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Posts de maio 2011

Negro adeus

27 de maio de 2011 0

Hoje, nós, negros, reclamamos, geralmente com razão, do racismo velado que sofremos. Por mais que ninguém ande com uma camiseta escrito “odeio negão”, podemos verificar no acesso a empregos de chefia, ensino superior e níveis salariais que ainda existe uma enorme diferença. É o que chamamos de racismo institucional.

Apesar das nossas reclamações, já foi pior e, se estamos avançando, parte desta conquista é resultado da luta de pessoas como um guerreiro que nos deixou nesta semana: Abdias Nascimento. Por recomendação de vários amigos, dedico esta coluna a esse exemplo de luta humana que, quando o Brasil proibia debates raciais, por meio da sua arte e dos seus livros, denunciava os absurdos sofridos pelo povo negro e marginalizado.

É lamentável que muitos de nós saiamos da faculdade sem sequer ter ouvido falar em obras como Negro Revoltado, livro que influenciou gente como MV Bill, Zezé Motta, Luís Inácio Lula da Silva e Milton Gonçalves, entre outros. Eu tive o prazer de conhecer Abdias numa feira do livro e foi pela sua boca que ouvi pela primeira vez um intelectual dizer: “O racismo não é problema de negro, mas da sociedade”.

Infelizmente, ele não teve o reconhecimento que merecia, mas nada impede que conheçamos sua obra. Entre as observações brilhantes que Abdias fazia, estava a crítica à identidade negra brasileira. Dividimo-nos nos que querem ser como os norte-americanos, nos que desejam ser africanos e nos que, apesar do cabelo crespo e da pele escura, não se reconhecem como negros. Para ele, o primeiro passo para a cidadania está em encontrarmos nossa identidade enquanto negro brasileiro.

Por ironia, Abdias, fundador do Movimento Negro, morreu aos 97 anos e exatamente no Ano do Afrodescendente. Recomendo carinhosamente que as professoras que nos leem levem essa dica para a sala de aula e façam seus alunos conhecerem esse pensador que nos presenteou com sua luta e sua obra.
Um salve aos negros e aos brancos que lutam por igualdade.

Dinheiro é bom, mas...

20 de maio de 2011 0

Quando perguntamos às pessoas qual a origem dos seus problemas, a maioria responde que é a falta de dinheiro. A verdade é que muitas vezes culpamos a falta de grana por nossas tristezas, mas será que é isto mesmo?

Nós, pobres, apesar de desejarmos tanto o dinheiro, muitas vezes não sabemos lidar com ele. Quando pegamos uma bolada, raramente pensamos como fazer aquele dinheiro chamar mais dinheiro. Gastamos nas coisas que desejamos e nunca temos. Porém, como gastamos tudo, raramente teremos novamente.

Ontem, conversei com um morador de rua que pede dinheiro numa esquina da Rua da Praia, no Centro. Fiquei bobo de ouvir: o cara fatura quase  R$ 60 por dia somente na moedinha e, no fim, gasta em lanche e pagando a pensão meia boca em que dorme. Se investisse essa grana nele mesmo, em pouco tempo, estaria fora das ruas, no entanto, no fim, percebi que não é o que ele quer.

Temos muitos problemas na nossa vida: afetivos, psicológicos, espirituais, e por aí vai. Entretanto, como pensar e resolver esses problemas requer de nós um esforço tremendo, muitas vezes nem sabemos por onde começar, mascaramo-os, colocando a culpa na falta de dinheiro.

Se ter dinheiro fosse realmente a solução, muitos países ricos não teriam as altas taxas de suicídio que tem, os ricos não seriam tão viciados em drogas como são e os terapeutas e os psicólogos não teriam suas agendas lotadas como estão, resolvendo aquilo que o dinheiro não compra.

Antes de pedirmos a Deus mais dinheiro, seria legal pedirmos mais sabedoria e mais tranquilidade, porque muitas vezes ter dinheiro só serve  para pagar pelos problemas que não teríamos se fossemos pobres.
Claro que temos de ter conforto e tranquilidade financeira, mas quem não sabe administrar um salário não irá saber administrar dez, porém, quem consegue se organizar mesmo com pouca grana, quando receber uma bolada, saberá girar a máquina e sair da pindaíba.

Bom fim de semana!

