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Posts de novembro 2009

Genebra

26 de novembro de 2009 11

Decepção absoluta. Na beira do lago, mas o lago parece um poço de poluição, um Tâmisa, cravado ali no meio de carros e mais carros em grandes avenidas onde os prédios ostentam, no alto, grandes logotipos de bancos. 
Genebra parece ser isso, turismo financeiro e turismo para rico. Querem que você compre, no mínimo, um rolex, e, pelo preço de um hotel em zona nobre de Paris (que é considerada uma cidade cara), você acha só uma pocilga perto da estação ferroviária, com neon h-o-t-e-l (tem o seu charme) e banheiro no corredor.
Já devíamos ter desconfiado. Se a atração turística é um relógio feito de flores numa praça sem graça, bem… ah, há também um JATO D`ÁGUA – estava em manutenção.
A cidade velha é até interessante, com seu monte de subidinhas e fontes inesperadas surgindo pelos cantos, mas o ambiente é opressivo, deprimente. Pelo cantos – como fontes – você de repente tem uns insights, e entende suicídio, entende loucura, entende alcoolismo, entende a Áustria, e toda a literatura de Thomas Bernhard.
Uma foto é capaz de resumir isso que estou dizendo (creeeeepy)

Pontos altos: batata suíça (rösti) que comemos na janta; McRaclette, que pelo menos serviu pelo inusitado; praça onde homens jogam xadrez em formato gigante, o que parece ser algo meio tipicamente suíço; ter decidido sair depois do café, na manhã do dia seguinte, rumo ao terceiro e último destino.

Postado por Carol Bensimon

Annecy

23 de novembro de 2009 10

Volto de uma viagem curta por três cidades (duas muito bacanas, uma decepcionante). Tudo começou em Annecy, nos alpes franceses, cidade de 50.000 habitantes à beira de um lago que, dizem, é o mais cristalino dos alpes. A cidade eu já conhecia, tinha ido na primavera (essa péssima e ao mesmo tempo adorável mania de repetir lugares), e portanto tudo era bastante diferente. Agora, novembro, outono, outras cores  e um entre-temporadas bizarro em que as sorveterias estão todas fechadas, e parte dos restaurantes, e o aluguel de pedalinhos, e o minigolfe, e, claro, as praias. Nada disso, porém, tirou a graça da viagem, bem ao contrário: tendo minha obsessão por lugares abandonados alimentada a toda hora, eu estava mais feliz que pinto no lixo.
Sou cada vez mais fã dessas viagens para cidades pequenas e médias. Nada contra quem cultiva desejos de querer conhecer todas as capitais europeias, mas, a certa altura, parece que as coisas começam a se repetir. Além disso, começo a pegar certa implicância com as “atrações imperdíveis” das grandes cidades: torre disso, catedral daquilo, museu tal – se alguém já programou a viagem para mim, qual é a graça?
Nos lugares pequenos, você segue o curso de um córrego e está feliz. Compra um chocolate e senta num banco de frente para o lago, ou fica olhando três meninos andarem de skate. Desbrava ruazinhas estreitas, espia casas.

Depois posto sobre as duas outras cidades (tchan tchan tchan tchan). Seguem algumas fotos que tirei em Annecy. E, para quem quiser, tem o álbum inteiro.

Postado por Carol Bensimon

Legítimos asiáticos

16 de novembro de 2009 3

Todo mundo sabe que Paris, como qualquer outra cidade ocidental, está cheia de restaurantes asiáticos. Sim, os traiteurs asiatiques abundam aqui, expondo seus pratos sempre iguais atrás de uma vitrine. Você pede, eles esquentam no microondas. Aham, no microondas. O que você precisa ter em mente é que, bem, você está pagando em torno de 5 euros por um prato de comida. Impossível achar um prato de comida (fora dos restaurantes universitários) por esse preço. Ou seja: não é nenhuma delícia, mas cumpre seu papel. Acho válido.
Mas a culinária oriental não está representada só por esses modelos fakes e cujas cozinhas você prefere não conhecer (vai no banheiro de olhos fechados para não ter nenhuma surpresa): há também restaurantes pouco, ou nada adaptados, ao paladar de um ocidental médio.
Sobre um deles, o Higuma, já falei nesse outro post. Em resumo, é um japonês especializado em lámen (sopa com massa dentro e outros ingredientes variáveis), barato e sempre cheio de gente. Apesar de já ter ido algumas vezes lá, e ter comido muito bem em todas elas, ontem foi a primeira vez que resolvi encarar o carro-chefe da casa, os tais lámens. Não lembro do nome do prato, mas a imagem abaixo dirá mais que qualquer palavra estranha. Pedi um menu com 5 gyozas de entrada e mais a sopa, por 10 euros. Os lámens sozinhos custam de 7 a 8 euros (os preços, que já eram baratos, baixaram por conta da redução da TVA [imposto]). O Higuma fica no 32 bis, Rue Saint-Anne.

