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Posts na categoria "entrevista"

Eram muitas vezes....

07 de abril de 2012 0

 

Paula Mastroberti, reprodução

Conto de fadas é algo para criança, não é? Ao menos no que depender de Paula Mastroberti, não. A escritora se notabilizou por recriar aquelas histórias que todos conhecemos, dando-lhes toques mais modernos, que tornam as obras muito atrativas também para o público adolescente. É o caso, por exemplo, de Cinderela — Uma Biografia Autorizada, que acaba de ganhar reedição pela Artes e Ofícios (96 páginas, R$ 35).

 

E além de dar, figurativamente, um novo colorido ao texto, ela também dá, literalmente, novas cores às páginas: é ela própria quem ilustra seus livros, a exemplo da imagem acima, do casamento de Cinderela com o Príncipe Tiago (repararam no modelito da noiva?). O blog aproveitou e perguntou à autora: em que o fato de ela mesma fazer as ilustrações facilita seu trabalho?

— Não facilita nada (risos)!!! Dá é um trabalho danado. Mas é que eu adoro fazer as duas coisas… Adoro escrever e ilustrar, pra mim essas coisas andam juntas. Minha ideia original para Cinderela era uma história em quadrinhos, inclusive.

No final das contas, será uma outra princesa quem terá sua história contada nesse formato:

— Logo, logo, lançarei minha primeira história em quadrinhos, uma recriação também a partir de um conto de fadas, a Bela Adormecida. Chama-se Adormecida: 100 anos para sempre, e sairá pela Editora 8Inverso — revela Paula, e acrescenta: — Mas sobre ela podemos falar numa próxima entrevista…

***

Ainda sobre o livro Cinderela — Uma Biografia Autorizada: achei muito legal a ideia de Paula Mastroberti de trazer, ao final do livro, o texto completo (e a tradução) de um poema de Charles Baudelaire, retirado do livro Les Fleurs du Mal (As flores do Mal), que, na sua história, foi o que motivou a aproximação de Cinderela com seu príncipe (ele declamava uma frase errada, e ela o corrigia).

Confira o poema, no original:

“Que diras-tu ce soir, pauvre âme solitaire,

Que diras-tu, mon coeur, coeur autrefois flétri,

A la très-belle, à la très-bonne, à la très-chère,

Dont le regard divin t’a soudain refleuri ?

- Nous mettrons notre orgueil à chanter ses louanges :

Rien ne vaut la douceur de son autorité ;

Sa chair spirituelle a le parfum des Anges,

Et son oeil nous revêt d’un habit de clarté.

Que ce soit dans la nuit et dans la solitude,

Que ce soit dans la rue et dans la multitude,

Son fantôme dans l’air danse comme un flambeau.

Parfois il parle et dit : “Je suis belle, et j’ordonne

Que pour l’amour de moi vous n’aimiez que le Beau;

Je suis l’Ange gardien, la Muse et la Madone”.

(Ficou curioso? Então, corra ler o livro e confira a tradução!)

Em vídeos, autores falam do seu trabalho

03 de novembro de 2011 0

Reprodução

Para quem gosta de saber mais sobre o processo criativo dos escritores, uma boa pedida é a série Ao Pé da Estante, composta por 10 vídeos que podem ser conferidos no site do jornal Zero Hora. A produção homenageia a 57ª Feira do Livro da Capital, que segue até o dia 15 na Praça da Alfândega.

Já foram disponibilizados vídeos de Lya Luft, Sérgio Faraco, Tabajara Ruas, Jane Tutikian, João Gilberto Noll e, hoje, Charles Kiefer. De amanhã a segunda-feira poderão ser conferidos também Cintia Moscovich, Armindo Trevisan, Assis Brasil e Carlos Urbim. A cada dia, uma gravação é postada, e todas ficam em uma “estante” virtual, à disposição do internauta/leitor.

Ficou interessado? Clique aqui e confira.

 

Palavra de escritor

28 de fevereiro de 2011 0

 

Reprodução

E as justas homenagens a Moacyr Scliar não param, principalmente na internet.


