Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Posts de fevereiro 2009

Mini resenhas

27 de fevereiro de 2009 6

Agora que tenho um cartão de cinema ilimitado (sobre o qual falarei mais tarde), pego um cinema quase um dia sobre dois. Como me falta a veia (ou a paciência) jornalística de escrever longa resenha, traço mini comentários, sem dizer muito bem do que se trata cada filme: qualquer sinopse dá conta do recado melhor do que eu.
Tentarei não escrever sobre filmes romenos obscuros que nunca chegarão ao Brasil (refiro-me aqui a um filme bem ruim, portanto não fique nervoso). Ainda assim, volta e meia me escapará um comentário sobre algum que ainda não chegou às telas brasileiras. Não se preocupe: guarde o nome e siga adiante.

Quem quer ser um milionário
Sinceramente, não gosto de miséria videoclíptica, pois sempre tenho a sensação de que esse tratamento faz com que ela, a miséria, pareça um mero adereço de um filme de ação em que a diferença entre bons e maus é tão clara que chega a constranger-me. Pior do que isso é fazer com que todos sejam bandidos loucos por dinheiro, ou simplesmente sádicos, o tempo inteiro, enquanto um único personagem guarda em si o conjunto completo de purezas, valores e boas intenções. Além do mais, aquele amor impossível (subitamente possível) não colou.


O estranho caso de Benjamin Button

O tom de fábula me lembrou muito de Big Fish, do Tim Burton, mas um Big Fish ruim. Achei a história cheia de furos, e aquele tempo presente mulher-morrendo-no-hospital, além de desnecessário para o curso da história, é um clichê sem tamanho. Também tive a impressão de que, querendo abarcar velhice e amor na “moral da história”, nenhum dos dois assuntos foi explorado para além da superfície.

Rio congelado
O diretor alemão Wim Winders disse, numa palestra, que os filmes que ele gosta de assistir são aqueles cujas histórias não poderiam se passar em algum outro lugar, senão naquele que se passam. Compartilho totalmente dessa visão. Rio congelado é um desses filmes no qual nenhum personagem escapa da força, do determinismo, do lugar: a fronteira gelada entre Canadá e Estados Unidos, separadas por um rio no interior de uma reserva indígena (e que, por isso, não responde às leis nem de um país nem de outro). Torci muito para esse azarão do oscar, que concorria nas categorias de melhor atriz e melhor roteiro original. Um dos melhores filmes que vi no ano. Veja o trailer e vá ao cinema.

Postado por Carol Bensimon

Músicos de rua

23 de fevereiro de 2009 15

Enquanto procuro uma boa e bela jukebox em algum bar parisiense, na qual eu sem dúvida colocaria um country para tocar, deslumbro-me muitas vezes com alguns músicos de rua. Basta para isso que eles estejam tocando a música certa no momento certo. Não costumo dar moedas para eles, o que por vezes me põe um pouco culpada. Não é nenhum tipo de convicção. Simplesmente acontece de eu não ter moedas no bolso. Mas, quando atingimos esses momentos de comunhão, poucas dezenas de segundos em comunhão, eu lhes sorrio meu melhor e mais sincero sorriso.
Gosto especialmente dos que me surpreendem. Música tradicional francesa em acordeon tocada no vagão do metrô já não me causa impacto (embora eu adore acordeon).
Dia desses, sobre uma ponte, onde só sobrava uma luminosidade bem bem difusa de resto de dia, um cara tocava James Taylor no violão. Fire and rain. Fiquei tão comovida e surpresa que não captei mais nehuma informação visual. Só ouvia. Então até hoje procuro esse sujeito que não sei que cara tem, nessa ponte que não tenho bem certeza qual era.
Nas estações de metrô, os músicos precisam ser credenciados para tocarem. São submetidos a testes e tudo o mais. E, aprovados, fazem rodízio por aí, e portanto não é surpresa que se cruze com os mesmos músicos repetidas vezes, em pontos diferentes da cidade.
O grupo mais incrível que você pode cruzar enquanto caminha apressado pela estação de metrô são os “musiciens de Lviv”. Se aquela música não alterar nada nada do que você está fazendo ou do que você está pensando, você não é humano. Les musiciens de Lviv são uns caras da Ucrânia que tomam músicas tradicionais eslavas. As harmonias vocais transformam os decrépitos corredores de Châtelet Les Halles em algo sem explicação.
Mas nada nunca alcançará a beleza inesperada de uma canção árabe à capella, tocada no trem, a caminho do aeroporto, quando eu estive um mês aqui em 2006 (viagem que acabou mudando todo o rumo da minha vida). Ela usava um véu rosa e sua voz era um lamento paradoxalmente cheio de vida. Como era um paradoxo aquele meu fim de viagem (fim, recomeço, retorno e um nunca mais sair). Essa cena gravou-se com força na minha memória. Mas não só na minha. Acompanhava-me um amigo, quer dizer, que havia se tornado amigo naqueles dias (embora eu o conhecesse há muito tempo, porque é irmão de uma amiga de infância). Desde aquele tempo, até hoje, ele mora em Paris. Ele e sua esposa, que é francesa, são os melhores amigos que tenho aqui. Sábado, quando nos encontramos num bar estranho em que os clientes levam a sua própria comida, depois de um silêncio qualquer, ele me disse, sem aparente conexão com nada do que estávamos discutindo antes: “lembra daquela árabe cantando no trem?” Eu disse, com certo pesar: “lembro. E eu não dei nenhuma moeda pra ela”. “Não era por dinheiro que ela cantava”, meu amigo respondeu.
Enfim. Apenas gostaria que ela soubesse o que fez com um pedaço de nossas vidas.


