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Posts de julho 2010

Estudando os lobos

30 de julho de 2010 1

Se Chapeuzinho Vermelho não estivesse sozinha na floresta, o Lobo Mau não tentaria devorá-la. Quem a
mandou levar a cesta para a vovozinha foi irresponsável, pois criou condições favoráveis para o Lobo e expôs Chapeuzinho ao perigo.
Por mais que pareça absurdo, às vezes, sem querer, ajudamos pedófi los e estupradores infantis. Como a mãe de Chapeuzinho, não nos damos conta.
Alguns pontos contribuem para isso: falta de comunicação dentro de casa, perda de referência familiar e
desatenção dos pais. Isso tudo pode facilitar o caminho de aliciadores até a criança. Esses doentes não
chegam de forma agressiva, aproximam-se na manha, estudam o ambiente familiar, observam as lacunas e,
depois, fazem o estrago.
Geralmente, crianças são molestadas por pessoas próximas, até parentes e pais. As cicatrizes da violência
sexual se arrastam por anos. Conheço mulheres que já são mães e não superaram traumas da infância.
Outro problema é mães fazerem vista grossa para a violência sexual que ocorre em casa para não expor o
companheiro ou o marido. Já vi uma mãe culpar uma menina de cinco anos, dizendo que ela andava de calcinha na sala, saía do banho de toalha e seu companheiro fez o que qualquer homem faria.
É importante entender que disfarçar esse tipo de crime, culpando o instinto masculino, é tapar o Sol com
peneira. Criança abusada sexualmente raramente confia em adultos novamente, cresce com transtornos
sociais e dificuldades de convivência.
Todos estamos sujeitos a esse monstro sem cara, mas com comportamento. Assim, temos de ficar de olhos
abertos para piadas, olhares, comentários ou qualquer atitude suspeita. Outra forma de prevenir é criar um
canal de comunicação tranquilo e aberto com os filhos sobre o tema desde que aprendem a andar, explicando que, se alguém pôr a mão em certas partes do seu corpo, devem contar imediatamente.
Mas, para isso, a criança precisa se sentir à vontade para falar, se não, a incapacidade de transmitir confiança a nossos filhos vira arma para a pedofilia. Onde existe pais e responsáveis ligados lobo mau nem passa perto.

Arma nas eleições

23 de julho de 2010 0

Andando no Centro de Porto Alegre, começamos a nos dar conta de como as pessoas se acostumaram com o sofrimento alheio. Dezenas de pessoas no frio, deitadas nas calçadas, e centenas passam e nem sequer notam.
Por mais que seja comum esse tipo de cena, não pode ser algo normal, pelo menos, para nossa consciência. Nossa impotência não nos permite fazer muita coisa, mas pode adubar nossa capacidade de reflexão. Contrastando com todo o sofrimento que vemos de pessoas com fome e frio, temos as bandeiras de candidatos que, aos poucos, invadem as ruas anunciando as promessas para as próximas eleições. As imagens que vemos nas esquinas devem se fundir às promessas que ouvimos e formar nossa opinião.
Quase todos os que se colocam à disposição para cargos eletivos já estiveram, de alguma forma, no poder, cabe-nos avaliar até onde eles foram para resolver os problemas.
Minha mãe costuma dizer:
– Quem gosta de conversa bonita é pai de moça.
Podem ter certeza de que a maioria, para levar voto, vai dizer o que queremos ouvir, mas difícil é fazer o
que precisamos ver.
Olham nos nossos olhos e mentem descaradamente como se fôssemos idiotas que engolem qualquer papo.
Pior de tudo é que alguns de nós, nos momentos de dor, agarramo-nos a qualquer coisa boiando que pareça a tábua de salvação. É covardia ver cabos eleitorais se aproveitando da miséria para chegar aos corações calejados das pessoas que precisam de ajuda.
Quando nosso coração estiver amolecendo com palavras bonitas de candidatos nessas eleições, precisamos
lembrar das cenas feias que vemos, necessitamos ver se eles realmente querem resolver alguma coisa ou somente ganhar eleição.
É importante que eles saibam que, se estão preparados para prometer, nós estamos preparados para não engolir qualquer papo. Nas eleições, nossa maior arma é a consciência crítica.

Estou em casa!

16 de julho de 2010 1

Depois de 32 dias de África do Sul, volto para casa. Já dividi com vocês algumas da lições que aprendi nessa viagem: o perdão africano, a solidariedade de um povo que teve de se reconstruir do nada e por aí vai.

Foi a viagem mais importante da minha vida até hoje, conhecer nossas raízes e entender de onde vêm muitas das nossas manifestações culturais. Mas acho que, desse ciclo, aprendo hoje a última lição.

No aeroporto, pegando o avião que me deixaria em solo gaúcho, aprendi e entendi que, por mais belo que seja o mundo, nada é melhor do que voltar para casa.

Óbvio que nossa rua, nossa cidade, nosso Estado e nosso país estão cheios de problemas. Às vezes, acreditamos que sumir é o melhor a fazer, mas posso dizer com toda a certeza, amigos, quem faz o lugar é a gente.

