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Posts de outubro 2011

Homem bomba

28 de outubro de 2011 1

Ao ver o drama do povo que vive em guerra no oriente médio eu me pergunto o que faz um homem colocar uma bomba no próprio corpo e se explodir? Uns dizem que é o fanatismo, outros dizem que é por ignorância, eu confesso que ainda não tenho essa resposta, o máximo que posso falar é sobre os homens bombas que nos cercam.

Nesta quinta feira sentado na sala de espera do hospital psiquiátrico São Pedro para internar alguém que amo muito, conheci outros jovens que me disseram que se pudessem colocariam uma bomba no próprio corpo e explodiriam as bocas de tráfico ondem compram pedras.

Me disseram isso não em um surto de raiva, mas na mais mórbida consciência de quem acredita que naquele momento em particular sua existência é tão inútil quanto a pedra que ele fumou na noite anterior.

Ao ver sua mãe 20 kg mais magra de tanta depressão e dor um deles diz que ela ficaria orgulhosa dele se fosse um mártir da pedra. Ela ao ouvir chora e pede pelo amor de Deus que ele pare de falar besteira, ela diz que ele é o menino dela, aquele que aprendeu a ler aos 4 anos para orgulho da família.

Quando pergunto o que ele sente de fato, me diz que a boca fica seca, dormência no corpo, pressão baixa, a visão fica turva, calafrios, ouve vozes, gosto de sangue na boca e quando tenta comer, a comida tem gosto de querosene, diz que tudo isso só passa quando sente a fumaça do crack na boca, Lamenta que somente depois que o alívio chega, ele se dá conta que o fim do sofrimento custou o dvd de seu irmão ou a vida de alguém.

Do mesmo jeito que o suicida do oriente médio acredita de maneira errada que sua morte vai trazer liberdade, esse homem bomba da favela também, mas aqui a liberdade é desse inferno chamado crack. Mas o pior de tudo, é saber que alguns realmente querem que eles se explodam mesmo.

Holograma marginal

21 de outubro de 2011 1

Graças ao livro Zumbis da Pedra, que escrevi com meu amigo Marco Cena, esta semana, pela primeira vez, fui patrono em uma feira do livro. O convite veio da cidade de Charqueadas. Eu, que conhecia o município mais por conta dos presídios, tive o prazer de ver que as coisas nem sempre são o que parecem.

As mais de 40 mil pessoas que moram lá aprenderam a fazer de Charqueadas não uma cidade de presídios, mas de oportunidades. Durante as entrevistas e atividades de um patrono, uma pergunta sempre foi muito frequente: "O que lhe fez não seguir a vida errada?"

Nem eu tinha pensado a fundo nisso, mas depois de refletir, vi que eu, na adolescência, até queria ser bandido. Achava maneiro, afinal, eles andavam de moto e pegavam várias minas. Por outro lado, conforme eu olhava os caras de perto, via que aquele sucesso deles era um holograma, pura ilusão. Tanto que, na casa das suas mães, às vezes, não tinha gás para cozinhar um rango. Eles dormiam cada dia em um lugar, com medo de serem pegos. Trocavam de namoradas com medo que elas soubessem de seus esquemas e dessem o golpe. Não podiam ver uma moto com farol alto que achavam que iam morrer. E, quando morriam, o caixão tinha que ser lacrado, porque a cabeça estava estourada.

Eu não queria que minha mãe visse a perícia recolhendo meus miolos com pazinha de lixo. Quando coloquei na balança, vi que ser bandido parecia ser maneiro, mas no fim eu ia me quebrar.

Na vida do crime, por mais responsa que sejamos, sempre estaremos dormindo com a pistola embaixo do travesseiro. E, se nos acordarem no susto, atiramos. Numa dessas, já vi malandro matar filho e chorar a vida inteira. Não quero isso para mim. Graças a Deus, e à linha dura de minha mãe, eu me dei conta a tempo de voltar e seguir outro rumo na vida.

O meu pedido é: mostre este texto ao seu filho para que ele não se deixe levar pelo holograma marginal.

Papo de criança

14 de outubro de 2011 2

Estes dias, eu estava numa quebrada da Zona Norte trocando uma ideia com uma molecada. Foi quando eu me surpreendi com um menino de dez anos. Tinha um pegada de nego veio frustrado, uns papos de homem desiludido da vida. Dizia que não adiantava investir em meninos como eles, pois não queriam nada da vida. Disse mais: que, se morresse naquela hora, estava tranquilo, não ia perder nada. Não estava dizendo para fazer média. Ele estava era mordido por dormir em um colchão no chão, e comer comida de ontem, dada pelos vizinhos. Ele estava sentindo falta da dignidade que via nos olhos dos outros.

Por outro lado, às vezes, vemos uns malucos de barba na cara agindo como moleques, falando e fazendo besteira, sem medir as consequências. Depois, vêm com suas caras de cachorro molhado, pedir desculpa, Isso quando não metem uma marra, achando que o mundo tem que entender que eles são uns babacas imaturos. Essa parada tem a mesma medida para homem e mulher. Às vezes, sem notar, invertemos as posturas da vida. Quando ela nos exige seriedade e maturidade, deixamos na reta.

Por outro lado, o pega da vida devora a inocência de algumas crianças, plantando sentimentos e perspectivas que são impróprias para sua idade. Cada fase da vida tem um sentido de aprendizado. Se não deixarmos as crianças viverem seus momentos de inocência e doçura, não adianta querer que eles tenham um sorriso puro. Tudo na vida tem volta. O pior é que há situações que voltam em dobro, seja para o bem ou para o mal.

Não dá para plantar espinhos e colher rosas. Aos barbados, recomendo que se liguem na lei do retorno. E você, que está lendo, se puder ajudar uma criança a ser criança, faça isso.

O poder da favela

07 de outubro de 2011 0

Eu sou favelado. Só para entender, gente, quando falo de favela, isso inclui todo mundo que ganha menos de R$ 2 mil por mês. Gente que não passa fome, mas que corta um dobrado para não deixar a peteca cair. Falo de quem mora longe do Centro e depende de ônibus para trabalhar. Ser favelado não quer dizer que somos sujos ou marginais, mas que corremos atrás para garantir o nosso.

Tem muita gente que pensa que a favela é só pobreza. O que pouca gente leva em conta é que quem sustenta boa parte da cidade, do Estado e do Brasil é o dinheiro que vem da favela. Apesar do mito que favela não paga imposto, pagamos, sim, no pão, no leite, no sabão e no ônibus que usamos. Tudo tem imposto embutido. Basta observar, quem gosta de pagar tudo certinho e ter o nome limpo é pobre. Chega a ser motivo de orgulho quando se consegue chegar em uma loja e, quando verificam, em seu crédito não consta nada. Sustentamos boa parte da economia brasileira.

Só aqui na Região Sul, representamos mais de 80% da população. E é do nosso bolso que sai 70% da grana que rola. Quem olha para uma periferia e só vê pobreza é gente sem visão. Fortunas como a de Silvio Santos se fizeram com o dinheiro pingadinho de gente como eu e você. O sucesso do próprio Diário Gaúcho, que você está lendo agora, é uma prova disso.

A favela tem um poder que nem ela conhece. Óbvio que se a favela reconhecesse seu valor seria melhor tratada, não aceitaria pagar mais para receber menos. Muitos acreditam que nós, quando entramos em um shopping ou em um supermercado, temos que aceitar o que vier para não pagar mico. Isso é errado. Temos que exigir, pois se dependesse só do dinheiro dos bacanas, o país estava falido. Eles precisam da gente mais do que precisamos deles. Sou favelado, sim, e com muito orgulho.