Tem um assunto que fico meio cabreiro de tocar: paternidade. Não me considero um grande pai, adoro meu filho, mas acho que poderia ser melhor. Um pouco é porque nunca tive uma figura paterna perto de mim. Óbvio, sou grato a Deus, que me deu uma coroa das mais guerreiras. Ela foi pãe. Uma mistura de pai e mãe, que é comum nas quebradas.
Quando ouço meu amigos se relacionando com seus pais, confesso que bate um misto de inveja e tristeza. Meu pai foi assassinado. Não tenho sequer uma foto com ele.
Apesar dessa história, eu tento entender o sentimento de se ter um pai. Outro dia, conversando com os amigos Daniel e Márcio Medina, consegui entender um pouco mais.
Esta semana, faz um ano que Porto Alegre perdeu uma das suas melhores vozes. Como ia rolar na Banda da Saldanha uma homenagem, tentei entender um pouco mais sobre quem foi esse gênio vocal que atendia por Carlos Medina.
Ao falar com eles, vi que por trás do gênio existia um herói. Impressionante a forma como cada filho descrevia a existência do pai, como controlavam a respiração para segurar as emoções ao falar do ser que lhes ensinou, por meio de letras e melodias, a traduzir a vida como ela é.
Vi que o maior sucesso da vida de Medina não está gravado em nenhum dos discos lançados por ele, mas no legado que ecoa cada vez que seu nome é lembrado.
Medina encantava com a voz. Mas, pelo que pude ver, o que ele fazia ao pegar o microfone era somente a tradução sonora do pai, amigo e homem que era. Muitos podem ter talento artístico, mas para ser pai como ele foi é preciso ter virtudes humanas.
Me pergunto se quando meu filho estiver com barba na cara vai se orgulhar de mim como os filhos desse herói do samba gaúcho. Vejo muitos jovens músicos se espelhando na qualidade vocal do Medina, lutando para um dia ter o mesmo prestígio e reconhecimento que ele teve.
Aprendi essa semana: o que transmitimos é resultado do que somos. Se alguns sonham ser iguais ao Mestre Medina, que sejam como um todo. Tive o prazer de assistir o Medina cantando, mas somente um ano depois de sua morte o conheci de fato. Uso nosso espaço para que conheçam também. E, como ele dizia: Alôôôôô, harmoniaaaaaaaa.

