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Posts de setembro 2011

Maldição dos competentes

30 de setembro de 2011 0

Quem é competente no que faz tem um sério problema que, às vezes, coloca tudo que é conquistado ladeira abaixo: o dia da zica. Geralmente, quem tem tudo sob controle se atrapalha quando vê as paradas darem errado. Parece que quando a casa cai, nunca cai só. Parece que tudo de ruim resolveu acontecer naquele dia.

Nessa hora, somos nós mesmos que colocamos nossa competência em xeque. Isso é positivo e negativo. Positivo porque a primeira característica de gente incompetente é apontar os erros dos outros quando algo dá errado. O competente, por outro lado, se pergunta o que ele poderia ter feito para evitar. O negativo disso é que essa autocrítica pode colocar um competente em um limbo de onde jamais sai. Começa por conta de um momento complicado até se colocar numa condição de vítima, que corrói a capacidade natural de realização.

Temos que saber lidar com as frustrações. É muito fácil se acostumar com a vitória, mas só os realmente fortes sabem olhar nos olhos da derrota, levantar, sacudir a poeira e virar o jogo. Cada vez que conseguimos nos superar, ganhamos.

Primeiro, exercitamos nossa humildade, entendemos que ser competente não é ser perfeito. Aprendemos a entender os erros dos outros, pois uma das características de quem é competente é a paciência. Só vamos ser tolerantes com os erros dos outros se formos antes com os nossos. Por pior que esteja sendo a semana ou o dia, pode ficar tranquilo que vai passar.

Cabe a nós termos maturidade e humildade para entender que não somos os donos do mundo, temos que ter em quem confiar e dividir nossas vitórias e frustrações. Cuidado nessa escolha para não se expor para pessoas que não deve. Outro cuidado importante é não pensar que as pessoas têm que entender nossas limitações. Elas não têm que entender.

A pior ofensa para um competente é aquela cara irônica de quem vibra com nossa falta. Temos que ser exigentes conosco, mas não ser tiranos. Não se apresse em cobrar de outros os seus erros.

Minha real das UPPs

23 de setembro de 2011 3

Uma galera me manda e-mail querendo saber o que eu acho das UPPs gaúchas, claro que junto com a pergunta cada um manda sua opinião a respeito. No fim das contas acho que a galera não só quer saber o que eu acho, mas quer também dizer o pensa a respeito sendo assim, vamos lá.

Uma senhora da Tinga me disse que é muito legal poder andar a noite sabendo que a policia vai garantir a circulação, por outro lado diz que prender traficante não é solução se de dentro da cadeia eles mandam e desmandam. Outra do morro Santa Teresa acha que os postos precisam ser melhor equipados, tem policial que para ir ao banheiro depende da boa vontade de moradores, eles ficam muito expostos e vulneráveis.

Minha opinião sobre essa parada é meio radical, acho que desde que o mundo é mundo o único serviço público que nós conhecemos é a polícia e dessa vez não foi diferente, se a BM chegasse acompanhada de uma bateria de outros serviços de saúde, educação, cultura e lazer aço que eu acharia lindo, mas colocar um ônibus com dois policiais no meio da rua acho arriscado para todo mundo.

O crime é um dos problemas das comunidades, mas temos outros bem piores, mas como o crime é o único que o asfalto sente na carne, a reação vem nesse sentido. Minha pergunta é se as UPPs gaúchas nasceram para ajudar as comunidades ou para calar a boca de quem se incomoda  com a violência que emana dela.

Se é a primeira opção, temos que mudar nosso formato de ação, talvez tenha oficiais que digam que não sei do que estou falando, mas as comunidades também não sabem e precisam saber. Muitas pessoas nas comunidades estão acreditando nessa iniciativa e estão se colocando em risco, algumas famílias já receberam ordem de sair da comunidade quando a polícia se for, quem vai pagar essa conta?

Eu sou a favor da aproximação da policia com a comunidade, mas desde que seja feita com planejamento e transparência, o ideal é que fosse permanente, mas um dia as UPPs vão sair das quebradas e qual será o legado deixado? Volto a dizer não sou contra a polícia, mas nesse tipo de situação tenho que olhar o lado da comunidade. Tem muito mais o que ser dito, mas vamos parar por aqui porque bem ou mal um importante passo está sendo dado.

Pelo amor ou pela dor

16 de setembro de 2011 0

Quando sentimos o peso do corpo sobre os joelhos, e a capacidade de se levantar se reduz a uma vontade, entendemos que algo está fazendo falta. O nome deste algo é espiritualidade. O assunto ficou fora de moda nos dias de hoje. As pessoas não investem mais nisso como antes. Cuidar das nossas crenças e alimentar o espírito deixou de ser prioridade. Mas podem ter certeza que vamos um dia pagar esta conta.

Infelizmente, algumas mulheres só vão ao terreiro cumprir suas obrigações com o santo na hora de tentar dar o troco ao homem amado que se foi ou para trazê-lo de volta. Mas poucos sabem como são ricas e educativas as religiões de matriz africana. Em outros casos, as ricas páginas da Bíblia só servem de seda para fechar baseado.

