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Posts de março 2009

Homem em chamas

29 de março de 2009 9

Encontro pelo menos uma pessoa por dia com quem eu gostaria de falar. Pode ser por um livro que tem na mão, pela audácia ou coolzismo do figurino, ou por qualquer outra razão menos identificável. Enquanto dividimos o mesmo espaço físico, que seja uma calçada por 20 segundos, ou um vagão de metrô em viagem de meia hora, uso qualquer gesto ou palavra dita (a outro) para construir minhas hipóteses sobre ela. É da minha natureza. Infelizmente, é da minha natureza também jamais ter coragem de abordar qualquer estranho que seja.
Quando o contrário acontece – um estranho querendo trocar umas palavras comigo – tento ser o mais receptiva possível, dentro dos limites da minha tímida personalidade.
Me agradam esses rápidos encontros de duas vidas, que logo então se abandonam em direção aos seus caminhos tão diferentes. Em que outra situação eu falaria com uma velha senhora francesa que acaba de ver Gran Torino e quer dividir comigo seu entusiasmo por Clint Eastwood?
Há algumas semanas, eu tirava uma foto na rua e, sem nenhuma intenção, um sujeito de uns vinte e poucos anos foi capturado pela câmera diante do que eu queria realmente fotografar (uma livraria). Minutos antes, eu tinha visto esse mesmo cara sentado num banco próximo à Notre Dame. Depois que eu bati a foto, ele veio caminhando na minha direção. Tirei meus fones de ouvido. “Por que você me fotografou?”. Não havia nada de agressivo na pergunta, ao contrário, vinha junto com um sorriso que parecia dizer “sou obrigado a dizer isso para que a gente possa começar algum tipo de conversa”.
E ficamos ali em pé por um tempo conversando, num raro dia de sol. Ele era loiro de olhos azuis, e gesticulava como alguém da periferia, que cresceu ouvindo hip hop. Realmente, hip hop era toda a sua cultura musical, como ficou claro quando, olhando meu botton que mostra a famosa capa do Wish you were here, do Pink Floyd, ele perguntou: o que é isso? “A capa de um álbum do Pink Floyd”, respondi, com a certeza que isso bastaria. Mas ele nunca tinha ouvido falar de Pink Floyd.
Sentamos depois numa praça (estávamos do lado da entrada, na verdade, quando nos encontramos). Ele me disse que o nome dele era Marco, perguntou o que eu fazia na França, e todas essas coisas banais. Ao mesmo tempo, tentava inserir na conversa algum tipo de comentários superior e filosófico, ou discorria sobre alguma questão de intolerância religiosa, deixando claro o quanto ele acreditava que todos eram iguais e que deveriam ser respeitados como iguais. Em algum momento, ele disse que tinha nascido na antiga Iugoslávia.
“Como é lá?”, perguntei. Ele pegou um grão de areia entre o polegar e o indicador, e disse, com um orgulho indisfarçável “isso daqui é o suficiente para que eles estejam felizes”.
Durante toda a conversa, ele continuava olhando para o meu botton e fazendo menções a ele. Para aqueles que não sabem, é preciso dizer que a capa do Wish you were here mostra dois homens de terno trocando um aperto de mão, e um deles está em chamas (digo, literalmente em chamas).
Estava muito claro que aquilo o punha em desconforto, e que talvez evocasse alguma dura memória iugoslava. Nas horas em que mencionava o botton, ele parecia ser realmente alguém muito transtornado. Acho que fui ficando com medo a medida que os minutos passavam, e decidi finalmente que eu deveria ir embora quando ele disse algo como “você tem às vezes a sensação de que pode morrer a qualquer momento?”. Fiquei apavorada e meu espírito alerta tomou a frase como algo que antecede um assassinato sem sentido.
Sei agora que podia ser apenas uma confissão existencial a uma estranha, um medo de morrer que era dele e que eu não devia, ao menos não naquele instante preciso, tomar como meu. Mas me despedi e peguei a rue Saint-Jacques para o mais longe que ela podia me levar, toda hora olhando para trás. Passei diante da Sorbonne, tomada pela polícia por causa de mais uma greve, e subi um pouco mais a rua, até achar um escuro e simpático café comandado por uma portuguesa. Dentro do café, tocava Nirvana.

