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Posts com a tag "papo reto"

Homem como Tia Quica

01 de junho de 2012 0

Pais enterrarem filhos é contra a lei da natureza. Cada vez que vejo esta cena, meu peito se aperta, pois sei que as marcas deixadas por esta experiência vão sangrar até o último momento de vida.

Nesta semana, tive a tristeza de enterrar um amigo que, aos 35 anos, sofreu um ataque cardíaco fulminante. Acompanhei todo o processo. Como todos em volta, o maior medo era o momento de contar para a mãe dele. Passei a noite em pânico. Dizer a uma mãe que de uma hora para outra ela não tem mais um filho é complicado. No dia seguinte, quando cheguei ao beco, encontrei todos de luto. Fui direto ver a dona Valquíria, carinhosamente chamada de Tia Quica.

Já tinham contado. Ela estava com os olhos fundos de tristeza e dor, mas com uma força que nos acalentava cada vez que levantava a cabeça. Quando a abracei, não vi lágrimas em seus olhos. Ela me disse baixinho: "Precisamos ter força e fé nessa hora."

Me assustei, eram as palavras que eu deveria dizer. No meio do caos, enquanto alguns desabavam, ela (que tinha todas os motivos para estar sedada) só aceitava chá e orações.

Senti vergonha por ser tão fraco, senti vergonha por muitas vezes deixar a lágrima cair. Daquele momento em diante, não chorei mais. Até achei que ela segurava no osso por ainda não ter caído a ficha. Mas ela me disse que foi por acreditar que ele estava nos braços de Deus. Que ela foi feliz por criar um filho tão bom. Ele partiu, mas deixou alegrias.

Quando vi a neta mais velha sendo consolada por ela, entendi que sua força não vinha de um súper poder, mas da necessidade de cuidar dos outros. A dor de mãe precisava ser menor que o dever de mãe. Mesmo na hora do sepultamento, ela mais consolava que era consolada.

Fico abismado com situações como essa. Mulheres como ela mostram que nós homens somos o verdadeiro sexo frágil.

Quando o dia acabou, desejei um dia ser homem como Tia Quica.

Atalhos

06 de abril de 2012 0

Estes dias, um motorista "nego veio" aqui da tevê me disse o seguinte: Temos o hábito de pegar atalhos na vida e quase todos os atalhos nos fazem ficar perdidos.

Achar o caminho mais curto nem sempre quer dizer que ele é mais eficaz e mais rápido. Muitos de nós pegamos esses atalhos por não entendermos a diferença do significado de algumas frases na vida: Ter prazer não é ser feliz, não se ganha a liberdade fugindo, vencer não é ganhar, lutar não é brigar e algo que é para sempre não precisa ser todo dia.

Quando essas palavras não fazem sentido para nós, corremos pelos atalhos para chegar mais rápido aos nossos objetivos. Mas se os atalhos fossem realmente o melhor caminho, não seriam atalhos, seriam o caminho oficial.

Tomar ou não a decisão de pegar os atalhos da vida depende do berço. Se ensinamos nossos filhos a serem metidos, malandros, eles vão ter isso como regra de vida. 

Muitas vezes, estamos descontentes com nosso trabalho e, ao invés de buscar outra colocação no mercado, ficamos maquinando um jeito de colocar a empresa na Justiça e ganhar um dinheiro a mais.

Em geral, este tipo de atalho acaba mal, pois mesmo ganhando, parece que a grana não rende. Outro exemplo de atalho que pegamos é quando tentamos chegar ao coração. Alguns pensam que o prazer é atalho para a felicidade. Quem já passou por isso sabe que não resolve. Geralmente, nos enfiamos em lençóis sem sentido e pernas frias.

Quando falo de pegar atalhos, não é papinho romântico de pessoas que perderam seus amores somente. Mas é de tudo, desde o menino que tentou colar e se deu mal até o assalto a banco frustrado. Aliás, se tem um lugar cheio de pessoas que tentaram pegar atalhos é presídio. Todos ali, de alguma maneira, tentaram o caminho mais rápido, seja em atos ou em pensamentos.

Uma das dicas para não cair na tentação dos atalhos é parar e pensar. A urgência e a pressão nos fazem tomar decisões imediatas e arriscadas. A primeira regra de uma situação ruim é ganhar tempo para não entrarmos numa de fazer
esteira.

