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Posts de abril 2009

Anos noventa

22 de abril de 2009 21

Tenho pensado com frequência nos anos 90. De certa maneira, fui procurada por eles: uma ex-colega falava comigo no msn (raro) sobre músicas que criamos para nossa turma da sexta série durante as olimpíadas do colégio. Uns dias antes, porém, era eu que tinha procurado os 90, querendo atiçar a  memória com música, e pouco importando se boa ou ruim: baixei um arquivo de torrent com 200 hits da década. Alguns não fizeram muito sentido, porque tendiam ao americanismo profundo dos rappers que jamais emplacavam no Disk MTV ou nas reuniões dançantes promovidas em garagens ou salões de festa, mas outras eu lembrava bem, em imagens videoclípticas, ou aquelas das minha própria vida.
Esses anos da minha infância e adolescência parecem muito mais longe desde que estou em Paris, o me faz ver que Tempo e Espaço às vezes se tocam até virarem a mesma coisa. Acho ruim a sensação. Eu sei, eu sei, alguns dirão que as memórias estão em mim, não nos lugares concretos nos quais elas se passaram, mas, para mim, esses lugares tem justamente a função de reativarem lembranças (como as músicas, você dirá. Touché).
Aliás, o que fazer com as lembranças parisienses, depois que eu for embora? Talvez tenha sido isso que me impediu de vir antes: a ideia de que, uma vez fazendo esse deslocamento, eu fosse perder o sentido de casa. Não é aqui, mas também já não pode mais ser lá. E dá medinho a perspectiva de ter que conviver eternamente com isso.
Para alguns, isso é papo furado, ou, no mínimo, algum tipo de fraqueza. Para mim, é puro e simples determinismo. Ninguém tem a culpa, ou melhor, a responsabilidade, de ter nascido no vilarejo que nasceu. É totalmente aleatório. Mas tirar ele de si parece meio impossível.

(relendo o post, vi que ele parece um tanto contraditório, o que só comprova que não resolvi muito bem esse assunto comigo mesma. Provavelmente nunca vou conseguir resolver)

Postado por Carol Bensimon

Livros com desconto

22 de abril de 2009 1

Dica da Mirella Nascimento, via twitter: durante todo o dia de amanhã, 23 de abril (quinta), o site da editora Cosac Naify está vendendo livros escritos por franceses com 40% de desconto. A lista pode ser conferida aqui.

Postado por Carol Bensimon

Coisas que custam (mas nem tanto)

15 de abril de 2009 11

Vou listar aqui aleatoriamente algumas coisas que custam em Paris, mas nem tanto assim. Algumas farão sentido para quem está de visita, outras só para quem mora ou vem morar. Para esses últimos, aconselho: não façam a conversão das coisas de euro para real, e isso mesmo que você ganhe em real (ou que você não ganhe nada e esteja detonando sua poupança – que provavelmente está em real). Fazer a conversão de tudo é cruel o suficiente para que você não queira sair de casa e decida se alimentar só de ravioli em lata. Não, não faça isso. Por outro lado, tenha cuidado nos gastos. O que eu recomendo, que tende a funcionar para mim, é: a) coma em casa, e vez ou outra uma porcaria na rua, e em vezes mais raras alguma refeição acima de 10 euros (mas não muito acima de 10 euros). b) faça sim a conversão na hora de comprar roupas ou coisas do gênero, mas não se preocupe: você vai pagar, em redes como H&M ,35 euros por uma calça jeans que, no Brasil, estaria com certeza acima de 200 reais.

Pain au chocolat da Bonne Journée

Mesmo sendo uma rede (o senso comum diz que as coisas são piores em rede), o pain au chocolat da Bonne Journée é um dos mais gostosos que já provei na cidade: bem recheado e crocante na medida certa. 1,10 euros o de tamanho normal, e creio que 1,75 o maxi pain au chocolat (comprido como dois). E não é raro que eles estejam quentinhos, recém saídos do forno.
Você encontra as lojas da rede nas maiores estações de metrô de Paris (Châtelet, Bastille, République, Gare de Lyon etc etc). O cheiro já se sente de longe.


