone não tocou nenhuma vez e ninguém bateu à porta para me interromper.

Quando dei por mim e olhei no relógio, já eram quase duas da tarde. Como não estava com fome e sentia uma grande energia, resolvi não interromper o trabalho. Segui até o final da tarde, sem parar. Foi só às cinco horas, quando finalmente achei que já tinha feito muito por um dia só e ia deixando o escritório, que pela primeira vez ouvi falar da minha morte.

A notícia veio pelos lábios de Tereza, que agora parecia um pouco mais calma do que pela manhã:

— Doutor Marcos, estou saindo para ir ao velório do doutor Fernando — disse ela ao meu sócio, que também passava por sua mesa no momento.

Estaquei. Que brincadeira era aquela? Ao meu velório? Ela estava louca, ou se referia a algum outro Fernando? Parei bem na sua frente e fiquei encarando-a, para ver se ela se explicava. Sua única reação, no entanto, foi encolher-se e esfregar os braços, como se sentisse um frio súbito.

— E as coroas, em nome de todos nós, você já enviou? — quis saber Marcos, acrescentando antes que a secretária respondesse: — Envie meu pêsames à Maria, e diga que eu passo lá mais tarde. Ainda não estou acreditando! Meu Deus, eu e o Fernando trabalhamos juntos desde que saímos da faculdade!

Esperei um minuto, com certeza de que logo os dois iriam cair na gargalhada — embora eu, particularmente, considerasse a piada de péssimo gosto. Já ia abrir a boca para perguntar se estavam me gozando porque eu passara o dia enfurnado na minha sala quando Tereza voltou a chorar. Atônito, estendi o braço para consolá-la, mas meu colega foi mais rápido e enlaçou-a num abraço desajeitado. Olhando para ele, percebi que, por baixo dos seus óculos, também corriam duas grossas lágrimas.

— Ei, vocês dois querem me explicar o que está acontecendo? — disse eu, por fim, uma pontinha de medo começando a se insinuar no meu peito.

Foi como se eu nada tivesse dito. A secretária chorou silenciosamente por mais alguns minutos e, depois, desvencilhou-se dos braços de Marcos.

— O senhor sabe — disse ela, olhando pare ele e continuando a me ignorar — que eu sempre tive uma queda pelo doutor Fernando? Tão distinto, tão elegante… Claro, nunca disse nada, ele era casado e eu sou uma mulher direita, mas, agora, fico pensando se não devia ter aproveitado…

Chocado com a revelação, eu não sabia se começava a rir ou se perguntava se ela estava brincando. Enxugando os olhos, ela se recompôs e disse, num sorriso triste:

— Mas, por favor, doutor Marcos, não conte isso para ninguém. Deus me livre, ele lá, morto, e eu aqui falando essas coisas…

Saí batendo a porta. Os dois deixaram escapar um grito de espanto, mas azar: se queriam ficar naquela brincadeira idiota, como se eu não estivesse ali, eu é que não iria ficar escutando baboseiras, muito menos voltar atrás para pedir desculpas por tê-los assustado. Ignorei o elevador e mais uma vez preferi as escadas _ um pouco de exercício ajudaria a me acalmar e a pensar melhor sobre o assunto. Que, pensar sobre o assunto, que nada!, xinguei a mim mesmo. Onde já se viu ficar dando bola para quem fingia que eu tinha morrido?

Cheguei em casa quando já escurecia (mais uma vez, nenhum táxi tinha parado para mim). Ao dobrar a última esquina, estranhei a movimentação: dezenas de carros estavam estacionados próximo ao meu prédio, outros paravam na frente dele e deixavam passageiros. Será que algum dos vizinhos estava dando uma festa e sequer me convidara?, pensei, um pouco enciumado.

O porteiro da noite estava ocupado e não me viu passar. Subi até meu apartamento lembrando que não comera nada desde a manhã, e pensando que uma janta gostosa me faria bem. Aquela cena estranha no escritório me deixara sentindo esquisito, só podia ser fome. Será que Maria já estava com a comida pronta?, questionei-me, e lancei um olhar para a porta do 202. Não precisei pegar a chave para abri-la: chorosa, Maria encostava-se ao batente, recebendo abraços e consolos de mais um casal de amigos que chegava.

— O que é isso? O que está acontecendo aqui? — perguntei à minha mulher.

Mais uma vez, fui solenemente ignorado. Deixando a porta escancarada, Maria e os outros dois apartamento adentro, até a sala. Segui-os, e quase desmaiei ao constatar que o aposento estava cheio _ de pessoas e de coroas de flores. No centro, um esquife, iluminado por duas velas. Meus filhos, que também choravam, correram agarrar-se às saias da mãe.

