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Resenha: 'Ressurreição'

15 de junho de 2014 1
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Alguém bate à porta de uma residência, numa cidadezinha do interior. O dono da casa vem atender, e junto ao homem que bateu, vê um menino de aproximadamente oito anos. Ele acha que o conhece de algum lugar, mas é só quando o garoto diz uma piada e corre abraçá-lo que o reconhece com certeza: é Jacob, seu filho. O garoto poderia ter simplesmente se perdido e sido trazido para casa por quem o encontrou, mas não. Isso porque Harold Hargrave tem mais de 70 anos, e Jacob, seu único filho, morreu afogado há quase meio século.

Assim começa Ressurreição (Verus Editora, 330 páginas, R$ 35), romance de Jason Mott que deu origem à série de TV Resurrection, cuja primeira temporada terminou há cerca de dez dias, no canal pago AXN. O livro, que devorei entre a noite de sexta e a tarde de sábado — afinal, eu simplesmente não podia esperar pela próxima temporada do seriado! —, tem algumas diferenças em relação à versão televisiva, o que quase sempre ocorre em adaptações.

Para começar, enquanto na série de de TV Jacob é o primeiro “ressurgido”, no original ele pode ser o primeiro de Arcadia, a cidadezinha onde se passa a trama, mas não do mundo: enquanto Harold atende à porta, sua esposa, Lucille, está vendo na TV os tumultos causados em outras partes do país por causa dos Ressurgidos. O casal, inclusive, já havia discutido como seria se o filho voltasse — o que, na minha opinião, tira um pouco do impacto do retorno do garoto do mundo dos mortos.

Antes de continuar, um aparte para aqueles que não acompanham Resurrection na TV: não se trata, de forma alguma, de uma trama sobre zumbis. Os Ressurgidos, ou ressuscitados, são aparentemente pessoas normais, que simplesmente aparecem em algum lugar anos depois de sua morte, iguaizinhos a como eram até morrer. Jacob, por exemplo, foi localizado numa aldeia chinesa, enquanto outros ex-mortos de lugares distantes aparecem em Arcadia.

Ninguém sabe o que desencadeou o fenômeno, e as reações a ele variam muito — algo que, no livro, fica bem mais claro do que na série (ponto para o original). Enquanto alguns ficam felizes por terem seus entes queridos de volta, creditando as ressurreições a um milagre, outros acusam os Ressurgidos de serem demônios. Aos poucos, seja no livro, seja na TV, o número dos que voltaram cresce em demasia, e os problemas relativos a isso, também.

No seriado, a raiva do policial Fred porque sua mulher morta voltou e preferiu o amante a ele é que desencadeia a tentativa do Exército de prender todos os Ressurgidos num único lugar. No livro, Fred é apenas um produtor rural cuja mulher não voltou e que, por isso, comanda protestos dos “vivos autênticos” contra os que voltaram e que, naquele momento, foram reunidos pelas forças do governo nas dependências da escola — os “vivos autênticos” que se negam a deixá-los também ficam ali, presos. Aos poucos, o espaço ocupado vai se expandindo, transformando toda a cidade numa espécie de campo de concentração.

E se na série o agente Martin Bellamy é da imigração e envolveu-se por acaso com os Ressurgidos, ao trazer Jacob de volta para casa, no livro ele integra a Agência Internacional para os Ressurgidos. Sua essência, entretanto, é a mesma: ele é um homem bom, como Harold repete várias vezes, e quer proteger Jacob e os outros “iguais a ele”. Não há muito, porém, que ele possa fazer.

Um outro ponto a favor do livro é que, enquanto o leitor acompanha a agonia da família Hargrave sobre o que acontecerá Jacob, acompanha também, em curtos relatos ao final de cada capítulo, a confusão e os dilemas de outros Ressurgidos. O desenlace da trama, inicialmente, deixou-me com uma sensação de anticlímax, mas, depois, fiquei pensando sobre ele e concluí que não poderia ser diferente.

