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Posts de dezembro 2009

Verde-bandeira

29 de dezembro de 2009 2

Então fim de ano, e aqueles amigos de dias, amizades meio espontâneas, bagunçam positivamente a rotina e fazem a vida ficar mais parecida com aquilo que você imaginava que era viver em Paris (deixar o frio lá fora e ficar bebendo vinho, ou, num bar de indie rock, ser surpreendida pela canção “Jesus Cristo” interpretada por sei lá quem em algum vinil posto pelo sujeito de casaco de papai noel e calças apertadas de couro). Tudo bem, estar em Paris também é tomar chimarrão e ouvir Nei Lisboa anos oitenta, ir pra biblioteca traduzir uma história em quadrinhos porque na mesa de casa não cabe um notebook e um livro aberto ao mesmo tempo, e encontrar todos aqueles velhinhos e velhinhas solitários, às vezes com as roupas meio rasgadas, fazendo tempo em lugar quentinho, falando pra si mesmos ou pra alguém que der a mínima oportunidade, que fizer a mínima boa ação de ouvi-los por um pouco que seja.
Não acredito em Natal e em metas anuais. Não acredito que um acontecimeto condene um ano inteiro e que tudo só possa mudar quando o número troca, como um regime que sempre começa na segunda-feira e fracassa. Todo dia é dia de mudar, ou de deixar tudo igual.
Tive uns dias de longas análises de coolzice e retrospectivas de tendências, sociologia da moda I com uma dose de Baileys, depois n buscas por uma calça jeans skinny verde-bandeira, maldizendo a cidade e pensando que seria tão fácil em Amsterdam, tão fácil em Londres ou mesmo em São Paulo, até então achar a “rua do rock” e entender pra onde iam todos aqueles jovens góticos que às vezes passam pela margem do canal St-Martin. Achei a calça, e por uma bagatela.
Foi também nos últimos dias que peguei aquela bela edição do Richard Yates comprada na Shakespeare & Company e li Revolutionary Road. Quando penso que isso tudo só aconteceu porque eu vi o filme do Sam Mendes com a Kate Winslet e o Leonardo DiCaprio (“Apenas um sonho” no Brasil), acho engraçado: o filme é bom filme, mas nada além disso. Por outro lado, parecia sinalizar o tempo todo que estava escondendo uma grande obra literária. No fim, eu tinha razão, e Revolutionary Road entrou instantaneamente na minha lista de livros favoritos.
Uma recomendação fervorosa para um amigo paulista, via msn, fez com que ele fosse atrás do livro e provavelmente arruinou o que poderia ser uma tranquila mini férias de final de ano com questões sem fim sobre adequar-se ou não aos modelos sociais.
E tudo terminou num planejamento antecipado de uma viagem à América, costa à costa. Clichê de liberdade? Provavelmente.
Louca para escrever, mas incapaz de escrever, vou acumulando livros das bibliotecas municipais à esquerda da poltrona violeta, e lendo, e descartando. Mais uma cuia, mais um mail respondido, mais um disco ouvido até o final.
Hoje talvez seja dia de negrinho/brigadeiro de panela.

Postado por Carol Bensimon

Ponto de cozimento

28 de dezembro de 2009 2

Esse banner da rede de casas de carnes Hippopotamus é o suficiente para entender toda a relação dos franceses com o ponto de cozimento da carne:

Postado por Carol Bensimon

5 filmes

15 de dezembro de 2009 5

É quase certo que, em termos de cinema, Paris é o melhor lugar para se estar, e não digo isso por nenhuma adoração especial pelo cinema francês ou romantismo bizarro; digo simplesmente porque há muitas e muitas salas e uma opção inacreditável de filmes de todo o mundo, e com a vantagem de que todos são legendados (pelo que me dizem, em muitos países da Europa ou mesmo no interior da França, predominam as cópias dubladas). Como tenho aquele cartão ilimitado sobre o qual já falei aqui, vou ao cinema sempre que possível, arriscando gregos, islandeses com ares de dogma 95 e animações australianas, bastando que o trailer me atraia. Poucas foram as vezes que me dei realmente mal.
Portanto, quero comentar alguns filmes aqui, e vou me abster de falar sobre o “último do fulano” – Jim Jarmusch, Jean-Pierre Jeunet, Ang Lee, Michael Moore, Woody Allen, Michel Haneke, e ainda outros. Esses provavelmente logo estarão chegando aí no Brasil, e outras pessoas tecerão comentários mais interessantes do que os que eu poderia tecer.
Os filmes que escolhi então – cinco – são filmes que talvez apareçam direto nas lojas e nas locadoras (certamente nos torrents da vida), e que você talvez não ouvisse falar se não estivesse lendo esse post (ou eu posso estar sendo muito pessimista).

