Muita gente acha que eu gosto de favela, periferias e comunidades. Estão enganados. Na verdade, eu tenho pavor delas. Acho que ninguém gosta. Gosto é da nossa capacidade de, mesmo tendo, às vezes, condições sub-humanas, aprendemos a amar nossas casas e nossas famílias. E a desenvolver um estilo de vida que, ao contrário do que muitos dizem, é muito feliz, e vai além da violência e da miséria.
Ninguém se orgulha das dificuldades de morar na favela, ninguém acha bonito ter goteira na casa, ter luz de gato, ficar sem gás, faltar coberta no inverno e água no verão. Não gostamos de ficar com medo quando a Polícia passa, ninguém gosta de ter que baixar a cabeça para um menino de 15 anos que se declara dono da boca.
Aprendemos a conviver com essas coisas, mas não morremos de amores por elas. Nosso amor pela favela é como o amor de um paraplégico por sua cadeira de rodas. Ele aprendeu a amar aquela cadeira, pois é com ela que ele se move pelo mundo. Nós amamos o que temos, mas nem sempre temos o que amamos.
Meu sonho é que um dia não exista mais favela, não exista mais pobreza, nem que eu precise falar o que está entalado em nossos corações. Meu sonho é que as ruas pelas quais andamos não sejam cenários de morte e dor, mas de alegria e realizações. Até que isso aconteça, vou continuar amando o que temos.
Mas peço a cada favelado que não deixe a favela como legado para seus filhos. Ensinem o respeito pelas nossas origens, mas a buscar algo melhor. A dignidade de abraçar seus filhos mostrando a eles que você é um vencedor não tem endereço. No asfalto ou na favela, todos queremos isso. Mas na favela este sonho custa mais caro.
A mesma origem que faz de nós fortes para enfrentar a vida, nos faz fracos para aproveitar nossas oportunidades. Ser favelado faz de mim uma pessoa que não aceita as injustiças. Eu quero ser até morrer, mas se ser favelado tira de mim o direito de viver com conforto e dignidade, abro mão disso. Ninguém pode ter como herança a miséria.
Não gosto de favela, e juro que vou lutar para acabar com ela o mais rápido possível. Mas amo cada lição que ela me ensina. No lugar do que hoje é favela, colocaremos a realização de nossos sonhos.