Ficou curioso? Bom, vai ter de aguardar as próximas temporadas, ou ler o livro, para saber mais…

***

Curiosidades:

- No seriado, diferentemente do livro, os pais de Jacob são Henry e Lucille Langston, e não Harold e Lucille Hargrave; além disso, o tempo decorrido entre a morte e a volta do garoto é maior no livro: quase 50 anos, contra 30 na versão para a TV

- Na série, Fred (Langston, e não Green, como no livro) é também tio de Jacob, e sua mulher, Mary, morreu no mesmo dia do garoto, também afogada no rio; no livro, ela morreu algum tempo depois, de câncer

- A médica Maggie Langston, filha de Fred na versão televisiva, não aparece no livro

- Em ambas as versões, o pastor da igreja local (cujo nome é Robert Peters no livro e Tom Hale na TV) busca fazer as pessoas terem paciência e aceitarem os Ressurgidos; e, em ambas, ele tem alguém do seu passado que volta — mas, no livro, não é sua ex-mulher, mas sim uma antiga namorada da adolescência

- No livro, o pastor não foi colega de Jacob na escola, visto que ele tem pouco mais de 40 anos, e Jacob, se não tivesse morrido, já teria mais de 50

- No livro, os Ressurgidos que são assassinados não voltam novamente, como ocorre na adaptação

- O livro foi lançado ano passado nos Estados Unidos; no Brasil, chegou em fins de abril, já com a série passando no AXN.

Resenha: 'Dias Perfeitos'

02 de junho de 2014 0
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Téo é um jovem e aplicado estudante de Medicina, dedicado e carinhoso para com a mãe presa à uma cadeira de rodas. Parece o acadêmico perfeito e o filho perfeito. No entanto, ele age assim “pois é assim que os filhos amorosos devem agir”, descobre logo o leitor de Dias Perfeitos (Companhia das Letras, 274 páginas, R$ 35), segundo romance do carioca Raphael Montes.

Pouco antes, ainda no final do primeiro capítulo, acompanhamos outro mergulho esclarecedor na mente do personagem: “Pessoas apareciam e ele era obrigado a conviver com elas. Pior: era obrigado a gostar delas, mostrar afeto. Não importava sua indiferença desde que a encenação parecesse legítima, o que tornava  tudo mais fácil.” Por aí o leitor já tem uma ideia da personalidade de Téo, que, na sequência, vai se revelar frio e capaz de crueldades inimagináveis. Ou, em outras palavras, um psicopata, embora o termo não apareça no livro.

Mas voltemos à trama, que começa com Téo em uma aula de anatomia, divagando sobre uma suposta amizade com Gertrudes — que, percebemos ainda nos primeiros parágrafos, é o cadáver deitado à sua frente, o que também diz muito sobre o caráter solitário e um tanto mórbido do rapaz. Na sequência, acompanhamos a ida de Téo a uma festa, praticamente obrigado pela mãe.  É ali que ele conhece Clarice, uma moça moderna e divertida que torna-se a primeira pessoa a despertar algum sentimento nele. Para Téo, é amor. Para o leitor, obsessão.

Às escondidas, o estudante começa a acompanhar todos os passos da moça, até que uma noite a encontra caída, bêbada, numa calçada e se oferece para levá-la para casa. E é então que Clarice comete seu segundo erro (o primeiro foi flertar com Téo na festa): diz para a mãe que o jovem é seu namorado. Emocionado, ele incorpora o personagem, e no dia seguinte aparece com um presente para ela.

Quando Clarice diz que só estava brincando e que ele deve largar do seu pé, Téo reage violentamente e acaba sequestrando-a. Tem início, assim, uma jornada doentia que passa por uma cabana de hotel em Teresópolis, um motel na beira da estrada e uma praia deserta em Ilha Grande. As percepções, mais uma vez, divergem: para ele, é uma espécie de lua de mel; para ela, um suplício.

