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Posts de julho 2009

Michel Onfray

26 de julho de 2009 25


Pra mim, é meio novidade isso de ser jornalista vez em quando (lembro a uns e aviso a outros que minha graduação foi em publicidade). Se não tenho todas as manhas do metiê, certamente compenso com grande dedicação. Em outras palavras: não lanço mão do piloto automático tão comum na área. Pela desculpa da velocidade exigida (que às vezes é pura preguiça), tem gente que mal sabe sobre o que está falando quando precisa conduzir uma entrevista. Eu sei porque sofro cotidianamente com a falta de imaginação das perguntas-direcionadas-a-jovens-escritores. Sério, quando, dia desses, uma pergunta de um jornal da Bahia me deu uma brecha para eu dizer que Guns n` Roses influenciou meu romance mais do que outros escritores eu livros, vibrei muito. 
Tudo isso para dizer que entrevistei Michel Onfray, o polêmico filósofo francês, para a Vida Simples desse mês (já nas bancas) e que, ao ler uma partezinha de sua extensa obra para me preparar para a matéria, acabei realmente fã do cara. Não sei se acontece com frequência. É provável que não. Nesse caso, me considero uma pessoa de sorte.
Abaixo, a íntegra da entrevista, que está também lá no site da Vida Simples.

Sobram razões para Michel Onfray ser um dos filósofos mais polêmicos  e mais lidos  da França: contra a religião e a ideia de Deus, as instituições de ensino e a formatação de alunos para que sirvam ao mercado de trabalho, o casamento, a monogamia, a procriação, Onfray não teme enfrentar mecanismos sociais já há muito tempo estabelecidos, propondo em sua obra “novas possibilidades de existência”. Ele é herdeiro de filósofos gregos como Diógenes e Epicuro, mas também dos iluministas franceses, de Nietzsche e de Freud. Apoiando-se sobretudo nos princípios da razão e do hedonismo, Onfray acredita que devemos buscar constantemente o prazer, a liberdade e a independência, desde que, para isso, não façamos mal ao outro. A busca por essa trajetória individual, na medida de nossos desejos, é a base de toda sua extensa obra: o filósofo francês já publicou mais de 40 livros  traduzidos em mais de 20 línguas  com temas tão variados como religião, política, estética, relacionamentos, história da filosofia, e até mesmo gastronomia e viagens. Dentre seus livros, destacam-se Tratado de Ateologia, Teoria do Corpo Amoroso e Contra-História da Filosofia. Onfray, além disso, fundou em 2002 a Universidade Popular de Caen, uma universidade gratuita, sem inscrições prévias, sem diplomas, aberta a qualquer interessado.

Uma de suas obras mais importantes e polêmicas é o Tratado de Ateologia, na qual o senhor defende a substituição da religião pela filosofia. Mas, para tirar a religião da vida, é preciso necessariamente substituí-la por algo?
Na verdade, é preciso substituir o placebo, a religião, pelo medicamento, a filosofia. Em outras palavras, trocar as fábulas, as histórias infantis, os mitos, o pensamento mágico, os além-mundos, pela sabedoria, pelas Luzes, pela inteligência, pela razão. Se antes ensinava-se como verdade uma Virgem que tem filhos, um Deus que abre o mar para deixar seu povo passar, mortos que ressuscitam, peixes multiplicados ao infinito, água que se transforma em vinho em um passe de mágica, hoje é preciso ensinar a reflexão, a análise, o princípio da não-contradição, a obrigação de ser coerente, o pensamento racional, sensato e reflexivo. Em resumo: substituir Bento XVI por Voltaire.

Mas qualquer um pode esquecer Deus? Mesmo aqueles que talvez não tenham conhecimento o suficiente para ver o mundo de outra maneira?
Se deixarmos uma criança longe de influências, jamais ela inventará essas bobagens, que são um puro produto da educação. É preciso somente substituir um mundo por outro, uma pedagogia por outra, um saber e seus conteúdos por outros saberes e outros conteúdos.

