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Posts de abril 2010

Os heróis decidem

30 de abril de 2010 3

Uma vez ouvi uma frase que me revoltou.
Depois de uns anos, entendi que, lamentavelmente, é verdade: “Bom não é ser pobre, é ser amigo de pobre”.
Não sei quem disse isso, mas, com certeza, conhecia a lógica de poder e conquista de massa. Existe um
monte de maluco por aí que pega de herói fazendo de conta que põe a boca no trombone só para ganhar moral. Isso é extremamente perigoso.
O problema de uma sociedade que deposita sua fé em heróis é que ela perde a capacidade de resolver seus
problemas e o resultado é a eterna dependência.
A questão é: quando uma sociedade não precisará de heróis já que os problemas sempre existirão? A resposta me veio depois de ver nosso povo comer muita grama e vender barato o que não tem preço, pois as necessidades, às vezes, engolem a dignidade. Por trabalhar com comunidades de todo o Estado e por conta da visibilidade, algumas pessoas me tratavam como herói, acreditando que eu falava o que a favela gostaria de dizer.
Engano. Nunca falei pela favela, mas por mim. Como sou favelado, os desejos são os mesmos. Isso me fez
ver que a favela precisa falar, decidir. Foi aí que, conversando com os amigos Gerson e Eurico, nasceu a nova etapa do Comunidade JA, um espaço dentro do Jornal do Almoço em que as pessoas decidem.
Com uma unidade móvel, nossa equipe percorre comunidades fazendo a votação para escolha do assunto a
ser abordado pela reportagem. No site www.rbstv.com.br/ja as pessoas também podem escolher o tema. Isso muda a lógica de decisão.
Geralmente, o jornalista decide o problema a ser mostrado, agora, a favela decide o que a tevê irá mostrar. Para isso, precisa haver participação em massa. Nossos melhores amigos não são os heróis, mas o povo
organizado. Quando o povo se organiza, não precisa de herói, mas de atitude. Quero ver as comunidades por onde vamos circular decidindo. Depois, terei o maior prazer em levar às autoridades as demandas. Hoje, a
partir das 17h, estarei no Morro da Polícia, na Rua Coronel Rego.
Então, na rua ou no site, decidam. Valeu, galera!

Voz de favelado

23 de abril de 2010 2

Não tenho a pretensão de agradar todo mundo, aliás, reconheço-me como indigesto às vezes, mas é inerente ao ofício.
Perdi bons amigos por conta da minha profissão, afastei-me de pessoas que amava por conta das minhas
convicções e vejo meu círculo de amigos se fechar e caber nos dedos de uma mão. Apesar de tudo, não me arrependo de nada do que disse. Se escrevo um texto ou faço uma reportagem e todos gostam, algo está
errado. Não que eu queira sempre chocar ou arrumar inimigos, mas geralmente me incomodo com descasos e falcatruas, e em ambos os casos os responsáveis têm nome e sobrenome.
Em constantes conversas com Giovani Grizotti, reflito sobre isso. Denunciar é fundamental, cobrar atitude é necessário.
Nossa missão como comunicadores não é somente informar, mas também falar pelos que não são ouvidos. Não me considero a voz da favela, quem tem de falar são os milhares de lutadores que vencem a vida com marmita e força de vontade. O que faço é minha obrigação de cada dia.
Um exemplo disso é o quadro Comunidade JA. Visitamos algumas comunidades do Estado, entre elas, Umbu, Bom Jesus, Guajuviras. Em algumas, fomos felizes e ajudamos a reivindicar direitos e resolver problemas. Em outras, os gestores públicos querem ver o diabo, mas não querem me ver. Para alegria de uns
e desespero de outros, o Comunidade JA está voltando. Agora, com mais força, em novo formato, que dá mais poder às comunidades e mais risco a políticos incompetentes.
Sempre com muito respeito, chegaremos aos responsáveis cobrando soluções, mas, desta vez, é você quem vai dizer o tema da nossa visita numa votação que vai rolar no seu bairro. Então, quando souber que estaremos em sua comunidade, junte a galera e ajude a decidir sobre o que vamos falar, o poder, agora, é
de vocês. Como diz minha mãe, só existe opressor se houver conivente e, para que a situação piore cada vez
mais, basta que sejamos omissos.
Preparem-se, vou invadir sua quebrada e fazer o chão tremer, porque ninguém precisa falar pelos favelados, afinal, temos voz.