Para aqueles que ainda usam atalhos termino com a frase de uma amiga muito querida: Quem pega atalho pode chegar mais rápido, mas também pode não chegar nunca.

Não gosto de favela

20 de janeiro de 2012 2

Muita gente acha que eu gosto de favela, periferias e comunidades. Estão enganados. Na verdade, eu tenho pavor delas. Acho que ninguém gosta. Gosto é da nossa capacidade de, mesmo tendo, às vezes, condições sub-humanas, aprendemos a amar nossas casas e nossas famílias. E a desenvolver um estilo de vida que, ao contrário do que muitos dizem, é muito feliz, e vai além da violência e da miséria.

Ninguém se orgulha das dificuldades de morar na favela, ninguém acha bonito ter goteira na casa, ter luz de gato, ficar sem gás, faltar coberta no inverno e água no verão. Não gostamos de ficar com medo quando a Polícia passa, ninguém gosta de ter que baixar a cabeça para um menino de 15 anos que se declara dono da boca.

Aprendemos a conviver com essas coisas, mas não morremos de amores por elas. Nosso amor pela favela é como o amor de um paraplégico por sua cadeira de rodas. Ele aprendeu a amar aquela cadeira, pois é com ela que ele se move pelo mundo. Nós amamos o que temos, mas nem sempre temos o que amamos.

Meu sonho é que um dia não exista mais favela, não exista mais pobreza, nem que eu precise falar o que está entalado em nossos corações. Meu sonho é que as ruas pelas quais andamos não sejam cenários de morte e dor, mas de alegria e realizações. Até que isso aconteça, vou continuar amando o que temos.

Mas peço a cada favelado que não deixe a favela como legado para seus filhos. Ensinem o respeito pelas nossas origens, mas a buscar algo melhor. A dignidade de abraçar seus filhos mostrando a eles que você é um vencedor não tem endereço. No asfalto ou na favela, todos queremos isso. Mas na favela este sonho custa mais caro.

A mesma origem que faz de nós fortes para enfrentar a vida, nos faz fracos para aproveitar nossas oportunidades. Ser favelado faz de mim uma pessoa que não aceita as injustiças. Eu quero ser até morrer, mas se ser favelado tira de mim o direito de viver com conforto e dignidade, abro mão disso. Ninguém pode ter como herança a miséria.

Não gosto de favela, e juro que vou lutar para acabar com ela o mais rápido possível. Mas amo cada lição que ela me ensina. No lugar do que hoje é favela, colocaremos a realização de nossos sonhos.

"2000 e doce"

30 de dezembro de 2011 0

Este ano que está indo, apesar de ser oficialmente chamado de 2011, foi carinhosamente chamado por alguns de "2000 e ouse". Foi um ano dedicado à ousadia, ano em que extrapolamos fronteiras.

Muitas das pessoas com as quais conversei, me disseram que de janeiro até agora quebraram barreiras em nome dos seus sonhos e vontades.

Claro que ousadia tem seu preço. Muitos arriscaram a felicidade em nome de algo maior, outros nem sabem se valeu a pena tais esforços.  Eu sempre acredito que Deus abençoa os ousados, desde que não machuquem ninguém, bem entendido.

Numa conversa com um negão de cabelos brancos, este dias, ele me deu dicas de como fazer as ousadias desse ano darem bons frutos. Entre elas, estava manter a boca fechada.  Geralmente, quando estamos prestes a botar a mão no pote de ouro, saímos tagarelando e os "zoio de tandera" derrubam só na força da inveja.

Outra dica é manter-se sereno com dinheiro na conta. Muitos perdem a sanidade quando a felicidade chega. E, quando olham, perderam tudo.

E, por último, riqueza compartilhada é riqueza abençoada, não hesite em ajudar que lhe ajudou.

Este ano que vai chegar é oficialmente chamado de 2012, mas para os que lutaram no ano da ousadia, o próximo poderá ser "2000 e doce". Será um ano de desfrutar das conquistas e plantar para conquistar em 2013.

Todo guerreiro deve entender que a batalha deve servir a um propósito. Nosso ano que vem deve ter um destino, temos que tatuá-lo em nossas ações nas cores da ética, esperança e fé. Nosso próximo texto será lido em "2000 e doce" . Até lá, vamos ousar mais um pouquinho e ser felizes.

