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Posts de novembro 2009

A lei favorece o crack

27 de novembro de 2009 4

Já estamos a quase um ano com a campanha: Crack, Nem Pensar, parece que foi ontem que lançamos, muitas pessoas acharam estranho, outras aplaudiram, hoje vemos que parte de nossa missão foi cumprida, no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, o crack deixou de ser um mito, o0s jovens sabe3m que o cachimbo é um passaporte para a morte com estala nas bocas de fumo que são verdadeiras sucursais do inferno. Mesmo com toda esta correria, muito ainda precisa ser feito, existem barreiras que precisam ser vencidas, entre elas as legais. O problemas mais urgente que vejo são os tratamentos aos usuários: temos a falta de leito que pode ser resolvida com maior investimento, é complicado, mas podemos pressionar; temos o despreparo dos profissionais que estão acostumados com outras drogas, mas com um programa intensivo e sistemático de formação podemos amenizar; temos as meninas que engravidam e dão a luz a bebês viciados desde a vida intra uterina, mas a medicina pode tentar a partir de tratamento no pós parto diminuir o impacto da droga no organismo desses pequenos. Em meio a tudo isso tem um problema que não vejo ainda caminho de solução: a legislação atual não tem como condenar uma pessoa viciada ao tratamento compulsório como acontece nos Estados Unidos e na Europa, o máximo que as famílias conseguem, depois de muita luta é colocar o jovem usuário em um espaço de desintoxicação por no máximo 30 dias, depois ele é liberado para fazer um tratamento e acompanhamento voluntário. Já esta mais que provado que a lei neste caso favorece o crack, pois em 30 dias ninguém abandona um vício tão intenso, quando eles saem ficam no máximo uma semana longe das bocas, mas recaem e de forma mais intensa. Precisamos de uma lei que possa condenar o jovem usuário de crack a tratar-se independente de sua vontade. Quando a lei dá ao usuário o direito de escolher ou não ficar em um espaço terapêutico ou se tratar, condenando as famílias ao sofrimento de conviver com as conseqüências do crack, precisamos mudar a lei, mas a pergunta é: como?

Postado por Manoel Soares

Negro ajuda negro

20 de novembro de 2009 0

Ao encontrar um colega de trabalho, ele me disse que é muito bom ver um negro como ele fazendo coisas legais e ganhando prêmios. Claro que esse tipo de palavras emocionam e estimulam.
Porém, comentei com ele que estar na vitrina é complicado, pois muitos jogam beijo, mas outros atiram pedras. Quando falei isso, ele me disse que fogo amigo é pior, que volta e meia negros se esquivam na hora de ajudar outro negro, que, infelizmente, isto tem se tornado cada vez mais comum.
Aí lembrei do meu eterno professor Oliveira Silveira. Uma vez que fui criticado num encontro negro, disse-lhe a mesma coisa, e ele me esclareceu: "Esse papo de que negro não ajuda negro é folclore. Infelizmente, as pessoas em geral estão pouco dispostas a ajudar-se umas as outras e este mal inclui os negros também".
Como o acesso a boas oportunidades é cada vez mais escasso, existem pessoas que, ao chegar num patamar legal na vida, fecham as portas para os semelhantes por medo de perder espaço. No caso dos negros, o acesso é menor ainda. Muitos fecham as portas porque erroneamente acham que estão protegendo seu território, mas isto, repito, acontece com todos os povos que ainda não alcançaram plena compreensão de que, juntos e unidos, somos mais fortes.
Confesso a vocês que é o primeiro 20 de novembro que passo sem o professor. No ano passado, nesta mesma data, escrevi a coluna com o título: Ao negro mestre com carinho. No outro dia, ele me mandou um e-mail dizendo que sua filha leu o Diário Gaúcho para ele. Foi um dos momentos mais especiais da minha vida. Apesar de ser um dos maiores conhecedores da história negra mundial, Oliveira se portava como um menino que recém aprendia sobre o nosso povo.
Esse homem negro sempre me ajudou e me fez entender que ser negro e comunicador no nosso Estado é importante para negros e brancos, ricos e pobres, bonitos e feios. O mito de que negro não se ajuda é mentira. Oliveira me ajudou e me fez ser quem sou em questões raciais.
Dedico novamente minhas palavras desta semana a esse herói que, agora no plano de cima, ao lado de Zumbi dos Palmares, olha nossa evolução enquanto nação. Felicidades, amigos, pelo nosso dia.