Les musiciens de Lviv tocando na estação Châtelet Les Halles. Nunca sei quando estarão, mas sempre espero encontrá-los.

Postado por Carol Bensimon

Como corre o tempo

19 de fevereiro de 2009 7

Voltei a pensar no ritmo particular que o tempo assume, em cada momento da nossa vida e em cada cidade, ao ler um post no blog do André Takeda. Reproduzo aqui:

Desde que me mudei para São Paulo, tenho essa impressão de que o tempo passa mais devagar em Porto Alegre. Agora estou vivendo em Buenos Aires, que não é tão maluca quanto a capital paulista, mas como os argentinos são intensos, parece que as coisas também são meio agitadas. Cheguei na terça em Porto Alegre e sinto aquela boa sensação de que consigo fazer tudo o que quiser no meu dia: acordar tarde, almoçar com amigos, ir ao cinema com o meu sobrinho, dormir de tarde, chegar na hora da novela, etc.
Acho que os cientistas deveriam fazer um estudo sobre o tempo nessa cidade. Quem sabe Porto Alegre não está em algum ponto do mundo onde as horas tem 90 minutos e não 60. Se o Brasil ainda consegue ter paciência para assistir a nona edição do Big Brother, tudo é possível.

* Acho que o André Takeda tem razão. O tempo segue o ritmo da cidade, o tamanho da cidade, de tal maneira que deve passar voando em Tóquio, e lento em Antônio Prado.

* O tempo é também o que dele se faz, e estar a turismo em alguma nova cidade traz uma contradição que sempre me intrigou: ao mesmo tempo que o tempo passa rápido (porque nos divertimos, porque gostaríamos que durasse mais), ao fim dos quatro ou cinco dias que dura a viagem, a impressão que temos é de termos vivido uma vida inteira naquele lugar.

* Também comecei a pensar outra coisa sobre o tempo ultimamente, e fecho com ela: o tempo corre mais lento na cidade onde nascemos e crescemos. Como mencionei no item anterior, coisas novas, que aprendemos, que observamos, fazem o tempo se alargar. Na cidade na qual nascemos, não há novas informações a serem observadas em toda a esquina. Ao contrário, passamos de cabeça baixa, ou dentro de nosso carros, sem nem olhar (infelizmente). Por isso um dia pode parecer muito igual ao outro, e dar então uma ideia de que muita pouca coisa aconteceu nos últimos tempos. Mas há ainda outro fator: me parece que o acúmulo de memórias relacionadas a esse lugar faz com que um dia, uma semana, ou mesmo um mês, pareçam um pedacinho muito pequeno do todo.