Para sair do poço

16 de abril de 2010 15

Reconstruir as bases destruídas pelos imprevistos e pelos atos impensados da vida é colocar à prova nossa
humildade mental e emocional. A primeira decisão a tomar é o perdão aos que deram mole, pois, geralmente, não erramos sozinhos.
A moral é não perder energia e tempo com o rancor. Não dá para ficar rindo para pintas que só de sacanagem pisaram na bola, mas, se eles são tão toscos, só merecem uma coisa: desprezo.
Depois que conseguimos abandonar o rancor e o desejo de vingança, é hora de fazer planos. Pode parecer fácil, mas não é. Planejar é diferente de sonhar. Temos de sentar, colocar no papel o que temos, o que queremos, quais as etapas a alcançar e quanto custa tudo isto.
No meio do caminho, aparecem imprevistos, alguns maiores do que imaginávamos. Nessa hora, temos de
administrar as situações e ganhar tempo.
Administrar não é agir com malandragem e assumir compromissos que sabemos que não teremos como cumprir.
Conforme nossas conquistas forem chegando, corremos o risco de perder o foco, isto porque a felicidade
vem e queremos vivê-la intensamente, afinal, foi um momento aguardado. É aí que mora o maior perigo, a
alegria nos faz esquecer o plano que traçamos no momento de dificuldade. Ao fazer isso, abrimos porta para
que o descontrole venha. E é só questão de tempo para que tudo desabe e acabemos numa ruim de novo.
Para mantermos nossas conquistas, uma palavra deve estar tatuada nas nossas ações: disciplina. Nenhum compromisso pode ser maior do que os que assumimos conosco mesmos. Nada nem ninguém pode te
impedir de cumprir a promessa feita a ti mesmo, pois quem não consegue ser fiel e honesto consigo não
pode ser com os outros.
Todos temos uma voz que volta e meia cochicha no nosso ouvido antes de entrarmos numa roubada, o problema é que alguns ignoram esta voz, a consciência. É ela que ativa o sinal vermelho se estivermos fazendo algo que vai dar errado. Este mecanismo de proteção deve ser exercitado sempre.
Depois, é só manter-se vigilante e dividir com quem merece os momentos de alegria.
Bom finde, galera!

Assistências e concorrências do amor

09 de abril de 2010 13

Poucas coisas se comparam a um beijo bem dado depois de um dia de saudade, mas tem de ser aquele que até a unha beija junto. Quem não tem isso pode até dizer que está tranquilo, mas, numa noite de sexta- feira, a falta bate.

Pior que há maluco com o amor da vida do lado e não faz por onde, fica numas de deixar brecha para que a natureza chame e os gaviões se aproximem. Eu não sou a favor da infidelidade, mas uns amigos entraram na fila da guampa pelo menos umas dez vezes. Não fazer a mulher que ama feliz por vadiagem é deslealdade com o amor que jura existir, para mim, é a pior das traições.

Se não tem maturidade para cuidar de um coração e zelar por um amor, mete o pé e vai para pista, mas dar uma de malandro com o sentimento dos outros é pedir para tomar curva. Quem não dá assistência abre concorrência. Não adianta meter uma marra de garanhão na rua e chegar em casa estragado. É, existe um monte de homem “DVD” por aí, aquele que chega em casa “deita, vira e dorme”.

Claro que amor não é só sexo, é preciso saber fazer a mulher se sentir especial, seja fazendo um café para ela pela manhã, seja com uma flor ou dançar com ela a sós na sala de casa. O que muitos de nós não aprendemos é que amor de verdade não custa caro, mas vale muito.

Quem já amou sabe que, sem aquela mina ponta firme, somos castelos de areia num maremoto. Por mais que o dia seja duro, por mais que a vida seja injusta, nada melhor do que chegar na baia e ver que ali somos reis e a rainha a nos esperar. A maioria das preocupações somem quando deitamos de conchinha e o fogo se acende, as soluções parecem brotar por mágica – com amor tudo fica mais fácil.

O amor é uma plantinha que precisa ser cuidada, se não, morre. Por pior que seja a situação, nunca grite, zelo mútuo em todas as situações, dedique tempo para ouvir o amor e se coloque no lugar do outro. Depois que amamos de verdade, vemos que a fubangagem (pegação) não chega aos pés das alegrias vividas a dois.
Então, vamos investir no amor, minha gente, lembrando que quem não dá assistência abre concorrência.

Crianças grandes

02 de abril de 2010 18

Um amigo meu disse uma coisa interessante: a diferença entre adulto e criança é que os brinquedos do adulto são mais caros.
Verdade, não há diferença entre os seus desejos, aliás, muitas das atitudes que tomamos é por conta
das nossas lembranças ou das nossas frustrações de infância. Adoro comer a sobremesa antes da comida, por mais que pareça esquisito, tanto que, às vezes, como sozinho para que ninguém veja e fique me perguntando.
Quando criança, eu comia olhando para a sobremesa e prometi que, quando crescesse, iria comer a sobremesa na hora que quisesse. Cresci e fiz. Não sei onde está a graça, mas minha criança interior gosta. Nessa de atender aos desejos infantis, as pessoas cometem pecados sérios. Algumas soltam seus instintos agressivos, autodestrutivos etc. Uma coisa em que vale a pena ficar ligado é que os desejos de uma criança estão ligados aos seus estímulos, o que ela vê e ouve é registrado pelo cérebro e vai se tornar desejo ou medo no futuro. Exemplo: uma criança que assiste a brigas frequentes dos pais vai entender que as relações são feitas de quebra-pau, a que vê a alegria do pai tomando cerveja quer, logo que possível, sentir este
prazer. Isso se estende à escola, à tevê, aos mundos em que a criança está inserida.
Se olharmos os caras que enriqueceram rapidamente, veremos que tentaram de cara realizar seus sonhos. O
apartamento de luxo é a casinha de boneca ou a cabana que não tiveram. Óbvio que isso não quer dizer que
temos de sair dando tudo que as crianças querem, temos é de educar o desejo para que não seja sem freio.
As pessoas precisam aprender desde cedo que tudo tem seu preço, tem uma causa e uma consequência. A
questão é: o que anseio para mim é realmente necessário? Vai fazer bem a mim e aos outros à minha volta?
Quando crescemos, nossa criança não morre. Se soubermos usar a luz dos olhos de criança, veremos que a
vida é bem mais simples e satisfatória. A recomendação é que sejamos ótimas crianças grandes.