Por mais que pareça absurdo, já vi gente fumando maconha com páginas do livro sagrado. O pior é que não fazem isso como um sacrilégio voluntário, mas por causa da textura do papel ser similar aos papéis do fumo. Junto com a fumaça sobe a mensagem que, na hora do desespero, poderia salvar uma vida. Este momento de descaso espiritual não é privilégio nosso, foi vivido por outras eras: Babilônia, Egito, império romano e outros. Caíram e caem por ignorar o senso humanitário contido na espiritualidade e por acharem que sua sabedoria é tudo.

Na boa, alimentar o espírito é uma lição que se aprende em casa. Falar com o deus no qual acreditamos é um legado a ser deixado por pai e mãe. Quando não estivermos por perto, nossos filhos terão no que se apegar para enfrentar a vida. Crescer na vida é importante, mas nada disso vale se nossa alma estiver seca e sem fé.

Seremos devorados pela própria vaidade, sem pena. Não é a toa que nas quebradas há tantos terreiros e igrejas. São espaços de aprendizado coletivo. Muitos dos alicerces que vão sustentar nossa ética e nossa honestidade serão aprendidos em nossas escolhas religiosas. Mas precisamos investir nelas com seriedade.

Lembre-se: o espírito vai pedir alimento. Se não for por amor, vai ser pela dor. Escolha agora.

Racismo doce

09 de setembro de 2011 0

Sempre que falo sobre racismo ou outras formas de preconceito as pessoas pensam que é porque sou negro, parte desse pensamento é verdade, o fato de ser negro me faz saber experiencialmente o peso de ser subjugado por conta de uma característica física.

Porém, minha luta não é em causa própria, não é em favor dos negros, mas em favor do que acho certo. Existem leis que são falhas, que não correspondem ao que é justo, neste e em outros assuntos. As leis um dia permitiram que pessoas fossem espancadas, vendidas e escravizadas, hoje essas leis são repugnadas por nós, assim como nossa lei de hoje um dia será motivo de vergonha para as gerações futuras. Mas se as leis não são nosso norte, o que devemos seguir então?

Acredito que o bom senso, a capacidade natural de se colocar no lugar do outro, essa deve ser nossa meta sempre, se assim fizermos a chance de nos rendermos aos pré-conceitos é mínima. Estão chegando a mim muitas histórias de crianças negras que são tratadas de maneira hostil pelos colegas na escola, as professoras se defendem dizendo que fazem de tudo para que isso não aconteça, por outro lado não podem fazer nada se os pequenos reproduzem as lições aprendidas em casa.

Estes dias li em um Twitter que o berço é o adubo do preconceito, sou obrigado a concordar, as palavras ditas no ultimo domingo pelo ator Rodrigo Lombardi no Domingão dos Faustão na final da Dança dos Famosos indica isso. Ele disse que apesar de ser negro, baixinho e caolho o cantor e dançarino Sammy Davis Junior no palco parecia um loiro, alto de olhos azuis. Quem disse que o bonito é assim?

Na ignorante inocência de suas palavras o ator global vomitou o mais doce preconceito que mora em milhares de corações que reproduzem o conceito de sucesso imposto por uma educação social baseada em um ideal quase nazista.

Cabelo ruim, nuvem negra, passado negro entre outros termos fazem parte desse cotidiano racista que nos invade diariamente sem nem notarmos. Convém lembrar aos que ficam pessimistas que a vida já foi bem pior, convém lembrar aos otimistas que poderia ser bem melhor e aos realistas que cabe a nós mudar o que acreditamos estar errado.

Desculpa aí

02 de setembro de 2011 0

Estes dias eu fui fazer um papo numa escola e vi algo que me chamou atenção, a dificuldade que as crianças tem de pedir desculpas. Parecia um ofensa dizer esta palavra tão simples, me lembrei do meu tempo na escola e vi que realmente era um martírio ter que chegar para outro colega e admitir que errei e que não aconteceria novamente.

Ao ver os bicos das crianças que se recusavam a este ato, na visão deles, humilhante, eu comecei a pensar se eu havia mudado, se hoje eu peço desculpa com mais tranquilidade e para minha surpresa cheguei a conclusão que deveria fazer mais isso.

Geralmente nossos filhos acabam herdando nossos pecados mais que nossas qualidades, perdoar e pedir perdão é uma parte importante da herança de caráter que devemos deixar.

Na saída desta escola vi que, um pouco por conta da chuva, outro por conta das heranças, os pais dos alunos com seus carros não deixavam outros passarem, xingavam uns aos outros e a buzina comia solta, nessa hora pensei: como estes pais podem pedir educação aos seus filhos.

Se nossos filhos não nos veem pedir desculpas, reconhecer nossos erros como farão isso?

No fim das contas deixo vocês com as palavras de um escritor árabe que admiro muito, Kalil Gibran: "A sabedoria das palavras é a sombra da sabedoria das ações." Bom fim de semana amigos e me desculpem por qualquer coisa aí.