L`enfer

L`enfer é um documentário sobre o filme inacabado de Henri-Georges Clouzot, cuja história girava em torno de um homem louco de ciúme que acha que a sua mulher está o traindo o tempo todo. Era um filme visualmente ambicioso, que queria distorcer a realidade para representar a mente perturbada do marido, e portanto Clouzot gravava cenas e testes sem parar – maquiagem, mudanças de luz, figurinos, optical art, distorções sonoras. Em resumo: a equipe inteira enlouquecia com o perfeccionismo excessivo do diretor, Serge Reggiani, que fazia o marido ciumento, deixou o set, Romy Schneider já estava possessa, e o próprio Clouzot não aguentou o tranco, teve um infarto, e foi afastado das filmagens.
Se o documentário peca nas reconstituições de partes do roteiro, as imagens de arquivo são espetaculares, e é incrível como o filme sobre o filme fala mais sobre obsessão e loucura (do processo) do que provavelmente falaria o filme acabado de Clouzot. Ah e, além do mais, como comentou um amigo: “o filme é infinitamente mais sensual que muita coisa que se esfrega de sexy no cinema hoje”.
(o primeiro vídeo é do trailer e o segundo, de uma série de ensaios com Romy Schneider)

My Winnipeg

O cineasta Guy Maddin é uma espécie de David Lynch das antigas (a estéticas de alguns filmes lembra Eraserhead), com uma influência forte de filmes mudos e todo climinha retrô que às vezes é demais para mim. Mas My Winnipeg, espécie de documentário sobre a cidade de Guy Maddin com a qual ele mantém uma relação de amor e ódio, é incrivelmente bem dosado, e talvez seja meu filme favorito do ano. Uma das coisas mais criativas que eu já vi.

Mary & Max

Bonita animação sobre a solidão de um velho americano e uma menininha australiana que se correspondem por anos e anos, fadados a jamais se encontrarem. Trechos impagáveis com um humor bastante particular.

El niño pez

O filme é da diretora argentina Lucía Puenzo, que já havia abordado questões sexuais e de gênero no seu outro longa, XXY. Em El niño pez, baseado num romance que ela mesmo escreveu, temos a relação amorosa entre uma menina argentina de classe média e a empregada da família, do Paraguai. O final não me desceu muito, mas, ainda assim, o filme ficou um bom tempo ressoando em mim. Lucía Puenzo tem muito a manha dos silêncios e dos diálogos certeiros. 

Amerrika (ou “Amreeka”)

É a história de uma mulher palestina que emigra com o filho adolescente para os Estados Unidos. A personagem é ótima e cativante, e minha origem-África-do-Norte de família judia expatriada fez com que eu me sentisse um pouco parte da história. Chorei litros. Ah, aviso que o trailer (peguei o americano, pensando em vocês, leitores) está puxando um pouco pro melodrama banal, mas não se deixe enganar: o filme é bom, e não cai nos estereótipos que poderia facilmente cair.

Postado por Carol Bensimon

Inverno, o retorno

15 de dezembro de 2009 15

Provavelmente eu não lembrava que o inverno era tão ruim. Entre um inverno e outro, talvez muito se esqueçam mesmo da sensação -6 graus,e isso evita uma debandada à Martinica ou à Guiana Francesa. Eu não lembrava que era tão ruim e que a vontade de estocar alimentos e não ter mais nenhuma obrigação fora de casa era tão grande. Provavelmente eu mal me lembro de que vai ficar pior do que isso.
Agora pelo menos não me queixo mais do quesito muita-informação, uma dessas vantagens e ao mesmo tempo desvantagens de se morar em capital europeia, ouvir as línguas e tentar adivinhá-las, observar as roupas e tentar, sempre tentar, entender a moda, porque o rosto vai indo virado pro chão, que é pra manter o pescoço no quentinho da manta e, se calhar, uma ponta de nariz. Quanto às nuances da moda, não há muito mais o que ver de qualquer maneira, todos obrigados a enfiar seus casacos pretos, fechados até o último milímetro possível.
É a época na qual nós, os exilados, ouviremos de quem está no Brasil: “vocês reclamam demais. É bom um friozinho”. Se o brasileiro em questão não for do Rio Grande do Sul, e o exilado um gaúcho, soma-se então esse outro comentário: “Mas vocês de sul já estão acostumados”. Hm. Talvez em São José dos Ausentes, onde jamais pus os pés.
O que é deprimente de muitas maneiras é que não parece muito humano gostar desse frio, e de fato não é, de modo que a esmagadora maioria dos franceses fica “esperando o inverno passar”. Tenho vontade de chorar ao imaginar essa vida de “esperar algo passar”. Corta para a fala de uma canadense, amiga de uma amiga, reclamando de um verão chuvoso em Vancouver: “Esperamos 11 meses para o verão chegar e, quando chega, só chove”. Note que o verão dura UM MÊS nessas terras geladas da América do Norte (isso me lembra a frase-piada, já não sei mais a origem: “Espero que o próximo verão caia num fim de semana”).
É, meus amigos. Quando está marcando -1 grau lá fora, a única coisa que me consola é saber que em Winnipeg, Canadá, está fazendo -26, e que eu não tenho nada a ver com isso.

Postado por Carol Bensimon