Dona Eliete Martinho Silva, 63 anos, lembra-se bem dos tempos em que era pequenina, que os motivos de seus choros eram por não poder ir brincar na rua em dia de chuva, por não saber que cor de prendedor colocar no cabelo, ou por ter caído e ralado o joelho. “Ah, tempo bom aquele! Tempo da inocência”, relembrou Eliete.
Já hoje, as lágrimas caem por motivos bem diferentes, que envolvem a dor da saudade, a dor da perda, a dor do não. Tempos passados, aqueles em que ainda acreditavam no animal de pelos branquinhos e olhos vermelhos que entregava ovos de chocolate. Não era sempre que ela recebia a visita do “adocicado coelho”, pois como sua mãe costumava dizer, muitas vezes ele ficava sobrecarregado, e não conseguia visitar todas as crianças comportadas na manhã de Páscoa. Sim, as crianças comportadas.
Segundo seu falecido pai, apenas as crianças que se comportassem receberiam a tão esperada visita do animalzinho. “É incrível como a inocência que tínhamos naquele tempo nos fazia acreditar em tudo aquilo”, disse ela, com lágrimas no olhos. “No entanto, na época, eu e nenhuma das outras crianças sabíamos que o tal coelho eram nossos pais, e nem desconfiávamos que se na manhã de Páscoa o coelhinho não tivesse deixado os ovos por ali, não era por ele ter ficado sobrecarregado, e sim pelo motivo de nossos anjos da guarda, que chamamos de pai e mãe, não terem dinheiro para comprar, por menor que fosse, um chocolate. E isso acontecia frequentemente”, conta dona Eliete.
Mas isso não a abalava, pois ela amava acordar na manhã de Páscoa e ir correndo até a cama de seus irmãos para acordá-los aos gritos e anunciar que o dia havia chegado e o quão importante era aquele dia para ela. Ficava simplesmente histérica, pelo simples fato de ser Páscoa, de saber que encontraria toda a sua família, que brincaria com seus primos na rua, dentro e em volta da casa, e que sua mãe brigaria por estar correndo onde não devia.
Tudo isso virou apenas uma boa e doce lembrança guardada eternamente em sua memória, “relembrar tudo isso é como sentir cada aroma, cada brisa, é como viver cada minuto, cada segundo novamente, sem deixar passar um mísero detalhe”, observou ela. Hoje em dia, Eliete ainda sente a mesma alegria que sentia na época, a única diferença é que sabe toda a verdade oculta sobre a Páscoa, mas ainda acredita e sente o verdadeiro espírito da Páscoa