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Posts de outubro 2010

Muita calma nessa hora

29 de outubro de 2010 1

Cada dia fica mais complicado pensar nas cadeias no Brasil. Aqui, no Estado, o papo esquentou com a reportagem que mostrou presos acessando a internet no presídio. Caiu como uma bomba dentro e fora da prisão.
O que precisamos entender são as diferentes consequências dessa história, pois o que parece ser uma simples reportagem vira divisor de águas. As administrações das casas prisionais, ao verem uma reportagem como essa, ficam apavoradas, pois manter a "ordem" nas cadeias depende de um acordo simples: os policiais mandam das celas para fora e os presos mandam das celas para dentro. Depois do que foi publicado, as administrações precisam dar uma resposta à sociedade, o que significa quebrar esse pacto.

Agora, revistas são feitas nas galerias para apreender tudo que houver de ilegal nas celas. Esse desconforto altera a "paz" carcerária, mas a paz de quem está do lado de dentro da cela, às vezes, é o desespero de quem está do lado de fora. O ideal é que todos os lados dessa situação entendam as "regras de xadrez".

A polícia tem de fazer o seu papel, a imprensa também e todo malandro que faz um esquema como esse, de acessar a internet na cadeia, deve estar pronto para não ter maior estresse se a casa cair. Afinal, ninguém que está lá é criança.
No dia da publicação da reportagem, eu estava na Pej e vi uma menina tentar entrar com mais de 20 chips na vagina. Então, a reportagem é necessária assim como a habilidade da Brigada Militar e da Susepe em de combater o crime carcerário e mediar os conflitos. Aos presos, recomendo paciência e tranquilidade, pois, por mais bandido que você seja, no lado de fora, sua coroa é apenas uma mulher que chora o medo de ver a perícia lhe tirar gelado da cela.
O preso sabe que não há liderança externa, o que prevalece é o sistema, quem quebra o acordo sai quebrado, assim, momentos como esses não são tempo de valentia nem de pancadaria, mas de tranquilidade. Aos que estão no fechado, minha dica é: muita calma nessa hora.

Ligado na centopeia

22 de outubro de 2010 2

Numa floresta, dona Centopeia ganha uma disputada corrida de insetos e lagartixas. Todos ficaram roxos de inveja da vencedora. Na hora de receber o prêmio, perguntaram se ela não se atrapalhava com tantas pernas. A vencedora respondeu que nunca havia parado para pensar sobre o assunto, mas iria refletir sobre a façanha.
Procurada um tempo depois para falar a respeito, os insetos se surpreenderam ao ver que a pobre centopeia estava paralítica: de tanto pensar sobre como conseguia andar, suas pernas travaram.
Na nossa vida, é igual. Às vezes, o que para nós é mole, aos olhos de outros, parece façanha. Infelizmente, isso é um imã para invejosos. Temos de nos virar nessas situações. Se entrarmos numa de que somos melhores ou a teorizar em cima do óbvio, ficaremos aleijados.
Temos de entender ao máximo o mundo que nos cerca, porém, não podemos deixar que isto nos trave. Conheço pessoas que eram extremamente batalhadoras e realizadoras, mas, depois que começaram a estudar ou se formaram, travaram a roda de tal forma que ficaram irreconhecíveis. Os invejosos bateram palmas.
O conhecimento deve nos libertar em vez de nos limitar. Não quero que minhas palavras sirvam de apologia da
ignorância, mas sim do bom uso do conhecimento para ampliar nossa sabedoria.
Nenhum conhecimento de livro é mais valioso do que nosso poder de realizar, de fazer acontecer. Conheço pessoas que teriam tudo para estar numa ruim por conta das poucas chances de estudo, mesmo assim, são verdadeiras referências de sucesso.
Temos de saber equilibrar nossa necessidade de saber com nosso poder de realização. Quem não sabe ler deve aprender, quem sabe tem de terminar o estudos, quem terminou tem de fazer sua faculdade, quem fez a sua pode
fazer outra e quem fez várias deve olhar para o horizonte e se perguntar se não está na hora de fazer o caminho de
volta para não perder suas raízes.
Às vezes, a melhor forma de fazer um guerreiro desistir é mostrar a ele como a luta será difícil. Não sejamos otários de cair nesse caô.

Barriga inspiradora

15 de outubro de 2010 0

Eu lembro que, há cinco anos, estava andando de bicicleta no Centro de Porto Alegre, fotografando a noite da cidade, e, de repente, deparei com uma menina grávida pedindo dinheiro para fumar crack, na Elevada Imperatriz Leopoldina, perto da Ufrgs.

Mesmo tendo visto o terror do crack nas quebradas, aquela cena lamentável me abalou, pois a menina não só destruía sua vida, mas também a que estava gerando. Voltei para casa com a foto, que, com outras, resultaram na mostra fotográfica Bak, que ainda percorre o Estado.

A cena me atormentava tanto que, em 2008, quando, por meio da Cufa, fizemos o Campeonato de Basquete de Rua, a competição ocorreu no mesmo local. O objetivo era mostrar que, no lugar em que as pessoas se matavam no cachimbo, podia haver vida. O evento foi um sucesso.

Porém, toda vez que olhava a foto da menina grávida com o cachimbo na mão, meu coração apertava. A galera da Cufa e o amigo Beto Albuquerque entraram em contato com a prefeitura da Capital, pedindo o local para projetos sociais. Prontamente, o prefeito José Fortunati atendeu e disse que é parceiro.