Caminhei até o meio de toda aquela gente, certo de que todos os olhares se voltariam para mim, percebendo o engano da situação. Ninguém me deu bola. Tentei puxar conversa com um ou dois velhos conhecidos, que há anos eu não via e que agora ali estavam, mas eles também não prestaram atenção em mim. Por fim, aproximei-me do caixão. No entanto, não tive coragem de olhar para dentro.

Depois disso, corri trancar-me no meu quarto, com medo de estar enlouquecendo. Ou eles todos estão loucos, ou sou eu que devo ser internado. Morto, pelo menos, sei que não estou. Não consegui sequer pregar o olho a noite inteira desde que tudo isso aconteceu, como posso estar dormindo o sono eterno? Fiquei esperando Maria vir se deitar, mas ela não veio. Passou a noite toda ao lado do caixão, soluçando. Apesar do absurdo da situação, senti-me comovido pela sua dedicação. Sinal que me ama. Mas como pode pensar que estou morto? Como pode aceitar tranquilamente todos os pêsames?

Já são novamente sete horas da manhã, falta apenas uma hora para o enterro. Para o meu enterro, como eles insistem em dizer. E, mesmo depois de uma noite inteira pensando, ainda não sei o que devo fazer. Ficar aqui, quieto, no meu canto? Voltar lá na sala e tentar novamente explicar que estou vivo, olhem, eu estou aqui? Ou dar-me por vencido, já que eles são maioria, e acreditar eu também que eu morri? Oh, Senhor, que dúvida cruel!



O dia em que fui a Rainha

13 de novembro de 2010 0

(Maristela Scheuer Deves)

Aquele sempre tinha sido o meu sonho. Eu, uma escritora iniciante, tinha me tornado, do dia para a noite, a maior escritora de todos os tempos. Não, isso não se devia ao fato de os leitores terem finalmente descoberto meu talento, ou de eu ter criado um personagem incrivelmente cativante. Era tudo muito mais simples e, ao mesmo tempo, muito mais complexo. Simplesmente, eu havia acordado na pele da escritora que eu mais admirava.

Não me perguntem como isso aconteceu. Eu só sei que abri os olhos, sentindo o sol entrar pelas cortinas do quarto, e estranhei não ter ouvido o despertador do celular tocar. Droga, devia estar atrasada para o trabalho, ia levar um sermão do chefe outra vez. Quando coloquei os pés no chão e olhei ao redor, no entanto, vi que algo não estava certo. O celular não apenas não despertara, ele também não estava na mesinha de cabeceira. Aliás, a própria mesinha de cabeceira não era como deveria ser. Nem a cama, ou a penteadeira, ou a minha escrivaninha. Tudo estava diferente. Caminhei em direção à nova penteadeira (na verdade, à velha penteadeira, uma vez que ela era obviamente uma antiguidade que substituíra o modelo moderno que estava ali na noite anterior) e parei, agora aterrorizada: quem era aquela mulher refletida no espelho emoldurado? Será que eu envelhecera do dia para a noite?

Para espantar o medo, decidi que estava sonhando. Com isso em mente, aproximei-me mais do espelho. A mulher que me encarava de lá tinha algumas décadas a mais do que eu, talvez uns cinquenta anos. Também vestia um antiquado pijama de calças e mangas compridas. Examinei-me, e comprovei que eu vestia a mesma coisa. Mexi um braço, ela também mexeu. Era eu, sem dúvida. Achei seu rosto de alguma forma familiar, mas não conseguia lembrar-me de onde. Com certeza, não se parecia com minha mãe, nem com minha avó.

“Vou lavar o rosto, daí acordo e paro de ver coisas estranhas”, murmurei para mim mesma, e segui até o banheiro – que, claro, também não ficava anexo ao quarto, como eu me lembrava, mas do outro lado do corredor. Quando olhei-me no espelho do banheiro, entretanto, o mesmo rosto me encarava. O que estaria acontecendo? Teria eu dormido não sete ou oito horas, mas vinte anos? Ou estaria com amnésia, esquecendo-me dos anos recentes e imaginando que estava ainda na juventude?

Não, não podia ser. Lembrava-me muito bem não só de mim mesma, mas da casa, do quarto, das roupas que eu usava. Se eu tinha esquecido os anos recentes, como é que tudo ao meu redor parecia mais antiquado do que eu me lembrava? Voltei ao quarto, resolvida a investigar e resolver aquele mistério. Até meus passos estavam diferentes, percebia agora, cada vez mais apavorada.

Dirigi-me à minha escrivaninha. Queria consultar a agenda e os diários que eu sempre mantinha. Assim, ao menos, teria a data daquele dia tão estranho, e que eu já não tinha mais certeza de qual era. Para minha surpresa (mais uma!), vi sobre o móvel de madeira escura um jornal todo em inglês. O que mais chamou-me a atenção, porém, foi a data: janeiro de 1942, e o jornal parecia novinho em folha. Mas como, se eu nascera em 1975?