Postado por Carol Bensimon

Sinuca embaixo d`água

25 de março de 2009 17

Cheguei em Paris no último dia de setembro. Durante o voo, ou mesmo antes, já antecipava aquela sensação de sair da estação de metrô e de repente estar no meio dos prédios neoclássicos e das esquinas em ângulos estranhos. Confesso: acontece com frequência eu viver mentalmente o momento que ainda está por vir. Esse é meu truque para aproveitá-lo por muito mais tempo do que apenas no instante preciso em que acontece. No fim das contas, o antes e o depois talvez contem mais do que o momento em si, seja ele qual for.
Em todo o caso, eu tinha motivo de sobra para acreditar que os primeiros tempos seriam uma mistura complicada de deslumbramento, decepção & obrigações-para-além-de-Paris: meu romance, que já tinha uma primeira versão, pedia para ser terminado. Não na pressa – embora houvesse mil pressões me corroendo – mas no tempo necessário para eu me dar por satisfeita.
Para quem tinha criado um método todo particular de criação, que envolvia sobretudo ar livre, o troço aqui não foi fácil (ao menos ficou o chimarrão). Logo estava frio demais para sentar numa praça ao acaso. Na verdade, até as boas e velhas caminhadas inspiradoras ficaram impraticáveis por causa das temperaturas baixas. A coisa toda é que, quando se anda no frio, pensa-se no frio, e só.
Sem carro e sem Província, não tinha mais aquilo de ir até onde a cidade começa a acabar, de onde eu sempre tirava alguma ideia. O jeito foi trancar-se no studio.
Lembro ao leitor que somos dois aqui, trabalhando na mesma peça, de modo que tchau tchau leitura em voz alta, que para mim é essencial, e tchau tchau qualquer outra bobagem que o processo criativo é capaz de envolver. Mas tudo bem, me conformei com a falta de um corredor a ser percorrido para arejar a cabeça, de uns pássaros cantando próximos à janela, da piscina que eu via, do parque que eu via, e trabalhei duro nas novas circunstâncias (afinal, escolhi estar aqui), muitas vezes me trancando no banheiro para ler capítulo em voz alta, sentada no chão.
Foi assim, aos trancos, que terminei meu romance. E mais que depressa mandei para a grande editora que, meses antes, já havia piscado o olho em minha direção.
Ça y est, o passo seguinte foi estourar o champagne (que, confesso, nem gosto muito, não por postura blasé, mas por paladar mesmo): meu segundo livro, Sinuca embaixo d`água, será publicado em setembro pela Companhia das Letras.
Eu, é claro, estarei aí para o lançamento. Aliás, chego bem antes, em julho, para uma temporada de três meses e qualquer coisa, pela qual já aguardo ansiosa. De qualquer maneira, ainda preciso tirar proveito de toda a primavera daqui. As árvores já começaram a brotar. A etapa seguinte, acredita-se, será o sol em aparições mais longas, a temperatura amena, e a farofada na beira do rio.

Postado por Carol Bensimon

Novo conceito em secador de mãos

23 de março de 2009 3


Secador de mãos no banheiro masculino de um bar de Dijon. Entre outras advertências, lê-se, na última delas: “Direcione a corrente de ar quente para o alto para utilizar o aparelho como secador de cabelo”. Hm. Mas que ó-t-i-m-a ideia mesmo.

Postado por Carol Bensimon

Big Mac em pão integral

22 de março de 2009 3

Todos sabemos que até o McDonald`s entrou na onda da comida saudável, e já há algum tempo. A maior prova disso são aquelas maçãzinhas ridículas que custam os dois olhos da cara, e que não fazem sentido algum como sobremesa de um McLanche Feliz. Também me lembro que, em algum momento, vi palitos de cenoura fazendo vezes de batata frita. Mas creio que isso não pegou.
Aqui na França, no dia 18 desse mês, começou a ser vendido o Big Mac versão pão integral. Quando me deparei com os banners anunciando a novidade, confesso que fiquei um tanto chocada: até o mais clássico dos sanduíches da onipresente cadeia de fast foods sucumbia frente à onda saudável. Mas tarde, porém, fiquei achando que a conclusão é na verdade outra. O que aquele Big Mac de pão integral estava me dizendo é que o “saudável” é hoje um produto altamente vendável e, quanto mais falso, melhor. O mesmo Big Mac e três fibras a mais = “tenho a ilusão de estar fazendo um bem enorme ao meu corpo”.

