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Lições africanas

09 de julho de 2010 2

Alguns dizem que eu devia ter ido mais aos jogos da Copa (tenho credencial para os estádios), mas fui ver
mulheres de favela preparar chacalaca (uma espécie de feijão com pimenta) ou aprender a cantar o hino Nkosi sikelel’ i Afrika, no qual pedem que Deus abençoe a África.

Enquanto o mundo olhava para o Soccer City, preferi visitar a VilaKazi Street, em Soweto, rua onde morou Nelson Mandela e Desmond Tutu, a única do mundo que abrigou dois ganhadores do Prêmio Nobel. Conhecer o memorial de Hector Peterson, jovem morto em 16 de junho de 1976, cujo assassinato foi o estopim para a luta contra a segregação racial na África do Sul.

Lá conheci milhares de pessoas que lutam para mostrar ao mundo que o continente negro não é sinônimo de miséria, mas de luta, que, muitas vezes, não significa guerra, mas paz. Luta contra nós mesmos, contra o desejo de vingança, a vontade de fazer justiça com as próprias mãos. Todos com quem conversei tiveram amigos e parentes mortos nos conflitos raciais, mas nenhum quer a morte do vizinho por ter cor diferente. Posso ter perdido jogos, mas aprendi lições: perdoar requer mais coragem do que revidar, a dignidade não está na cor da pele nem no tom da voz, mas nas ações.

Quando voltar para o Rio Grande do Sul, levarei no coração a palavra “ubuntu”, que, em zulu, quer dizer “eu sou porque você é”. Sem demagogia, essa palavra traduz o que sinto e penso do povo negro e favelado do Estado. Em vez de a viagem me encher de marra, esses 40 dias serviram para me fazer acreditar cada vez mais no que podemos fazer juntos. Por mais que, às vezes, a vontade de desistir me visite, vou lembrar das orgulhosas cicatrizes que alguns africanos exibiam em Joanesburgo, que representam o sacrifício pela liberdade. Cada um de nós, negro ou não, tem de quebrar nosso apartheid particular, vencer as barreiras e ser mais livre... de vícios, comportamentos errados e consciência pesada. Estar na África me fez ver que liberdade começa na cabeça e no coração. Depois que ambos estão livres, nada mais pode nos prender.

Estou voltando... e com a corda toda!

Comentários (2)

  • Luana diz: 9 de julho de 2010

    Olá, bah Manoel Soares eu te admiro muito pelo seu trabalho. Quando eu leio as tuas colunas consigo perceber que ainda existem pessoas que veêm o mundo como ele realmente é. E consigo ver que você tem coragem de falar todos as coisas ruins que acontecem em nosso país em relação ao racismo. Eu acompanho teu trabalho já faz algum tempo, e além de você também admiro a CUFA e o Mv Bill. Vocês são o exemplo de pessoas guerreiras que ainda acreditam que o Brasil e os preconceitos que existem ainda terão solução.
    Abraços!

  • carolina diz: 21 de julho de 2010

    gostei mt desta descrição de como é realmente este continente que fica tão destante de nós, não somente ''geograficamente'' falando, mais de consciência tbm, são poucos os seres humanos que não guardam, margura e ódio no coração por tudo o que ja passaram, esta atitude faz com que o mundo fique ainda mais comovido, porém lagrimas e lamentações não judam de nada os africanos. Me torno um ser humano mt melhor, dando mais valor para oq tenho, vendo q existe tantos outros piores
    PARABÉNS!

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