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Posts de novembro 2010

O "chocolate" não derrete

26 de novembro de 2010 0

Depois de receber um monte de e-mails, voltamos com o Comunidade JA, no Jornal do Almoço. A moral é a mesma: queremos mostrar tudo que as quebradas produzem de bom e, sempre que possível, ajudar a resolver alguma pendenga que estejam enfrentando.
A primeira comunidade visitada foi a Vila Chocolatão, em Porto Alegre. Lá, mais de 200 famílias vivem basicamente do lixo. Estamos, ao meio-dia, na RBS TV, refletindo sobre o momento vivido por elas, pois, em pouco tempo, aquela comunidade será recolocada noutra área.
A prefeitura da Capital, por meio da Secretaria de Governança, está se puxando para que os moradores tenham uma transição tranquila. Por outro lado, a comunidade também tem um nível de organização exemplar. Mesmo com a miséria gritante, consegue dar provas da sua capacidade de vencer.
Claro que nem tudo são flores. Apesar de o trabalho da prefeitura estar sendo muito legal, a ponto de ser referência internacional, a comunidade tem reclamações sérias e pertinentes. Entre elas, a estrutura para que, após a mudança, possa se sustentar. Afinal, muitos não poderão ser catadores, pois a área fica a 15km do Centro.
Hoje, no Jornal do Almoço, o prefeito José Fortunati vai bater um papo com os líderes da comunidade sobre esses entraves. Ambos os lados me disseram que estão dispostos a resolvê-los. Como vai ser ao vivo, não haverá para onde correr.
Até o fim do ano, estaremos percorrendo o Estado, visitando outras comunidades. Quem quiser fazer sugestões é só me mandar um e-mail. Quem quiser assistir às reportagens já feitas é só entrar no site www.rbstv.com.br/ja. Espero todos na empreitada. Minha missão é contar histórias, a parte de vocês é me apresentar as melhores.
Agradeço às comunidades que me recebem nesse projeto, às prefeituras e aos agentes de governo que atendem ao nosso convite. A intenção não é constranger, é mostrar que existem problemas e soluções. Em especial, agradeço à comunidade da Vila Chocolatão, que me ensinou outra lição: por mais quente que esteja a chapa, o “chocolate” não derrete.

Só negro

19 de novembro de 2010 0

Amanhã, 20 de novembro, teremos um dia muito importante, o da Consciência Negra. E, por mais que pareça absurdo, essa data diz respeito a todos nós, independentemente da cor da pele de cada um.
Se pensarmos um pouco no que significa a expressão “consciência negra”, vamos entender um pouco desta necessidade, pois toda a nossa sociedade é influenciada pela cultura e pelos costumes trazidos pelos negros do continente africano. Infelizmente, hoje, a cultura negra está popularmente reduzida a dança e religião, o que é um equívoco. O povo negro tem na sua raiz muito mais riquezas do que se imagina.
Apesar de camuflado, ainda prevalece um pensamento difundido no processo de escravidão. O povo negro, por conta da rusticidade do seu sistema social, era visto como menos culto ou primitivo. Atualmente, essa forma de ver tais características pode ser chamada de racismo.
Para nossa tristeza, muitos negros, em resposta a esse tratamento, aderiram ao racismo, assumindo as posturas de vítima ou reprodutor dessa bestialidade. Infelizmente, livrar-se dessa doença é mais difícil do que se imagina, pois tais práticas estão camufladas em atos e pensamentos quase imperceptíveis.
Requer persistência de pais e professores formar uma sociedade que tenha consciência de como os negros foram e são importantes para a formação do nosso país. Eu mesmo demorei para despertar, foi graças a pessoas como o saudoso Oliveira Silveira que me dei conta que minha pele escura não é somente uma concentração de melanina, mas um patrimônio que deve ser valorizado por mim e pelos que me cercam.
O mestre Oliveira, no nosso último contato, disse-me algo que jamais esquecerei: “A consciência negra passa por a sociedade entender que deve dar ao negro acesso ao que ela tem de melhor a oferecer, mas, para que os negros recebam o melhor da sociedade, eles precisam dar também o seu melhor”.
Essas palavras mudaram minha forma de fazer meu trabalho e fizeram de mim uma pessoa mais dedicada, pois tenho consciência de que sou um negro, nem melhor, nem pior, só negro.