Vi então o meu diário ali ao lado, exceto que aquele não era o meu diário — que novidade, disse para mim mesma, ironicamente. Sentei na cadeira que não era a minha, e abri o diário que não era o meu, sentindo-me um pouco como se estivesse invadindo a privacidade de outra pessoa. Mas eu precisava entender o que estava acontecendo!

Quando vi a letra na primeira página do diário, senti-me gelar novamente. Eu conhecia aquela letra, conhecia-a tão bem como se fosse a minha. Ou melhor, conhecia aquela assinatura no pé da página, a mesma que eu vira impressa na capa de tantos livros… Com uma ideia a brotar na minha mente, peguei uma caneta-tinteiro ao lado e uma folha de mata-borrão que estava por ali, e deixei minha mão rabiscar livremente. Sem surpresa desta vez, olhei para o papel e li a assinatura que acabara de produzir: Agatha Christie.

Voltei minha atenção para o diário em minha frente, que não era um diário convencional, mas um caderno cheio de rabiscos, histórias, trechos de livros que eu conhecia tão bem. Pelo que parecia, eu os conhecia não somente como leitora, mas também como a própria escritora… As páginas mais recentes eram sobre um livro que se chamaria A Mão Misteriosa, cheio de cartas anônimas acusadoras e com participação especial de Miss Marple, a personagem que eu mais gostava (não me perguntem se o “eu” dessa frase era “eu mesma” ou “eu, Agatha”).

Bem, já que eu estava naquela situação, o jeito era aproveitar. Assim, passei o resto do dia escrevendo, dando forma à história, testando um e outro possíveis culpados, fazendo especulações. Só parei para o almoço e para o chá da tarde, trazidos por um mordomo uniformizado. Ao anoitecer, eu quase me convencera de que eu era, mesmo, Agatha Christie. Que maravilha!, pensei, deslumbrada com meu próprio talento.

Fui dormir em meio a meus lençóis de linho, sem a presença de Max, meu (dela?) marido, que estava viajando em uma escavação arqueológica, segundo me dissera o mordomo. Sonhei com venenos, intrigas de aldeia e um detetive com cabeça em formato de ovo. Acordei com o som irritante do despertador do celular tocando na mesinha de cabeceira.

Abri os olhos. Onde eu estava? Vi-me novamente em meu antigo/moderno quarto, tudo como era antes. Que sonho mais pretensioso eu tivera! Eu, Agatha Christie, vejam só, sorri comigo mesma, olhando-me no espelho e vendo meu “eu” normal. Deixando aquela história de lado, corri me arrumar para o trabalho, antes que me atrasasse. Não adiantou nada, levei sermão do meu chefe da mesma maneira: onde eu estivera no dia anterior? Como é que não aparecera para trabalhar? Tinha atestado? O que é que eu estava pensando?

Cada vez mais confusa, balbuciei uma desculpa sem pé nem cabeça, e fui para a minha mesa. No intervalo do almoço, corri à livraria comprar A Mão Misteriosa. Primeiro, conferi a data da edição original: julho de 1942. Um arrepio percorreu minhas costas, e ele ampliou-se quando li as primeiras páginas. Como é que eu sonhara que estava escrevendo exatamente aquelas palavras, se aquele era um dos pouquíssimos livros da Rainha do Crime que eu ainda não lera? Lembrei-me, então, da célebre frase do único escritor que supera Agatha em vendas no mundo, Shakespeare: “Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia…

Amanhã tem Contos no Blog!

12 de novembro de 2010 0

Na pele de quem você gostaria de passar um dia? De um cantor famoso, de um ator, de um jogador de futebol?

Pois foi esse exercício de imaginação que deu origem ao conto O dia em que fui a Rainha, que será publicado amanhã aqui no Palavra Escrita, dentro da seção Contos no Blog.

Não perca!

As Noivas de Preto

06 de novembro de 2010 0

(Maristela Scheuer Deves)

Aquelas velhas fotografias de noivas vestidas de preto sempre tinham me intrigado, desde que eu as encontrara em um velho baú no sótão da casa de meus avós. Eu tinha uns doze ou treze anos na ocasião. Curiosa como todos são nessa idade, corri perguntar à minha avó quem eram aquelas mulheres e por que tinham se casado assim. Sua reação, no entanto, deixou-me espantada.