Para quem quer ouvir mais uma vez as palavras desse grande representante das letras gaúchas (e nacionais), uma dica é acessar o site da L&PM WebTV (www.lpm-webtv.com.br), da editora L&PM, que reproduz o compacto de entrevista concedida tempos atrás pelo escritor, na qual ele fala de sua carreira e de como começou seu amor pelos livros.

Além do compacto de 5min23seg, é possível também conferir a versão completa, com 41min58seg.

Clique aqui para acessar a entrevista na L&PM WebTV.

Literatura em pauta

05 de fevereiro de 2011 0

foto Adriana Franciosi, banco de dados

Um dos representantes das letras gaúchas na Academia Brasileira de Letras (ABL), o escritor Carlos Nejar acaba de ter duas de suas obras relançadas pela editora LeYa Brasil, em versões revistas e ampliadas.

Reproduções

A primeira é uma obra fundamental para quem gosta ou estuda literatura: História da Literatura Brasileira (1.104 págs, R$ 99,90). O livro está à altura de sua extensão, abrangendo desde Pero Vaz de Caminha até autores contemporâneos econcentrando o foco mais nos escritores do que nos gêneros ou nas escolas literárias, como fazem normalmente os trabalhos do gênero.

A nova edição ganhou quatro novos capítulos em relação à anterior, abordando a ficção produzida na década de 1960, a obra de Ariano Suassuna, uma síntese dos autores teatrais e nomes representativos da poesia brasileira nas décadas de 1960 e 1970. Desfilam pelas páginas desde ícones como Machado de Assis até autores mais contemporâneos, como Moacyr Scliar. O volume traz ainda um texto sobre ensaístas, memorialistas, críticos e tradutores.

Os Viventes (560 páginas, R$ 69,90) traz a poesia de Nejar, com 300 novas “criaturas-poemas” em relação à versão anterior _ e em cada uma, ele resgata a essência de cada ser retratado, desde personagens bíblicos ou mitológicos até animais e figuras históricas.

Estão ali, por exemplo, Eva, a mãe da humanidade; Adão, depois da queda; Noé, o construtor da arca; o patriarca Abraão; Tomé, o incrédulo; a orelha de Van Gogh; as múltiplas faces de Da Vinci; Descartes e Schopenhauer; Kant e Nietzche; Napoleão Bonaparte e Dom João VI; Brás Cubas e Hamlet; Fernando Pessoa e Walt Whitman. E muitos, muitos outros, numa sequência interessante e instigante.

Por e-mail, Nejar conversou com o Palavra Escrita, falando de seu trabalho e da literatura brasileira em geral. Confira:

 

Palavra Escrita: Na edição revisada de História da Literatura Brasileira, é incluído o período pós-anos 1960. Na sua opinião, qual o grande nome da nossa literatura surgido neste último meio século?

Existem vários nomes importantes, não um apenas. Há o de Guimarães Rosa, Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto, Lêdo Ivo, Lygia Fagundes Teles, Nelson Rodrigues, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, Moacyr Scliar, entre outros. Não se pode julgar o tempo apenas por um grande autor, mas pelo conjunto que toma sua voz particular e insubstituível. A minha História muda o pólo— dos gêneros — para o da linguagem. Em regra, com exceções, as histórias da literatura publicadas seguem todas o mesmo paradigma didático, repetindo o que foi dito antes. Busquei fazer algo diferente e inédito entre nós. Referi: todas noções de racionalidade ou “paradigmas consolidados”, armaduras envilecidas por grupos ou sistemas, acostumados a querer dar a última sentença , emudecem diante da história, cultura e inventividade de um povo, crendo que o coração humano não tem fronteiras.

 

Palavra Escrita: Como o senhor vê a produção literária brasileira atual?

Vejo-a como a mais alta do mundo contemporâneo. Não temos ainda um prêmio Nobel de literatura, mas breve teremos. É uma imposição de justiça. E foi o que afirmou Carlos Fuentes, certa vez, para Emir Monegal: “Vivemos em países onde tudo está para ser dito mas também onde está para ser descoberto como dizer este tudo”. E vamos descobrindo, de viver; descobrindo de inventar, sendo inventados; descobrindo, principalmente, que é valioso um olhar novo, que não descansa no mais fácil, um olhar comprometido com o futuro. Jamais se aceitando que nenhum Brasil existe, salvo se o mundo contemporâneo for tão míope que não possa ver sua presença, ou tão grande que nele se perca um verdadeiro Continente Cultural — o que é impossível. E se muito se tem aprendido com a literatura européia, a Europa tem muito também que aprender com a criação deste Continente.