A tensão vai crescendo ao longo das páginas, criando um suspense que deixa o leitor ansioso: o que será que vai acontecer? Clarice vai escapar dessa? Téo será descoberto? E como, afinal, essa história irá terminar? Eu, que há anos costumo invariavelmente adivinhar o final das histórias que leio lá pela metade do livro, posso dizer que fui surpreendida. O final soa, ao mesmo tempo, inusitado e o único possível, reafirmando o fato de o enredo ser muito bem elaborado.

***

Agora, destaque para três detalhes relativos ao livro e ao autor:

- Uma curiosidade é a intertextualidade presente no texto. O hotel onde o “casal” se hospeda é o Hotel Fazenda Lago dos Anões, com cada uma das sete cabanas recebendo o nome de um anão da Branca de Neve; o motel onde passam uma noite é Motel das Maravilhas, com direito ao recepcionista dizendo “Estou muito atrasado!”, enquanto olha para o relógio como o coelho de Alice; e a praia deserta onde vão é a Praia do Nunca. Por fim, o próprio título do romance é o mesmo de um roteiro que a personagem Clarice está escrevendo.

- Raphael Montes, autor do livro, tem apenas 24 anos (lançou sua primeira obra, Suicidas, aos 20, e ela se tornou finalista de diversos prêmios importantes) e vem sendo apontado como uma das revelações da literatura brasileira. Dias Perfeitos está ganhando tradução para outros idiomas e deve virar filme, e o escritor já deu até entrevista no Programa do Jô. Apesar da pouca idade, Raphael demonstra pleno domínio da estrutura narrativa, unindo uma boa história a um bom texto (algo raro entre autores jovens).

- Apenas um porém em relação às muitas matérias e resenhas do livro que li por aí: eu não o classificaria como romance policial. É um thriller de suspense, sim, mesclado com drama, e flerta um pouco com o romance noir, mas, apesar de termos um psicopata na história, falta o elemento da investigação, básico nas tramas policiais (tem um policial que aparece lá pelo fim, mas ele não pode sequer ser chamado de personagem secundário, está quase como um “figurante”). O que de forma alguma depõe contra o romance, somente o encaixa noutra classificação.

***

Apartes à parte, Dias Perfeitos é leitura de primeira. Só não vale reclamar da violência, pois ela é um dos elementos centrais da história…

Resenha: 'Arrabal e a Noiva do Capitão'

25 de maio de 2014 0
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Tenho defendido aqui no blog que os leitores descubram o que há de bom na literatura brasileira — e, com isso, não refiro aos autores clássicos e consagrados, como Machado de Assis e Graciliano Ramos, por exemplo — que já têm seu lugar garantido na lista de boas leituras —, mas aos escritores contemporâneos, que existem e, muitas vezes, acabam deixados de lado pela velha máxima de que santo de casa não faz milagre.

Pois bem. Hoje quero partilhar uma recente descoberta minha nesse universo da nova literatura brasileira, o belo romance Arrabal e a Noiva do Capitão, da carioca Marisa Ferrari. A trama, muito bem urdida, passa-se em Nápoles, na Itália, em meados do século 18. No primeiro capítulo, que bem poderia ser o prólogo da história, encontramos uma jovem mulher, Gioconda, dando à luz os filhos gêmeos Giuseppe e Giordano. Na sequência, as crianças estão com sete anos e, durante uma brincadeira, começam a brigar pela posse de um boneco, para desespero da mãe, que vem sofrendo dos nervos.

A história então salta três décadas, com os irmãos já adultos. Diferentes já na infância, eles seguiram caminhos totalmente diversos ao crescer: Giordano, o orgulho do pai, virou capitão da guarda do re; Giuseppe adotou o nome de Arrabal, o poeta, e apresenta-se de cidade em cidade com uma trupe de atores itinerantes. Enquanto o primeiro é sempre bem recebido no palácio da família, o segundo, que costuma circular vestido de Arlecchino e com a indefectível máscara da commedia del’arte no rosto, só pode entrar na casa às escondidas, pois não é bem-vindo.