Em vez de responder à minha inocente pergunta, ela ficou olhando demoradamente as fotos, com uma expressão esquisita. Não consegui identificar exatamente o que via no seu rosto, mas parecia ser uma mistura de medo e curiosidade. Depois de alguns minutos em silêncio, quis saber onde eu encontrara aquelas imagens. Contei-lhe do baú, e ela pediu que devolvesse as fotos ao seu lugar e não mais pensasse no assunto.

Insisti, mas sem resultado. Como eu não era de desistir facilmente, procurei desta vez o meu avô. Sua reação não foi muito melhor ao olhar o que eu tinha em mãos, mas pelo menos ele deu-me uma explicação: aquelas eram sua avó, ou seja, minha tataravó, e suas irmãs. Haviam se casado de vestidos e véus pretos porque estavam de luto, o pai delas havia morrido pouco tempo antes. Fiquei a matutar comigo mesma por que é que elas não haviam esperado um pouco mais para casar-se, pois então poderiam usar o branco tradicional. Também achei estranho todas elas terem contraído núpcias na mesma época, mas vovô disse que fosse brincar e o deixasse fazer suas coisas.

Por alguns dias ainda enchi meu pai e minha mãe de perguntas, mas como as respostas variavam de um “eu é que sei?” a “vai ver, era moda na época”, acabei desistindo e esquecendo o assunto. Numa ocasião seguinte em que fui fuxicar nas coisas guardadas no sótão, não encontrei mais as fotografias, até mesmo o baú havia sumido de lá. Achei estranho, mas não dei muita importância ao assunto.

Nas últimas semanas, porém, a lembrança daquelas noivas vestidas de preto vem me atormentando. Sonho com elas todas as noites, e penso nelas cada minuto do meu dia. Não sou mais uma criança: estou com 24 anos e vou casar-me em poucos dias. Até já comprei meu vestido, lindo, resplandecente, branco como a neve. Minha mãe chorou quando o viu, e a princípio creditei seu choro à emoção de que sua única filha iria se casar. Mas agora sei que não era isso. E sei, também, o porquê daqueles vestidos negros que há tanto tempo despertaram a minha curiosidade…

Descobri por acaso, enquanto procurava velhas fotos minhas para o painel de momentos marcantes de minha vida, que ficará em exposição na entrada do salão de festas. Embaixo das dezenas de álbuns com registros feitos desde a minha infância, encontrei um envelope amarelado pelo tempo. Curiosa, abri-o. Lá, uma única foto, de um casal cujo rosto risonho eu reconheci: meus pais, muito mais jovens do que agora, no dia do seu casamento. Nesse momento, dei-me em conta que nunca antes havia visto imagens daquela data, e compreendi também o motivo: o vestido que minha mãe envergava, de seda e com lindos bordados, era negro.

Minha mãe surpreendeu-me com a foto nas mãos, e, perante meu olhar indagador, pôs-se novamente a derramar lágrimas. Mesmo sem entender o que estava acontecendo, abracei-a e confortei-a, como se a mãe fosse eu. Não pedi explicações quando ela se acalmou, mas ela as deu mesmo assim. Sabia que era hora, e que não podia adiar mais.

— Quando eu me casei com seu pai — começou ela —, ninguém me disse nada. Sofri muito com o que aconteceu, e sei que você também vai sofrer, minha filha, mas pelo menos você vai estar preparada.

Antes de prosseguir, ela levantou-se e foi até uma gaveta trancada. Tirou uma chavezinha de uma corrente pendurada no pescoço e a abriu. Lá de dentro, pegou uma caixa de madeira, que colocou sobre a mesa, chamando-me para ver o conteúdo. Ali estavam as antigas fotos que eu vira ainda criança, num baú no sótão dos meus avós. E também outras, muitas outras, todas mostrando noivas vestidas de preto. Lá estavam minha avó, todas as minhas tias por parte de pai… Aturdida, fiquei passando uma a uma, sem saber o que dizer.

— Sim, minha pequena. Todas as mulheres da nossa família, pelo lado do seu pai, carregam essa maldição — disse. Vendo que eu abria a boca para perguntar algo, apressou-se em prosseguir: — Nós não escolhemos nos casar de preto. Na verdade, nós não nos casamos de preto. Meu vestido e meu véu eram tão alvos quanto os seus. Mas na hora da cerimônia, quando eu coloquei a aliança no dedo, ele começou a mudar…

Ela trocara de roupa no meio da festa, contou, com a desculpa de usar algo mais confortável. A verdade era que, para seu desespero, ele estava ficando a cada minuto mais escuro. Pensou que as primeiras fotos estariam boas, pelo menos, mas, poucos dias depois de as receber do fotógrafo, nelas também o vestido passara a ficar preto.

