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Resenha: 'Dias Perfeitos'

02 de junho de 2014 0
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Téo é um jovem e aplicado estudante de Medicina, dedicado e carinhoso para com a mãe presa à uma cadeira de rodas. Parece o acadêmico perfeito e o filho perfeito. No entanto, ele age assim “pois é assim que os filhos amorosos devem agir”, descobre logo o leitor de Dias Perfeitos (Companhia das Letras, 274 páginas, R$ 35), segundo romance do carioca Raphael Montes.

Pouco antes, ainda no final do primeiro capítulo, acompanhamos outro mergulho esclarecedor na mente do personagem: “Pessoas apareciam e ele era obrigado a conviver com elas. Pior: era obrigado a gostar delas, mostrar afeto. Não importava sua indiferença desde que a encenação parecesse legítima, o que tornava  tudo mais fácil.” Por aí o leitor já tem uma ideia da personalidade de Téo, que, na sequência, vai se revelar frio e capaz de crueldades inimagináveis. Ou, em outras palavras, um psicopata, embora o termo não apareça no livro.

Mas voltemos à trama, que começa com Téo em uma aula de anatomia, divagando sobre uma suposta amizade com Gertrudes — que, percebemos ainda nos primeiros parágrafos, é o cadáver deitado à sua frente, o que também diz muito sobre o caráter solitário e um tanto mórbido do rapaz. Na sequência, acompanhamos a ida de Téo a uma festa, praticamente obrigado pela mãe.  É ali que ele conhece Clarice, uma moça moderna e divertida que torna-se a primeira pessoa a despertar algum sentimento nele. Para Téo, é amor. Para o leitor, obsessão.

Às escondidas, o estudante começa a acompanhar todos os passos da moça, até que uma noite a encontra caída, bêbada, numa calçada e se oferece para levá-la para casa. E é então que Clarice comete seu segundo erro (o primeiro foi flertar com Téo na festa): diz para a mãe que o jovem é seu namorado. Emocionado, ele incorpora o personagem, e no dia seguinte aparece com um presente para ela.

Quando Clarice diz que só estava brincando e que ele deve largar do seu pé, Téo reage violentamente e acaba sequestrando-a. Tem início, assim, uma jornada doentia que passa por uma cabana de hotel em Teresópolis, um motel na beira da estrada e uma praia deserta em Ilha Grande. As percepções, mais uma vez, divergem: para ele, é uma espécie de lua de mel; para ela, um suplício.

A tensão vai crescendo ao longo das páginas, criando um suspense que deixa o leitor ansioso: o que será que vai acontecer? Clarice vai escapar dessa? Téo será descoberto? E como, afinal, essa história irá terminar? Eu, que há anos costumo invariavelmente adivinhar o final das histórias que leio lá pela metade do livro, posso dizer que fui surpreendida. O final soa, ao mesmo tempo, inusitado e o único possível, reafirmando o fato de o enredo ser muito bem elaborado.

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Agora, destaque para três detalhes relativos ao livro e ao autor:

- Uma curiosidade é a intertextualidade presente no texto. O hotel onde o “casal” se hospeda é o Hotel Fazenda Lago dos Anões, com cada uma das sete cabanas recebendo o nome de um anão da Branca de Neve; o motel onde passam uma noite é Motel das Maravilhas, com direito ao recepcionista dizendo “Estou muito atrasado!”, enquanto olha para o relógio como o coelho de Alice; e a praia deserta onde vão é a Praia do Nunca. Por fim, o próprio título do romance é o mesmo de um roteiro que a personagem Clarice está escrevendo.

- Raphael Montes, autor do livro, tem apenas 24 anos (lançou sua primeira obra, Suicidas, aos 20, e ela se tornou finalista de diversos prêmios importantes) e vem sendo apontado como uma das revelações da literatura brasileira. Dias Perfeitos está ganhando tradução para outros idiomas e deve virar filme, e o escritor já deu até entrevista no Programa do Jô. Apesar da pouca idade, Raphael demonstra pleno domínio da estrutura narrativa, unindo uma boa história a um bom texto (algo raro entre autores jovens).

- Apenas um porém em relação às muitas matérias e resenhas do livro que li por aí: eu não o classificaria como romance policial. É um thriller de suspense, sim, mesclado com drama, e flerta um pouco com o romance noir, mas, apesar de termos um psicopata na história, falta o elemento da investigação, básico nas tramas policiais (tem um policial que aparece lá pelo fim, mas ele não pode sequer ser chamado de personagem secundário, está quase como um “figurante”). O que de forma alguma depõe contra o romance, somente o encaixa noutra classificação.

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Apartes à parte, Dias Perfeitos é leitura de primeira. Só não vale reclamar da violência, pois ela é um dos elementos centrais da história…

Resenha: 'Adormecida'

10 de junho de 2013 0

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Todo mundo conhece a história da Bela Adormecida, e muitas meninas, com certeza, já sonharam em ser acordadas pelo beijo de um príncipe encantado. Mas já pensaram como seria, de verdade, acordar depois de um século, ou mesmo depois de décadas, e encontrar o mundo totalmente mudado, além de todas as pessoas que você conheceu estarem mortas? Pois a escritora Anna Sheehan pensou, e assim nasceu Adormecida (Lua de Papel, 272 páginas, R$ 32,90).


O livro foi lançado em meados do ano passado, mas como ainda não havia falado dele por aqui resolvi fazer isso agora — até porque a releitura de contos de fada está cada vez mais na moda, vide a proliferação de filmes (e livros) do gênero.

Pois bem. Como a minha introdução acima deixa entrever, nesse livro o conto de fadas ganha tons bem mais sombrios que no original. É verdade que nele não há bruxas, mas, mesmo sem feitiços, a protagonista Rose Fitzroy dorme por mais de 60 anos. Acorda, como no conto, com um beijo, dado por Brendan, garoto que acidentalmente encontrou o tubo em que ela era mantida adormecida por um processo químico comum nos tempos em que ela vivia inicialmente.

Apesar da atração imediata que ela sente pelo rapaz, filho de uma das executivas da grande e milionária corporação fundada décadas antes pelo pai dela, Rose sente também um aperto no coração: afinal, antes de ser colocada em estase, como chama o período de sono artificial, ela já tinha o seu príncipe, Xavier. Que agora, como tudo mais que ela conhecia, não existe mais.

Durante os anos em que dormia ocorreram os Tempos Sombrios, em que grande parte da população foi dizimada pela fome e por doenças. Para piorar, o longo tempo ligada à máquina de estase a deixou fraca, e ela mal consegue andar. Na escola em que a colocam, sente-se deslocada, diferente. A paixão que sente por Brendan, mesclada às saudades de Xavier, não é correspondida, o que aumenta o seu sofrimento enquanto vai aos poucos se recuperando fisicamente.

Como ela ainda é a herdeira da UniCorp, é colocada no seu antigo apartamento, sob os cuidados de tutores nem um pouco carinhosos — afinal, apesar das seis décadas adormecidas, ela ainda tem apenas 16 anos. Seu súbito reaparecimento, depois de ser dada como morta por tanto tempo, chama a atenção da mídia, mas não só dela: uma espécie de robô assassino começa a persegui-la, tentando matá-la. Em quem ela poderá confiar?

A história, repleta de flashbacks sobre sua vida anterior, traz muitas surpresas. Lá pelos capítulos finais, o leitor pode se preparar para ficar indignado e, também, emocionado. Isso pode parecer estranho em se tratando de um conto de fadas modernizado, mas garanto: Adormecida tem questões existenciais e algumas reviravoltas que, decididamente, não estavam na história que sua mãe lhe contou…