 

Palavra Escrita: E a poesia? O Brasil tem bons poetas atualmente?

Excelentes poetas. Basta a citação de alguns nomes — como os de Ivan Junqueira, Lêdo Ivo, Manoel de Barros, Ferreira Gullar , entre outros.

 

Palavra Escrita: Os Viventes, que também ganha nova edição, é uma obra muito bem trabalhada, trazendo desde “criaturas” bíblicas e mitológicas até outras históricas, tudo sob o formato de poema. Como foi o trabalho de produção desse livro?

É um trabalho de mais de 30 anos, uma espécie de “Divina Comédia humana”, através de personagens-poemas — desde Dante Alighieri, Camões, Cervantes, ofícios humanos e terrestres, figuras bíblicas ou mitológicas. Sua primeira edição saiu em 1979 pela Nova Fronteira com sessenta e poucos poemas ; a segunda se alargou com novos livros e viventes, em 1999. Agora é a edição definitiva com 300 poemas inéditos. É uma galeria da condição humana. O meu mais ambicioso livro. Ali está firme a presença do nosso pampa.

 

Palavra Escrita: Para a reedição, foram incluídos 300 novos poemas. Ao todo, o livro tem 560 páginas. Há público leitor para um livro de poesias como esse no Brasil?

Creio que há público leitor, sim, para poesia. Os nossos leitores não querem o fácil, mas a visão mais rigorosa e exigente. São leitores que se vão formando dentro do tempo e buscam, onde estiverem nossos livros. Há uma relação íntima entre criador e leitor que ultrapassa a dimensão mercadológica. Nós inventamos os nossos leitores e os leitores nos inventam. Basta dizer que muitos de nossos se esgotaram dentro deste país, dentro do Brasil, que é o Rio Grande.

 

Palavra Escrita: Falando de mercado consumidor de literatura, como o senhor avalia os índices de leitura no país? O brasileiro ainda lê pouco? Ou isso está mudando?

Seguindo o raciocínio da resposta acima, não podemos ser pessimistas. Com o advento do computador e da fase eletrônica, ainda precisamos basicamente do livro, conquista humana. Se quisermos ler com mais profundidade ou pesquisar mais intensamente. Ainda resta o refúgio dos livros e das bibliotecas. Ademais , apesar de certa mídia pouco fazer pela nossa cultura, os livros, creio, estão mudando a face deste Brasil. Alguns não percebem, mas já estamos no futuro.

 

Palavra Escrita: Nesse universo, há espaço para os autores nacionais, frente à “invasão” de best-sellers estrangeiros?

É lógico que sempre haverá lugar para os autores brasileiros, que devem ser procurados pela qualidade de visão. Os best-sellers , mesmo estrangeiros, não afastam o leitor de uma busca de conhecimento do universo ou do mundo,com a nossa identidade, o que só nossos criadores poderão revelar. O espelho da terra que amamos não está lá fora, está aqui e dentro de nós.



Kirst, o embaixador do livro

31 de julho de 2010 4

Porthus JuniorAjudar a organizar a próxima Feira do Livro de Caxias do Sul, que ocorre de 1º a 17 de outubro, e atuar como anfitrião do evento são duas das missões do jornalista e escritor Marcos Kirst, 44 anos, escolhido esta semana como patrono da 26ª edição da Feira.

Natural de Ijuí e há 18 anos morando em Caxias, Kirst conta que recebeu com surpresa a notícia de que seu nome havia sido escolhido.

— Minha obra ainda é pequena (são cinco livros publicados, sendo um romance, um infanto-juvenil, um sobre a biblioteca municipal e dois sobre empresas), até pensava em ser patrono um dia, mas imaginava que isso aconteceria daqui a 10, 15 anos — revela.