— Queimei quase todas elas, junto com o vestido que eu tinha gostado tanto. Guardei apenas essa. Foi só depois de tudo ter acontecido que minha sogra, sua avó, contou-me que isso acontecia há quatro gerações. Desde que uma tia-avó do seu avô foi rejeitada pelo restante da família por se casar grávida, sendo obrigada a casar de véu negro, ela amaldiçoou a todos, dizendo que, dali por diante, nunca mais uma mulher da família se casaria de branco. E, até hoje, isso vem se cumprindo…

Tenho menos de uma semana até o dia do meu casamento. Tento afastar os meus pensamentos mórbidos, dizer a mim mesma que isso é fantasia, que deve haver alguma explicação lógica. Talvez tenha sido mesmo luto, talvez… Mas minha mãe não mentiria para mim. Não faria com que eu me angustiasse sem necessidade.

Não contei a meu noivo, para ele não pensar que estou enlouquecendo. Mas hoje pela manhã, acariciando o esvoaçante tecido de meu lindo vestido de sonho, vi uma pequena mancha mais escura em um canto, sob um babado. Outra apareceu na pontinha do véu. Pensei em cancelar o serviço do fotógrafo, para garantir, mas achei melhor encomendar com urgência um vestido de reserva, cor de champanhe, para usar assim que sair da igreja…



A Última Estripulia

23 de outubro de 2010 0

  

 

 

(Maristela Scheuer Deves)

Aquele tempo já vai longe, mas, quando penso, pareço ainda estar vendo a cena, como um filme muitas e muitas vezes repetido. Éramos três, nos nossos seis ou sete anos, idade em que alguns têm medo, mas a maioria inocente se acha imbatível e indesafiável. Claro, acreditávamos (em parte) nas histórias de fantasmas que os irmãos mais velhos contavam para tentar nos assustar, mas, desconfiados de suas intenções, preferíamos pensar que, se um dia deparássemos com algum ser do além, saberíamos como enfrentá-los com a nossa super-força de crianças travessas.

Pobres de nós. Pobre Carlos Alberto, pobre Carmem… pobre de mim, também, embora tenha conseguido (terei mesmo?) me safar com apenas algumas sequelas… A ingenuidade, essa estranha força que geralmente protege os pequenos e os encoraja a seguir adiante e crescer, daquela feita foi macabramente fatal. Vendo agora, com olhos de adulto — e desde aquele dia sem nenhuma ingenuidade —, percebo porém que não teríamos como saber. Mesmo os mais velhos tinham medo de ali passar apenas de noite, e já fizéramos aquelas mesmas estripulias tantas e tantas vezes!

Foi num dia frio, junho ou julho, não lembro direito — embora recorde, e nunca vá esquecer, cada momento e cada fato desde que entramos no velho cemitério. Eu, com minha grossa japona de nylon marrom, recheada com um blusão de lã castanho, gorro de crochê na cabeça, meias grossas e botas de borracha amarelas que tinham sido do meu irmão. Carmem, com seu costumeiro casaco de lã azul claro e gorro multicolorido, que tantas vezes invejei pensando que se parecia com um arco-íris. Mesmo Carlos Alberto, que nunca parecia sentir frio, naquele dia cedera às baixas temperaturas (ou às recomendações de sua mãe) e se agasalhara.

Mesmo entrouxados como estávamos, ignoramos os pedidos de que brincássemos no quintal de minha casa. Depois de tantos dias chuvosos em que a rala diversão se restringira à televisão e às rodas de faz-de-conta, queríamos mais era aproveitar o sol e correr até onde pudéssemos. Só não fomos pular do telhado na casa da vizinha porque esta, que se arrepiava só de pensar em um de nós quebrando um braço ou perna, agora ficava vigilante e sequer nos deixava chegar perto do cinamomo que escalávamos para chegar nas telhas.

Depois de esgotar as possibilidades das árvores próximas à minha própria casa, alguém— ou teriam sido todos, de uma só vez? — teve a ideia: ir caminhar sobre os muros do cemitério, atividade exploratória que costumávamos fazer pelo menos uma ou duas vezes por semana.

Fosse de quem fosse a sugestão, foi aceita por unanimidade, e corremos todos pelas quase desertas duas quadras de rua de chão batido que nos separavam do campo santo (santo?, me perguntei depois, e continuo até hoje sem resposta) do vilarejo em que morávamos. Se pelo menos soubéssemos que o improvisado playground do qual tanto gostávamos só não se tornaria nas próximas horas a nossa morada definitiva porque eu tive a proteção dos santos e porque Carmem e Carlos Alberto… bem, melhor seria que eu pudesse partilhar a vã esperança de alguns, de que um dia eles ainda venham a ser encontrados.

