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Posts de setembro 2010

Nossos medos

24 de setembro de 2010 1

Desde muito pequenos, somos ensinados a não ter medo. Entretanto, no final das contas, o máximo que conseguimos é fingir que não temos medo. Para a nossa sorte, a maioria não sabe a diferença entre a falsa e a verdadeira coragem.

Apesar dessa demonização do medo, ele tem lá as suas vantagens. Já vi o medo servir como limitador e como estímulo para muitas situações.

Já vi casos em que o marido era um deitado que só esculachava a esposa, até o dia em que ela meteu uma beca, deu uma geral no cabelo e ficou toda gata. Nem precisou falar nada, o amigo já ficou todo errado e entrou numas de chegar junto, pois viu que ela ainda tinha lenha para queimar.

O medo desperta a possibilidade de perder ou o inverso. No entanto, esse sentimento produz uma liga que apimenta alguns momentos da vida. Outro exemplo clássico é filho que quase perde a coroa. A possibilidade da morte da mãe faz o malandro repensar geral. Parece que precisava sentir aquele medo para que caíssem algumas fichas na sua vida.

Por mais que o fato de ter medo seja algo desagradável, ele serve de advertência para a sobrevivência, é como uma espécie  de mecanismo de defesa para que fiquemos de orelha em pé. Nós, pais, precisamos entender que, às vezes, na vontade de tirar os medos dos nossos filhos, tiramos deles também algumas noções básicas de alerta.

Afinal, o medo de tomar choque é que impede a criança de colocar o dedo na tomada. Medo, nesse caso, é proteção. A moral, no fim das contas, galera, é saber refletir e observar o medo. Às vezes, ele deve ser enfrentado, outras vezes, deve ser ouvido, mas sempre temos de entendê-lo.

Até. Bom finde!

Não quero acreditar!

17 de setembro de 2010 0

Elza Soares canta em um dos seus sucessos: "A carne mais barata do mercado é a carne negra". Por mais que pareça absurdo, é verdade.

Hoje, aproximadamente 120 anos depois da abolição da escravatura, ainda vemos pessoas de pele escura sendo vítimas de preconceitos. Nos últimos dias, acompanhei o caso da comunidade quilombola da família Silva, localizada nas proximidades da Avenida Nilo Peçanha, uma das áreas mais nobres de Porto Alegre.
A Brigada Militar tem feito operações de combate ao tráfico de drogas na região, o que é legítimo e necessário. Aliás, vejo que a polícia tem inibido a criminalidade em diversos pontos da cidade. Porém, não me lembro de ter ouvido tantas reclamações de abuso como agora.

No caso do Quilombo dos Silva, acredito que existe um baita equívoco, pois os moradores estão como mariscos entre a rocha e a correnteza. De um lado, o tráfico de drogas, que se aproxima da comunidade, a qual está abandonada, sem qualquer projeto futuro que dê amparo aos jovens - estes, por conta do preconceito sofrido, em muitos casos, chegam a ter vergonha de se declarar quilombola.

De outro, as ações policiais. Por mais que estejam fazendo seu trabalho, muitas das abordagens tem sido motivo de humilhação para os quilombolas, que chegam a afirmar que foram arrancados de casa à força.
O quilombo tem iluminação precária e casas simples, e está totalmente vulnerável às ações dos traficantes. Aquelas famílias precisam de proteção e não de repressão.

Se fosse em um condomínio fechado de classe alta, será que a ação da polícia teria o mesmo formato? Não acredito que os integrantes daquela comunidade estejam sendo hostilizados por conta da cor da sua pele, entretanto, existe muita gente que acredita.

MV Bill na Malhação

10 de setembro de 2010 4

Nesta semana, consegui me liberar mais cedo do trabalho e, ao chegar em casa, liguei a televisão e dei de cara com MV Bill na novela Malhação. Achei estranho um cara do rap, que já foi acusado de apologia ao crime, estar ali.

Ignorei minhas reflexões e continuei a assistir. Vi que, na novela, ele é um professor de Física e um pai atencioso. Na hora, veio à minha cabeça os papéis que os negros geralmente faziam na televisão quando eu era criança:bandido, alcoólatra, empregada doméstica, escravo, capanga dos vilões e por aí vai.

Lembro que, quando vi Zezé Motta no Telecurso 2000, bem vestida e falando sobre História, fiquei encantado. Era a prova que eu precisava para entender que não éramos somente aqueles estereótipos pregados.

Voltei minha atenção para Malhação e recordei que, em uma das suas músicas, MV Bill diz: “Para quê? Por quê? Só tem paquita loira, aqui não tem preta como apresentadora. Novela de escravo a emissora gosta, mostra os pretos chibatados pelas costas”. Depois de tudo isso, liguei para o MV Bill e quis saber dele o que acha do que está fazendo, a resposta foi curta e objetiva:

– O que sempre fiz, defendendo aquilo que acredito, só que, agora, em outro espaço e de outra forma.

Entendi o que ele quis dizer ao ver meninazinhas na minha comunidade comentando que queriam ter um professor de Física como o professor Antônio, personagem do Bill. E, na mesma conversa, uma delas disse que, se tivesse um pai como ele, já estava bom.

Talvez, estar na Malhação não faça do Bill uma Paquita como ele denunciou no seu rap, mas vai além, faz dele um referencial importante, pois mostra que a pele escura combina com todos os papéis da vida, inclusive, os de sucesso. E isso não é somente na tevê, serve também para a vida.

Parabéns, Bill!

Coração selvagem

03 de setembro de 2010 1

Se existe um sentimento que eu não curto é a autopiedade. Vejo muita gente se olhando no espelho e
só conseguindo ver uma pessoa injustiçada que merecia receber mais da vida.

Quem nasce e vive nas quebradas, tendo de vender o almoço para comprar a janta, com o tempo, deixa o coração selvagem, não se abate com o rugido dos leões que tem de matar para ficar em pé. Esses selvagens desenvolvem um instinto guerreiro de sobrevivência, cada problema vira oportunidade.

Alguém disse uma vez que nunca viu um animal selvagem com pena de si mesmo, e este deve ser o nosso lema. Cada pedra que nos atiram servirá para construirmos nosso castelo. Óbvio que o sentimento de perda e a vontade de ficar na cama bate forte, mas se render é admitir que nosso lugar é longe do sucesso.

Por mais que pareça que não existe estratégia que nos leve à vitória, temos de sentar, respirar e ganhar tempo, pois, por pior que pareça perder a batalha, enquanto estivermos vivos ainda estamos na guerra. Nosso silêncio não significa absolvição. Às vezes, o silêncio condena.

A falta de iniciativa engessa nossa mente numa redoma de miséria que vai nos levar para o buraco. Autopiedade não faz parte do que somos, faz parte do que construímos, faz parte do medo que nos foi imposto com tantas pancadas que tomamos. A melhor forma de enfrentarmos esse sentimento é entender que a derrota também é vitória se levarmos em conta que muitos nem sequer têm coragem de lutar.

Difícil é entrar na arena e ter coragem de enfrentar os problemas. Depois disso é só consequência. A vitória ou a derrota é questão de possibilidades. Mas esse coração selvagem que não desiste da luta é a verdadeira vitória.

O caçador jamais vai subestimar um animal que, mesmo ferido, ruge e luta. E, por mais que um ou outro caçador se atreva a tentar abater-nos, outros entenderão que não é tão simples assim. Temos de ser conscientes e civilizados, e deixar nossa selvageria adubar os momentos em que a depressão bater. Afinal, pena de si mesmo não era.