Todo mundo conhece a história da Bela Adormecida, e muitas meninas, com certeza, já sonharam em ser acordadas pelo beijo de um príncipe encantado. Mas já pensaram como seria, de verdade, acordar depois de um século, ou mesmo depois de décadas, e encontrar o mundo totalmente mudado, além de todas as pessoas que você conheceu estarem mortas? Pois a escritora Anna Sheehan pensou, e assim nasceu Adormecida (Lua de Papel, 272 páginas, R$ 32,90).
O livro foi lançado em meados do ano passado, mas como ainda não havia falado dele por aqui resolvi fazer isso agora — até porque a releitura de contos de fada está cada vez mais na moda, vide a proliferação de filmes (e livros) do gênero.
Pois bem. Como a minha introdução acima deixa entrever, nesse livro o conto de fadas ganha tons bem mais sombrios que no original. É verdade que nele não há bruxas, mas, mesmo sem feitiços, a protagonista Rose Fitzroy dorme por mais de 60 anos. Acorda, como no conto, com um beijo, dado por Brendan, garoto que acidentalmente encontrou o tubo em que ela era mantida adormecida por um processo químico comum nos tempos em que ela vivia inicialmente.
Apesar da atração imediata que ela sente pelo rapaz, filho de uma das executivas da grande e milionária corporação fundada décadas antes pelo pai dela, Rose sente também um aperto no coração: afinal, antes de ser colocada em estase, como chama o período de sono artificial, ela já tinha o seu príncipe, Xavier. Que agora, como tudo mais que ela conhecia, não existe mais.
Durante os anos em que dormia ocorreram os Tempos Sombrios, em que grande parte da população foi dizimada pela fome e por doenças. Para piorar, o longo tempo ligada à máquina de estase a deixou fraca, e ela mal consegue andar. Na escola em que a colocam, sente-se deslocada, diferente. A paixão que sente por Brendan, mesclada às saudades de Xavier, não é correspondida, o que aumenta o seu sofrimento enquanto vai aos poucos se recuperando fisicamente.
Como ela ainda é a herdeira da UniCorp, é colocada no seu antigo apartamento, sob os cuidados de tutores nem um pouco carinhosos — afinal, apesar das seis décadas adormecidas, ela ainda tem apenas 16 anos. Seu súbito reaparecimento, depois de ser dada como morta por tanto tempo, chama a atenção da mídia, mas não só dela: uma espécie de robô assassino começa a persegui-la, tentando matá-la. Em quem ela poderá confiar?
A história, repleta de flashbacks sobre sua vida anterior, traz muitas surpresas. Lá pelos capítulos finais, o leitor pode se preparar para ficar indignado e, também, emocionado. Isso pode parecer estranho em se tratando de um conto de fadas modernizado, mas garanto: Adormecida tem questões existenciais e algumas reviravoltas que, decididamente, não estavam na história que sua mãe lhe contou...