Manual das crias

04 de novembro de 2011 1

Se quisermos colocar tudo no mesmo saco, podemos dizer que o ser humano parece adorar quebrar laços. Muitas vezes, sem saber e sem querer, rompemos o que temos de mais precioso por palavras não ou mal ditas. A juventude é especialista na arte de expressar suas vontades de forma agressiva e descontrolada. Lembro-me dos meus 17 anos, e minha mãe merece uma medalha, pois eu era asqueroso. Por sinal, minha mãe recomendou que, nesta semana, falássemos da falta de habilidade de muitos pais para lidar com as fases dos filhos.

Temos os moderninhos, que liberam demais, ou os que prendem tanto que, na hora em que a molecada se solta, sai fazendo tudo que lhe foi proibido.

A moral é tentar manter uma relação honesta e saudável com os filhos para que o caminho do diálogo esteja sempre aberto.

Infelizmente, há pais que, quando o filho é criança, têm uma postura de "capitão Nascimento". Quando ele cresce, começam a bater de frente e a falar alto. Aí, o pau quebra e as relações vão para a banha. Não podemos confundir firmeza com agressividade, senso de justiça com birra.

Uma coisa importante esquecida por pais é que não precisam disputar com os filhos, e sim orientá-los. Não precisam mostrar quem manda, mas quem tem experiência de vida para ajudar. O complicado é achar a forma correta de entrar na mente dos filhos, pois eles, volta e meia, acham-se mais espertos e se arrebentam por isto.

Uma dica da minha mãe é não termos como base das decisões a nossa vontade, mas o que é correto, puxar os filhos para a razão lógica e ética. É importante lembrar também que crianças e adolescentes aprendem mais pelas ações do que pelas palavras. Esse papo de "faça o que eu digo, não faça o que eu faço" não cola mais.

Quem não dá exemplo não tem moral para impor. Temos de ficar atentos para não deixarmos as "crias" escaparem por entre os nossos dedos. Forte abraço!

Lições de um trintão

17 de junho de 2011 0

Gente, amanhã eu engatilho 31 anos e, nessa hora a cabeça começa a fervilhar. Muitas das minhas opiniões mudaram nesse último ano. Essas mudanças aconteceram por conta de uma série de fatores, entre eles, que só neste último ano fui três vezes à África e pude entender melhor nossas origens.

Uma das mudanças de pensamento que tive foi com respeito à nossa condição de excluídos. Apesar de defender o jeito de ser da favela, cheguei à conclusão que nossa luta é para que todos deixem de ser favelados. O sonho dos excluídos é ser incluídos.

Não podemos nos exilar na miséria, nos apegar a ela como se fosse nossa condição permanente. Quero que você, que está nos lendo agora, possa pegar um avião e levar as pessoas que ama para conhecer a Europa ou a África. Não te desejo luxo, e sim conforto. Não te desejo força, e sim paciência. Não te desejo vida longa, e sim vida intensa.

Este ano, aprendi a ter cuidado com as coisas que desejo, pois elas podem se realizar e não ser exatamente o que eu pensei. Aprendi que mais importante que ter porta aberta em todos os lugares é abrir as portas para que todos possam entrar. Por isso criamos o Comunidade JA, onde todos podem ser repórteres e dizer o que pensam.

Aprendi que o mundo não se divide em negros e brancos, mas entre aqueles que são ou não preconceituosos. Descobri que sou preconceituoso em vários aspectos e que preciso mudar.
Aprendi que o mundo dá voltas, e quem ontem estava embaixo, amanhã pode estar em cima. Sendo assim, é bom ficar esperto para não se deixar levar pela arrogância. Aprendi que tem gente que não merece ajuda, e como não podemos ajudar a todos, precisamos saber selecionar bem para onde direcionamos nossa bondade. Aprendi que os amigos têm defeitos e, se não soubermos entender, não somos amigos.

Por fim, me dei conta que meu filho, que no domingo faz aniversário  também, está ficando a minha cara e preciso cuidar mais dele e de mim. Obrigado, amigos do Diário, por me permitirem dividir essas lições com vocês.