Postado por Manoel Soares

Até a última ponta

13 de novembro de 2009 5

Existe um debate muito sério sobre a maconha no Brasil, muitas pessoas querem liberar, outras querem proibir mais e por aí vai, mas a verdade é que as pessoas não sabem o que vão fazer e ficam tomando partido a partir de experiências pessoais o conveniências.

Particularmente, eu acho que o Brasil não tem maturidade para debater a maconha, somos jovens demais para isso. Se levarmos em conta que há 120 anos eu seria comprado no Mercado Público por R$ 200,00 para ser escravo em uma fazenda qualquer, vamos ver que como nação temos muito a crescer. Há menos de duas gerações migramos da escravidão ao mundo da internet, é muita mudança em pouco tempo.

Antes de legalizarmos a maconha temos que legalizar a educação de qualidade e o sistema de saúde, antes de discriminalizar o consumo de canabis, temos que discriminalizar o ex-presidiário que sofre com seu histórico prisional, as pessoas portadoras de HIV que não têm acesso a empregos e as mulheres que ganham 15% menos que os homens no mercado de trabalho.

Ver ministros e ex-presidentes assumindo opiniões e posturas na discussão da maconha só me convence que estamos distantes de uma abordagem séria, os caras pegam carona no tema para fazer votos e um monte de intelectuais de mesa de bar entram na onda.

Sobre a maconha, uma coisa é fato: ela vem sendo caminho de acesso ao crack, muitos traficantes vendem o pitico, uma mortal mistura de crack e maconha. Esse, no meu humilde ponto de vista, é o maior argumento para que nossa juventude não experimente maconha, afinal, ninguém sabe ao certo a origem das ervas que circulam nas bocas. Acredito que meu filho e meus netos poderão discutir de forma madura o tema da maconha, porque hoje temos que resolver problemas mais urgentes, mas, continuo firme, até a última ponta de esperança.

Postado por Manoel Soares

Cala a boca, Manoel!

06 de novembro de 2009 4

Lembro-me que, quando criança, as minhas professoras diziam que eu era muito polêmico. Durante anos, eu me perguntei o que elas queriam dizer.
Às vezes, minhas dúvidas eram exatamente aquilo que as pessoas não queriam falar. Em vários momentos, deixei de ser chamado para fazer parte de atividades escolares por conta dessa característica.
Minha mãe conta que, enquanto fazia faxina numa rua próxima à escola em que eu estudava, ouvia minha professora gritar:
– Cala a boca, Manoel!
O tempo passou, o pretinho de perna torta cresceu, e virou um negão de 2m e 120kg. Mas a língua afiada continua ativa. Agora, denunciando a miséria e as mazelas de milhares de pessoas que não têm direito à voz.
Uma das coisas que sempre me incomodaram é que quase sempre as ajudas que recebíamos vinham de pessoas de fora. Elas entravam com seus carros bem lustrados, trazendo comida e brinquedos. Apesar de os pais da comunidade ficarem felizes com a alegria dos filhos, volta e meia via uma adulto entrar para sua casa com um semblante de descontentamento.
Hoje, entendo aquele olhar não era ingratidão, mas insatisfação. Poucas coisas doem mais num pai ou numa mãe que a alegria do seu filho estar condicionada a outros.
Por mais que as ajudas externas sejam bem-vindas, o ideal seria que os pais e a comunidade tivessem como fazer as festas de aniversário e fim de ano sem ter de depender da caridade dos outros. Ser coadjuvante da nossa própria história é constrangedor, pois nossa dignidade se esvai aos poucos nessa hora.
Temos de nos organizar como pessoas e como comunidade para que a ajuda que vem de fora seja somente um auxílio e não a tão esperada salvação. Claro que para isso acontecer muitos de nós têm de sair das cordas, meter a cara e fazer acontecer. Pena que, para isso, alguns terão de arregaçar as mangas. Porém, ao fazer isso, muitos perderão o confortável lugar de coitadinhos e, infelizmente, alguns não querem isto. Afinal, ganhar na boquinha é mais confortável, mesmo que, às vezes, indigno.
Estão vendo porque a minha professora gritava "cala a boca, Manoel"? Mas vamos lá, na semana que vem, voltamos!

Postado por Manoel Soares