Há anos os gêmeos não se encontram, mas, agora, trinta anos após aquela briga pelo marionete feito pelo avô, Arrabal e Giordano vão estar ao mesmo tempo em Nápoles. Ao chegar em casa, o capitão descobre que seu pai lhe arrumou uma noiva, e, apesar da obediência de sempre, revolta-se, pois não tem intenção de se casar. Seus sentimentos, entretanto, serão balançados quando ele conhecer a linda Luigia.

Tudo iria bem se não fosse o fato de a moça, filha do poderoso duque de Medinacelli, ter ido escondida ver uma apresentação da trupe de Arrabal — e se apaixonado por ele, sendo automaticamente correspondida. Luigia, entretanto, não fica imune ao charme rude de Giordano, tão idêntico a Arrabal na aparência mas tão diferente na essência, como se fosse o seu oposto.

E assim, a velha disputa dos irmãos se reacende, dessa vez com o boneco substituído por uma bela mulher — a quem os dois irmãos, ambos mulherengos assumidos, querem dedicar todo seu amor. Uma escolha terá de ser feita, e, enquanto ela vai se desenhando, o leitor vai sendo, como Luigia, seduzido tanto pelo charme e o mistério de Arrabal quanto pela coragem e a fragilidade escondida de Giordano.

Lançado pelo selo Novas Páginas, do grupo editorial Novo Conceito, o livro tem 368 páginas e custa R$ 29,90.

Resenha: 'O Jogo de Ripper'

22 de maio de 2014 0
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Uma vidente famosa dá o aviso: vai ocorrer um banho de sangue em São Francisco. Ninguém, entretanto, acredita muito nisso — nem mesmo sua afilhada, Amanda Martín, uma estudante introvertida cujo passatempo preferido jogar RPG online. Quando um crime realmente acontece, a jovem, ainda descrente da previsão da madrinha, convoca seus amigos do jogo de Ripper para tentar solucioná-lo, e aos outros crimes que ocorrem na sequência.

Assim começa O Jogo de Ripper (Bertrand Brasil, 490 páginas, R$ 50), mais recente livro da consagrada escritora chilena Isabel Allende — que já havia mostrado sua versatilidade com a série juvenil As Aventuras da Águia e do Jaguar e agora resolveu se aventurar num novo gênero, o romance policial (lembrando que ela é casada com o romancista policial William C. Gordon, que esteve em Caxias do Sul na Feira do Livro do ano passado).

Na trama, Amanda é ajudada em sua investigação pelo avô, Blake Jackson, e pelos parceiros do Ripper, espalhados por vários pontos do globo. Quem não gosta muito do hobby da menina são seus pais, o inspetor-chefe Bob Martín (encarregado de investigar os casos) e a curandeira Indiana. Esta última, que engravidou ainda adolescente e separou-se de Bob logo depois, vive cercada de admiradores, como o ex-soldado Ryan Miller e o namorado Alan Keller.

Aos poucos, o grupo do Ripper percebe que a morte do vigia de uma escola tem relação com outras que acontecem nos meses seguintes, embora as vítimas aparentemente não se conhecessem e as mortes em si sejam diferentes. O inspetor-chefe reluta em acreditar nas deduções da filha, mas então mais um assassinato ocorre e Indiana desaparece… Agora que prender o serial killer se tornou uma questão pessoal, Amanda vai levar o jogo ainda mais a sério.

Uma curiosidade é que um personagem secundário da trama, o detetive particular Samuel Hamilton Jr., é “filho” do protagonista dos livros de Gordon — o próprio marido da autora é citado umas duas ou três vezes nas páginas, meio que de passagem.

Embora Isabel Allende tenha declarado, em entrevistas, que criou personagens um tanto quanto caricatos, numa brincadeira com o gênero, ela conseguiu reunir no livro todos os elementos de uma boa trama policial. Por vezes, as digressões sobre a vida pessoal ou profissional de alguns personagens parecem um pouco deslocadas, mas aos poucos o leitor vai percebendo que elas serão essenciais para o desdobrar dos acontecimentos e para a solução do mistério (atenção, leitor: estou dando uma pista importante se você é daqueles que entra no jogo do autor e tenta encontrar o culpado antes do final!).