O senhor acredita que todo pensamento filosófico nasce de um eu, da experiência de um sujeito, e que muitos filósofos erraram ao construírem discursos supostamente desconectados de sua vida pessoal. No seu caso, o abandono que o senhor viveu na infância pode estar na origem de sua recusa pelo modelo familiar judaico-cristão?
Difícil de encontrar uma única causa. Há um conjunto de influências que faz com que sejamos o que somos. Também é preciso levar em conta uma mãe nada maternal, um pai invisível, surras durante a infância, um abandono ao orfanato com dez anos de idade  e isso durante quatro anos , mais três anos de internato depois, uma autonomia aos dezessete… Mas eu bem que poderia ter desejado construir uma família, pensando que faria melhor que os meus pais, o que não teria sido muito difícil. Não, eu acredito que o verdadeiro motivo da minha recusa por esse modelo é libertário. Um filho condena os pais a perderem a própria liberdade, pois eles devem tudo à criança: presença, atenção, cuidados, disponibilidade, garantia de um lar estável, etc. Ora, eu gosto demais das crianças para correr o risco de me engajar em uma educação que é, de qualquer maneira, uma empreitada acima das forças humanas!

O número crescente de divórcios, separações dolorosas, violência conjugal e casamentos sucessivos mostra que a possibilidade de realização dentro de uma relação monogâmica  e que supostamente deve durar toda a vida  é cada vez menor? Ou isso tudo indica justamente que continuamos desejando o mesmo tipo de vida que nossos antepassados?
O problema é que não se imagina  ou muito raramente  o casal fora do casamento, da fidelidade, da monogamia, da coabitação, da procriação. O modelo dominante segue uma lógica consumista: ter, possuir, colecionar, gastar, descartar após o uso. Ele não leva à construção de uma história, mas à justaposição de histórias, que têm uma certa data de validade, e certos fatos funcionam como limites imediatos e definitivos: o adultério, por exemplo. É preciso inventar novas possibilidades de existência, inclusive e sobretudo no que diz respeito ao casal, à vida a dois. Construir para si no campo amoroso, e em todos os outros, uma vida sob medida.

Em sua obra, o senhor propõe uma definição de desejo: desejo é excesso, e não falta, incompletude, busca pela outra “metade”. Se desejo é excesso, isso significa que às vezes é preciso sublimar alguns de nossos impulsos? E, uma vez que seu pensamento está livre de qualquer moral religiosa, qual o critério que o senhor propõe para avaliarmos se devemos ou não responder a determinado desejo?
O desejo definido como excesso não obriga a nada no terreno da prática. Por outro lado, se a ética defendida é hedonista, que é meu caso, não há razão para impedir que o desejo se transforme em prazer. A ética que proponho é contratual: devem-se realizar aqueles desejos que não causam mal ao outro. E fugir das pessoas que, delinquentes dos relacionamentos, são incapazes de estabelecer uma relação contratual com seu semelhante porque são psicóticos, neuróticos, perversos ou acometidos por problemas de comportamento  o que toca milhões de pessoas… Minha ética hedonista é democrática porque é destinada a todos, mas aristocrática porque somente um punhado pode aderir a ela e realizá-la.

É comum que se associe o prazer à juventude, como se o prazer tivesse uma data de validade: em certa altura da vida, seria preciso renunciar a ele, em nome de uma existência mais regrada, estável, sem percalços, e que geralmente está relacionada a um emprego fixo, casamento, filhos, etc. Como sua filosofia hedonista vê isso?
Desejar o prazer é o que define o ser humano, do ventre materno ao último suspiro. Não há idade para ser hedonista, ou para não deixar de sê-lo. Os prazeres são diversos e múltiplos. Existem prazeres relacionados à idade, é claro: a enologia não diz respeito às crianças de cinco anos, nem a gastronomia, e a velhice tem suas próprias alegrias. Mas, de qualquer maneira, é preciso responder ao prazer não pela recusa, mas por sua realização, qualquer que seja a idade.