Com a surpresa e a alegria por ter sido escolhido, veio também a consciência do desafio.

— Fiquei surpreso e lisonjeado, mas também preocupado, pois sei da responsabilidade e seriedade que é ser patrono. Caxias, hoje, é um polo gerador de cultura, inclusive na área literária. Nós temos autores que passam das fronteiras regionais e estaduais, estamos nos transformando também num polo produtor de livros. Eu diria que a Feira de Caxias é a segunda mais importante do Estado, é um desafio muito grande, e preciso corresponder — diz Kirst.

Confira nesta entevista um pouco sobre o que o patrono da 26ª Feira do Livro pensa sobre o livro, a leitura e seus desafios à frente do evento:

Como será sua atuação como patrono?

Minha atuação começa agora, ajudando na organização, dando sugestões sobre a programação, nomes a serem trazidos. Durante a feira, é preciso ser o anfitrião, integrar a comunidade que aceita o convite de ir à feira. Na verdade, é preciso atuar como o embaixador do livro e da leitura, que é algo que eu já venho fazendo no meu cotidiano, desde que eu me conheço por gente. Toda a minha vida é pautada pela paixão que eu tenho pelo livro e por tudo que vem dele. Isso transpira em mim em todas as minhas relações pessoais e profissionais, e acho que o convite (para ser patrono) provavelmente tenha vindo também por esse aspecto meu.

O que você mudaria na Feira do Livro?

Uma valorização maior, durante a feira, dos autores locais, no que se refere à disponibilização visual dos seus livros. Já ocorre a valorização deles em mesas-redondas, debates, como patronos, mas seria preciso que os leitores que circulam pelas barracas da feira deparassem mais claramente com os livros produzidos aqui.

A feira passada comercializou 71 mil livros. Foi um crescimento em relação à edição anterior, mas não seria ainda pouco se comparado ao tamanho da população caxiense?

O número de livros vendidos cresce a cada ano na medida em que a população cresce, mas a proporção de leitores em relação à população ainda é pequena no Brasil. Ainda é um número insatisfatório, na minha opinião, por isso, a necessidade desse nosso engajamento, de fazer a nossa parcela no sentido de democratizar a leitura e de demonstrar a importância e o fundamental do ato de ler.

O que fazer para que se leia mais no país?

Apostar, principalmente, no novo leitor. São raros os casos dos que têm a atenção para a literatura despertada depois de adulto. Na maioria dos casos, o leitor adulto teve estímulo e acesso (ao livro) durante a infância. Então é preciso intensificar ações governamentais, não governamentais, pessoais, focando não só o estímulo à leitura entre as crianças, mas principalmente em métodos para manter essa leitura na medida em que as crianças se transformam em adolescentes. É nesse período que esse exército de leitores diminui. Nas feiras do livro há seções enormes dedicadas ao público infanto-juvenil, que são lotadas, você vê crianças com brilho nos olhos pegando os livros, lendo, um percentual muito grande das crianças é leitora. Só que há um momento em que esse encantamento se desfaz, na mudança da infância para a adolescência, que é quando tem a competição com outros estímulos, como a televisão, a internet, etc. Nosso desafio é manter esses leitores, n essa passagem. Como fazer? Não tem uma fórmula mágica, mas a acredito que a atenção deve ficar mais focada aí.

De que modo o poder público poderia contribuir nesse incentivo à leitura?

Na verdade há iniciativas governamentais, tanto em âmbito municipal quanto federal. O que precisa é a comunidade se dar por conta de que esses canais existem. A Biblioteca Municipal, por exemplo, faz aquisições periódicas de obras atuais, é muito fácil chegar na biblioteca e poder retirar, ler de graça, livros que estão na mídia. E se o livro não está lá, dá para dar a sugestão, a chance desse livro logo estar na biblioteca é muito grande. As pessoas têm de aprender a utilizar mais os canais que estão à sua disposição. Na minha opinião, quem quer ler, consegue.

O alto preço dos livros é normalmente apontado como um dos motivos para o baixo índice de leitura no país. Na sua opinião, isso é efetivamente um motivo, ou seria apenas uma desculpa? O que se pode fazer quanto a isso?