A resposta

12 de novembro de 2010 0

Gente, não curto muito ficar versando sobre isso, mas uma galera me manda e-mail querendo que eu aborde esse tema, então, vamos lá.

Antes de tudo, é importante lembrar que preconceito existe desde que o mundo é mundo, basta haver diferença para que exista preconceito. Assim, não vamos esquecer que somos animais, racionais e inteligentes, mas animais, e com algumas características primitivas. Significa que estou advogando em favor dos preconceituosos e que os atos de imbecilidade são inerentes ao primata? Não!

Com a chegada da Semana da Consciência Negra, o preconceito sofrido pelos negros fica mais latente, mas existem milhares de formas de preconceito, o racial é uma delas. Volta e meia vejo amigos de outras etnias advogarem que os negros são mais racistas do que os brancos.

Acho isso uma viagem. Primeiro, porque o erro de um preto não serve de argumento para justificar o erro de um branco. Segundo, não existe mais ou menos preconceituoso, há o preconceito, que pode se manifestar em formatos e intensidades diferentes. Claro que o negro sente mais o peso desse martelo, pois outras etnias que sofrem discriminação podem se camuflar e driblar o sistema.

A imbecilidade do preconceito vai além da cor da pele, atinge os gordos, os portadores de necessidades especiais, as mulheres, e por aí vai. Se tivesse de dizer como enfrentar essa eterna praga humana, seria: seja sempre competente, esta é a chave para o sucesso. O cara pode chamá-lo de preto, gordo, aleijado e o diabo a quatro, mas, se você puder olhar na cara dele e dizer posso ser tudo isto, mas sou o melhor no que eu faço, os argumentos dele acabam.

Cada palavra que nos agride deve servir de combustível para nossa luta. E não adianta achar que somos vítimas, não somos. Se olharmos com carinho, temos sempre um preconceito escondido no coração. Eliminá-lo deve ser nosso eterno exercício. Sempre lembrando que a melhor resposta para o preconceito é a competência, pois contra ela não existem argumentos.

De volta para casa

05 de novembro de 2010 0

Sempre ouvi dizer que o meio faz o indivíduo, mas, na minha vida, esta máxima foi contrariada. Graças a uma menina de 28 anos que saiu de Salvador (BA) com uma mão na frente e outra atrás e quatro filhos.

O objetivo dela era tirar os filhos do ciclo de violência que os cercava. Eu tinha oito anos e não entendia porque minha mãe chorava tanto naquela viagem. Agora, entendo, ela estava, por amor aos filhos, abandonando seus amigos, sua família e sua história. Mutilou-se para salvar os filhos.
Hoje é um dia especial: depois de 22 anos, eu e minha mãe voltamos a Salvador. Vim lançar meu livro na minha cidade natal e a trouxe para assistir. Ela contava que, antes de ir embora, em 1988, muitos diziam que era louca e os filhos iriam morrer antes de fazer 15 anos. Em parte, estavam certos, ela era louca mesmo, assim como muitas mães são doidas pelos seus filhos e fazem verdadeiros absurdos para vê-los felizes.
Farei questão de levar minha mãe para rever os lugares que marcaram sua vida, para que possa pisar na terra que um dia deixou e dizer de cabeça erguida que não falhou. Tudo que sou devo a ela.
Andando pelas ruas da Bahia, confirmei que minha mãe foi a pessoa mais corajosa que
passou na minha vida, pois fazer o que fez é um misto de insanidade amorosa e sabedoria materna.
Como minha mãe um dia me ajudou a realizar meu sonho de ser comunicador e me auxiliou nas minhas quebradas, nesta semana, vou ajudá-la a realizar o sonho que há mais de duas décadas está entalado na sua garganta. Não sei como nossa cabeça vai reagir a tantas emoções, eu mesmo nunca tive coragem de voltar aqui, mas, como o menino de oito anos que um dia saiu, perto da minha velha parece que as coisas ficam mais fáceis.
Recomendo aos filhos abençoados por guerreiras como eu que deixem clara para elas a sua admiração, pois, por mais que saibam deste nosso sentimento, é importante que ouçam isto da nossa boca, porque gestos de gratidão são capazes de acalmar qualquer
coração aflito com fantasmas.
Beijo, mamães corajosas!