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Posts de março 2011

Não vi Obama

25 de março de 2011 1

Semana passada, comentei aqui que iria ao Rio de Janeiro participar da comissão que receberia o presidente Barack Obama e deu zica: no dia da viagem, abortei a missão. Uma porrada de gente me perguntou porque joguei para o alto um dos momentos mais maneiros que poderia ter vivido.
O que rolou foi o seguinte. Na véspera da viagem, conversei com MV Bill, que mora na Cidade de Deus, sobre os preparativos e ele me comentou que a segurança da Casa Branca pediu que os moradores que estivessem num raio de 300m de onde Obama fosse passar evacuassem suas casas. Coloquei-me no lugar deles: na boa, não sairia da minha casa nem pelo Obama.

Outra exigência foi a revista de todos a partir de dois anos. Como seria um maluco norte-americano com luvas de borracha apalpando meu moleque? Não rola! Proibiram até os moradores de ficar na laje. Bill me disse que não estava à vontade com essa parada. Além dele, os coordenadores da Cufa nos 12 países em que estamos ficaram mordidos e decidimos ficar de fora do evento.

Eu, da minha parte, não teria moral para olhar na cara da minha comunidade sendo conivente com isso. Favelado não é boneco que os bacanas podem jogar de um lado para outro só para bater foto. Alguns amigos até argumentaram que os caras têm motivos para ser tão paranóicos. Entendo, porém, se não tem segurança de vir à minha casa, não venha, mas não me peça para mudar minha forma de viver porque te assusta.

Não admiro menos o Obama, acho ele uma baita referência. Acredito que mereça nosso respeito, pois é um preto que chegou em um dos cargos mais poderosos do mundo. Minha bronca foi com o formato da visita.

Peço desculpas aos amigos por ter gerado uma expectativa que não rolou, mas, por respeito à favela, eu, como membro da Cufa e favelado, decidi não ir. Prefiro não conhecer Obama e andar de cabeça ante a favela.

E, por falar em Cufa, convido todos para um baita evento que a entidade está fazendo na Elevada Imperatriz Dona Leopoldina, no Centro de Porto Alegre. Quem quiser saber mais entre no site www.cufars.org.br.
Valeu, galera!

Preta inspiração

18 de março de 2011 2

Gente, no domingo, irei à Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, para compor a comissão da Cufa que receberá Barak Obama. Óbvio que é um momento histórico, o primeiro presidente norte-americano negro na favela que foi retratada no cinema como um campo de guerra.

Para mim, como preto, isso tem significado ainda mais forte. Minhas idas à África, estar próximo a Mandela, Obama. Isso me faz acreditar que o negro não está mais com a cara na lona. Sinto que estamos avançando e agradeço a Deus e a vocês, amigos, por viver isso. Tanto que volta e meia divido aqui minhas alegrias e minhas tristezas.

Porém, não podemos nos enganar. Todos nós, negros e brancos, temos a obrigação de erradicar o preconceito racial e social do nosso meio. Se por um lado Obama é o cara e nos dá orgulho, por outro, aqui do Estado, temos situações que geram medo e vergonha. Por exemplo, hoje, completa uma semana de dor para a família do Tairone Silva, um jovem negro esportista e esperança do boxe brasileiro que foi morto em Osório por um policial militar.

O policial está preso e alega legítima defesa. Por outro lado, dezenas de pessoas naquela cidade afirmam que o jovem esportista era de paz e diversas vezes foi perseguido pelo brigadiano, que, costumeiramente, fazia comentários a respeito de ser contrário ao sucesso do rapaz e que seu êxito duraria pouco.

As pessoas podem ter aumentado por conta da dor. Tomara que essa informação não seja verdadeira. Seria lamentável que covardes usassem a farda para camuflar seu racismo. Acredito que o comando geral da Brigada Militar vai acompanhar isso de perto e dará à sociedade a resposta devida.

De qualquer forma, temos de lembrar que é um Obama para milhares de Tairone. Nossa luta é árdua. E, volto a dizer, o racismo não é um problema dos negros, mas da sociedade. Eu, da minha parte, deixo meus cumprimentos e minha solidariedade à família. E vou tentar entregar uma foto do Tairone para Obama, pois ambos são o que chamamos de preta inspiração.

Forte abraço, galera!

Perdoem o anjo

12 de março de 2011 1

Ver que seu filho já lava louças sozinho. Acordar um dia e se dar conta de que sua filha usa sutiã ou que sua mãe envelheceu e tem mais cabelo branco do que quando você reparou pela última vez. Perceber que seu irmão mais novo precisa de um barbeador.
Essas são algumas das constatações a que muitos de nós chegamos depois um tempo, não que sejamos irresponsáveis ou desatentos, mas porque voltamos nossos olhos para aqueles que pareciam precisar mais da nossa ajuda naquele momento.
Professores, policiais, educadores sociais e muitos outros sabem do que estou falando. Em algum momento, já foram acusados desse pecado.
A Bíblia diz que "quem não faz previsão para os seus é pior do que alguém sem fé". Mas nossa ausência é por excesso de fé, nossa abnegação se explica por ver que os anjos da morte se espalham com uma velocidade assustadora.
Autodeclaramo-nos "anjos da vida" e esticamos nossas asas imaginárias para tentar fazer a diferença, pelo menos, naquele dia. Com a imbecilidade de mergulhadores salva-vidas, pulamos na água mesmo sabendo que, com o mar revolto, não será possível voltar.
Nossa ingenuidade nos convence que todos vão entender. Talvez, todos entendam, mas não o tempo todo. Um dia, o mundo à nossa volta nos olha e exige que mudemos a escolha diária. Nessa hora, o peito rasga e não temos escolha, um pouco de nós vai morrer ali.
Respeito e admiro aqueles que conseguem esquecer o mundo para cuidar dos seus, eu não cheguei a este nível de evolução. Faço parte daqueles que ainda esquecem dos seus para cuidar do mundo.
Sei bem como isso doi, não sei se um dia farei diferente. Porém, como disse um amigo que compartilha da mesma dor que eu: "Perdoem esse anjo que não me deixa em paz".