Na minha opinião, para muita gente funciona mais como uma desculpa. Claro que o livro na faixa de R$ 30, R$ 50, não são preços baratos, mas aí entra a questão da relativização dos teus interesses, do que realmente é importante para ti. É o valor que você dá às coisas. É comum ouvir “R$ 40 por um livro? Com esse valor eu poderia ir num rodízio de pizza”. Eu uso o raciocínio inverso: “Puxa, R$ 40 por um rodízio de pizza? Com esse valor eu poderia comprar um livro”. É legal ir comer pizza, eu adoro, mas um livro dura a vida toda, outras pessoas ao redor de mim também vão poder ler.

E como é o leitor Marcos Kirst?

Desde os 10 anos, eu não paro de ler. Termino um livro, começo outro. Ler, para mim, é um hábito arraigado, faz parte do meu cotidiano, como comer, dormir. Leio diversos gêneros, de acordo com a vontade do momento; leio o que me dá prazer. Leio todo dia, sempre encontro um tempo para a leitura. Essa máxima que muitos usam, de que não têm tempo para ler, não é verdade. Se uma pessoa acha tempo para ir no cabeleireiro, ou para jogar bola, é porque isso é importante para ela. Sempre se acha tempo para o que se gosta, e se ela gosta de ler, vai achar um tempo para isso. Minha agenda é atribulada, mas o tempo para a leitura sempre existe, no mínimo uma hora por dia.

O que você está lendo atualmente?

Machado de Assis. Estou lendo o volume 2 de uma coleção de contos temáticos, com contos de adultério e ciúme.

'Toda ficção é inspirada na vida real'

26 de maio de 2010 0

foto Flávio Neves, bdNascido em Uberaba (MG) e radicado atualmente em Florianópolis (SC), o escritor Mario Prata acaba de lançar, pela editora Leya, o seu segundo livro policial protagonizado pelo detetive Ugo Fioravanti Neto, Os Viúvos (do qual já falamos em post anterior aqui no blog).
Com uma trama envolvente, divertida e cheia de referências a grandes mestres do gênero, o livro tem uma curiosidade à parte: a ideia surgiu a partir de um problema com a Receita Federal pelo qual passou o próprio autor, e que acabou virando a “motivação” de um dos personagens da trama.
Por e-mail, o autor conversou com o Palavra Escrita. Confira:

Palavra Escrita: A trama central de Os Viúvos gira em torno do problema com o fisco acontecido com o personagem E.R.N., que o motiva a cometer seus “crimes”. Na vida real, foi um problema semelhante que lhe deu a ideia para esse livro. Em que medida a realidade é matéria-prima para um escritor?
Mario Prata:
Toda ficção é baseada, inspirada na vida real. Estava vendo o filme Avatar. Ficção maior do que aquela é impossível, não é mesmo? Mas é real demais. O imperialismo americano cru e nu, não é mesmo? Aquele povo azul me parece muito com os brasileiros pós-golpe de 64. Nas mãos deles.
No caso de Os Viúvos, não pretendia escrever sobre o assunto da Receita Federal, mas a coisa foi ficando tão absurda, tão irreal, tão com cara de ficção que eu não tive alternativa. Tive que enfrentar os caras com as minhas teclas. O Brasil é uma ficção, meu cara. Cada vez está mais fácil escrever. Fazer humor então, nem se fala. Eu não consigo ver um deputado na televisão e não rir. Todos eles são personagens. Péssimos, pobres, com as mesmas falas, os mesmos golpes. A Justiça brasileira é CEGA MESMO.

Palavra Escrita: O livro é ambientado em Florianópolis, onde você vive há nove anos. Isso reforça a tese de que o escritor deve escrever sobre o que conhece, ou foi uma escolha ao acaso?
Mario Prata:
É impressionante o que vem ocorrendo com o lançamento do livro. Todas as entrevistas a mesma pergunta: por que Florianópolis? É incrível. E eu repondo: por que não? Por que toda a literatura brasileira tem que passar pelo eixo Rio-São Paulo ou pelo nordeste? Floripa ainda não foi muito cantada em prosa e verso. É meio virgem. E, como toda virgem, cativante, nos chamando, se oferecendo com toda a sua beleza.