Para me afastar ainda mais do paladar ocidental, volto duas ou três semanas no tempo para relatar brevemente minha experiência num vietnamita do Quartier Latin. Antes de qualquer coisa, é preciso dizer que vietnamitas também abundam por aqui, mas já entraram na mesma lógica dos chineses e japoneses: comida padronizada e completamente adulterada em razão do “gosto” do ocidental. Bem, tal não é o caso do Pho 76 (59, rue Galande), cuja existência descobri por acaso, ao passar pela rua e ver a quantidade enorme de recomendações de revistas de culinária e guias turísticos colados na vitrine.
A sopa pho é uma especialidade vietnamita e, pelo que li, é vendida em todo o canto no Vietnã. Não raro, os vietnamitas tomam a sopa de café da manhã. Por outro lado, parece que a penetração dela no mundo ocidental não é grandes coisas (certamente pelo gosto um tanto peculiar do prato).
A sopa pho custou 13 euros e veio enorme, em dois recipientes, como você poderá ver abaixo, e o sujeito tem que pegar o caldo do da esquerda e jogar no da direita – caldo quentíssimo que, aliás, faz cozinhar a carne bovina que, inicialmente, está crua. Muito boa, e certamente a coisa mais estranha que comi em toda minha vida. O gosto dos temperos é pra lá de proeminente (não, ela não é apimentada). A sopa é um perfume só. Difícil explicar. Talvez o verbete na wikipedia faça melhor do que eu. Ou as fotos, simplesmente.

Postado por Carol Bensimon

Apagão I e II

16 de novembro de 2009 5

A Folha de S. Paulo me convidou para escrever um conto com o tema “duas horas na escuridão”. Foi publicado ontem, no caderno Cotidiano, o meu e o de outros quatro: Joca Reiners Terron, Ricardo Lísias, Bruno Zeni e Tatiana Salem Levy. Tive um dia e meio e 2.200 caracteres de limite. Como não dá pra encontrar online (talvez só os assinantes), reproduzo o texto aqui embaixo.


11 de março

Meu pai desapareceu no apagão de 1999. Antes, era bom o escuro. Vinha com chuva, e geralmente depois de um estouro, no tempo que o pai ligava para a companhia de energia elétrica e só dava ocupado. Tão ocupado que ele desistia (era fácil desistir quando os telefones eram de disco). Meu pai então me chamava para ir até a janela, e dali dava para ver um bocado de cidade: zona leste, um pedaço de sul, e quase todas as casas dos primos. A gente ficava ali, mergulhados na falta de lógica das manchas pretas e amarelas. Não era raro inclusive estarmos numa situação fronteiriça, nosso prédio como o próprio limite entre o claro e o escuro, dali para frente luz e para trás escuridão.
Depois de mapear a cidade, era hora de pegar a lanterna e,  na parede branca, o pai tentava fazer um coelho com as mãos. Saía meio rinoceronte.

Cresci. E de repente o pai ficou estranho a sua maneira e eu fiquei estranha a minha maneira. O pai: 500ml diários de uísque (nacional) e um interesse além da conta por taxidermia. Eu: sombra preta, blusa preta e algum amor platônico. Luz continuava faltando, interrompendo disco ou programa de tevê, mas agora era cada um no seu quarto, eu me escondendo em mim, meu pai se escondendo nele. Em temporal, a janela batia. Ninguém dava bola. Comecei a esquecer o nome das ruas.

