Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Posts de outubro 2009

Le cochon à l`oreille

26 de outubro de 2009 8

Ainda trabalhando para virar habituée do café “Le cochon à l`oreille”. Na última vez, fomos reconhecidos pela garçonete. O próximo passo será o que, passarmos de vous para tu? Provavelmente.
Recomendo muito. Paris tem tantos cafés (20.000, foi o que eu disse da última vez?) que é preciso escolher o seu e ignorar o resto. O contrário – querer sentar em toda atmosfera simpática – é tarefa sobre humana.
O café é pequeno, a garçonete simpatissíssima, há sempre interações amáveis entre ela e os clientes e, o mais incrível de tudo, a déco é toda do fim do século 19, da época onde, muito próximo dali, havia o grande mercado da cidade, Les Halles, conhecido como “o ventre de Paris”. Nas paredes, portanto, azulejos pintados com cenas do mercado; o balcão é de zinco MESMO, e está sempre brilhando (com frequência, as pessoas daqui chamam balcão de “zinc”, uma referência ao material do qual ele era feito antigamente). E há também um resto de um antigo jogo em que o objetivo era acertar uma bola dentro de um porco, ou coisa parecida. Adoro brinquedos de séculos atrás. Ah, e o café é bom, e vem com uma amêndoa delícia envolta em chocolate com leve gosto de laranja.
Anotem: 15, rue Montmartre – 75001
Não se enganem: rue montmartre não tem nada a ver com Montmartre, o bairro, lá no norte da cidade. A rue montmartre essa é bem central, pertinho da igreja Saint-Eustache.

Postado por Carol Bensimon

O boi que diz bonjour

23 de outubro de 2009 3

Aqui vai um meio-cumprimento da promessa que fiz na caixa de comentários do post abaixo: um diagrama(?) de como é feito o corte do boi aqui na França (meus amigos vegetarianos a essa hora já desistiram de acessar o blog). Chamo isso de meio-cumprimento porque, ao procurar o tal do desenho, achei inúmeros que se contradizem em muito. De modo quase aleatório então, escolho esse daqui – mas também porque, além do desenho, ele separa as partes em carne de primeira, de segunda, e de terceira.
Ah, suprimi as eventuais explicações que havia ao lado dos diferentes cortes. Para quem lê em francês, pode ir direto na fonte então.
Nota de cunho pessoal: descobri porque a estranha aparência fibrosa de uma carne que às vezes eu compro no supermercado. Algo a ver com músculo. Not nice.
Dica: RUMSTEAK parece vir do mesmo lugar que a picanha. Fica a dica (ainda assim, isso não é garantia de quase nada).

Carnes de primeira:

1. Entrecôte

2. Filet ou faux-filet
3. Rumsteak
4. Culotte
5. Gîte
6. Tranche grasse et aiguillette


Carnes de segunda:

7. Paleron
8. Macreuse
9. Talon
10. Griffe
11. Bavette


Carnes de terceira:

12. Collier
13. Poitrine
14. Crosse
15. Gîte avant
16. Plat de côtes
17. Poitrine
18. Tendron
19. Flanchet
20. Gîte arrière

