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Posts de março 2012

Pai Medina

30 de março de 2012 0

Tem um assunto que fico meio cabreiro de tocar: paternidade. Não me considero um grande pai, adoro meu filho, mas acho que poderia ser melhor. Um pouco é porque nunca tive uma figura paterna perto de mim. Óbvio, sou grato a Deus, que me deu uma coroa das mais guerreiras. Ela foi pãe. Uma mistura de pai e mãe, que é comum nas quebradas.
Quando ouço meu amigos se relacionando com seus pais, confesso que bate um misto de inveja e tristeza. Meu pai foi assassinado. Não tenho sequer uma foto com ele.

Apesar dessa história, eu tento entender o sentimento de se ter um pai. Outro dia, conversando com os amigos Daniel e Márcio Medina, consegui entender um pouco mais.

Esta semana, faz um ano que Porto Alegre perdeu uma das suas melhores vozes. Como ia rolar na Banda da Saldanha uma homenagem, tentei entender um pouco mais sobre quem foi esse gênio vocal que atendia por Carlos Medina.
Ao falar com eles, vi que por trás do gênio existia um herói. Impressionante a forma como cada filho descrevia a existência do pai, como controlavam a respiração para segurar as emoções ao falar do ser que lhes ensinou, por meio de letras e melodias, a traduzir a vida como ela é.

Vi que o maior sucesso da vida de Medina não está gravado em nenhum dos discos lançados por ele, mas no legado que ecoa cada vez que seu nome é lembrado.

Medina encantava com a voz. Mas, pelo que pude ver, o que ele fazia ao pegar o microfone era somente a tradução sonora do pai, amigo e homem que era. Muitos podem ter talento artístico, mas para ser pai como ele foi é preciso ter virtudes humanas.

Me pergunto se quando meu filho estiver com barba na cara vai se orgulhar de mim como os filhos desse herói do samba gaúcho. Vejo muitos jovens músicos se espelhando na qualidade vocal do Medina, lutando para um dia ter o mesmo prestígio e reconhecimento que ele teve.

Aprendi essa semana: o que transmitimos é resultado do que somos. Se alguns sonham ser iguais ao Mestre Medina, que sejam como um todo. Tive o prazer de assistir o Medina cantando, mas somente um ano depois de sua morte o conheci de fato. Uso nosso espaço para que conheçam também. E, como ele dizia: Alôôôôô, harmoniaaaaaaaa.

Não vai muito

23 de março de 2012 1

Toda família tem um linha de frente, alguém que independente do que aconteça vai segurar a onda. As vezes é homem, outras são mulheres, mas cabe a eles as decisões mais complicadas, como toda decisão requer algum tipo de renuncia, com o tempo seus atos descontentam quase a todos em algum momento.

Ser líder familiar as vezes é uma missão ingrata, para cada gesto de reconhecimento temos pelo ao menos 100 de críticas e palavras de descontentamentos. Por mais que seja complicado entender, as vezes nosso desejo de liderança mais atrapalha que ajuda, ao metermos o peito na frente das balas e não deixar que os mais fracos sofram as consequências de seus atos, tiramos das pessoas a capacidade de serem donas do seu próprio destino, sempre depender de alguém pode parecer legal, mas repetidas vezes tira a dignidade do outros.

Por mais que agente queira, não poderemos resolver os problemas de todos o tempo todo e se não aprendermos isso logo, quem tem um problema sério somos nós. Saber a hora de sair de cena e cuidar da própria vida faz parte da cartilha de liderança, ninguém pode dar o que não tem, com a cabeça tomada de pressão jamais conseguiremos levar alento. Mas todo herói tem um ponto fraco e geralmente é não saber ser salvo, não reconhecer que corre perigo e isso os coloca e um labirinto onde ao invés de ajudar os seus, faz de todos escravos de sua solidariedade egoísta.

Mesmo cheio de bombas e decisões complicadas as pessoas precisam tomar suas decisões, quando nós assumimos este papel, somos responsáveis também pelas consequências e nessa hora temos uma encruzilhada: se tudo der certo o mérito é nosso e não da pessoa, isso vai deixá-la mal por se sentir incapaz.

Se der tudo errado a pessoa com problema vai nos culpar dizendo que pioramos ao invés de ajudar. Sendo assim, o melhor a fazer é estar próximos e ajudar com reflexões, mas a decisão final não pode ser nossa.

Nossa liderança tem prazo de validade, chega um momento em que todos precisam pegar seu rumo em direção a estrada que construíram, e não cabe a nós entrar numas de enfeitar a estrada dos outros, pois não somos melhores que ninguém para querer dar jeito no mundo.

Vamos ajudar até onde isso não causar dor, ou seja: vai, mas não vai muito.

Verdade de mãe

16 de março de 2012 0

Na vida, precisamos ouvir o que não queremos. Essas verdades inconvenientes podem, muitas vezes, ser amargas no começo. Mas fazem parte de nossa evolução, principalmente se forem verdades mesmo. É normal tirarmos de nosso convívio quem traga tais mensagens.

Vamos, instintivamente, rompendo laços com quem fica nos colocando contra a parede e nos obrigando a enxergar aquilo que volta e meia nos negamos a ver. Para combater esse movimento, Deus, que não é bobo, colocou em nosso caminho um anjo teimoso chamado mãe. Volta e meia, com conselhos doces ou de forma direta e dura, elas nos dizem aquilo que nenhum outro ser humano no mundo teria coragem de dizer.