Postado por Carol Bensimon

As muito seguras (in)verdades

15 de fevereiro de 2009 13

Sair do seu ambiente, que é um quarto, um bairro, um país,  é sempre desestabilizador. Se me disseram que meu bairro em Porto Alegre tem uma maior incidência de crimes que tal outro, dificilmente vou conseguir mudar minha atitude de andar mais tranquila no meu bairro, e mais alerta naqueles com os quais não sou familiar. O hábito dá uma (falsa) ideia de segurança, e portanto mais seguro é aquele que eu conheço, e pronto. É muito mais subjetivo do que lógico.
Quando se muda de país, busca-se estabelecer logo uma relação com o lugar, que nada mais é do que uma relação de domínio: conhecer e entender para sentir-se segura e, mais do que isso, integrada. Há uma pressa então em se compreender o que está em volta, que obviamente nunca pode ser decodificado de uma forma tão rápida e simples. E o pior, erro frequente que eu mesmo cometo às vezes, é tentar “ler” um país pela lógica que se aplica a outro. Não dá. Um piso improvisado num prédio de classe média parisiense vai além da negligência ou descaso, como podemos de cara pensar. Séculos de história explicam essas coisinhas triviais, e mesmo os hábitos para os quais torcemos o nariz, como “francês não toma banho” fazem parte de uma cadeia da qual muitas vezes insistimos em ver só a ponta. Essa gente teve IDADE MÉDIA! Tal é a frase que às vezes me arremata, e que explica muitas coisas que se vê por aqui, para o bem ou para o mal.
Desconfio que essa ansiedade em entender onde diabos estamos agora, e como diabos essas pessoas são e como essas pessoas agem e o que pensam elas, pode descambar para as piores generalizações. Afinal, colar etiquetas é sempre mais fácil que parar para pensar: digo é assim, colo em cima aquela verdade definitiva, e passo para o próximo assunto. De forma que, se o vizinho está escutando Macarena com o volume alto, minha verdade definitiva é:

Vizinho ouvindo Macarena = todo francês é mal-educado

Então a máxima preconceituosa dá um alívio imediato de “uau, entendi como é”, de modo que toda vez que um francês for grosseiro, minha verdade será alimentada. Quando um francês for simpático, simplesmente ignoro o fato, considerando isso como uma exceção. Ah, e nunca leva-se em conta o número de “exceções”. Até porque não há a possibilidade de, uma vez posta, descolar-se a etiqueta.
O curioso é que as pessoas que cometem generalizações desse tipo sempre se mostram ofendidas quando o movimento contrário (alguém fazendo generalizações sobre brasileiros) acontece:

Brasileira fazendo ponto no Bois de Boulogne = toda brasileira é puta

Nossa, isso os deixa loucos. Querem mostrar, de todo jeito, que é uma visão preconceituosa e absurda (e é, mas isso é outra questão). Em outras palavras, exigem que um europeu-médio compreenda o Brasil em todas as suas nuances, que nem nós compreendemos muito bem, aliás. Bem, se esse brasileiro, que está aqui, tem todas as generalizações sobre franceses na ponta da língua, ele que não exija de um francês, que conhece o Brasil só por uma cena de carnaval transmitida por algum jornal televisivo, algum tipo de grande tratado sociológico.
Mas há ainda outra coisa mais perigosa, que ilustro com o exemplo a seguir: a última vez que estive com quatro brasileiros no mesmo ambiente (faz tempo), tão logo pararam de se queixar da maneira estereotipada pela qual eram vistos pelo europeus, engataram, uma atrás da outra, histórias preconceituosas sobre árabes (“árabes são grosseiros, são sexistas, árabes são o problema da França”). Claro. Tenta-se escalar a pirâmide pisando no que está mais embaixo, socialmente falando. Uma atitude desprezível.
Por isso eu recomendo: perca tempo tentando entender as coisas que, sim, muitas vezes são contraditórias e que sim, muitas vezes jamais compreenderemos. É verdade que nunca vamos escapar de uma generalização ou outra, é humano, mas não custa observar um pouco mais antes de sair gritando despropósitos.

Postado por Carol Bensimon

Cachorro na bolsa

11 de fevereiro de 2009 9

Uma amiga itinerante com quem passei dias intensos e deslumbrados conseguiu registrar um hábito francês pra lá de estranho: o de carregar cachorros de pequeno porte dentro de bolsas. Não vou mentir que vejo todo dia, é claro, mas pelo menos uma meia dúzia dessas situações eu já presenciei. Pergunto-me se não é estranho pro bichinho ficar todo amontoado ali. E outra questão: é uma bolsa especial para o transporte de animais de estimação, ou simplesmente pego a minha sacola de praia e coloco o cão dentro?


Fotos: Ieve Holthausen

Postado por Carol Bensimon

Morar em 22m² - Parte 3

09 de fevereiro de 2009 6


Tá sentindo esse cheiro?

