Esta semana, inventei de fazer uma reportagem onde um usuário de crack seria nosso repórter por um dia no Jornal do Almoço. Para que a história desse certo, precisaria encontrar alguém que estivesse disposto a se mostrar como usuário na televisão. Pode parecer viagem minha, mas a intenção era fazer o cara mostrar o rosto e se assumir. Assim, as pessoas entenderiam que o usuário de crack não é necessariamente um bandido, ainda que tenha atitudes de bandido às vezes.
Muitos manos e minas que eram responsa se perderam. E precisam se achar. Cada vez que escondemos o rosto de um usuário, para protegê-lo, estamos dando a ele o anonimato de pessoas em situação de delito. Mas usuários de drogas são doentes que precisam de ajuda como qualquer outro. Esse equívoco faz com que o problema seja passado para a polícia ao invés de médicos.
Na minha busca, constatei que poucos usuários querem se livrar do vício. A maioria não têm condições de tomar essa decisão. As nossas leis não permitem que uma pessoa seja internada contra sua vontade por um longo tempo. Isto porque, há algumas décadas, muitos absurdos aconteceram por conta de internações compulsórias indevidas. Hoje, a lei precisa mudar, ou vai morrer muita gente. O crack retira por completo a capacidade de um ser decidir sobre si. Se os médicos, juristas e políticos não entenderem isso, mais famílias serão estraçalhadas pela pedra.
Sobre nosso repórter, depois de muita luta encontrei um usuários disposto e com coragem de dar o papo reto. Ele mostrou o vício pelo lado de dentro. Semana que vem, poderemos conferir esta história no Jornal do Almoço. Espero que assistam.