Postado por Carol Bensimon

Tente entender esse boi

18 de outubro de 2009 25

Você coloca o primeiro pedaço do primeiro bife na boca e pensa: há algo de errado com essa carne. Mas ok, vai comendo com muitas batatas fritas para disfarçar, e quando a oportunidade se apresentar de novo, você tenta mais uma vez, você insiste, muda de corte, prova, “há algo de errado com essa carne”, muda de corte, prova, “há algo de MUITO errado com essa carne”, muda de corte, prova “não entendo porque os franceses se orgulham tanto DESSA carne”, e aí você começa a tentar achar uma explicação, o clima, o PASTO, sei lá, deve haver uma explicação, no meu mundo lógico as coisas tem tal ou tal gosto por alguma razão perfeitamente explicável. O mapa do boi? Sim, você vai ao mapa do boi, ou seja, aquele desenho de boi em pedaços e números e legendas que mostra a origem de cada parte bovina. Não que você já tenha entendido o mapa do boi brasileiro, não, você nunca se importou e, além disso, você nunca quis relacionar “filé mignon”, “picanha”, “patinho” com a parte de um boi, mas ok, você vai ao mapa do boi brasileiro e o coloca lado a lado com o francês e descobre que as linhas e os limites não correspondem. Ao mesmo tempo, bem, ALGUMA COISA eles fazem com o troço que entendemos por filé, o troço que entendemos por picanha, enfim, mas aí você percebe que também não pode ser isso. Que o seu padrão de vida baixou muito desde que você saiu do Brasil e veio para a Europa, de modo que você não pode mais se dar ao luxo dos cortes mais nobres, mas, ainda assim, algo diz que o problema não está aí, porque você comia um à la minuta em QUALQUER boteco brasileiro, algo bem distante de um filé mignon certamente, e ele parecia tão melhor que qualquer carne que você vai comer na França.
O que irrita você particularmente é que, quando você foi para Amsterdam, havia toneladas de restaurantes argentinos com carne argentina, e até mesmo uma churrascaria brasileira com um rodízio caríssimo, ok, mas os franceses, por outro lado, os franceses continuam com o tal do orgulho inexplicável pela “viande française”, comendo o bife quase cru, o que só causa mais desconfiança ainda (“se cozinhar um pouquinho mais essa carne vai, hm, `estragá-la`, vai arruinar tudo, bem, há algo de muito errado com essa carne”, você pensa).
Mas você sente tanta falta de carne que continua insistindo. Você frita um bife em casa e dá errado. Você pede um entrecôte num restaurante (sempre há) e é verdade que ele tem mais gosto de carne do que aquela que você compra no supermercado, mas ainda assim, o entrecôte é aquela coisa meio esponjosa, meio agora-não-dá-mais-para-mastigar-vou-ter-que-engolir. E então? As decepções são tão maiores que o prazer, que você quase desiste, limitando-se a comer carne de gado em raras ocasiões, inventando táticas engenhosas, como almôndegas e picadinhos de várias formas (pedaços pequenos de carne e molho – estrogonof, molho vermelho, algo tendendo para o oriental, não importa, tudo colabora para o disfarce, aumentando assim a satisfação).
E daí, como consolo, você compra um queijo de cabra, uma boa baguette, você experimenta um éclair au chocolat, você pede um crepe de banana com nutella e, ok, a vida não é tão ruim, a imagem da picanha do Barranco fica meio brumosa na sua cabeça, para então de uma hora para a outra voltar com força, quase exigir um modo tele-transporte (a picanha, a polenta frita, sua família, seus amigos, a gritaria), e você ainda não entende o que fazem com o boi francês, em que parte do processo algo sai errado (porque sai, certamente, muito errado), de modo que, quando passa pela rua e vê alguém comendo carne no terrasse de um bistrô, você sente uma ponta de pena, e um descabido orgulho latinoamericano.