Postado por Carol Bensimon

Studio ilustrado

16 de março de 2009 14

Aqueles que pediram fotos do studio agora tem seus desejos atendidos (com alguma demora). Apresento a todos, antes de tudo, a cozinha.

Alguns comentário a respeito:
a “geladeira” fica embaixo das bocas elétricas, que são duas, na extrema esquerda. Embaixo da pia guardam-se as panelas (e, mais embaixo ainda, há a lata de lixo). O armário cinza azulado tem a louça, que é meio esquizofrênica. Exemplo: dois pratos fundos que fomos obrigados a comprar, porque não havia nenhum, e, em contrapartida, umas doze taças de champagne que ficam ocupando lugar e eu odeio – foi a proprietária quem as deixou, é claro.
Eu me pergunto se, a título de exercício, eu poderia convidar um número de convidados equivalente ao número de taças de champagne. Certamente não.
O armário cinza azulado também responde pelo título de “despensa”, além de conter numa de duas prateleiras um microondas que todo mundo acha igual a uma televisão.

O relógio sobre a cama sempre marca seis horas. É decorativo. Assim como os dois livrões de um século passado. Aquele armário com o espelho é o único armário para acomodar minhas roupas e do meu namorado. Por causa disso, depois de umas comprinhas em Londres, fomos obrigados a transferir umas roupas de verão para dentro das malas (que estão sobre o armário).
À direita da cama, está a porta de entrada do studio (você não achou que fosse outra PEÇA, né?
Ah, os espertos e detalhistas com certeza já flagaram, no canto direito inferior, um pé do famoso estendedor de roupas.

Oi, sou eu amarrando os tênis e sem óculos. O mais importante, porém, é a poltrona. Uma foto dela, no anúncio do apartamento, foi o suficiente para convencer-nos a alugá-lo. Sim, a poltrona para escritores malditos. Mas já digo que de perto ela não é tão glamourosa, e que a luz amarela a favorece muito (também me favorece). Encostada na poltrona, há uma almofada (das duas que compramos) que são feitas especialmente para se sentar no chão. São essenciais para ficar mudando de lugar durante as horas de lazer ou de trabalho.
Por último, aqui vai um pedaço do banheiro, mais para provar que há um do que qualquer outra coisa. Box à esquerda do que é possível ver, no primeiro plano, privada à esquerda da pia. Ali, dobrado, o onipresente estendedor.

Postado por Carol Bensimon

Pequena ausência, Bourgogne e campainha

12 de março de 2009 3

Não necessariamente nessa ordem.
Comprei uma câmera fotográfica decente, para diminuir minhas constantes frustações com a luz demais/luz de menos e fotos fora de foco das câmeras mais, hm, caseiras. É a Canon EOS 1000d, uma das mais baratas na categoria das reflex. Poder ajustar foco e regular entrada de luz vai ser muita alegria. Certamente lembrará o tempo em que eu fotograva com meu pai e a velha Minolta do meu pai.
Fiz a compra pela Amazon da França, para economizar alguns tostões. A câmera deveria chegar entre ontem e hoje. Ganhei um código rastreador e fiquei cuidando. E qual não é minha surpresa quando ontem, no meio da tarde, leio no site dos correios que o entregador esteve aqui, e não encontrou ninguém em casa? Detalhe: passei a tarde em casa. Conclusão: entregador esteve aqui na porta, tocou a campainha, que não funciona, e foi embora, sem tentar bater.
Depois de constatar que eu e minha câmera estivemos separadas por uma porta, apenas uma porta, sem no entanto nos encontrarmos, nossa, fiquei mal-humorada pelo resto da tarde (agora há um grande aviso que aguarda o entregador, com um “por favor, bater na porta”).

Perdões pela ausência dos últimos dias – que, aliás, ainda pode durar um pouquinho. Estou escrevendo uma matéria para uma revista do Brasil. Só posso falar dela quando for publicada, é claro. Mas já adianto que me agrada, e que estou feliz em poder escrevê-la em primeira pessoa, me colocando como personagem da ação e coisa e tal. 

No dia 18, vou para a região da Bourgogne. Ficarei na casa de um amigo, na pequena cidade de Le Creusot. Irei também a Dijon, e provavelmente Beaune, sobre a qual falaram muito bem. Se alguém tiver alguma dica, não hesite em colocá-la nos comentários.