Não é creme

13 de maio de 2011 0

Gente, quero agradecer o carinho da galera com a nossa participação no Profissão Repórter. Legal que não é tietagem, mas admiração mútua mesmo. Sou apaixonado pelo jeito favela de viver e, quando sou reconhecido por estes que admiro, fico muito feliz. Já estou gravando outro programa com o Caco Barcellos. Desta vez, vamos entrar de
cabeça no sistema prisional, mas de uma maneira que, até então, não tinha visto.
Não vou entregar o ouro, mas posso garantir que será impactante. Nas visitas ao presídio, constatei algumas paradas. Entre elas, que cadeia não é hotel, tão pouco coração de mãe. Nas comunidades, há meninos novos e marrentos que, por incrível que pareça, acreditam que puxar uma cadeia é sinal de graduação. Mas quem já passou perto de uma cela sabe que é caô. A rotina carcerária fatia tudo de lindo que tínhamos.
Pelo que vi, é praticamente impossível que, hoje, alguém saia melhor depois de passar pelo sistema prisional. Quando digo que cadeia não é hotel, é porque ver gente empilhada, bebendo água contaminada e dormindo em camas úmidas não é bonito.
As únicas companheiras são as fotos das mulheres nas paredes e os casos de pneumonia, tuberculose e leptospirose. Quando digo que não é coração de mãe, é porque entrar numas de que é só meter gente ali, ignorando a estrutura dos espaços, é colocar pólvora no barril. E um dia pode explodir. Apesar de não glamourizar presos, admito que algumas coisas que vi lá dentro faltam aqui fora. Entre elas, o respeito e a palavra. Na cadeia, sua palavra vale sua vida.
Não tem lugar para papo torto e desrespeito às regras. A vida depende de manter a boa convivência com os demais.
É lamentável que não tenhamos estrutura nem força de vontade da sociedade para ressocializar presos. Pena, também,
que alguns presos não queiram se socializar, achando que o crime é o creme. Vou encerrar por aqui e espero que gostem do programa que vai ao ar. Bom final de semana. Valeu.

Manoel Soares participa do Profissão Repórter de hoje

10 de maio de 2011 0

O Profissão Repórter desta terça-feira vai mostrar os ritmos e os artistas que caíram no gosto popular. Duas bandas e um nome só disputando o mundo brega. O forró e a a propaganda misturada com música.

Em sua segunda participação como repórter convidado, Manoel Soares conta um dos eixos do programa que vai falar sobre a cena musical brega no Brasil.

O repórter da RBS TV atravessou o país e foi até Xambioiá, na beira do rio Araguáia. Manoel conta como a ideia surgiu: “nossa reportagem nasceu a partir do Titanic um bar flutuante que ficou famoso por conta de um funk gravado para divulgar as festas, mas que foi além do previsto”.

Curiosidades, como os sons automotivos, a indústria dos CDs e as brigas das bandas Djavu’s, também fazem parte do programa.



Bastidores da pedra

06 de maio de 2011 0

O que vou escrever é baseado no que tenho visto e vivido nas comunidades em que ando. Por mais que muitos, depois de ler, fiquem mordidos, é a mais pura realidade. Avenidas e ruas estão cada vez com menos zumbis da pedra zanzando. Por quê?

O crack, durante anos, atormentou a vida dos moradores de comunidades. Fomos vítimas e algozes dessa desgraça. As favelas, que antes vendiam droga para os boys, sustentavam o tráfico sem precisar da grana do asfalto. Por outro lado, os viciados quebravam o equilíbrio das bocadas – não respeitavam escolas, igrejas e nem varais.

Os traficantes estavam num dilema: se matassem os viciados as “donas Marias” se revoltariam com a morte dos filhos e a alcaguetagem era iminente. A solução foi deixá-los vivos, mas expulsá-los da comunidade. O medo começou a descer o morro, as estruturas sociais tremeram e foi uma correria, pois a praga estava atingindo os filhos dos faraós. Os acampamentos de craqueiros nas ruas do Centro eram comuns.

Para aplacar a crise, a polícia entrou no jogo. Após algumas medidas socioeducativas e muitas borrachadas, quem sobreviveu ao terror da pedra foi em busca de anistia na comunidade de origem. Apesar de viciados, prometeram a mães e familiares que iriam mudar e tal. Como esperado, sem ajuda profissional ou intervenção médica voltaram ao cotidiano de roubo e consumo.

A questão é que não podem mais voltar para o asfalto e o tráfico não tolera o comportamento de um usuário crônico. No meio desse de caos, muitas mães têm vindo a mim dizer que seus filhos simplesmente sumiram. Não acham nem vestígio deles. A maioria acredita que não estejam vivos, pois não tinham condições nem de pegar um ônibus. Se estão mortos, onde estão os corpos?

Chego a uma mórbida conclusão: se, como sociedade, não tivemos competência para resolver o problema do crack, o sistema que o criou está resolvendo, mas à sua maneira. Pode parecer cômodo para nós, mas o preço disso é alto e a conta vai chegar um dia. O crack é só o começo de muito que está por vir. Temos de abrir o olho. Valeu, galera!