UGC illimité

É um cartão de cinema ilimitado das redes UGC e mk2. Isso significa que você paga uma mensalidade, e pode ir quantas vezes quiser no cinema, em qualquer horário, dia e sala dessas duas redes. E são muitas salas (780) e muitos filmes (650). O preço? 19,80 euros mensais para uma pessoa, e 35 para dois (um é o titular, e o outro pode ser quem você estiver a fim de levar ao cinema naquele dia). O valor  individual corresponde a menos de três ingressos, e portanto vale muito muito a pena para quem é um consumidor voraz de cinema.
(infelizmente, só faz sentido para quem mora aqui, porque o contrato é de um ano)

Cité de l`architecture et du patrimoine

É um museu novo (deve ter uns três anos), e que portanto pouca gente de fora conhece. Fica no Palais de Chaillot, na frente da Torre Eiffel. O primeiro andar tem uma porção de réplicas de fachadas de igrejas (estilo romano, gótico, renascentista). É legal, mas quase nada perto do segundo andar, dedicado à arquitetura moderna e contemporânea na França. Maquetes, desenhos, vídeos, o lugar é o delírio para qualquer profissional ou amador, além de ser um exemplo como museu: tecnologia bem empregada, organização, e o conceito de “interatividade” sendo realmente útil.
Argumento final para qualquer estudante de arquitetura: dentro do museu, há uma réplica em tamanho real de um apartamento da Cité Radieuse, um conjunto de prédios populares construídos por Le Corbusier em Marseille. Dá para andar lá dentro. Emocionei-me até não poder mais.
A entrada do museu custa 8 euros, mas, como todo museu nacional, é grátis no primeiro domingo do mês.

Sushi Wasabi

Falha minha: nunca consegui pensar em sushi sem fazer a conversão, e por isso me parecia criminoso eu pagar 15 ou 20 euros por uma refeição à la japonaise, que dirá mais do que isso. O resultado é que fiquei sete meses sem comer sushi (que gosto muito), sofrendo a cada cardápio ilustrado que cruzava meu caminho. Mas isso até domingo passado, quando finalmente entrei pra conferir os preços num lugar que é caminho para a universidade (86, Boulevard Saint Germain). Cada bandeja dessas aí de baixo custou 8,50 (e elas deixaram satisfeitas duas pessoas). Valeu muito a pena. Niguiri bem servido (que aqui eles simplesmente chamam de “sushi”), e o redondinho em três variedades diferentes. O recheado de tofu (acho que era tofu) é sensacional.