Ontem, nossa felicidade foi selada. O presidente do Internacional, Vitorio Piffero, informou que a implementação será custeada pelo clube. No espaço, a Cufa e o Inter desenvolverão ações que promovam cidadania por meio do esporte e da cultura. Eu, em nome da Cufa e dos favelados que sonham ver suas famílias livre do crack, sou grato a todos os parceiros que alimentam o projeto.

Se cada espaço dominado pelo tráfico e pelo consumo de drogas fosse ocupado com ações positivas, o número de mortes seria menor, mas, para isto, deve haver iniciativa e boa vontade. Nunca mais vi a menina que me inspirou a mudar a aura daquele espaço, por me dar um choque de realidade e me  colocar para fazer a diferença. Mesmo que jamais volte a vê-la, depois que nossas ações estiverem ocorrendo, atenderemos cada
jovem como se fosse a criança que estava na barriga dela.

Aos amigos que vão entrar nesta, meu eterno  carinho.

A verdade da Tropa

08 de outubro de 2010 0

Assisti ao filme Tropa de Elite 2 e digo a vocês que, se, depois do que é mostrado ali, nós, sociedade, ficarmos quietos, é porque nascemos para tomar chumbo mesmo. O que José Padilha e Wagner Moura mostram nas telas de todo o Brasil é uma realidade para governantes e policiais, apesar de as patentes superiores insistirem em desmentir os fatos. Também é realidade para quem é oprimido, pois fica num sanduíche de tirania.
O filme explora e esclarece a cadeia de acontecimentos que resultam nas milícias cariocas, mas mostra que tudo começa com a microcorrupção policial, o que, infelizmente, conhecemos bem. Não vou ficar descendo a lenha nos policiais, pois milhares deles dão o sangue por uma parada, um desejo sincero de proteger e salvar vidas.
O problema é que, depois, vêm as péssimas condições de trabalho, os salários vergonhosos e a pouca qualificação. Claro que não justifica, mas a necessidade de sobreviver e a revolta de arriscar a vida e ser desvalorizado resulta em violência e corrupção.
Minha alegria é que nem todos os policiais são indignos da farda que usam, mas, se a polícia não for repensada urgentemente, os bons policiais terão duas opções: corrompem-se e exorcizam seus demônios nos mais pobres ou abandonam a farda e vão vender cachorro-quente.
Antes de questionarmos o que a policia faz, é importante entender de onde ela vem. A polícia que condenamos é parte do que somos. Por mais que os policiais gaúchos não estejam oficialmente no comando do tráfico, há relatos de suborno, achaque e arrego. Sei que, amanhã, dezenas de policiais honestos ficarão chateados e me mandarão e-mails mordidos. Peço que me entendam. Por mais que não seja, será que, ao ver um colega com conduta errada, você, policial, denuncia-o para a corregedoria ou a lealdade coorporativa fala mais alto? Ser policial honesto requer coragem. O filme mostra que, perto da raiz do problema, a corrupção policial é brinquedo de criança.  Assista-o com olhos cuidadosos e, depois, decida o que fará com toda aquela verdade.
Valeu galera!

Espelho eleitoral

01 de outubro de 2010 0

Perguntei a um menino de dez anos o que ele faria se achasse R$ 50 no chão da sua sala de aula. Ele me deu, pelo menos, dez formas diferentes de gastá-los. Chamou-me a atenção que, em nenhum momento, falou em devolvê-lo.  Quando toquei no assunto, disse que não é “troxa”, só devolveria se alguém tivesse visto ele achar o  dinheiro.
No domingo, teremos de escolher nossos governantes. Sei que muita gente está mordida, pois entra governante e sai governante as denúncias de corrupção e falcatrua burocráticas pipocam por aí. O que devemos lembrar é que políticos não são alienígenas que invadem a Terra com sua atitudes destrutivas. Esses serem saíram do meio da própria sociedade. A política, por pior que seja, reflete o que somos. Será que nós, eleitores, no lugar dos políticos, faríamos diferente? Podendo morder, na moita, uns R$ 300 mil, abriríamos mão? Um ditado diz “a ocasião faz o ladrão”, mas existe uma passagem bíblica que fala “quem não é fiel no mínimo não será no máximo”. A verdade é que não há roubo pequeno ou grande, existe roubo, sejam R$ 50 ou R$ 300 mil, se não nos pertencem.
Nem todos os políticos são ladrões, mas só os safados aparecem. E isso passa uma sensação de impunidade que frustra a participação em momentos importantes como as eleições. Apesar das nossas opiniões sobre política, não devemos votar somente porque é obrigatório. Por mais que pareça desequilibrada, a democracia brasileira é importante. Precisa sofrer mudanças, como a lei da ficha limpa, porém, isto só acontecerá se quem tiver lá for honesto e fiel ao povo que acredita nele. No entanto, para que existam honestos lá, os honestos tem de se candidatar.
Quando perguntamos quem quer ser político, poucos se colocam à disposição. Assim, os que estão na política querendo trabalhar sério ficam cada vez mais sozinhos em meio ao mar de “espertos” que não deixam passar nem uma notinha sequer caída no chão.
Se estamos descontentes com a política, façamos algo, pois eles são o que permitmos que sejam. Boa escolha, galera!