A maioria dos prédios daqui, caso no qual se inclui o meu, tem mais de século, de forma que o contraponto do charme são as instalações muitas vezes duvidosas. Francês adora um improviso. Não por acaso, o grande hobbie nacional masculino é a bricolage (o termo existe em português, bricolagem, mas não é lá muito conhecido. Refere-se a pequenos consertos domésticos, que vão da marcenaria à hidráulica). Aqui no studio, por exemplo, há duas caixas de luz: a que funciona e a antiga, que, obviamente, nunca cogitaram remover. Aliás, comentando isso com um casal de amigos, descobri que eles também tem a caixa-recordação.
O amor pela bricolage também pode ser ilustrado pelo amor que eles têm pelo tubinho de massa de rejunte. No box, na pia da cozinha, em vidro de 2mx2m de estabelecimento comercial, o tubinho de massa de rejunte parece solução para qualquer problema.
Bem, tudo isso explica, ou ao menos nisso eu quero acreditar, o fato de, sobretudo no meio da noite, quando já vem entrando a madrugada, eu sentir um cheiro estranho de cigarro dentro do apartamento. Eu não fumo. O namorado não fuma. Pois então, de onde vem? Cheirando os cantos da sala-quarto-cozinha, cogitamos a hipótese de que, sei lá por qual labirinto do encanamento e improvisação francesa atrás do armário da “cozinha”, o cheiro saía do vizinho (de cima? de baixo?) e chegava aqui. A sorte é que isso não acontece todo dia. Aliás, faz tempo que o vizinho não fuma. Mas só isso já não parece estranho? Se o vizinho fumasse, não deveria ter cheiro sempre, e não só uma vez por semana, lá pela uma da manhã? Ou ele fuma sempre e o cheiro chega só às vezes? Não faz sentido. Mais uma: se sentimos o cheiro de cigarro dele, ele então sente o nosso de comida? E ele, por conclusão natural, não cozinha? Eu, pelo menos, nunca senti. O cano é seletivo? Como vocês podem ver, são muitas as questões.

Pela quantidade de tarefas acumuladas e pela hora já avançada por aqui, deixo para depois os itens que faltam (não menos divertidos, ou melhor, provavelmente mais divertidos): 1) cozinhar em duas bocas elétricas (e sem forno), com louça reduzida que transforma janta com amigos em aventure hippie e 2) escrever um romance na mesma peça que outro escritor, o que me obriga a ir ao banheiro e sentar na privada com o notebook caso eu deseje ler em voz alta o que estou produzindo.
Também prevejo um post sobre como é curiosa a sensação de que o tempo passa em ritmo diferente dependendo da cidade em que se está. Mas o que eu queria mesmo era fazer o manual do perfeito intelectual blasé que vem morar no exterior. Ah, estou sedenta por isso.

Postado por Carol Bensimon

Vai, Planeta

08 de fevereiro de 2009 2

Talvez a coisa que mais chame atenção no modo de vida europeu é a preocupação que as pessoas tem com o meio-ambiente. Uso controlado de sacolinhas plásticas, repúdio aos carros que poluem demais (como os 4×4), reciclagem, evitar o desperdício. Isso, no entanto, contrasta com o poder de compra europeu: as pessoas consomem muito, roupas, comida, eletredomésticos, absolutamente tudo, e mesmo aqueles de baixa renda (para os padrões da europa ocidental, é claro) participam do grande esquemão de consumo desenfreado.
Nos próximos anos, vejo que o desafio desses populações privilegiadas será conseguir equilibrar a vontade de salvar o planeta com a vontade de consumir.
Dito isso, deixo vocês a nova campanha da Citroën (coloquei a versão britânica, mas a propaganda é idêntica a que está rolando por aqui), que joga exatamente com esse espírito do diminuir, diminuir, diminuir (as emissões de gas carbônico, o consumo, o barulho…). 

Postado por Carol Bensimon

Arquitetura e troca de casais. Bem-vindo.

04 de fevereiro de 2009 6

O simples fato de um dia eu me deparar com duas construções medievais em Paris já foi, por si só, surpreendente: não custa lembrar, ou explicar rapidamente ao leitor, que pouco sobrou da Paris medieval desde a reurbanização do século XIX, idealizada pelo Barão de Haussmann, e portanto esses ângulos tortos e madeirames em X são coisa que se costuma ver fora da capital (em Rouen há belíssimos exemplares, aliás). Pois bem. Estava eu andando por uma parte do Marais a qual não estou muito habituada (para lá da Rivoli, em direção ao Sena) quando vejo esses dois belos exemplares medievais. Encantada, me aproximo de uma placa  da prefeitura com explicações históricas e, depois de lê-la, ainda não satisfeita, começo a me perguntar: mas o que será que há aqui hoje?
Para encurtar a história, só duas outras passagens pelo lugar, à noite, e mais uma rápida pesquisa no Google é que me confirmaramm o que, na verdade, já estava um tanto óbvio: no prédio histórico da esquina, funciona um clube de swing. O que primeiro me levou a essa conclusão foi o nome do lugar, Au Pluriel (“no plural”). Embaixo, estava escrito Club Privé. A porta, com uma gradezinha dessas que abre na altura dos olhos de quem está dentro, e mais uma espécie de interfone ao lado, também já deixava um tanto evidente que aquilo lá era, no mínimo, um prostíbulo (nossa, que palavra antiquada, ahn?).
Em uma dessas ocasiões noturnas, por sinal, um homem sai de dentro do lugar com um balde, e derrama todo o conteúdo na calçada. Hm, realmente algo muito convidativo.
No mais, me inquieta a seguinte questão: por que diabos um clube de troca de casais decidiu instalar-se num dos prédios mais antigos de Paris? E note que não há nenhum tipo de moralismo no que estou dizendo, apenas me parece que, na lógica dos clubes de troca de casais, não está incluído o item “chamar atenção”.
Se eu quisesse brincar de swing, juro que eu não ia gostar nadinha de sair na foto de um turista empolgado com a sua descoberta medieval.