Na noite que o pai sumiu, meu disco do Iron Maiden parou num falsete.  Fiquei um tempo ali no quarto escuro, ouvindo os ruídos que vinham da sala. Pedras de gelo no copo, palavrão, rádio de pilha, e logo mais um berro: “Rá! Eu não votei nesse presidente”. O pai tinha degringolado, fazendo um luto ao contrário: primeiro aceitou para depois se revoltar (a mãe morrera de uma doença improvável). O escuro deixava tudo mais difícil, e tanto, que ele dormia agora com a luz do banheiro acesa.
A porta da frente bateu. Fui para a janela e vi a cidade inteira sem luz, um buraco negro que havia tragado todas as ruas. Fiquei ali por muito tempo. Ouvia as buzinas soando numa avenida distante. Como seria ter mãe durante um blecaute? Enquanto isso, o pai caminhava no breu. Ia conseguir chegar ao fim da cidade antes de a luz voltar? Parecia o único jeito de não desistir do próprio sumiço.
No próximo apagão, era minha vez.

Postado por Carol Bensimon

Sobre acenos, chuvas, e seguradas de porta

03 de novembro de 2009 14

Tem um costume bonito aqui de segurar a porta pra quem vem atrás. Rola direto no cinema, onde há muitas portas e muita gente e daí uma sucessão de mercis. Podem questionar a validade disso, dizer que é um gesto automático e nada sincero, mas na verdade eu não sei se isso – o fato de ser algo que se aprende desde a infância como “educação” ou o fato de ser algo realmente simpático e visando o bem-estar de um terceiro – faz alguma diferença. Na verdade, não sei nem se é possível fazer essa distinção, sem cair em fronteiras meio indefinidas.
Bem, digo isso para chegar em outra boba reflexão de diferenças culturais: ontem eu estava entrando na sala de cinema, e claro que a menina na minha frente (mais ou menos da minha idade) segurou a primeira porta, eu agradeci, e lá foi ela abrir a segunda, a que daria efetivamente na sala de cinema. Acontece que ela abriu a porta da ESQUERDA, e logo o que enxergávamos era a sala de projeção (primeira vez, aliás, que vi, ainda que de relance, uma sala de projeção). Esbocei um risinho, já imaginado que ela olharia pra mim sorrindo e se divertindo com seu próprio erro, e que então trocaríamos esse olhar cúmplice, por um segundo unidas por essa bobagem, como costuma acontecer – você, leitor, certamente sabe do que falo. Mas então qual é não é minha surpresa quando vejo a menina olhar pra mim sem nenhuma expressão reconhecível de zombaria de si mesmo e rapidamente então abrir a porta certa para a sala de cinema, enquanto eu escondia o meu riso-desencadeador-de-cumplicidade-existencial e dava meu mecânico merci.
Conclusão: a capacidade de rir de si mesmo não é algo usual por aqui, o que eu acho uma pena. A capacidade de sorrir, aliás, eu começo a questionar cada vez que entro no banheiro de muitas portas de algum estabelecimento comercial e troco um sorrisinho-de-boca-fechada com alguém que está saindo da cabine na qual logo vou entrar – você, leitor, certamente sabe do que falo. Não sei se posso tomar isso como um traço de brasileirismo, de qualquer maneira. Talvez seja simplesmente algo que aprendi com minha mãe. Aqui, por outro lado, sempre fico meio paranóica, achando que estou correndo o risco de ser mal-interpretada. Mas sorrio (se já está condicionado, qual é a validade? E voltamos à questão inicial)
Sem contar as vezes, inúmeras vezes, em que, sem me dar conta, ao sair de um restaurante, dou uma acenadinha para o garçom, junto com o Au revoir, merci. Acenadinha é algo que não existe por aqui, como, aliás, qualquer tipo de linguagem gestual. Saio do restaurante, me dou conta que dei a acenadinha, me recrimino em voz alta, e o Diego faz alguma piada do tipo que talvez a acenadinha signifique sexo anal ou coisa parecida.
Outra coisa que podemos concluir sem sombra de dúvida: franceses não correm da chuva. Simplesmente deixam que ela caia sobre suas cabeças, o semblante sem nenhuma marca de qualquer incômodo.

Postado por Carol Bensimon