Mas, voltemos àquela tarde, por mais terríveis e dolorosas que me sejam as lembranças. Talvez seja melhor eu fazer de conta que estou relatando um dos filmes que naquela tenra idade gostava de assistir escondida (meus pais me proibiam pensando que eu fosse ter maus sonhos e acordar gritando durante a noite, o que nunca aconteceu), e que desde então nunca mais pude ver — pois depois da última estripulia do nosso trio, passei a ter pesadelos noite após noite sem precisar do incentivo de vídeos de terror. E, confesso, não me sentiria nem um pouco usurpada se não tivesse sido um dos atores protagonistas daquela trama…

Deviam ser umas três horas da tarde quando chegamos ao enferrujado portão de ferro. Para ir mais depressa, empurramos os três juntos, e quando ele cedeu disputamos outra corrida para ver quem chegava primeiro aos velhos túmulos dos suicidas, colocados no fundo do cemitério, bem atrás dos outros. Várias vezes pensei que talvez tenha sido impressão minha, mas algo me diz que eu realmente senti um pouco mais de frio nos segundos que levei para chegar até o ponto combinado. Levemente emburrada por ter sido a segunda, depois de Carlos Alberto (“Isso não vale”, protestei, “os meninos sempre são mais rápidos”), não dei a mínima para uma possível queda da temperatura e, sem-cerimônia como sempre, subi no túmulo mais próximo para mais facilmente alcançar o topo do muro de pedra que circundava a área.

Andar sobre o muro do cemitério era, de longe, a brincadeira que mais nos agradava, embora nunca tivesse vencedores ou vencidos (ou talvez por isso mesmo). Numa época em que sonhávamos em ser equilibristas de circo, aquele era o lugar ideal para treinos, até porque ficava longe da vista de nossos pais e ninguém ali nos repreendia dizendo que poderíamos cair se não fôssemos mais devagar. Sem falar, é claro, que desistíramos de passar de túmulo em túmulo dando beijos nos anjinhos de pedra desde que Carlos Alberto ficara com a boca toda inchada após ser ferroado por marimbondos instalados atrás de um desses seres alados…

As primeiras voltas transcorreram sem problemas, eu na frente, de vez em quando dando piruetas para mostrar o equilíbrio, Carmem logo atrás e, fechando a fila, o Carlinhos (que hoje estariam já, como eu, perto dos 30 anos se tivéssemos seguido a ordem de ficarmos em casa). Por que, me pergunto, como já me perguntei milhões de vezes, éramos crianças tão teimosas? Talvez alguns puxões de orelha dados a tempo tivessem surtido efeito, mas, sinceramente, duvido — nada nos faria desistir das nossas traquinagens, não quando, fãs que éramos de desenhos de super-heróis, nos sentíamos iguais à Mulher Maravilha, ao Homem Aranha e ao Super-Homem.

Cansada de andar e andar, Carmem, que se desinteressava mais rapidamente das brincadeiras que inventávamos, resolveu descer depois de uma meia hora. Como estávamos perto da fileira de sepulturas das criancinhas, algumas das quais enterradas há décadas, minha pequena companheira se dirigiu para lá — era outro de nossos passatempos ficar olhando as fotos dos falecidos, e tínhamos atração especial por aqueles, que tinham sido crianças iguais a nós. Teriam eles um dia brincado também nos mesmos muros daquele cemitério?, perguntáramos a nós mesmos não apenas uma vez. Ao ver o que nossa amiga fazia, Carlos Alberto resolveu imitá-la. Eu, que já estava me vendo a desfilar sobre a corda bamba num dia de espetáculo e lona cheia, resolvi treinar mais um pouco. E acho que foi o que me salvou.

Em meio a meus delírios circenses, cuidava pelo canto do olho o que os outros dois faziam. Se eles fossem embora e me deixassem, como eu poderia depois dizer para a minha mãe que tinha sido por ideia e insistência deles que eu me demorara tanto a brincar no cemitério? Claro, ela já estava acostumada e sabia que essas desculpas eram esfarrapadas, mas era melhor não facilitar… Por isso, desci ligeira do muro quando, depois de um minuto de distração, não pude mais ver onde eles estavam. Sem qualquer preocupação que não a companhia e a necessária desculpa (embora mais uma vez eu percebesse que a temperatura continuava a cair), saí a procurá-los atrás das fileiras de jazigos.

O velho cemitério era enorme, um verdadeiro museu para as nossas explorações pseudo-arqueológicas. Depois de percorrer algumas fileiras, acabei esquecendo-me de que estava atrás dos meus amigos e fiquei a ler (sim, tínhamos sete anos, lembro agora, pois já estávamos na primeira série), soletrando com dificuldade, os estranhos e enigmáticos epitáfios em alemão de alguns túmulos mais antigos. Depois, fui até onde estavam enterrados meus bisavós Jacob e Bárbara, que eu não conhecera, e demorei-me um minuto a rezar por eles. Não havia mais flores nos vasos, por isso corri até a parte onde não havia ninguém sepultado e cresciam algumas moitas floridas em meio a pés de aipim plantados por um ex-zelador.