E falando em pistas, há também muitas pistas falsas, armadilhas para o leitor, que pensa que descobriu tudo e, quando vê, estava indo pelo caminho errado — ou não, pois as coisas podem mudar novamente, e aquele suspeito que parecia descartado voltar ao foco. Minha dica, então, para quem quer jogar O Jogo de Ripper, é prestar muita atenção a tudo, desconfiar de todos, e seguir a velha máxima dos detetives policiais da ficção: tirando o impossível, o que resta, por mais improvável que pareça, é a solução…

Resenha do leitor: 'Necrose Moral'

13 de abril de 2014 0

O blog também quer abrir espaço para o leitor. Por isso, inauguramos hoje a seção Resenha do Leitor. E a primeira resenha foi enviada pela leitora Norma Stagi, que se define como “apaixonada por literatura e devoradora de livros digitais compulsivamente”.

Ela fala do romance Necrose Moral, de Ráyel G. C. Barroso. Confira:

 

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Necrose Moral é um romance de aventura ambientado no Brasil que conta a saga de Ramos, um militar, que ao investigar as circunstâncias de um acidente aéreo se depara com segredos que podem comprometer pessoas muito poderosas e até mudar o rumo das eleições presidenciais.

A partir daí, ele passa a ser considerado uma ameaça, vai ser acusado do assassinato da presidenta da República e será caçado impiedosamente.

Enquanto tenta descobrir a verdade por trás dessas acusações, ele terá de utilizar todos os conhecimentos em operações especiais para sobreviver aos seus inimigos. Ramos vai expor a necrose moral em um cenário político no qual tudo é justificado quando o assunto é poder e dinheiro.

É um livro impressionante, dinâmico e atual com um desfecho surpreendente.”

Resenha: 'A Filha do Louco'

11 de abril de 2014 0
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Já se passaram mais de cem anos desde que H.G. Wells, um dos pioneiros da ficção científica, escreveu A Ilha do Dr. Moreau, em que encontramos um cirurgião envolvido em experiências macabras que objetivam transformar animais em humanos. Agora, as mesmas discussões sobre os limites da ciência e da ética são retomados pela escritora Megan Shepherd sob um ângulo diferente: o da filha do médico, que ainda sofre as consequências do escândalo que envolveu seu pai e destruiu sua família seis anos antes.

No recém-lançado romance A Filha do Louco (Novo Conceito, 416 páginas, R$ 32,90), encontramos a jovem Juliet, que passou a infância entre os luxos da alta sociedade. Aos dez anos, porém, ela viu seu pai amado e até então respeitado ser acusado de crueldade com os animais pela prática da vivissecção — uma espécie de dissecação com os animais vivos. Para não ser preso, o dr. Moreau foge e é dado como morto, enquanto a mulher e a filha perdem tudo o que têm. Poucos anos depois, a mãe também morre, e Juliet sobrevive trabalhando como faxineira, escovando o chão nos laboratórios da faculdade de Medicina, a mesma em que seu pai lecionava antigamente.

Com poucas expectativas a não ser escapar das mãos de um professor que a persegue pelos corredores da faculdade, Juliet tem sua vida novamente transformada quando encontra uma pista de que o pai pode estar vivo. Decidida a encontrá-lo e a descobrir se ele é mesmo o monstro que todos dizem ou se é apenas um gênio incompreendido, ela parte para a ilha remota em que ele se refugiou, na companhia de Montgomery — um belo rapaz que foi criado da família e agora trabalha como assistente do médico em suas experiências.

Na chegada à misteriosa ilha do dr. Moreau, Juliet e Montgomery ainda terão a companhia de Edward, um náufrago que o navio recolheu no caminho. O velho médico não parece muito satisfeito com o hóspede, nem dedica à filha toda a atenção que ela esperava, mas os deixa ficar. A tranquilidade da estadia, entretanto, é quebrada com uma sequência de mortes misteriosas e com as descobertas da jovem sobre o que seu pai e Montgomery fazem até altas horas no laboratório.