Elas nos conhecem bem e sabem exatamente onde colocar as palavras. Na hora, podemos fazer pequenos comentários ou ignorar. Porém, quando deitamos a cabeça no  travesseiro, as palavras ecoam na memória como o primeiro surdo da Estado Maior da Restinga.

Bate um sentimento de gratidão, é como se desse vontade de ligar para a velha e dizer a ela para não ficar enchendo a paciência e agradecer por existir e ser tão franca.

No dia seguinte, muitas vezes sem que elas saibam, fazemos o que foi orientado e vemos que elas estavam cobertas de razão. Óbvio que a maioria de nós, filhos barbados, não damos o braço a torcer. Mas, para compensar, chegamos de cantinho e damos um beijo daqueles.

Na hora, elas sacam que voltamos atrás, dão um sorriso e a vida segue. Entender o ritual das verdades inconvenientes é  importante. Por mais que sejamos donos de nossos narizes, nossas mães sempre verão o mundo de uma maneira mais madura. Deve ser por isso que as pessoas que perdem suas mães sofrem tanto. Sabem que, por mais adultas que sejam, perderam seu anjo da guarda na Terra.

Eu ainda tenho minha coroa me enchendo e espero tê-la por muito tempo, mas imagino como doa não ter. Por isso, divido os conselhos dela aqui em nossa coluna, é minha maneira de emprestar minha velhinha para vocês.

O desenho da laje

09 de março de 2012 1

Eu sempre adorei desenho animado, me lembro que era a minha fuga para a dureza da vida. A primeira vez que vi uma pessoa ser assassinada na minha frente foi quando morava em São Paulo. Saí para levar minha mãe na parada de ônibus às 4h e um homem que ia trabalhar foi assaltado e morto na minha frente. Lembro que a única coisa que tirava aquela cena da minha cabeça era assistir ao desenho O Rei Leão.

Quando me apaixonei pela primeira vez, me vi na mesma situação do jovem Aladim, do desenho, que não sabia como conquistar o coração da princesa Jasmim e ao mesmo tempo tinha que lutar contra o maléfico Jafar. Se eu começar a listar todos os desenhos que fizeram parte de minha vida vou longe. Mas hoje, com 31 anos, troquei os desenhos por ficar em cima das lajes do morro olhando a vida.

Olhando a cidade de cima da laje vejo aqueles que estão presos em um aquário de exclusão social. Para fugir de um ciclo de tristeza, anjos dilatam as pupilas com a pedra do mal. Fora de si, descem os morros em bondes do mal para gritar na porta da casa grande que a senzala moderna está se rebelando. Enquanto isso, matriarcas rezam no escuro pelo menino que se vê somente quando os carros no sinal fecham seus vidros negando moedas.

Aos poucos, esses vidros refletem barbas e seios. Quando a ingenuidade envelhece e a inocência  caduca, morre o bem para que o corpo viva, mesmo que pouco. Anjos e demônios assistem às decisões de meninos que viraram homens antes do tempo e homens que não tiveram tempo de ser meninos. De cima da laje, vejo a fumaça queimar sonhos de criança como um pedágio injusto que foi cobrado para a passagem da triste maturidade que faz chorar sem dor.

Eu, preso na minha laje, estou mais livre que os filhotes blindados que não soltam pipa, não jogam gude, não compram sacolé fiado na Dona Nilda. Eles têm tudo que eu não tenho, menos uma coisa: o
prazer da conquista. Ah, eles também não têm a visão que eu tenho da laje.

Derrubador de muros

02 de março de 2012 0

Percebi uma galera batendo boca em frente a um prédio em construção. Comecei a pensar como construímos errado e como somos afetados pelas construções erradas dos outros.

Não falo só de construção de casas, mas de decisões de vida, aquelas construções que, mesmo sem um tijolo, podem nos proteger ou nos deixar presos.

Tem gente que só sabe atrasar lado. Muitas vezes, algumas pessoas têm tudo para dar aquela força, mas na hora H se fazem e não adiantam nosso lado. É um pouco para se afirmar, outro pouco por inveja.

Só que o medo de ser devorado pelo monstro da incompetência, às vezes, revolta.

Tenho um velho amigo chamado Fábio, que traduz isso da seguinte maneira: alguns ganham material de construção para fazer pontes, acabam errando no projeto e constroem muros.

Para tristeza dessas pessoas, esse muro não só impede que outros atravessem os abismos, mas também impede que possamos ver outras possibilidades.

Sou do tipo que olha os muros pensando formas de demolir, não me acostumo a viver com dono. Mesmo sendo empregado, vejo meus chefes como parceiros, quero contribuir para que façamos um bom trabalho.

Quando começa o papo de manda quem pode, obedece quem precisa, eu largo fora. Isso é um muro mental que geralmente nos faz matar os sonhos que tivemos na infância.

Por outro lado, não quero ser dono de ninguém. Cada um precisa saber qual sua função no mundo que nos cerca.

Muitas vezes, nós mesmo construímos nossos muros. Tentando nos proteger, acabamos por bloquear a luz do sol e a brisa, que podem nos aquecer e refrescar. Esta auto-sabotagem rola na hora que estamos em xeque e não sabemos para onde correr.

O ideal é que não nos enganemos na hora de construir. Pontes são mais interessantes do que muros. Saber a diferença é fundamental. Depois que o cimento seca, não temos muito a fazer.