Enquanto colhia alguns cachos amarelos ouvi chamarem meu nome, e virei-me lembrando que me perdera de Carmem e Carlos Alberto. Sem ver ninguém, levei as flores até meus bisavós e voltei a percorrer a área, desta vez chamando alto o nome de meus colegas de aventuras. Após uns 10 minutos de buscas, irritada porque não me respondiam, pensei que estavam escondendo-se de propósito e fiquei a matutar o que fazer. A zanga dizia que eu devia ir embora e deixá-los para trás, mas eu achava que deveria armar depois uma vingança maior. Se eu soubesse que nunca teria a oportunidade de me vingar, e nem o quereria mais, dentro de pouco tempo…

Comecei a correr entre os túmulos, pensando em surpreendê-los, mas constatava com uma raiva cada vez maior que o esconderijo que tinham encontrado devia ser muito bom. Não haviam saído pelo portão, disso eu tinha certeza — enquanto andava pelo muro, eu estava de frente para a entrada, e por ali eles não tinham passado. “Tá bom, eu desisto, não sei onde vocês estão”, gritei, dando a senha para que aparecessem e esperando ouvir seus risos em resposta. Mas, mais uma vez, foi o silêncio que me respondeu. Foi então que percebi que algo não podia estar bem. No céu, o sol já ia se pondo, embora eu não tivesse percebido que se passara tanto tempo assim. E com o anoitecer, o frio se intensificava mais e mais, provocando-me calafrios — ou pelo menos foi o que eu pensei então.

Julguei ter visto alguém me espiar por trás de uma lápide do outro lado, e quase respirei aliviada. Ao chegar lá, outra vez não havia ninguém. Já que não querem aparecer, eu pensei, ainda crente de que tudo não passava de mais uma brincadeira (inventada pela Carmem, com certeza, pois ela adorava pregar peças nos outros), resolvi ir para casa. Os outros que fossem depois, até porque deviam estar me vendo de onde estavam. Foi eu colocar o pé no portão, no entanto, que eu ouvi o grito. A cidade inteira deve tê-lo ouvido, de tão forte e pavoroso que foi. Não foi socorro, não foi me ajudem, não foi nenhuma palavra que eu conhecia até então ou que vim a conhecer depois. Foi a mais pura manifestação de horror que se poderia conceber, provavelmente ainda maior. Tão verdadeira que eu sequer teria como pensar que se tratasse de encenação — podíamos querer ser artistas, mas ninguém tinha adquirido ainda tal capacidade dramática.

Os calafrios vieram mais fortes, enquanto o grito se repetia. Eram, misturadas e dezenas de vezes ampliadas, as vozes da Carmem e do Carlos Alberto, não havia dúvida. A tremedeira não tinha parado, mas, com a coragem típica dos pequenos que acham que podem enfrentar qualquer coisa, corri para o local de onde viera o som, disposta a salvar os meus amigos. Mas eu jamais, em minha curta vida até aquele dia, por mais filmes de terror que eu tivesse visto escondido de meus pais, tinha imaginado deparar com o que eu vi atrás do túmulo de um enforcado que recentemente havia sido sepultado — um daqueles sobre os quais costumávamos pular para alcançar a borda do muro. Até hoje, a cena povoa as noites em que me reviro na cama, encharcando os lençóis de suor e acordando aos berros.

No recuo entre duas sepulturas, uma das quais parecia ter sido arrancada do chão por uma força sobre-humana, estavam meus amigos. O pavor estampado nos olhos dos dois seria suficiente para acabar com quaisquer desconfianças que ainda me restassem, mas isso não era preciso: para garantir a veracidade da situação, a cara carcomida e cheia de vermes do homem que em vez de estar dentro caixão aberto ali do lado, como a lógica e a razão pregavam que devia ser, me encarava enquanto segurava meus colegas, cada um erguido do chão em uma de suas enormes mãos.

O grito que se ouviu então saiu de minha boca, pois os outros não conseguiam mais pronunciar nenhuma palavra. E voltei a gritar quando também a lápide que ostentava a foto do suicida mais próximo caiu para um lado, dando espaço para outro rosto putrefato, e senti uma mão igualmente decomposta segurar-me pelo ombro…

Graças a Deus, a força quase sempre nos surge quando mais precisamos dela, e o medo é um combustível tão eficaz quanto o mais refinado derivado de petróleo. Sem conseguir desviar os olhos das outras crianças (não, das outras crianças vivas, pois já alguns pequenos túmulos começavam a liberar também suas cargas), desvencilhei-me não sei como do braço que tentava me cingir, e saí correndo de costas até tropeçar no portão. Nessa hora, em que o sol já se escondia em definitivo mas ainda lançava alguns raios capazes de ajudar a visão, vi pela última vez os rostos agora contorcidos — não sei se de dor ou de puro medo — daqueles que eram os meus melhores amigos. Então, tudo escureceu, inclusive meus olhos, e só voltei a mim quando uma multidão de pessoas que os gritos atraíram levantaram-me e me levaram para baixo de uma torneira esquecida a um canto.