Além do medo do assassino e da mistura de fascinação e horror em ver do que o pai é capaz, Juliet ainda se sente dividida entre Montgomery, sua paixão desde a infância, e Edward, por quem sente intensa atração e para quem seu pai a empurra — afinal, ele é de “boa família”, e não um simples empregado como o outro. Quando os ataques aos habitantes da ilha se intensificam, porém, as dúvidas do coração ficam em segundo plano: as prioridades são capturar o monstro responsável pelas mortes, e fugir dali o quanto antes…

Recheado de suspense, o livro é daqueles para virar a noite lendo, tão difícil é largá-lo antes do fim. E, como toda boa releitura de um clássico, ainda deixa o leitor com vontade de (re) ler a obra original. 

 

Resenha: 'Desafio Mortal'

18 de março de 2014 1

“Se terei de escolher um dia em detrimento dos outros, tem de ser aquela manhã de sábado, quando Jo Lynn e eu estávamos sentadas à mesa da cozinha, relaxadas, e minha irmã largou o jornal matutino e anunciou calmamente que ia se casar com um homem que estava sendo julgado pelo assassinato de treze mulheres.”

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Assim a psicoterapeuta Kate Siclair, protagonista de Desafio Mortal (Rocco, 392 páginas), de Joy Fielding, começa a contar a sua história. Casada, com duas filhas e uma vida confortável, Kate começa a enfrentar alguns problemas — como a mãe ficando paranóica, uma ex-paixão ressurgindo do passado e a filha mais velha em plena rebelião típica da adolescência. Nada se compara, porém, com o pavor que sente quando a irmã, Jo Lynn, decide que vai se casar com um homem acusado de ser um assassino em série.

Na verdade, Jo Lynn não o conhece, mas viu sua foto no jornal e diz não poder acreditar que alguém assim tão lindo seja capaz de matar alguém. Ela começa a frequentar o julgamento (e arrasta Kate consigo), até chamar a atenção de Colin Friendly, o homem preso pelo assassinato de 13 mulheres. Depois, passa a frequentar o presídio, visitando-o, e Kate não sabe mais o que fazer com a irmã.

Para piorar as coisas, sua filha defende a tia, e trata de imitá-la em tudo, inclusive no cabelo oxigenado e nas roupas provocantes. Além disso, Kate está convencida de que Friendly é, sim, o assassino, e que suas vítimas são ainda mais numerosas — entre elas estaria também a filha de uma paciente sua, desaparecida há mais de um ano, e a própria mãe do rapaz.

Apesar dos argumentos de Kate, entretanto, Jo Lynn está decidida: vai, sim, se casar com seu amado, nem que seja no corredor da morte… A tensão vai subindo a cada página, enquanto se acompanha o relato da psicoterapeuta, inicialmente confuso mas, depois, mais e mais angustiante.

O livro, segundo que li dessa autora, é muito bom. Apenas um porém: o exemplar que eu li era da biblioteca municipal, e agora, ao tentar descobrir o preço, não consegui encontrar o livro à venda em nenhuma livraria virtual. Imagino que possa estar esgotado, mas, se você gostar de um bom suspense e encontrá-lo num sebo ou biblioteca, não deixe de ler.

Resenha: 'O Menino da Mala'

16 de março de 2014 1
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Imagine que uma amiga lhe peça um favor: ir até a estação ferroviária da cidade buscar uma mala num guarda-volume. Você faz isso, e, ao abrir a mala, encontra dentro um menino de três anos, nu, dopado e que não fala a sua língua.

Assustador, não? Pois esse é o ponto de partida de O Menino da Mala (Arqueiro, 256 páginas, R$ 29,90), romance das dinamarquesas Lene Kaaberbøl e Agnete Friis. Na trama, a assistente social Nina Borg é obcecada em ajudar as pessoas – tanto que tem problemas em casa, pois frequentemente “esquece” o marido e a filha em prol dos necessitados. Mas quando ela encontra o menino da mala e descobre que ele está sendo caçado por um homem com toda a aparência de ser perigoso, ela não sabe o que fazer.