Palavra Escrita: Outra característica marcante do romance é a intertextualidade com outros autores. Isso é uma constante de todas as suas obras? Qual a motivação/importância desse intercâmbio com os grandes autores do gênero?
Mario Prata:
Não, não é constante.  Começou com o primeiro policial com o Fioravanti, o Sete de Paus. Há cinco anos estou lendo só policiais, enquanto estou escrevendo, e, ao ler, vou anotando e imaginando aquele texto dentro do meu. Mas é claro que coloco aspas e dou a fonte. Mais ainda, dou uma pequena biografia do autor do texto chupado, no final do livro.

Palavra Escrita: As 63 notas de rodapé, detalhando os personagens: como surgiu essa ideia?
Mario Prata:
O maior escritor de romances policiais de todos os tempos, Georges Simenon, perseguia o que ela chamava de “romance puro”, um texto onde não entrasse nada que não fosse da trama principal. Descrição de cidades, de roupas, cheiros, etc, que não acrescentem nada à história. E eu acho que a descrição do personagem, no corpo do livro, “suja” um pouco. Comecei isto também com o Sete de Paus. Gostei e acho que o leitor também gostou. É uma respirada.

Palavra Escrita: Já está em desenvolvimento alguma nova história com o detetive Ugo Fioravanti Neto?
Mario Prata:
Sim, serão — pelo menos é o que penso hoje — cinco histórias com ele. Sim, já tenho as outras três. Mas o próprio Fiora me proibiu de contar. Vai ser um por ano. E já tem um canal de televisão atrás do cara. Mas o que eu queria mesmo era fazer cinema com ele. Aqui, em Floripa. Um policial nada noir, mas a céu aberto, na areia.

Uma vida entre obras raras

25 de maio de 2010 1

Foto Tatiana CavagnolliA Fundação Biblioteca Nacional é a nona maior biblioteca do mundo e a maior da América Latina, com mais de 12 milhões de obras. Entre elas estão muitos livros considerados raros, por sua antiguidade e por sua importâncias histórica — o número exato não está contabilizado, mas esse setor tem 2,1 quilômetros de prateleiras repletos de publicações, o que dá uma ideia da dimensão do acervo.

No comando da Divisão de Obras Raras está a bibliotecária Ana Virginia Pinheiro, 52 anos, que desde 1982 trabalha no setor e o chefia desde 2004. Ana, que nesta terça-feira palestra em Caxias do Sul durante o 3º Seminário Internacional de Literatura e Leitura. Ela conta ao blog Palavra Escrita um pouco mais sobre a divisão que dirige:

— A Divisão de Obras Raras abriga livros que pertenciam à biblioteca real que a corte portuguesa trouxe para o Brasil, em 1808, incluindo obras dos séculos 15 e 16, desde que Gutemberg criou a tipografia, e também os primeiros livros impressos no Brasil — revela.

Há raridades ainda mais antigas, como obras artesanais do século 11, com mil anos de idade.

— São livros que permanecem com o passar do tempo, antigos e de importância histórica, ou de importância dentro de determinada área — explica Ana Virginia.

Ela conta que todo o acervo está microfilmado e digitalizado e pode ser acessado inclusive a distância, mas o público também pode ter acesso à obra em si caso isso for necessário para uma pesquisa, por exemplo.

— Esses novos suportes (como a digitalização) multiplicam o acesso ao material e auxiliam na conservação dos originais, porque eles são menos manuseados, mas nada substitui o acesso ao livro original — defende.

E quem pode ter acesso ao acervo de obras raras? Como a Biblioteca Nacional é uma biblioteca pública — erudita, é verdade, mas pública —, explica a chefe do setor, todos podem ter acesso, desde que sejam maiores de 18 anos. Para isso é preciso preencher um cadastro, explicar o motivo da consulta a determinada obra e levar cartas de apresentação. É um acesso controlado, com restrições (ou seja, não vale querer olhar os livros apenas por curiosidade), mas há acesso.