Lendo sua obra, percebo que o senhor gosta da psicanálise, mas não da de Lacan. Por quê?
Gosto de Freud e do freudismo, de pouco da psicanálise institucional, e de praticamente nenhum psicanalista. Lacan, o maior dos histriônicos, é uma catástrofe que muito fez para a má reputação da disciplina. Vou falar sobre isso no meu próximo seminário na Universidade Popular de Caen. Em resumo: a psicanálise é um pensamento mágico que quis apresentar-se como ciência, o que forçou Freud a dizer um certo número de mentiras reconhecidas como verdade. Eu considero o pensamento mágico um pensamento nobre e respeitável, mas é preciso que ele não tenha a audácia de pretender rivalizar, por exemplo, com a teoria da relatividade. Ou com o heliocentrismo. Além do mais, conheci vários psicanalistas que me pareciam menos em condições de tratar alguém que de curar seus próprios delírios. Lacan em primeiro lugar. Para evitar dar ordens a si mesmos, eles davam a outros, com resultados deploráveis, ou nulos. É preciso voltar ao texto freudiano. Lê-lo de maneira crítica.

O senhor criou a Universidade Popular de Caen em 2002, após demitir-se do sistema de ensino francês. O que o incomoda no ensino tradicional, e que o senhor decidiu fazer diferente em sua universidade?
O que me incomodava? A instituição, a polícia acadêmica, administrativa, a burocracia, o adestramento no lugar da educação, a disciplina no lugar da instrução, a formatação intelectual e ideológica de clones destinados a servir ao mercado, o conteúdo pobre, o corpo docente triste, apagado, desmobilizado, o desprezo dos alunos, a “militarização” dos estabelecimentos, a sede de poder dos pequenos chefes, etc. A Universidade Popular de Caen é gratuita, sem obrigação de títulos, sem diplomas, sem visar o lucro, ela é livre, organizada em torno do saber existencial, pessoal…

O senhor defende a ideia de que a filosofia não é apenas uma disciplina acadêmica, mas algo que deve ser posto em prática, que deve estar presente em nosso cotidiano. Nesse sentido, a filosofia deve estar mais na mídia que na sala de aula?
Nem mais, nem menos. Há espaço para todos, e não é do meu feitio fazer fogueiras, pôr fogo em bibliotecas, ou em filósofos. Deixemos um punhado de provocadores  licenciados em filosofia, professores, doutores  fazer jornalismo filosófico e recuperar os benefícios simbólicos e financeiros, surfando na onda filosófica. Deixemos tal ou tal celebridade, escolhida por sua aparência, ou por sua vida social, “fazer filosofia” na televisão, invocando Hegel para falar das amantes do presidente da república. É o bolor de nossa época. Deixemos filósofos aconselharem os poderosos que nos governam, e discursarem na mídia sobre o porquê de a miséria ser mais digna em Ruanda ou na Bósnia do que na porta de casa ou na das usinas. É o resíduo da humanidade. Deixemos. Mas proponhamos também coisas que vão além disso. As pessoas que as merecem, no fim das contas, sabem ver as diferenças.

Postado por Carol Bensimon

A raposa fala

21 de julho de 2009 3

Anti-Cristo, o último filme do dinamarquês Lars Von Trier, foi um dos filmes que vi em Paris graças ao maravilhoso cartão de cinema ilimitado (35 euros mensais para duas pessoas, 19,50 para uma). E foi sobre ele, o Anti-Cristo, meu primeiro vídeo absolutamente home-made para o Notícias MTV. A ideia é que eu colabore com eles com alguma regularidade – cinema, música, tendências, enfim, com tudo de relevante que estiver acontecendo em Paris – mas, como me pegaram às vésperas da minha vinda ao Brasil, tive tempo apenas de gravar esse.
Quem quiser ver, aqui está.
Devo dizer que é uma peça de puro humor (ou, ao menos, funcionou como piada interna no âmbito conjugal e com mais uns cinco ou seis amigos).
Espero que o link funcione (URLs com acentos me deixam desconfiada).

Postado por Carol Bensimon

Aqui

16 de julho de 2009 11

Na minha primeira semana em território porto-alegrense, eu estava tomada por um jet lag fulminante. Além das 5 horas de diferença no fuso horário, outra coisa que contribuiu para esse atordoamento tanto físico quanto psicológico foi o fato de eu ter pego um voo diurno. Isso quer dizer que saí de Paris às 10h (horário local) e cheguei em Porto Alegre às 21h30. Do mesmo dia. Ou seja, à medida em que o avião se deslocava para oeste, o sol o acompanhava. Não fez noite nunca (a vantagem do voo, por outro lado, é a boa sensação de chegar-se ao destino no mesmo dia em que se partiu).
Para matar a curiosidade dos leitores, registro uma ou outra observação de primeiro impacto.

