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Posts de abril 2012

Odeio as cotas

27 de abril de 2012 6

Nunca gostei da ideia de cotas. Acho que ninguém gosta. Nosso sentimento é o mesmo que um cadeirante tem pela rampa que colocaram para ele subir. É óbvio que o cadeirante preferiria mil vezes usar a escada como todos, mas o fato de não poder andar obriga-o ao uso da rampa.

Imagine como seria constrangedor ver um paraplégico abrindo mão da rampa de acesso e lutando para usar a escada. Se depois de muita fisioterapia ele puder subir sem cadeira, vai ser lindo. Mas nada justifica o sacrifício.

Por mais que pareça loucura, a questão racial é exatamente isso. O povo negro foi trazido como mão de obra animal, por 300 anos viveu escravizado. Após os primeiros movimentos de abolição, o negro só poderia entrar na escola após os 21 anos de idade, fora o fato de falta de acesso à alimentação, moradia e trabalho.

Isso produziu uma massa humana que estava em desvantagem comparada aos demais. Essa desvantagem foi passada de pai para filho até os dias de hoje. Muitos dizem que existem branco na mesma condição. É verdade, mas ainda os negros encabeçam as listas de desemprego, mortes por arma de fogo, menor acesso ao ensino superior, entre outras mazelas. A pobreza tem cor, sim.

Da mesma maneira que temos alguns poucos negros ricos, temos brancos pobres. por isso acredito que as cotas sociais também devem ser aplicadas. Acredito que a lei é importante. Se as injustiças tivessem atingido os japoneses ou judeus, minha opinião seria a mesma. Nossa reflexão não deve ser somente racial, mas ser iluminada pela luz dos direitos humanos. Quem acredita que alunos cotistas são menos capazes de estar na faculdade, que vá na UFRGS e peça as médias. Terá uma grata surpresa.

Cota não tira vaga de ninguém, mas do mesmo jeito que não queremos que a atual geração de pessoas de pele clara seja condenada pelos seus antepassados racistas, a geração dos negros não pode ser prejudicada pelas mesmas.

Eu odeio as cotas. Sugiro que elas vigorem somente pela metade do tempo que a escravidão vigorou. Depois disso, os negros que se virem.

Outro ponto da discussão é saber quem é negro ou branco. Aí é mole, é só perguntar para a polícia, que sabe exatamente quem é negro ou não.

O favelado e o gaúcho

20 de abril de 2012 0

O favelado e o gaúcho têm mais em comum do que se imagina. Ambos são, muitas vezes, subestimados por seu jeito rústico e simples de ver a vida. A simplicidade, por exemplo. de quem aprecia a beleza de uma noite de céu estrelado.
Na lida campeira, ao acordar antes do sol, o gaudério pode observar a beleza das estrelas. Na favela, às vezes, ao faltar luz, também nos encantamos com os mesmos astros.

No campo, ao som de uma milonga ou de um xote, o coração se alegra ao ver a xinoca bailando no galpão. Na favela, ver as poderosa quebrando tudo no funk ou os manos denunciando verdades no rap também faz o coração do favelado bater mais forte.

Por falar em galpão, neles os gaiteiros pontilham o teclado na batida do coração que ama a tradição gaúcha.  Semelhante ao sincopado de um pandeiro bem tocado. Este, quando acompanhado por um solo de cavado bem afinado, desvenda o bailado geográfico das curvas de mulheres que fazem de seu corpo um instrumento de sedução para a arte do samba.

O favelado e o gaudério aqui no Rio Grande do Sul se cruzam nas raízes culturais. O sambista gaúcho, quando vai para outros Estados, é intimado a assar a carne por conta das tradições. Por outro lado, ao ouvir um bumbo leguero não tem como não lembrar da cadência bem marcada de um surdo no samba de roda que rola nos morros.

Hoje, essa mistura se faz cada vez mais proposital, trazendo união e qualidade a estas duas formas tão distintas e tão semelhantes.

Nomes como Nitro Di, músico de hip hop, fazem das músicas gaúchas base para suas composições. Assim, contaminam as favelas do nosso Estado com beleza nativista. E, ao ver pessoas como Neto Fagundes me falando de Racionais e de como eles são narradores de um cotidiano, lembro de declamadores gaudérios.

O destino foi brincalhão quando distribuiu talento para a favela e o campo. Um dos maiores nomes da trova gaúcha é Jayme Caetano Braun, e um dos maiores nomes da poesia ritmada das favelas é Mano Brown. A arte da rima, em ambos os casos, colocada a favor da realidade. Seja Braun ou Brown... o trabalho apaixona.  