Ana Virginia, também autora de O que é livro raro, publicado nos anos 1980, enumera alguns fatores que podem caracterizar uma raridade literária. O primeiro, claro, é a antiguidade — um livro de 500 anos será uma raridade, independente do conteúdo. Outro é a contrafação, ou seja, obras que antigos impressores imprimiam como se fossem de um determinado autor que estava em voga na época. Há ainda os livros de importância histórica, como livros proibidos na época da ditadura que tiveram exemplares escondidos ou recuperados por alguém, e os de importância em determinada área do conhecimento científico e que não são mais editados.

Um livro que reúne importância científica, histórica e antiguidade é Divina Proportione, escrito em 1509 por Luca Paciol e ilustrado por ninguém menos que Leonardo Da Vinci. Esse era um dos livros que estavam no “cemitério” da Biblioteca Nacional, ou seja, entre as obras que não podem ser mais manuseadas, devido ao seu desgaste. Para não perder o conhecimento guardado em obras como essa, das quais existem poucos exemplares no mundo, a Fundação desenvolveu o Projeto Fênix, que, com o patrocínio do BNDES, lançou edições facsimilares de cerca de 100 livros raros.

Editados em papel pela própria Fundação Biblioteca Nacional, os exemplares reproduzem as páginas de texto e ilustrações originais – no caso de Divina Proportione, com os textos originais em latim e italiano e as ilustrações de Da Vinci. Outra obra que entrou no projeto é Frutos do Brasil, de Antonio do Rosário, também com quase 500 anos.

Esses livros facsimilares podem ser comprados na livraria da Fundação Biblioteca Nacional ou baixados no site da instituição, o www.bn.br — onde também pode ser encontrado boa parte do acervo digitalizado da Biblioteca.

Contato permanente com os leitores

24 de maio de 2010 0

foto Tatiana CavagnolliAutor de 112 obras, sendo 75 delas infanto-juvenis, sete para adultos e 30 de teatro, o escritor Ignacio Martínez diz que prefere escrever para os jovens leitores.

- O mundo é deles – justifica o escritor, que abre na noite desta segunda-feira o 3º Seminário Internacional de Literatura e Leitura, em Caxias do Sul.

Além disso, diz, os adultos têm menos tempo para a leitura. E os jovens, garante, ainda leem muito, mesmo com o advento da internet e das múltiplas opções de entretenimento.

- Eles sempre voltam aos livros. E a principal preocupação é que eles leiam, seja livros, seja internet – explica.

E como escrever para esse público?

- Para começar, é preciso conhecer o público leitor que se quer atingir: saber como ele vive, como fala, o que procura. E escrever numa linguagem clara, não fácil, mas clara, falar para eles – ensina Martínez.

Para conseguir isso, o escritor mantém contato permanente com crianças e adolescentes. Isso é gratificante, pois também ensina muito a quem escreve, diz. Além disso, também proporciona situações engraçadas:

- Um menino me disse um dia que se admirou em me conhecer, por eu ser um autor vivo. Ele achava que todos os escritores eram autores já mortos – conta.

Esse desmistificar a figura do escritor, acredita o uruguaio, ajuda a aproximar o jovem do livro. Se ele gostar do contato, vai ler mais livros do autor, e livros em geral.

Martínez tem 54 anos, mora em Montevidéo e passou 10 anos viajando pelo mundo. Escreve desde criança, mas publicou seu primeiro conto 30 anos atrás. Hoje, escreve muitos livros de aventura, mesclados com história, temas ambientais, animais, poemas e canções. Tem livros em vários países e já esteve três vezes em Caxias, conversando com estudantes.

- Mesmo falando no meu portunhol, eles me entendiam. Criança entende – relata.

O escritor é vencedor de vários prêmios, sendo o mais recente o Prêmio Hispanoamericando de Dramaturgia pela obra de teatro musical O Bosque dos Meus Livros, concedido em abril em Washington, nos EUA, pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Martínez mantém o site www.ignacio-martinez.com. Confira alguns livros do autor:

- El libro de todos

- La Fantástica Historia de una Granja Rebelde y el Secreto de un Rio

- Los Fantasmas de La Escuela

- Cuentos para Antes de ir a Dormir

- Franca, La Ballena Valiente