Sem querer procurar a polícia, ela vai atrás da amiga que lhe pediu para buscar a mala. Só que essa amiga foi assassinada, mais um indício de que há (muito) perigo na história. Nina, então, decide fugir com o menino, e busca no submundo de Copenhague, onde mora, a ajuda de uma prostituta estrangeira para tentar se comunicar com o garotinho assustado. Enquanto isso, bem longe dali, uma mulher sozinha sofre por não saber onde está o seu filho…

A narrativa é simplesmente eletrizante, e passa uma sensação de agonia ao leitor, com um desfecho inesperado. O final, entretanto, parece deixar algo meio em aberto — até que se descobre que o livro é o primeiro de uma série com a personagem Nina. Mesmo assim, poderia ter havido um pouco mais de foco no menino, que, afinal, dá título ao livro.

Resenha: 'As Luzes de Setembro'

16 de fevereiro de 2014 0

Esqueça a Barcelona de A Sombra do Vento. Esqueça, ao menos por ora, o Cemitério dos Livros Esquecidos. Imagine-se na Paris de meados dos anos 1930, e depois deixe-a para trás, de carona com a viúva Simone Sauvelle e seus filhos, Irene e Dorian, que partem da capital francesa com destino a um pequeno vilarejo no litoral da Normandia. Lá, acompanhe a família na sua primeira visita à mansão Cravenmoore, onde mora o excêntrico fabricante de brinquedos Lazarus Jann, novo patrão de Simone. E não se assuste ao ser recebido por um mordomo-autômato: ele é só mais uma das criações de Jann… 

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Se você leu até aqui, já está quase dentro do espírito do livro As Luzes de Setembro, de Carlos Ruiz Zafón. Terceiro de seus livros infantojuvenis, foi publicado originalmente nos anos 1990, mas só chegou ao Brasil no ano passado. Aliás, o “infantojuvenil”, nesse caso, pode ser considerado uma mera classificação sem sentido — como os outros livros escritos pelo escritor espanhol naquele período, ele tem menos páginas do que as obras da trilogia que alçou o autor à categoria de best-seller, mas a imaginação, a originalidade e a densidade (sem que isso signifique dificuldade de leitura) estão ali. Ah, o prazer com a leitura, também.

Voltando ao livro, a trama se passa no pré-Segunda Guerra. Empobrecida após a morte do marido, que deixou muitas dívidas, Simone Sauvelle se vê obrigada a aceitar um emprego de governanta na mansão de Jann. Assim, ao menos, a filha não terá mais de dançar com soldados em troca de algumas moedas… Além de um bom salário, a família ainda ganha o direito de morar numa antiga casa, com linda vista do mar. Na primeira noite, são convidados a jantar com o patrão, e atravessam uma mata fechada (e um tanto sinistra) para chegar à casa. O susto, entretanto, ocorre quando são recebidos por uma espécie de robô, o primeiro de muitos que, descobrem depois, povoam cada recanto da mansão, saídos das mãos habilidosas do fabricante de brinquedos.

Enquanto a mãe sente uma empatia automática com o patrão — que mora ali com a mulher, inválida e presa à cama há mais de vinte anos, vítima de uma doença rara —, Dorian se encanta pelas suas invenções quase miraculosas. Irene, por sua vez, fica logo amiga da cozinheira, Hannah, uma mocinha de sua idade que fala pelos cotovelos e só pensa em arrumar um namorado. Logo Hannah a apresenta a Ismael, seu primo (um pescador que sonha em escrever novelas para o rádio), e a paixão entre os dois é rápida e certeira. É Ismael que lhe fala do mistério de um farol desativado, que seria assombrado por estranhas luzes desde que, décadas antes, uma mulher mascarada naufragou quando ia para lá encontrar o amante…

Tudo vai bem até que Hannah é encontrada morta, assassinada, na mata entre a mansão e a casa dos Sauvelle. Ismael, muito chegado à prima, quer descobrir o culpado a todo custo — e Irene descobre que é melhor ajudá-lo, pois só assim evitará que sua família se transforme também em vítima. Nessa investigação, as luzes de setembro se mesclam a boatos sobre uma criatura que vive na mata e às  lendas germânicas do doppelgänger, ou o duplo, aquele ser fantástico que é como uma cópia da pessoa — só que mau,  incrivelmente mau.