Postado por Carol Bensimon

Sexta, 16 graus

12 de abril de 2009 10

Vinho não se vende no Monoprix depois das 21 horas, vá saber por quê. O jeito é ir em mercadinho onde dono sempre fala outra língua, e escolher por um critério misto de rótulo e preço. Não sei escolher por propriedade intrínseca da bebida, e meus amigos tampouco (excetuando os amigos franceses, que têm sempre um enólogo dentro de si). Depois caminho até a beira do Sena. Moro bem, repito para mim mesma trinta vezes ao dia, enquanto me falta dinheiro para um sorvete da Ile Saint-Louis.
Ando com a menina de 1990. Sempre me choca saber que alguém nasceu na década de 90, e 82 de repente parece tanto tempo atrás. Às vezes me sinto madura demais para me divertir, como se divertir-se fosse consequência de uma certa ingenuidade. Mas deixo a ideia repousar num cantinho e vou aproveitando essa noite de primavera em Paris.
Há um louco parado numa ponte da Ile Saint-Louis, um tipo de profeta de religião inventada pelo próprio. Está vestido com um manto azul e entoa uns cantos estranhos de tempos em tempos. Em volta dele, uma parafernália com luzes e ferros e fontes de onde brotam jatos d`água, alimentados por um gerador, que é parte de uma bicicleta futurista e decadente. Tão difícil de explicar, ou ao menos crer, que preciso encontrá-lo de novo. Ele diz: “estou aqui nas sextas à noite”, e aproveita para pedir nosso dinheiro. Mas eu sou calada, e a menina de 1990 só tem cartão de crédito (e era mesmo verdade).
Saímos dali ainda meio espantadas, e procuramos um canto de pedra para beber o vinho. Lembro do Diego, que sempre diz que sentar à beira do rio é um tipo de ponto de contato com uma história de séculos e séculos. Quase posso ver as mulheres lavando roupa, e mesmo quando passam os bateaux-mouches e assemelhados, com faróis de cegar boêmios (é justamente para que nos vejam melhor).
Enquanto tiro as guloseimas da mochila – isso após demonstrarmos toda nossa falta de aptidão com o saca-rolhas – brincamos que seríamos roubadas, e que dirá coisa pior, em coisa de cinco minutos caso procurássemos um canto como esse na noite mal iluminada de uma capital brasileira.
Ainda assim, compartilhamos as saudades de coisas que só o Brasil faz por você.
Termina o vinho e quase termina o saco de ursinhos gelatinosos. Na tontura, já não dou mais atenção aos sabores (não há dúvida de que o transparente é o pior). A noite acaba cedo, porque há sempre um tal de pegar o último metrô. Então é só mais o tempo de uma batata frita média e lá estou eu sozinha na rua, andando até minha casa pelo caminho mais comprido.
Quando abro a porta com a chave na qual está escrito COLETTE (quem é Colette?), vejo Diego, uma brasileira e um alemão discutindo em francês. Retomo o lógica dos pensamentos, e cumprimento esses que vejo pela primeira vez. Sento comportada, ouço, e falo quando me dá vontade. Num recipiente de vidro, há um resto de guacamole e alguns farelos de nachos.

Postado por Carol Bensimon

Cortar cabelo

06 de abril de 2009 15

Toda mulher que muda de país tem pânico de cortar o cabelo no novo lugar. E não é pela fidelidade àquela mesma pessoa que se encarrega do seu cabelo há tantos anos, até porque isso é raro de se ver: troca-se de cabeleireiro como se troca de cabelo como se troca de estilo. O pânico talvez venha do fato de que é possível que o seu novo corte tenha obrigatoriamente características desse país estrangeiro. Eu, por exemplo, com a amostra que tenho de jovens espanholas (que, aliás, tomaram a cidade agora na primavera), juro que teria muito, mas muito medo, de cortar meu cabelo naquele país.
De qualquer forma, o meu cabelo também não é parâmetro para o brasileirismo, então isso é bobagem.
Outra hipótese, e essa parece me convencer mais, é de que o pânico está associado ao fato de termos que explicar, em outra língua, os conceitos um tanto abstratos que rodeiam o mundo dos cabelos. Se é fácil dar a informação de vital importância de que eu jamais uso secador, talvez não seja tão simples falar em volume, camadas, picotado, enfim. A dúvida é se simplesmente faço a tradução necessária, ou se os cabelos em francês tem todo um outro universo de metáforas.
Conheço mulheres que só cortam o cabelo quando vão ao Brasil. Outras optaram por fazer o serviço em si mesmas, com bons resultados, inclusive (não tenho essa coragem).
Hoje ou amanhã sem falta cortarei o meu, num surto mulherzinha que envolve mais empenho no roller, e também abdominais.

Postado por Carol Bensimon

Procura-se uma utopia

04 de abril de 2009 5


Sylvia Beach Whitman diante da Shakespeare and Company, livraria que administra.

A Shakespeare and Company, livraria-símbolo dos beatniks e da “geração perdida” de Ernest Hemingway, está completando 90 anos. Sua mística continua viva ou a loja de Paris se tornou apenas uma armadilha para turistas? Em busca de respostas, bato à porta do velho prédio na margem esquerda do Sena

Por Carol Bensimon

Sylvia Beach Whitman tem algo de intimidador. Desconfio disso antes mesmo de chegar à livraria administrada por ela, a lendária Shakespeare and Company, especializada em livros de língua inglesa e ponto de encontro de escritores célebres do século 20. Cruzo a ponte que me leva à Île de la Cité enquanto retomo mentalmente as perguntas que pretendo fazer. Na verdade, talvez eu esteja atrás de uma única resposta: será que ainda pode haver algo de legítimo na livraria ou o seu destino é ser apenas uma sombra do que já foi, tal como tantos cafés parisienses frequentados por intelectuais de outrora que hoje viraram armadilhas para turistas?

