Desde que escrevi o primeiro post deste blog, em novembro, me apresentando e apresentando sobretudo o lugar onde eu moro (retenha a informação mais relevante: studio de 22m2), nunca mais falei sobre nuestro simpático apartamento cravado no centro de Paris. Parece injusto, levando em conta que é onde eu passo a maior parte do tempo. E parece injusto também pelo fato de ele ser, o meu studio, uma fonte inesgotável de historietas engraçadas e choques culturais de intensidades que beiram o fatal.
Então hoje começo uma série, em tópicos, da enriquecedora experiência de ter a cozinha dentro do quarto, de hesitar em comprar um balde porque não haverá lugar para ele, e de tudo que se aprende sobre cultura francesa só de ficar olhando pela janela.
Comecemos. Mas antes de entrarmos no amplo apartamento de, hm, uma peça, admiremos a organização do prédio, que representa, aliás, a maioria dos pequenos prédios parisienses.
A área comum
Elevador? Não entro num desde que saí do Brasil. Mentira. Devo ter usado o das Galeries Lafayette dois meses atrás, só de saudade. Porteiro? Não me faça rir. Síndico? Não não, o prédio se auto-gerencia - daí porque as propagandas de limpadores de chaminé no chão, próximos à porta de entrada, os rolos de pó nas escadas, e a cada dia mais difícil porta de entrada, que sou obrigada a abrir com a bunda, e só na terceira tentativa.
Eventualmente, isso não posso negar, aparece um faxineiro. Quando ele vem? Quem o chama? Para mim, é um mistério. E é igualmente um mistério o fato de ele às vezes estar sozinho, e às vezes estar acompanhado de garotas que, como dizer?, parecem bonitas garotas patricinhas do leste europeu. E elas pegam no pesado também. Da última vez que as vi, esfregavam as paredes centenárias com clorofina.
Digicode
Nos prédios de apartamentos maiores e mais caros, há interfone: o painel, que fica na rua, ostenta dezenas de botões e, do lado de cada um deles, o nome da família que mora naquele apartamento (não preciso nem dizer que isso no Brasil seria um convite a todo o tipo de golpe, né?). Para todos os outros edifícios, existe outro sistema de entreda e saída: o digicode. O digicode tem números, de 0 a 9, e duas letras (A e B), de modo que cada prédio tem um código secreto de cinco dígitos (algo como B2253). Basta digitá-lo, e a porta abre. Não precisa chave nem nada parecido.
A coisa bizarra para nós, latino-americanos habituados à violência urbana e à má fé, é a seguinte: se um amigo vem lhe visitar, você dá o digicode para ele. Se você encomenda um livro pela Internet, você dá o digicode para os caras da Amazon. Se técnicos vem consertar o telefone, eles precisam do digicode para entrar no prédio. O carteiro tem o digicode. Até mesmo os lixeiros tem o digicode, para poderem esvaziar a lixeira do prédio toda manhã.
Conclusão: não me parece assim um graaaande segredo, parece?
Números de apartamentos e caixas de correio
Na maioria dos prédios franceses, não há número de apartamento. Não, você não leu errado, é isso mesmo. Por certo, mais uma herança medieval. Aos amigos que vem jantar, portanto - já munidos do digicode - como fazer com que eles batam na porta certa? Facinho. Você diz: terceiro andar, à direita. Se há mais do que esquerda e direita, não há problema: terceiro andar, primeira porta à direita, ou terceiro andar, a porta na frente da escada, e assim vai. Mas isso não é mero informalismo entre amigos não: no caso de você receber uma correspondência que não cabe na caixa de correio, ou que o carteiro precise da sua assinatura como confirmação, é bom que esteja escrito, no envelope, o seu apartamento. Ou melhor: é bom que esteja escrito terceiro andar à direita. De forma que meu endereço, nesses casos, não é simplesmente 25, rue du Temple. O endereço é 25, rue du Temple - 3e droite.
Se isso não estiver escrito no envelope, o carteiro gentilmente vai lhe deixar um aviso para você buscar a sua correspondência na agência dos correios. E vai marcar lá o x na opção que diz que ele não encontrou o seu apartamento.
Isso porque as caixas são marcadas só com o sobrenome da pessoa. O que, aliás, permite ao carteiro ser criativo muitas vezes, como quando meu namorado, Diego Grando, recebeu uma carta endereçada à Madame Legrand.
Cenas do próximo capítulo: a dura arte de cozinhar com duas bocas elétricas de fogão, o misterioso cheiro de cigarro em casa de não-fumantes, e os malabarismos necessários com o estendedor de roupas.
Postado por Carol Bensimon