Postado por Carol Bensimon

Sobre nada

09 de outubro de 2009 10

Chuva torrencial, tropical, e eu no meio de uma ponte com os rollers nos pés. O tempo de tirá-los e trocar por um tênis, as gotas gigantes já tinham me ensopado toda. Eu tinha saído com objetivo fixo, que era o de ir patinando até Montparnasse, mas aí, numas de evitar os boulevares lotados de gente saindo do trabalho, fui me metendo numas ruelas que nunca nos levam onde a gente pensa que levam (daí a graça), e quando vi a tal da ponte, na frente do Jardin des Tuileries, decidi parar e contemplar o cenário, tentando nisso colocar uns olhos de Patrick Modiano (um escritor não-genial, mas realmente muito bom). A Paris de Modiano talvez me interesse nesse próximo livro que estou ansiosa pra escrever. Mas ainda não é a hora.
Fui andando pela beira do quai, meio sem escapatória, meio esperando terminar aqueles prédios gigantes e escuros para me meter embaixo de uma galeria do Louvre e chegar no metrô. 
No outro dia, estava gripada, dia todo em vinte e dois metros quadrados, mudando da poltrona pro chão e do chão pra cama, do livro pro computador e do computador pro moleskine, e no outro dia (hoje) ainda gripada, acordei com gana de ver a Shakira morena. Sei lá de onde isso saiu. Foi algo tão Capão da Canoa em 1996. Piez descalzos, sueños blancos, coisa e tal. No tempo que um pouco de rock ainda era um pouco necessário até na coisa mais mainstream do universo. Que fosse, assim, uma guitarrinha à toa, e aquele atitude de rebeldia contida. Não precisava barriga, não precisava rebolar. E, sobretudo, não era preciso ser loira.
Daí voltei mais um par de anos, para Laura Pausini. La Soledad eu sabia de cor, e escutava no walkman no caminho para as Missões, nunca viagem da sétima série. Hoje vi o clip e não entendi direito como é que a gente podia gostar de algo que parece o contrário da juventude. Aquela roupa, aquele pôr-do-sol. Se fué.
Volta para outubro de 2009: teve gente passando por aqui, poeta e sujeito bacana da semiótica e diplomata vindo de Copenhaguem comemorar com a gente o Rio 2016 (sim, diferente de quase todos os meus conhecidos e amigos que ficaram destilando veneno no twitter, eu sou a favor e fiquei feliz. O mal da nossa geração é ser tão descrente, e ficar contente com algo já é tomado por ingenuidade. E fecha o parênteses do queria-ter-sido-hippie).
Que mais? Acho que estourei o orçamento no quesito “comer fora”. Em compensação, agora já temos alguns lugares confirmados onde é possível comer bem por nem tanto assim. E virei uma bebedora de café, que é propriamente o que faltava para ser adulta, não? Melhor ainda: já escolhi um café para ser habituée. “Le cochon à l`oreille”. Nunca tem ninguém, a garçonete é uma gracinha, e a déco é incrível, do tempo em que Les Halles era um grande e vivo mercado. Do tempo de Zola.
E, na Shakespeare & Company, comprei um livro que começava assim:
“You never hear about a sportsman losing his sense of smell in a tragic accident, and for good reason; in order for the universe to teach excruciating lessons that we are unable to apply in later life, the sportsman must lose his legs, the philosopher his mind, the painter his eyes, the musician his ears, the chef his tongue”.

Postado por Carol Bensimon

Números

02 de outubro de 2009 8

Os que me seguem desde o início devem lembrar que, num dos primeiros post desse blog, comparei o tamanho e a população de Paris e Porto Alegre, números que mostraram que 1) Porto Alegre tem uma área dez vezes maior que a de Paris, mas 2) Paris tem uma densidade populacional dez vezes maior que a de Porto Alegre (e que, só manter a constância do 10, por pura coincidência, meu apartamento em Paris é aproximadamente dez vezes menor que o do Rincão Amado).
Ontem, estive numa exposição bem massa sobre Paris, da época romana aos dias de hoje, com os novos projetos malucos de reurbanização de algumas áreas. Fora os esclarecedores painéis históricos, os inúmeros mapas evolutivos, e as maquetes que me dão vontade de levar, todas elas, para casa (um tipo de não-entendo-mas-acho-lindo), havia uns dados interessantes sobre a cidade na parede. Comento alguns:
Paris tem 2.153.000 habitantes, e uma área de 105km2 (ou seja, é um quadrado de 10 por 10, isso incluindo o Bois de Boulogne e o Bois de Vincennes, que ocupam áreas enormes, sobretudo o primeiro). Isso nos dá, portanto, um total de 20.000 habitantes por km2, o que torna Paris a cidade com maior densidade populacional da Europa.
Para fechar, os dados que nos humilham barbaramente e nos deixam verdes de inveja. Em Paris, há:
400 parques e jardins
171.502 moradias sociais (número de 2006)
1.200 escolas (públicas, é claro)
300 creches (públicas)
360 centros esportivos (vou parar de repetir a palavra “pública(o)”, acho que deu pra sacar que o Estado aqui fornece quase tudo para o cidadão)
69 bibliotecas municipais
110 fontes
9.300 bancos (os de sentar)
130 museus
372 salas de cinema
20.000 cafés

Postado por Carol Bensimon