O resto do dia, ou da noite, visto que soube depois já serem mais de 19h, foi uma loucura quase tão grande quanto a cena que eu presenciara, e continua igualmente gravado a fel em minha memória. Atrapalhada, eu tentava responder às perguntas que me faziam, mas as respostas me saíam incoerentes, entre lágrimas e gritos gaguejados. Só o que conseguia balbuciar era “os rostos, os rostos deles, eles estavam com muito medo”. E via, mais uma vez e repetidamente, o mudo pedido de ajuda que neles estava estampado antes de eu desmaiar.

Nem as lanternas nem o potente farol trazido pelos bombeiros foram suficientes para que a Carmem e o Carlos Alberto fossem encontrados. Os voluntários das redondezas tinham se divididos em grupos para cobrir todo o cemitério, mas, passada mais de uma hora, os únicos achados haviam sido sete ou oito túmulos arrombados, com os corpos jogados fora do caixão — estranhamente para os outros, mas não para mim, próximos um do outro junto ao setor dos suicidas. Agora, já não era mais apenas eu que chorava baixinho. Ao meu lado, o pranto era ainda maior por parte das mães dos meus amigos, e os pais também já estavam quase entregando os pontos. O lado de fora do campo santo também foi investigado, mas se não havia nem as pegadas que seriam de se esperar no barro ainda mole da chuva dos dias anteriores, quanto mais a pista dos dois pequenos.

Alguns aventaram que devia ser sequestro, e que o pedido de resgate viria sem demora. Outros, que surpreendêramos profanadores de túmulos em pleno ato e por isso fôramos atacados, os outros dois levados e eu escapara (ninguém parecia ver que estávamos ali há horas até tudo acontecer). Perguntavam-me isso e aquilo, querendo que eu confirmasse hipóteses, mas eu só conseguia chorar, até porque nem eu mesma tinha coragem de acreditar no que os meus olhos tinham visto. A meia-noite chegou, sem que nada de novo acontecesse. Para meu alívio, alguém se lembrou de me levar embora antes que os outros desistissem das buscas para aquele dia. Se é que se pode chamar de alívio uma noite de olhos arregalados, febre e tremores, na qual nem eu nem meus pais conseguimos dormir pois eu me negava a ficar sozinha.

Fiquei mais de um mês sem ir na escola, sem querer sequer sair de casa. O sol lá fora já não era mais convidativo como antes, e não adiantava os coleguinhas passarem lá depois da aula me convidando para brincar — sem a Carmem e o Carlinhos, eu não vou, respondia sempre, em minha surda teimosia, com a esperança de que tudo não tivesse passado de um pesadelo da noite anterior. Mas, no fundo, eu sabia desde o princípio: sabia que nada seria encontrado no cemitério, onde os cadáveres fedorentos já haviam sido reenterrados; sabia que não viria nenhum telefonema ou pedido de resgate; sabia que não se tratava de uma traquinagem que passara da conta; sabia que os meus amigos não voltariam jamais…

Isso aconteceu já fazem mais de 20 anos, e depois de meses de espera frustrada duas pequenas cruzes foram colocadas junto à fileira das crianças. A cidade inteira compareceu ao enterro simbólico, sem corpos, mas com muita emoção. A cidade inteira, menos eu — nada nem ninguém me faria voltar de novo àquele lugar. E nunca mais voltei, nem há cinco anos, quando meu avô foi sepultado. Preferi ficar na igreja, rezando por sua alma e por todas as crianças ingênuas e inocentes que acreditam que os mortos estão mortos, e que só os vivos é que podem nos fazer algum mal…


Amanhã tem novidades aqui no Palavra Escrita

22 de outubro de 2010 1

Arte Freddy

Quem visita este blog é porque, obviamente, gosta de ler. Então, a partir de amanhã, o Palavra Escrita estreia uma nova seção, que será sempre identificada pela imagem acima: Contos no Blog.


Nela serão publicados contos de autoria desta blogueira, em diversos gêneros — suspense, terror, fantásticos, infantil, humor… O Contos no Blog aparecerá inicialmente aos sábados, e aguardo os comentários de vocês sobre esse novo trabalho.