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'A Menina que Não Sabia Ler' x 'A Volta do Parafuso'

12 de maio de 2012 4

Reproduções

Sim, eu sei que títulos e capas não dizem tudo, mas, mesmo assim, esses são elementos que costumo levar em conta quando escolho um livro – o que, acredito, acontece com boa parte dos leitores. Por conta disso, por vezes surpreendo-me quando a história toma um rumo totalmente imprevisto. Foi mais ou menos o que aconteceu na leitura de A Menina que Não Sabia Ler (editora Leya, 282 páginas), de John Harding.

O que parecia uma leitura leve acabou revelando-se, lá pelo meio, uma leitura tensa, de certa forma angustiante. Não me entendam mal: gosto desse tipo de livro, só não era o que esperava pelo título e pela capa. Confesso, porém, que se tivesse prestado mais atenção à chamada da contracapa, “Na tradição de Henry James e Edgar Allan Poe”, estaria mais preparada, e também se tivesse visto que o título da tradução é bem diferente do original, que era simplesmente Florence and Giles, nomes dos dois personagens centrais.

Depois dessa “introdução”, vamos ao ponto que eu queria tratar aqui. E antes que alguém me acuse de “spoiler”, já aviso que darei pistas da história. Pois bem. A questão que mais me chamou a atenção no livro é que, lá pelas tantas, deparei com uma cena – o menino Giles voltando do colégio interno, com uma carta na qual dizia que não podia mais voltar – que causou-me uma sensação de déjà vu (ou, talvez fosse melhor nesse caso, de déjà lu). Ignorei-a e segui adiante na leitura.

A sensação de que eu sabia a história, porém, permaneceu a partir dali. Por fim, identifiquei onde lera algo semelhante: em A Volta do Parafuso, de Henry James. A trama, claro, não é a mesma, mas há vários paralelos bem interessantes. Vamos a eles.

Ambas as histórias se passam em fins do século 19, em uma mansão no interior, na qual dois irmãos, um menino e uma menina órfãos, sob a tutela de um tio que mora na cidade e nunca aparece, são criados por governantas e preceptoras. No livro de James, a casa se chama Bly; no de Harding, Blithe. No primeiro, as crianças são Flora e Miles; no segundo, Florence e Giles. Em A Volta do Parafuso, a governanta é a sra. Grose; em A Menina que Não Sabia Ler, a sra. Grause.

Outros fatores de semelhança são que nas duas histórias há uma forte ligação entre a mulher contratada para ensinar as crianças e o menino, e que ambas as protagonistas acreditam que o fantasma da antiga preceptora, que morreu, está à espreita, com intenções malignas. Até certo ponto, acreditamos no relato das protagonistas-narradoras, e depois começamos a desconfiar da sanidade delas.  Aí é preciso dizer que as protagonistas são diferentes: enquanto a história de James é contada pela professora, na de Harding é o olhar da menina que acompanhamos.

Ressalte-se que há vários elementos novos em A Menina que Não Sabia Ler, a começar pela própria questão de Florence ser proibida de aprender a ler e ter de fazer isso escondido (proibição que não tinha Flora, pois a preceptora se encarregava dela também). A possível origem da ligação da professora com Giles também é diferente, e muito bem explorado. O personagem do jovem Van Hoosier não tem similar em A Volta do Parafuso, e os finais diferem (embora haja ainda uma última relação, que não vou dizer qual é para não contar o final da história).

Apesar dessas diferenças, teria me sentido bem mais confortável na minha leitura se tivesse sido avisada, já na da contracapa, de que o livro é uma espécie de releitura ou, mais provavelmente, uma homenagem a Henry James, como acredito que seja. 

Feitas essas ressalvas, é preciso dizer que A Menina que Não Sabia Ler é um ótimo livro. Para enriquecer a leitura, portanto, o conselho é ficar atento aos paralelos com o também excelente A Volta do Parafuso.

Um novo clichê?

06 de junho de 2010 0

Quem gosta de ler histórias de mistério conhece o ditado de que o mordomo é sempre o culpado — nos livros mais recentes, isso raramente é verdade, mas a frase teve origem num clichê repetido por muitos antigos romances policiais. Pois ontem, após invadir a madrugada para terminar um romance policial mais atual, dei-me em conta de que era o terceiro livro que lia, só este ano, em que meninas desaparecidas e dadas como mortas aparecem, dezenas de anos depois, vivas e bem. Será que um novo clichê está nascendo?

Peço perdão pelo “spoiler”, mas não vou dizer aqui os nomes dos livros — então não podem me acusar de estar contando o final. A questão é que, quando cheguei na parte em que o detetive desembarca num país distante, quase no final da história, eu logo adivinhei: claro, ele vai encontrar a garota que supostamente fora assassinada 15 anos antes. Na mosca. Infelizmente, não foram só os meus incríveis poderes dedutivos que me levaram a essa conclusão – é que eu tive uma sensação de déjà vu, pois menos de um mês atrás, em outro romance policial, outro personagem passou por uma cena semelhante, a diferença é que eram 40 anos do desaparecimento, não 15.

Já no livro que li em janeiro foi um pouco diferente, pois já no início uma mulher misteriosa aparece e diz ser a menina sumida de 30 anos antes. Mesmo assim, as semelhanças são várias, inclusive o fato de elas terem ficado todo esse tempo sem dar notícia, enquanto as famílias se desesperavam e se desestruturavam e a polícia cansava de investigar seus paradeiros, pois as acreditava mortas.

Não me interpretem mal: os três livros são muito bons, com enredos excelentes, personagens bem construídos, reviravoltas e, obviamente, tramas no geral diferentes uma da outra. Inclusive os motivos dos sumiços são diferentes. Só que esse detalhe do “retornar dos mortos”, que da primeira vez me chamou a atenção como algo original, agora começa a ficar repetitivo.

Coincidência, obviamente, visto que os três são romances lançados recentemente, praticamente ao mesmo tempo, por diferentes autores em diferentes países. Muito provavelmente, um sequer conhecia a obra do outro, e todos pensaram ser o único a ter aquela ideia.

Só espero que, no próximo policial que eu ler, a vítima não volte dos mortos no último capítulo — se não, isso vai ter virado, mesmo, um clichê, que como todo clichê repetido à exaustão empobrece o texto.