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Posts de janeiro 2012

Não gosto de favela

20 de janeiro de 2012 2

Muita gente acha que eu gosto de favela, periferias e comunidades. Estão enganados. Na verdade, eu tenho pavor delas. Acho que ninguém gosta. Gosto é da nossa capacidade de, mesmo tendo, às vezes, condições sub-humanas, aprendemos a amar nossas casas e nossas famílias. E a desenvolver um estilo de vida que, ao contrário do que muitos dizem, é muito feliz, e vai além da violência e da miséria.

Ninguém se orgulha das dificuldades de morar na favela, ninguém acha bonito ter goteira na casa, ter luz de gato, ficar sem gás, faltar coberta no inverno e água no verão. Não gostamos de ficar com medo quando a Polícia passa, ninguém gosta de ter que baixar a cabeça para um menino de 15 anos que se declara dono da boca.

Aprendemos a conviver com essas coisas, mas não morremos de amores por elas. Nosso amor pela favela é como o amor de um paraplégico por sua cadeira de rodas. Ele aprendeu a amar aquela cadeira, pois é com ela que ele se move pelo mundo. Nós amamos o que temos, mas nem sempre temos o que amamos.

Meu sonho é que um dia não exista mais favela, não exista mais pobreza, nem que eu precise falar o que está entalado em nossos corações. Meu sonho é que as ruas pelas quais andamos não sejam cenários de morte e dor, mas de alegria e realizações. Até que isso aconteça, vou continuar amando o que temos.

Mas peço a cada favelado que não deixe a favela como legado para seus filhos. Ensinem o respeito pelas nossas origens, mas a buscar algo melhor. A dignidade de abraçar seus filhos mostrando a eles que você é um vencedor não tem endereço. No asfalto ou na favela, todos queremos isso. Mas na favela este sonho custa mais caro.

A mesma origem que faz de nós fortes para enfrentar a vida, nos faz fracos para aproveitar nossas oportunidades. Ser favelado faz de mim uma pessoa que não aceita as injustiças. Eu quero ser até morrer, mas se ser favelado tira de mim o direito de viver com conforto e dignidade, abro mão disso. Ninguém pode ter como herança a miséria.

Não gosto de favela, e juro que vou lutar para acabar com ela o mais rápido possível. Mas amo cada lição que ela me ensina. No lugar do que hoje é favela, colocaremos a realização de nossos sonhos.

Escravo social

13 de janeiro de 2012 0

Estes dias, conversando com um líder comunitário, vi que ele defendia os interesses da comunidade com muita habilidade, mas seu sustento vinha de ser flanelinha em uma avenida movimentada de Porto Alegre. Falei sobre a possibilidade de ajudá-lo nessa luta. Ele se empolgou e disse que  as pessoas só prometem e na hora não se apresentam.

Propus ver com uma rede de colégios particulares que trabalham com educação para adultos para ele voltar a estudar, e depois fazer um curso de técnico administrativo. Nessa hora, ele deu um pulo, disse que não queria voltar para escola e que tinha dificuldades de se enquadrar no sistema. Disse que ele falava errado, mas que era seu dialeto. Falou que o importante era sua mensagem, e não se o português estava certo. No meio do papo, apareceu a filha dele com a gorjeta dada por um motorista.

O que muitos líderes não se dão conta é que, sem saber, assinam um pacto de pobreza e miséria, que só traz dor e tristeza para eles e suas famílias. Ter dinheiro não é errado nem feio, estudar e se formar não vai arrancar nossas raízes. Se arrancar, é porque eram galhos podres.

Sei que muitos líderes, mesmo sem estudo, dão um banho em quem tem canudo. Mas no fim das contas, os bacanas voltam para suas casas com ar condicionado e cama quentinha, e nós para nossa casa com luz de gato e gás quase no fim.

Ver amigos destemidos liderar massas é emocionante, mas cada vez que eles falam “menas”,  “qui seji”, “nois”, sem querer emitem uma mensagem que enfraquece a luta. Temos que nos superar todos os dias. Nos deram pouco acesso e exigem qualidade. É como cortar o pé de alguém e querer que ele corra, mas não podemos nos apegar às limitações.

Temos o dever de criar condições para que as gerações futuras saiam do ciclo de exclusão. Para isso, teremos que abandonar a lamúria e superar as dificuldades. Ser ativista social não é ser escravo do que defendemos.

Decepção de cada dia

06 de janeiro de 2012 0

De quem é a culpa de nossas decepções? Será que é das pessoas que não sabem expressar o mínimo de respeito e gratidão, ou de nós, que condicionamos nossa felicidade a ações de outros? Neste ano que passou, me decepcionei muito, vi amigos assassinarem nossa amizade com palavras envenenadas e mesquinhas.

Mas depois de refletir, entendi que eles estavam no seu direito. Cada um deve fazer o que é bom para si. Se a dor dos outros não os faz repensar seus atos, que sigam em frente. Os feridos olharão para as cicatrizes e aprenderão a se proteger. E os que ferem serão, no devido tempo, cobrados pelos seus atos.

Não perca seu tempo com vingança ou rancor. Esses sentimentos só dão rugas e úlceras. Se a dor for muito forte, presenteie quem lhe feriu com uma dose cavalar de desprezo. Isso anestesia o orgulho e oxigena as ações futuras. Quando focamos em quem nos faz mal, não vemos os anjos que nos fazem bem. Esse equívoco nos exila na selvageria da inveja alheia. Temos que nos desviar do caminho da autopiedade, senão nosso equilíbrio vai para as cucuias. N

ão podemos ser arrogantes a ponto de achar que não decepcionamos ninguém. Quando temos opinião e fazemos aquilo que acreditamos ser correto, criamos uma abismo entre nossos desejos e as expectativa dos outros. Nossa evolução sempre vai causar orgulhos e decepções, mas temos que estar certos do que fazemos e desejamos. Palavras ditas não voltam, desculpas podem traduzir sentimentos, mas não apagam atos.

Não gosto de desculpas, não admiro os que se humilham. Minha admiração é para as pessoas que com a fita do bom senso medem suas palavras, a fim de fazerem os cortes certos. Assim, as amizades verdadeiras não escorrem pelas calçadas do impensado.

Estou a cada dia ficando mais firme e crente de que somos o que cultivamos, regamos nosso destino com gestos, o que crescer depende de nós. Não condenemos ninguém por nossas dores. Elas são nossas, e quem achar que não tem por que lutar, lute por sua dor, ela te pertence.