O lugar em que moramos não é feito de pessoas, são as pessoas que fazem o lugar em que moram e, por mais que, às vezes, a grama do vizinho pareça mais verde, que a vida em outro país pareça mais legal, chega um momento em que seus ouvidos procuram aquela música que você gosta, a vibração do gol do seu time, a alegria de pisar num solo que, por mais torto que seja, você pode chamar de “minha casa”.

Eu amei a África do Sul, mas não poderia morar lá... porque tudo que vi de lindo lá quero fazer na terra em que nasci. Se eu morasse na África seria um infeliz. Sou descendente africano, mas sou brasileiro, e um gaúcho adotado.

Existem coisas que eu preciso para viver: o rango e os conselhos de dona Ivanete, o carinho daquela que me atura, o amor do meu filho, o samba do morro, o rap dos manos, a muvuca do funk e o cheiro de chão batido que, nas manhãs, empurra-me para a luta. Soweto é bom, entretanto, não se compara ao calor das minhas quebradas.

Amigos, estou em casa, de novo!

Eu vi Nelson Mandela ao vivo

11 de julho de 2010 24

Tenho vontade de chorar estando aqui.

A África venceu

10 de julho de 2010 0

Confesso que esperava menos, não por subestimar a capacidade do povo sul-africano, mas por entender que a história de dificuldades da África do Sul poderia afetar a realização do Mundial. Neste fim de semana, encerra-se um capítulo da recente história africana com sucesso.

Com a mesma força com que se uniram para enfrentar o Apartheid, ele se uniram agora para dizer ao mundo que na África não só existe fome, aids e miséria, mas um povo que cresce todos os dias, que vai além dos capítulos de sangue escritos por conta das explorações.

Foram quase 60 dias de evento, mais de quatro anos de preparação, e nesse processo o povo africano entendeu que uma Copa não serve somente para realizar jogos de futebol, mas para mostrar ao mundo as potencialidades de um povo.

Claro que tiveram dificuldades, a migração de países mais pobres,os altos índices de criminalidade e desemprego, e para piorar a situação o governo africano não passa por um bom momento – algumas decisões do presidente Zuma recebem críticasferozes da imprensa mundial.

Como se não bastasse, o patriarca da nação, Nelson Mandela, perde a bisneta na véspera do primeiro jogo e se fecha em luto. Alguns jornalistas cogitavam ir embora, pois sem a intervenção de Madiba,a África era uma panela de pressão que poderia explodir em conflitos. Mas mesmo assim o país abraçou a Copa como questão de honra, enfrentou as críticas e desconfianças com hospitalidade e carisma, entregou à comunidade internacional uma Copa simples, mas perfeita, sem escândalos e sem vexames.

Se há 30 anos alguém dissesse que a África do Sul sediaria uma Copa, qualquer um diria que era impossível. Assim como é impossível passar 27 anos na cadeia e liderar negociações de paz. Assim como é impossível a uma nação ser explorada, agredida e simplesmente virar a página, como se tudo fosse apenas história
do passado. A África do Sul colocou o Brasil na obrigação de fazer a melhor Copa já vista, afinal, se eles, com todo esse histórico, superaram as expectativas, resta-nos ir além de uma Copa, em 2014. Teremos de fazer história.

Africanos enfrentam o desafio da xenofobia

09 de julho de 2010 0

Longe da Copa existe uma outra África, que enfrenta muitos problemas. Africanos que vêm de Zimbábue, da Nigéria e de Moçambique não conseguem vivem em paz em Joanesburgo.

Veja a matéria completa clicando aqui.

Lições africanas

09 de julho de 2010 2

Alguns dizem que eu devia ter ido mais aos jogos da Copa (tenho credencial para os estádios), mas fui ver
mulheres de favela preparar chacalaca (uma espécie de feijão com pimenta) ou aprender a cantar o hino Nkosi sikelel’ i Afrika, no qual pedem que Deus abençoe a África.

Enquanto o mundo olhava para o Soccer City, preferi visitar a VilaKazi Street, em Soweto, rua onde morou Nelson Mandela e Desmond Tutu, a única do mundo que abrigou dois ganhadores do Prêmio Nobel. Conhecer o memorial de Hector Peterson, jovem morto em 16 de junho de 1976, cujo assassinato foi o estopim para a luta contra a segregação racial na África do Sul.

Lá conheci milhares de pessoas que lutam para mostrar ao mundo que o continente negro não é sinônimo de miséria, mas de luta, que, muitas vezes, não significa guerra, mas paz. Luta contra nós mesmos, contra o desejo de vingança, a vontade de fazer justiça com as próprias mãos. Todos com quem conversei tiveram amigos e parentes mortos nos conflitos raciais, mas nenhum quer a morte do vizinho por ter cor diferente. Posso ter perdido jogos, mas aprendi lições: perdoar requer mais coragem do que revidar, a dignidade não está na cor da pele nem no tom da voz, mas nas ações.