Cheio de mistério, envolvente, cativante, As Luzes de Setembro também retoma um tema presente em O Príncipe da Névoa, primeiro livro de Zafón, e que viria a aparecer ainda, embora com menor destaque, em O Jogo do Anjo: o do preço que estamos dispostos a pagar pelos nossos desejos. 

Sem dúvida, um dos melhores livros de Zafón, para todas as idades.

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Com edição da Suma de Letras, o livro tem 232 páginas e preço médio de R$ 26,90.

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P.S.: agora, só falta eu ler Marina, para completar os livros lançados até agora por Zafón. Ainda não leu nenhum? Experimente, é leitura de primeira!

Resenha: 'Barba Ensopada de Sangue'

06 de fevereiro de 2014 1
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No prólogo, um jovem comenta sobre o tio que nunca conheceu, e que teria morrido no mar em Garopaba, enquanto tentava salvar um banhista. Corta para o primeiro capítulo, e um homem — que depois descobrimos ser o tal tio do rapaz do prólogo — está visitando o pai, que diz que irá se matar no dia seguinte e lhe pede que, depois, sacrifique sua cachorrinha. Enquanto tenta dissuadir o pai, este lhe conta sobre o avô que ele nunca conheceu,  e que teria sido assassinado durante uma falta de luz num baile, na mesma praia de Garopaba.

Confuso? No início, parece, mas depois que a trama de Barba Ensopada de Sangue (Companhia das Letras, 424 páginas, R$ 39,50) engrena, o leitor não consegue deixar de lado o livro escrito por Daniel Galera, e acaba vendo que, no final, a história toda é redondinha. Depois da “cena” citada acima, há outro corte, e dessa vez encontramos o tal homem, que é professor de natação, chegando em Garopaba, de mala e cuia — ou, melhor dizendo, com todas as suas coisas dentro do carro, incluindo a cadela do pai, Beta, que ele optou por não sacrificar.

Descobrimos então que o protagonista, cujo nome não aparece, decidiu deixar para trás sua Porto Alegre natal e se instalar em Garopaba para tentar descobrir o que realmente aconteceu com o avô. Praticamente sem laços — o pai morreu, a mãe tem outro marido, e ele não se dá com o irmão, que lhe roubou a namorada —, vai aos poucos se acomodando na vidinha local, apesar da desconfiança dos nativos. Estes costumam olhar atravessado, especialmente quando ele lhes pergunta sobre o avô, Gaudério.

Estranhamente, ninguém parece lembrar de Gaudério. Todos negam tê-lo conhecido, e mudam de assunto ou deixam de falar com ele quando faz seus questionamentos. Aos poucos, ele vai se conformando com a situação, embora sem desistir totalmente de descobrir a verdade. Enquanto isso, arruma emprego numa academia local e vai fazendo alguns amigos — e conquistando amores.

Essa adaptação não é muito fácil, até porque o professor/protagonista tem uma estranha condição neurológica: ele não reconhece rostos, nem mesmo o seu. Por isso, está sempre prestando atenção a algum outro detalhe das pessoas, como o cabelo, a voz, o tipo de roupa. E está sempre se desculpando, explicando que não, não estava fingindo que não viu determinada pessoa.

Entre os personagens que cruzam o seu caminho estão uma linda garçonete e seu filho, um dono de pousada meio aloucado, um homem de cabelos descoloridos, um antigo delegado, uma prostituta e a antiga namorada do avô. Se ele vai descobrir o que aconteceu com Gaudério? Talvez. Mas, antes, vai ter de descobrir quem ele próprio é…

Ah: publicado em 2012, Barba Ensopada de Sangue ganhou no ano passado o Prêmio São Paulo de Literatura, um dos principais prêmios literários do país.