Negro adeus

27 de maio de 2011 0

Hoje, nós, negros, reclamamos, geralmente com razão, do racismo velado que sofremos. Por mais que ninguém ande com uma camiseta escrito "odeio negão", podemos verificar no acesso a empregos de chefia, ensino superior e níveis salariais que ainda existe uma enorme diferença. É o que chamamos de racismo institucional.

Apesar das nossas reclamações, já foi pior e, se estamos avançando, parte desta conquista é resultado da luta de pessoas como um guerreiro que nos deixou nesta semana: Abdias Nascimento. Por recomendação de vários amigos, dedico esta coluna a esse exemplo de luta humana que, quando o Brasil proibia debates raciais, por meio da sua arte e dos seus livros, denunciava os absurdos sofridos pelo povo negro e marginalizado.

É lamentável que muitos de nós saiamos da faculdade sem sequer ter ouvido falar em obras como Negro Revoltado, livro que influenciou gente como MV Bill, Zezé Motta, Luís Inácio Lula da Silva e Milton Gonçalves, entre outros. Eu tive o prazer de conhecer Abdias numa feira do livro e foi pela sua boca que ouvi pela primeira vez um intelectual dizer: "O racismo não é problema de negro, mas da sociedade".

Infelizmente, ele não teve o reconhecimento que merecia, mas nada impede que conheçamos sua obra. Entre as observações brilhantes que Abdias fazia, estava a crítica à identidade negra brasileira. Dividimo-nos nos que querem ser como os norte-americanos, nos que desejam ser africanos e nos que, apesar do cabelo crespo e da pele escura, não se reconhecem como negros. Para ele, o primeiro passo para a cidadania está em encontrarmos nossa identidade enquanto negro brasileiro.

Por ironia, Abdias, fundador do Movimento Negro, morreu aos 97 anos e exatamente no Ano do Afrodescendente. Recomendo carinhosamente que as professoras que nos leem levem essa dica para a sala de aula e façam seus alunos conhecerem esse pensador que nos presenteou com sua luta e sua obra.
Um salve aos negros e aos brancos que lutam por igualdade.

Dinheiro é bom, mas...

20 de maio de 2011 0

Quando perguntamos às pessoas qual a origem dos seus problemas, a maioria responde que é a falta de dinheiro. A verdade é que muitas vezes culpamos a falta de grana por nossas tristezas, mas será que é isto mesmo?

Nós, pobres, apesar de desejarmos tanto o dinheiro, muitas vezes não sabemos lidar com ele. Quando pegamos uma bolada, raramente pensamos como fazer aquele dinheiro chamar mais dinheiro. Gastamos nas coisas que desejamos e nunca temos. Porém, como gastamos tudo, raramente teremos novamente.

Ontem, conversei com um morador de rua que pede dinheiro numa esquina da Rua da Praia, no Centro. Fiquei bobo de ouvir: o cara fatura quase  R$ 60 por dia somente na moedinha e, no fim, gasta em lanche e pagando a pensão meia boca em que dorme. Se investisse essa grana nele mesmo, em pouco tempo, estaria fora das ruas, no entanto, no fim, percebi que não é o que ele quer.

Temos muitos problemas na nossa vida: afetivos, psicológicos, espirituais, e por aí vai. Entretanto, como pensar e resolver esses problemas requer de nós um esforço tremendo, muitas vezes nem sabemos por onde começar, mascaramo-os, colocando a culpa na falta de dinheiro.

Se ter dinheiro fosse realmente a solução, muitos países ricos não teriam as altas taxas de suicídio que tem, os ricos não seriam tão viciados em drogas como são e os terapeutas e os psicólogos não teriam suas agendas lotadas como estão, resolvendo aquilo que o dinheiro não compra.

Antes de pedirmos a Deus mais dinheiro, seria legal pedirmos mais sabedoria e mais tranquilidade, porque muitas vezes ter dinheiro só serve  para pagar pelos problemas que não teríamos se fossemos pobres.
Claro que temos de ter conforto e tranquilidade financeira, mas quem não sabe administrar um salário não irá saber administrar dez, porém, quem consegue se organizar mesmo com pouca grana, quando receber uma bolada, saberá girar a máquina e sair da pindaíba.

Bom fim de semana!