Postado por Carol Bensimon

Planetinhas

07 de março de 2009 7

Escrevi uma pequena matéria – não bem matéria, mas essencialmente setas puxadas de uma imagem falando coisa ou outra – para a revista Bravo! desse mês sobre o fotógrafo Alexandre Duret-Luzt, que já produziu uma coleção de 300 planetinhas como esses aí de baixo. Na matéria, explico um pouco de como ele constrói essas imagens. É uma pena que o espaço não tenha permitido entrar nas minúcias, mas, de qualquer modo, acho que dá uma boa ideia do processo.
Leia a matéria, ou então vá direto para a galeria dos planetas, no flickr do fotógrafo.


Postado por Carol Bensimon

A sirene

06 de março de 2009 7

Sensação estranha: tudo parece normal, as pessoas seguem os seus trajetos padrão, há gente entrando na padaria ou saindo de uma sessão de cinema ou agachado prendendo a sua bicicleta com um cadeado. De repente, uma sirene. É contínua e alta suficiente para que não se entenda exatamente de onde vem. Será da BHV (grande loja de departamento a uns 150m daqui)? Não dá para dizer. Ela para e recomeça. Não é uma sirene de ambulância, de polícia, de bombeiro. Não. Ela atinge  algum pedaço mais trágico da nossa memória, mesmo que só tenhamos a ouvido indiretamente, em filmes: sirene de ataque aéreo. Como assim, que coisa é essa? Depois de umas três tocadas, no entanto, que duram quase um minuto cada, a sirene para, e o mal-estar que vem daquilo que eu definitivamente não vivi passa por completo.
Hoje, já esquecida dela, descubro por um acaso se tratar, sim, da sirene para o caso de “bombardeio clássico ou nuclear”, como me informa o site RNA – Réseau National d`Alerte (Rede Nacional de Alerta). Há 4.500 sirenes espalhadas pela cidade, que datam da Segunda Guerra, mas que tem por objetivo também alertar a respeito de catástrofes naturais, ameaça terrorista, nuvem tóxica e etc. Toda primeira quarta-feira do mês, ao meio-dia, são acionadas para teste (para não atrofiarem, creio eu).
Acredite, dá arrepios. Para aqueles que tem o som na memória então, primeira quarta-feira do mês, ao meio-dia, é provavelmente o momento no qual despertam os fantasmas.

Postado por Carol Bensimon

Road movie na Ucrânia

03 de março de 2009 18

Não é um sentimento que eu compreenda muito bem, mas às vezes tenho a sensação de que o desenvolvimento e a riqueza excessiva dos países da Europa ocidental me causa incômodo. Nos momentos que sou tomada por essa sensação, fico olhando os europeus na rua e achando que vivem vidas sem graça, nas quais tudo já está traçado com imenso conforto e sem grandes emoções. Provavelmente é um sentimento bobo e equivocado. De qualquer maneira, não é uma questão de achar que diversão venha de, no Brasil, ter de conviver com a possibilidade de que poderei ser assaltada na próxima esquina. Ou de ver a miséria estampada nessa próxima esquina. Não, não é isso (só se eu fosse louca). É de outra coisa que nasce, assim, no meio da rua, rodeada de civilidade demais, a frase só pensada, quase pecaminosa: “que vida sem graça tem o europeu”, quando, ao mesmo tempo, vejo minha postura se endireitar num ataque de orgulho latino-americano (eu disse que era meio besta).
É como se eu soubesse de um segredo que eles desconhecem (como é o resto do mundo?).
Provavelmente por causa disso tudo, eu ando com uma vontade enorme de fazer uma viagem para o leste europeu. Saudades do caos e da surpresa. Do impulso, do descontrole, sei lá. Creio que vou esperar o tempo esquentar, e farei isso em grande estilo, de carro, passando distante das metrópoles e parando em lugares no meio do nada.
A ideia é chegar até a Ucrânia.
Alguém tem alguma dica?

Postado por Carol Bensimon

Lili Boniche

02 de março de 2009 2

Lili Boniche é um judeu argelino que canta canções árabe-andalusas. Morreu em 2008, em Paris. No vídeo abaixo, ele já está bem velhinho, e parece perdido em várias partes da música. Ainda assim, quando canta, é um arraso. A música se chama Alger Alger.
Adoro.

Postado por Carol Bensimon