Encontro pelo menos uma pessoa por dia com quem eu gostaria de falar. Pode ser por um livro que tem na mão, pela audácia ou coolzismo do figurino, ou por qualquer outra razão menos identificável. Enquanto dividimos o mesmo espaço físico, que seja uma calçada por 20 segundos, ou um vagão de metrô em viagem de meia hora, uso qualquer gesto ou palavra dita (a outro) para construir minhas hipóteses sobre ela. É da minha natureza. Infelizmente, é da minha natureza também jamais ter coragem de abordar qualquer estranho que seja.
Quando o contrário acontece - um estranho querendo trocar umas palavras comigo - tento ser o mais receptiva possível, dentro dos limites da minha tímida personalidade.
Me agradam esses rápidos encontros de duas vidas, que logo então se abandonam em direção aos seus caminhos tão diferentes. Em que outra situação eu falaria com uma velha senhora francesa que acaba de ver Gran Torino e quer dividir comigo seu entusiasmo por Clint Eastwood?
Há algumas semanas, eu tirava uma foto na rua e, sem nenhuma intenção, um sujeito de uns vinte e poucos anos foi capturado pela câmera diante do que eu queria realmente fotografar (uma livraria). Minutos antes, eu tinha visto esse mesmo cara sentado num banco próximo à Notre Dame. Depois que eu bati a foto, ele veio caminhando na minha direção. Tirei meus fones de ouvido. "Por que você me fotografou?". Não havia nada de agressivo na pergunta, ao contrário, vinha junto com um sorriso que parecia dizer "sou obrigado a dizer isso para que a gente possa começar algum tipo de conversa".
E ficamos ali em pé por um tempo conversando, num raro dia de sol. Ele era loiro de olhos azuis, e gesticulava como alguém da periferia, que cresceu ouvindo hip hop. Realmente, hip hop era toda a sua cultura musical, como ficou claro quando, olhando meu botton que mostra a famosa capa do Wish you were here, do Pink Floyd, ele perguntou: o que é isso? "A capa de um álbum do Pink Floyd", respondi, com a certeza que isso bastaria. Mas ele nunca tinha ouvido falar de Pink Floyd.
Sentamos depois numa praça (estávamos do lado da entrada, na verdade, quando nos encontramos). Ele me disse que o nome dele era Marco, perguntou o que eu fazia na França, e todas essas coisas banais. Ao mesmo tempo, tentava inserir na conversa algum tipo de comentários superior e filosófico, ou discorria sobre alguma questão de intolerância religiosa, deixando claro o quanto ele acreditava que todos eram iguais e que deveriam ser respeitados como iguais. Em algum momento, ele disse que tinha nascido na antiga Iugoslávia.
"Como é lá?", perguntei. Ele pegou um grão de areia entre o polegar e o indicador, e disse, com um orgulho indisfarçável "isso daqui é o suficiente para que eles estejam felizes".
Durante toda a conversa, ele continuava olhando para o meu botton e fazendo menções a ele. Para aqueles que não sabem, é preciso dizer que a capa do Wish you were here mostra dois homens de terno trocando um aperto de mão, e um deles está em chamas (digo, literalmente em chamas).
Estava muito claro que aquilo o punha em desconforto, e que talvez evocasse alguma dura memória iugoslava. Nas horas em que mencionava o botton, ele parecia ser realmente alguém muito transtornado. Acho que fui ficando com medo a medida que os minutos passavam, e decidi finalmente que eu deveria ir embora quando ele disse algo como "você tem às vezes a sensação de que pode morrer a qualquer momento?". Fiquei apavorada e meu espírito alerta tomou a frase como algo que antecede um assassinato sem sentido.
Sei agora que podia ser apenas uma confissão existencial a uma estranha, um medo de morrer que era dele e que eu não devia, ao menos não naquele instante preciso, tomar como meu. Mas me despedi e peguei a rue Saint-Jacques para o mais longe que ela podia me levar, toda hora olhando para trás. Passei diante da Sorbonne, tomada pela polícia por causa de mais uma greve, e subi um pouco mais a rua, até achar um escuro e simpático café comandado por uma portuguesa. Dentro do café, tocava Nirvana.
Postado por Carol Bensimon