Só negro

19 de novembro de 2010 0

Amanhã, 20 de novembro, teremos um dia muito importante, o da Consciência Negra. E, por mais que pareça absurdo, essa data diz respeito a todos nós, independentemente da cor da pele de cada um.
Se pensarmos um pouco no que significa a expressão "consciência negra", vamos entender um pouco desta necessidade, pois toda a nossa sociedade é influenciada pela cultura e pelos costumes trazidos pelos negros do continente africano. Infelizmente, hoje, a cultura negra está popularmente reduzida a dança e religião, o que é um equívoco. O povo negro tem na sua raiz muito mais riquezas do que se imagina.
Apesar de camuflado, ainda prevalece um pensamento difundido no processo de escravidão. O povo negro, por conta da rusticidade do seu sistema social, era visto como menos culto ou primitivo. Atualmente, essa forma de ver tais características pode ser chamada de racismo.
Para nossa tristeza, muitos negros, em resposta a esse tratamento, aderiram ao racismo, assumindo as posturas de vítima ou reprodutor dessa bestialidade. Infelizmente, livrar-se dessa doença é mais difícil do que se imagina, pois tais práticas estão camufladas em atos e pensamentos quase imperceptíveis.
Requer persistência de pais e professores formar uma sociedade que tenha consciência de como os negros foram e são importantes para a formação do nosso país. Eu mesmo demorei para despertar, foi graças a pessoas como o saudoso Oliveira Silveira que me dei conta que minha pele escura não é somente uma concentração de melanina, mas um patrimônio que deve ser valorizado por mim e pelos que me cercam.
O mestre Oliveira, no nosso último contato, disse-me algo que jamais esquecerei: "A consciência negra passa por a sociedade entender que deve dar ao negro acesso ao que ela tem de melhor a oferecer, mas, para que os negros recebam o melhor da sociedade, eles precisam dar também o seu melhor".
Essas palavras mudaram minha forma de fazer meu trabalho e fizeram de mim uma pessoa mais dedicada, pois tenho consciência de que sou um negro, nem melhor, nem pior, só negro.

Efeito Copa

22 de junho de 2010 0

Hoje de manhã fui comprar jornal e tomar um café. Ao ver a movimentação no posto de gasolina, às 7h, cheguei à conclusão que o futebol só é uma das consequências em eventos como a Copa. Afinal, o mundo volta os olhos para as cidades dos jogos, e, ao olharem futebol, as pessoas acabam vendo outras potencialidades.

A minha simples vontade de tomar café de manhã, unida à vontade de mais de cem turistas, impulsiona diferentes setores da economia, que vão desde a tia que vende cafezinho perto do posto que abre mais cedo até o agricultor que terá de plantar mais café e empregar pessoas.

No jogo do Brasil, conheci um empresário inglês que estava espantado com os investimentos em qualificação profissional de jovens na África. Disse que pensava em trazer uma das unidades de sua indústria têxtil para Joanesburgo. Não fosse a Copa, isso não ocorreria.

Esse efeito de atração causado pela Copa pode trazer muitas soluções, mas também traz problemas que ainda não eram vividos, como os êxodos. Joanesburgo, por exemplo, por conta da mineração, era conhecida como Cidade do Ouro. E apesar de a exploração deste minério não estar mais em sua melhor fase, ainda atrai pessoas que chegam de regiões mais pobres, como Zimbábue e Moçambique.

Enquanto comprava jornal, fui abordado por duas mulheres cegas acompanhadas por seus filhos, pedindo dinheiro para tomar um café. Os filhos, que aparentavam ter entre 14 e 19 anos, não me olhavam nos olhos. Comprei o café e, acostumado às abordagens dos usuários de crack, puxei assunto para ver se encontrava sinais de drogas. Para minha surpresa, dos 11 idiomas falados aqui eles dominavam sete. Vieram de Moçambique, ambos tinham casa em seu país de origem, mas como suas mães precisavam de assistência médica, abandonaram tudo para tentar a vida e ajudá-las. Quando perguntei por que não olhavam em meu olho, um deles disse que tinha vergonha de estar naquela situação - imaginem que se ele descobre o crack, todo este potencial é queimado em poucas semanas.

Ser uma cidade com jogos da Copa atrai investimentos, mas esses investimentos trazem pessoas em busca de soluções. Nós, que vamos receber o Mundial em 2014, teremos de ter soluções para a cidade e para elas.