Postado por Carol Bensimon

Morar em 22m² - Parte 2

01 de fevereiro de 2009 9



Claro, por que não um piano de cauda?

Ah, o velho armário de brinquedos, ah, as velhas cartas da adolescência, ah, aqueles tantos livros que já amarelaram! E a revista de dois meses atrás, ou de um ano atrás, que a gente sempre acha interessante guardar, mas então nunca mais abre? Onde estão as minhas roupas que não servem mais, os lápis nunca apontados de viagens longínquas, a minha luneta que virou decoração? Certamente achava-se um canto para qualquer coisa naquele grande apartamento que deixei no Brasil.
Aqui, por outro lado, qualquer compra é dilema, e note que não falo de dinheiro ou crise mundial (isso é problema de outra ordem), mas do importantíssimo fator volume-que-este-objeto-irá-ocupar nos meus 22m2. Recentemente, por conta de uma aquisição londrina ou outra, as roupas de verão tiveram que migrar do armário para dentro de uma mala. Mala esta que, não preciso dizer, fica em cima do armário. O que mais? Ainda não temos um balde porque estamos tentando achar um meio-balde, que caberia perfeitamente entre o vaso sanitário e a parede, onde já está o esfregão e o estendedor de roupas. Se meio-balde parece coisa de louco, digo que não é, e inclusive já vi um. Aqui, afinal, tudo tem a sua versão ocupar-menos-espaço-possível.
Houve também o dilema do violão. Tanto eu quanto o Diego somos tocadores ocasionais, e tivemos que deixar nossos violões no Brasil. Começamos a sentir imensa falta. Comprar um aqui? Tudo bem, mas onde colocar? O Diego então veio com umas de que a solução era comprar um ukelelê. Vocês sabem, aquela coisa de quatro cordas que parece um violão para crianças bem pequenas. E cismou com o ukelelê, até provavelmente dar-se conta que já era ir longe demais nas estranhezas. E um guitalelê, que tem seis cordas, mas é pequeno, quase como um ukelelê? Também, felizmente, desistitu da ideia, e acabou por comprar um violão de verdade. Que agora está num bom lugar, eu diria. É só não abrir demais a porta ao chegar ou sair de casa.
(detalhe adicional: sou canhota, e portanto não podemos compartilhar o violão. O que quer dizer que será preciso, em breve, achar um lugar para um segundo violão).

A dança do estendedor

Países europeus desconhecem aquela parte da casa usualmente conhecida como “área de serviço”, o que significa que, alguns dias por semana, você vai precisar instalar um estendedor de roupas em algum canto da casa. E como o sol não aparece quase nunca, bem, digamos que esse processo de secagem pode demorar um pouco.
Enquanto o estendedor está armado e cheio de roupas, as coisas ficam um tanto apertadas e mutáveis no quarto-sala-cozinha: se o estendedor estiver próximo à primeira janela e for preciso ligar o aquecimento, que fica justamente ali, move-se o estendedor para a outra janela, o que impedirá qualquer pessoa de sentar na poltrona confortavelmente. Outra opção bastante esperta é colocar o estendedor num lugar que quase não atrapalha: de frente à porta de entrada do studio. O problema é se alguém tiver que sair.
Mas isso tudo é, na verdade, já a segunda etapa da dramática obrigação de lavar a roupa, que na verdade começa, hm, na pia do banheiro. Sim, sim, na pia do banheiro. Além de não termos máquina de lavar, eu aprendi – e não questiono se está correto ou não, só digo que com herança familiar não se luta – que máquina de lavar destrói as roupas, e que bom mesmo é lavar à mão. Coisa que, claro, eu nunca tinha feito até chegar aqui.

Postado por Carol Bensimon