Hoje, nós, negros, reclamamos, geralmente com razão, do racismo velado que sofremos. Por mais que ninguém ande com uma camiseta escrito "odeio negão", podemos verificar no acesso a empregos de chefia, ensino superior e níveis salariais que ainda existe uma enorme diferença. É o que chamamos de racismo institucional.
Apesar das nossas reclamações, já foi pior e, se estamos avançando, parte desta conquista é resultado da luta de pessoas como um guerreiro que nos deixou nesta semana: Abdias Nascimento. Por recomendação de vários amigos, dedico esta coluna a esse exemplo de luta humana que, quando o Brasil proibia debates raciais, por meio da sua arte e dos seus livros, denunciava os absurdos sofridos pelo povo negro e marginalizado.
É lamentável que muitos de nós saiamos da faculdade sem sequer ter ouvido falar em obras como Negro Revoltado, livro que influenciou gente como MV Bill, Zezé Motta, Luís Inácio Lula da Silva e Milton Gonçalves, entre outros. Eu tive o prazer de conhecer Abdias numa feira do livro e foi pela sua boca que ouvi pela primeira vez um intelectual dizer: "O racismo não é problema de negro, mas da sociedade".
Infelizmente, ele não teve o reconhecimento que merecia, mas nada impede que conheçamos sua obra. Entre as observações brilhantes que Abdias fazia, estava a crítica à identidade negra brasileira. Dividimo-nos nos que querem ser como os norte-americanos, nos que desejam ser africanos e nos que, apesar do cabelo crespo e da pele escura, não se reconhecem como negros. Para ele, o primeiro passo para a cidadania está em encontrarmos nossa identidade enquanto negro brasileiro.
Por ironia, Abdias, fundador do Movimento Negro, morreu aos 97 anos e exatamente no Ano do Afrodescendente. Recomendo carinhosamente que as professoras que nos leem levem essa dica para a sala de aula e façam seus alunos conhecerem esse pensador que nos presenteou com sua luta e sua obra.
Um salve aos negros e aos brancos que lutam por igualdade.