Passe adiante

13 de abril de 2012 0

Amigos, muitos de nós, favelados, estamos sendo chamados para ser candidatos ou participar de campanhas eleitorais. Apesar de alguns verem o fato como algo ruim, isso significa que agora temos peso. Em outros momentos, seríamos ignorados. Agora, tentam nos cooptar. Antes, fugiam da gente, ou seja, crescemos. Porém, é importante entender o que está em jogo.

Óbvio que a pessoa que se candidata ou se vincula publicamente a uma campanha deve entender o que está em jogo, entender como funciona, para fazer análises equilibradas dos cenários.

Basicamente, existem três razões pelas quais as pessoas se candidatam.

Primeiro: fortalecer seus projetos políticos pessoais ou coletivos. Começam como vereadores e, depois, crescem e alavancam um grupo.

Segundo: fortalecer correntes internas dos partidos. Assim, oxigenam e ampliam os quadros internos, e ganham força para decisões posteriores.

Terceiro: preencher legenda e reforçar as candidaturas majoritárias. São candidatos descartáveis, que atuam como cabos eleitorais com números.

Você precisa entender em que cenário você se enquadra antes de decidir. Outro fator importante é saber que para uma pessoa ser eleita precisa de duas coisas.

Primeiro:
ter um nome forte, que seja sólido nos currais eleitorais, e que sobreviva ao processo eleitoral.

Segundo:
uma campanha custa caro. Quem vai pagar tem interesses que precisam ser atendidos.

Acredito que você deva observar esses fatores e avaliar o que deve ser feito. A única pergunta que lhe faço é se você precisa disso. Óbvio que se os bons não se colocarem, os maus vão dominar. Mas a política não é feita de brigadeiro e mel. Ela é uma arena, na qual sonhadores são mastigados até virarem operadores reais de mudança. Alguns conseguem realizar seus objetivos, outros desistem e reclamam. E há os que só conseguem mudar a própria vida. Passe adiante.

Atalhos

06 de abril de 2012 0

Estes dias, um motorista "nego veio" aqui da tevê me disse o seguinte: Temos o hábito de pegar atalhos na vida e quase todos os atalhos nos fazem ficar perdidos.

Achar o caminho mais curto nem sempre quer dizer que ele é mais eficaz e mais rápido. Muitos de nós pegamos esses atalhos por não entendermos a diferença do significado de algumas frases na vida: Ter prazer não é ser feliz, não se ganha a liberdade fugindo, vencer não é ganhar, lutar não é brigar e algo que é para sempre não precisa ser todo dia.

Quando essas palavras não fazem sentido para nós, corremos pelos atalhos para chegar mais rápido aos nossos objetivos. Mas se os atalhos fossem realmente o melhor caminho, não seriam atalhos, seriam o caminho oficial.

Tomar ou não a decisão de pegar os atalhos da vida depende do berço. Se ensinamos nossos filhos a serem metidos, malandros, eles vão ter isso como regra de vida. 

Muitas vezes, estamos descontentes com nosso trabalho e, ao invés de buscar outra colocação no mercado, ficamos maquinando um jeito de colocar a empresa na Justiça e ganhar um dinheiro a mais.

Em geral, este tipo de atalho acaba mal, pois mesmo ganhando, parece que a grana não rende. Outro exemplo de atalho que pegamos é quando tentamos chegar ao coração. Alguns pensam que o prazer é atalho para a felicidade. Quem já passou por isso sabe que não resolve. Geralmente, nos enfiamos em lençóis sem sentido e pernas frias.

Quando falo de pegar atalhos, não é papinho romântico de pessoas que perderam seus amores somente. Mas é de tudo, desde o menino que tentou colar e se deu mal até o assalto a banco frustrado. Aliás, se tem um lugar cheio de pessoas que tentaram pegar atalhos é presídio. Todos ali, de alguma maneira, tentaram o caminho mais rápido, seja em atos ou em pensamentos.

Uma das dicas para não cair na tentação dos atalhos é parar e pensar. A urgência e a pressão nos fazem tomar decisões imediatas e arriscadas. A primeira regra de uma situação ruim é ganhar tempo para não entrarmos numa de fazer
esteira.

Para aqueles que ainda usam atalhos termino com a frase de uma amiga muito querida: Quem pega atalho pode chegar mais rápido, mas também pode não chegar nunca.