* Tamanho do apartamento. Além do deslumbramento óbvio, da alegria de poder movimentar-se dentro de casa e etc, há um aspecto negativo que me deixou bem desconfortável no começo: muito espaço significa JUNTAR COISAS. E, em meu cubículo parisiense, aprendi a exercer o desapego (esqueça o budismo, vinte e dois metros quadrados são suficientes para ensinarem a você o conceito): por falta de espaço, não guardava nem um mísero folderzinho de uma praia paradisíaca visitada, ou qualquer objeto que a gente sempre acha que pode ser útil em algum momento (mas esse momento nunca chega).

* Mimos sem fim. Telentrega, números de garçons superior ao de clientes em muitos estabelecimentos, caixas e caixas e caixas nos supermercados, e empacotadores, e ascensoristas, e porteiros. Toda essa horda de gente que simplesmente não existe na vida de um europeu. Para o bem e para o mal.

* Casas geladas. Depois de pegar inverno que chegava a 10 graus negativos, não são os 13, 12, mesmo os 9, de Porto Alegre que vão me assustar. Por outro lado, a falta de estrutura das casas, restaurantes, enfim, qualquer lugar fechado, é desconfortável pra burro (no momento, estou trabalhando na cozinha, porque a sala está congelante). Acostumei-me ao hábito de sair para a rua com trocentas camadas de roupa e ter que tirar quase tudo ao voltar para casa. Infelizmente, estou agora com uma camiseta, uma camisa (flanela) e um moletom. E ainda com pés e mãos geladas.

Ah: segunda-feira chegou um amigo francês, que vai passar um mês e meio por aqui (grande parte disso em Porto Alegre. O que diabos ele vai fazer durante todo esse tempo?, você por certo está pensando. Por enquanto, o saldo é mais do que positivo. Amou todos os dias, todos os cantos, tudo que mostrei até agora. Acompanhado dos passeios, vêm as longas explicações sociológicas. Convenhamos: não é fácil entender o Brasil. Agora imagine alguém que nunca tinha saído da Europa. Ok. Os encontros dele com meus amigos brasileiros também têm rendido momentos engraçados. Como sempre, prometo postar. Agora vou voltar pra minha tradução. Até.

Postado por Carol Bensimon

Até logo e oi de novo

02 de julho de 2009 15

Entre um “até logo” a Paris e um “oi de novo” a Porto Alegre, escrevo esse post meio às pressas, só para dar satisfações aos leitores: amanhã embarco para o Brasil, onde devo ficar até meados de setembro (uni as férias acadêmicas com o lançamento do meu romance, que acontecerá no final de agosto). Devo passar, em algum momento da viagem, também por São Paulo e Rio.
Estou ansiosa para ver a família, os amigos, tomar erva-mate do mercado, comer picanha, essas coisas, mas também triste em deixar Paris, ainda que provisoriamente. Não há dúvida: deu-se a cisão. Nunca mais a “casa” será um único lugar.
Bem, mas não pensem que esse blog entrará em férias. Muito pelo contrário. Continuo tendo lugares a indicar, historietas a contar, e devo, é claro, descrever a estranha sensação de estar mais uma vez em Porto Alegre. Arquitetonicamente falando, creio que a feiúra geral deve me assustar: estou mal-acostumada agora à uniformidade, ao planejamento urbano. Mas darei graças a deus também pela sensação de espaço aberto e, sim, pelas ÁRVORES. Estou ansiosa por árvores, e por persianas na janela, que realmente deixam o quarto escuro, e estou ansiosa por não ter mais um bar gay hypado a 30 metros de mim, o que sempre gera uma surpresinha na madrugada.
Além disso, é a hora perfeita para sair de Paris. 30 graus nessa cidade não fazem nenhum sentido.

Postado por Carol Bensimon