Quando voltar para o Rio Grande do Sul, levarei no coração a palavra “ubuntu”, que, em zulu, quer dizer “eu sou porque você é”. Sem demagogia, essa palavra traduz o que sinto e penso do povo negro e favelado do Estado. Em vez de a viagem me encher de marra, esses 40 dias serviram para me fazer acreditar cada vez mais no que podemos fazer juntos. Por mais que, às vezes, a vontade de desistir me visite, vou lembrar das orgulhosas cicatrizes que alguns africanos exibiam em Joanesburgo, que representam o sacrifício pela liberdade. Cada um de nós, negro ou não, tem de quebrar nosso apartheid particular, vencer as barreiras e ser mais livre... de vícios, comportamentos errados e consciência pesada. Estar na África me fez ver que liberdade começa na cabeça e no coração. Depois que ambos estão livres, nada mais pode nos prender.

Estou voltando... e com a corda toda!

Dilema africano

06 de julho de 2010 3

O fim da Copa se aproxima e, enquanto o mundo espera para saber quem vai levantar a taça mais desejada do futebol mundial, aos poucos a África revela suas faces cotidianas, como as belezas dos sons ambientes. Podemos ver a verdadeira identidade cultural de um continente que até então se misturava com a identidade da cultura do mundo. E digo a vocês que a África do Sul é mais linda quando tira sua roupa de Copa do Mundo. Mas como qualquer corpo nu, a África começa a revelar imperfeições que são impossíveis de ignorar, entre elas a xenofobia. A cidade de Joanesburgo, por exemplo. Apesar de a mineração não viver mais seus tempos de glória, o nome Cidade do Ouro permanece por conta das oportunidades de vida encontradas na capital da economia sul-africana. Além dela, lugares como Cidade do Cabo e Pretória atraem milhares de africanos de outros países mais pobres.

Se estão certos ou errados, não podemos afirmar, afinal quem viveu a história e vive o dia a dia são eles, nos cabe analisar somente os fatos, como o surto de xenofobia que assolou o país há dois anos. Por outro lado, empregadores sul-africanos afirmam que quando é dada uma oportunidades aos negros estrangeiros, eles a agarram com unhas e dentes, prestando serviços de extrema qualidade. É exatamente neste aspecto que o cidadão negro sul-africano sente o calo apertar. Alguns chegam a pedir leis mais rígidas de acesso ao país, para que as oportunidades sejam centralizadas em quem lutou para conquistá-las. Conversando com esses "visitantes" nas ruas, ouvi relatos impressionantes. A maioria diz desejar que a Copa durasse mais, e esse desejo nada tem a ver com futebol, mas porque existe uma forte possibilidade de uma grande onda de hostilidade tomar conta do país depois que as lentes do mundo não estiverem mais aqui. Conhecer a história da África é maravilhoso, mas vivê-la é complexo.

Bom Dia Rio Grande - 02/07

02 de julho de 2010 0

Confira no link abaixo minha participação no Bom Dia Rio Grande desta sexta-feira:

http://mediacenter.clicrbs.com.br/templates/player.aspx?uf=1&contentID=123260&channel=45

Não é para rir

02 de julho de 2010 1

Faz pouco mais de 20 anos que negros e brancos podem conviver no mesmo espaço na África do Sul. Pode  parecer muito, mas é uma mudança recente, que ainda gera fissuras e conflitos.

Em meio a consensos e desentendimentos, são reconstruídas as bases massacradas pela barbárie que segregou milhões de pessoas na miséria e no descaso. Pior é subestimar potencial, ridicularizar e humilhar. Infelizmente, para esses pecados, não existe lei humana.

Na África do Sul, há um sistema de cotas empresariais: em seus cargos de chefia, as empresas precisam ter uma porcentagem de negros. E, como as cotas universitárias brasileiras, isso gera debate e desconforto para ambos os lados. Um amigo que fiz aqui me disse que os jovens negros africanos não querem nada além de oportunidade. E tentam caminhar para isso.

Ontem, conheci uma universidade em que os alunos pagam com serviços prestados nas cozinhas das escolas e nas construções, entre outras atividades. Pude notar que enfrentar a batalha de vencer o dia a dia não é problema para eles, complicado é aturar atos separatistas que ainda persistem.

Um tenebroso exemplo são as cancelas em certas ruas que existiam no tempo do apartheid e ainda estão ativas. Alegam que é para a segurança das áreas mais nobres, que só têm brancos. Quando eu e nosso motorista negro tivemos de passar, fomos parados e revistados. Só nos liberaram depois de ver meu passaporte. Em outra ocasião, quando um colega branco estava no carro, passamos pelo mesmo lugar, acenaram para ele e seguimos.

Mas eles preferem assim, pelo menos, sabem quem é quem. Sabem que existe racismo e ele tem cara. No Brasil, tem máscara de bom moço, mas nos corrói aos poucos. Exemplo lamentável foi a piada contada aqui por um colega que jura não ser racista. Perguntou a africanos e brasileiros: “Para que foi inventado o cavaquinho?”. Depois do silêncio, falou rindo: “Para negros tocarem algemados!”. Ninguém mais riu. Os africanos se levantaram e saíram da sala. Ele disse que os africanos não sabem a diferença entre racismo e brincadeira. Nós, brasileiros, é que temos dificuldade de saber, porque, na África, eles sabem.