Diante da Notre-Dame, as ciganas repetem seu bordão, na tentativa de obter alguns tostões dos desavisados: “Speak English?”. Ainda assim, nem elas, nem os jovens que distribuem folhetos de passeios fluviais, nem os japoneses com câmeras fotográficas são capazes de arranhar essa atmosfera de mito que reina em Paris, cidade que recentemente escolhi para morar. Como a própria Sylvia logo me dirá, ao sentarmos nas velhas cadeiras de seu escritório em desordem: “Há tanta gente cheia de sonhos que vem a Paris. São elas, na verdade, que tornam a cidade mágica”.

Continue lendo a matéria no site da Bravo!.

(a matéria saiu na revista de abril, e a versão impressa está certamente, além de mais completa, com mais figurinhas)

Postado por Carol Bensimon

Engajamentos 220v

01 de abril de 2009 6

Vários choques culturais que levo aqui, de voltagem variável, vêm pela via do engajamento.
Em outras palavras, a noção, tão diferente da nossa, do que é um direito, e do que não é. Outro dia um francês me disse que locatário inadimplente não pode se expulso de um apartamento durante o inverno. Porque no inverno ninguém perde a casa, é isso. Esse é o estado francês que, aliás, me paga um auxílio-aluguel de 280 euros mensais. Meus vinte e seis anos de Brasil dificultam minha compreensão quando se trata de tanto auxílio isso, auxílio aquilo. Tanta educação gratuita, laica e de qualidade (o trinômio, vejam vocês, é semelhante ao que se ouve aí pelo Brasil, com a diferença do “laica” que, realmente, muda tudo).
Aliás, no exato momento em qe escrevo esse post, a 400m daqui, diante da prefeitura, pessoas caminham incansavelmente num círculo, com cartazes e, por vezes, cantorias. Não importa a hora que se passe, elas estão lá, rodando, talvez alguém fora da formação para alcançar panfletos àqueles que passam nesse território que já viu muita coisa (decapitações e fogueiras, para resumir. É a antiga Place de Grève). São estudantes e professores universitários, e estão, há mais de semana, promovendo a tal “Ronda dos Obstinados”. Combatem a polêmica reforma da educação prevista por aqui. As universidades, aliás, estão em greve faz mais de um mês, com direito vez ou outra a portas bloqueadas pelo batalhão de choque e afins.
Nesse exato momento, também a cerca de 400m daqui, mas em outra direção, uma loja da rede de fast-foods KFC (antes da onda natureba, “Kentucky Fried Chicken”) está tomada pelos próprios funcionários há dez dias. Ainda que ela esteja funcionando (sim, é possível comprar baldes de frango frito), a entrada é controlada pelos grevistas, que também ficam espalhados por toda fachada com tambores e panfletos. Os vidros do KFC estampam faixas e bandeiras do sindicato. O grupo de funcionário desobediente exige que o KFC comece a assinar as suas carteiras de trabalho. Alguns trabalham lá nessas condições há dez anos.
Nesses dez dias de levante surreal contra o mondo capitalista, já passei diante da loja uma série de vezes, e não canso de me impressionar.
Acho que meu cérebro, acostumado com o que me rodeava – a aceitação silenciosa – simplesmente não consegue processar essa outra maneira de lidar com as coisas. É por isso que, parada na calçada oposta ao KFC, esperando para atravessar a rua e lendo pela milésima vez aquelas faixas de protesto, ao invés de formular complexas teses políticas e sociais, tudo que consigo pensar é: mas, espera aí, como assim TOMARAM uma loja?

Postado por Carol Bensimon