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Camembert?

04 de janeiro de 2010 10

Nada é mais previsível que o camembert. Ou melhor: nada é mais previsível não que o camembert em si, mas que a fama sem fronteiras do camembert, e que portanto leva qualquer turista ou estudante recém-chegado a escolhê-lo entre todos aqueles queijos expostos no supermercado, na fromagerie, ou na feirinha do bairro.
Quando alguém me aparece com a caixinha redonda, devo confessar, eu tremo, já imaginando que a pessoa escolheu o camembert mais por já ter ouvido inúmeras vezes à palavra do que por qualquer preferência por ESSE queijo em especial. Particularmente, acho o camembert superestimado, e definitivamente o gosto não compensa o modo como seu odor se propaga por toda a geladeira em questão de segundos, e daí para toda a casa (que, sempre é bom lembrar, é composta de uma só peça). Em resumo: os queijos moles cascudos não estão entre os meus favoritos, o que não quer dizer, é claro, que até esses coloquem no chinelo qualquer queijo lanche (pra mim, o maior dos enigmas dos queijos, cada vez um gosto diferente) ou minas (esse é um verdadeiro marco da falta de gosto).
De qualquer maneira, eu entendo perfeitamente o sentimento do turista ou do estudante recém-chegado, e compartilho desse medo e sensação de impotência que nos toma e nos paralisa diante do balcão de uma fromagerie (loja especializada em queijos); nossa não-familiaridade com os queijos parece subitamente estar estampada na cara, como uma enorme vergonha, um enorme rótulo de ignorância e selvageria.
Porque já tive repetidas experiências do tipo, consegui, algumas vezes, vencer a barreira, e conheci bons queijos. Vou recomendar três aqui, que dá pra achar quase em qualquer lugar, até mesmo no supermercado. Bem, não preciso dizer que no supermercado eles provavelmente serão mais baratos e de menos qualidade; o ideal para a experiência PLENA é comprá-los numa fromagerie ou num mercado de rua.
O primeiro é o crottin de chèvre (chèvre = cabra), redondinhos, pequeninhos, meio duros e esfarelentos. Queijos de cabra são sem dúvidas os melhores (o que me faz perguntar: que diabos fazem com leite de cabra no Brasil? Por que estão perdendo todas essas maravilhosas possibilidades?). A segunda indicação também vem da cabra: tomme de chèvre, mais consistente, geralmente comprado em pedaços retangulares (não me peçam para explicar gostos ou qualquer coisa assim, sou incapaz). Por último, o Comté, que quase me levou aos prantos um dia, quando comprei um pedaço de um 12 ANOS. Sim, esse é como vinho, tem idade, e, como o vinho, quanto mais velho, mais caro. 
E daí compre a sua baguette e era isso, vá comendo aos pedacinhos. E, por favor, não misture esses queijos num ultra sanduíche de mil e um sabores. Isso você deixa para o queijo lanche.

Crédito: www.flickr.com/photos/mikeandanna

Postado por Carol Bensimon

Verde-bandeira

29 de dezembro de 2009 2

Então fim de ano, e aqueles amigos de dias, amizades meio espontâneas, bagunçam positivamente a rotina e fazem a vida ficar mais parecida com aquilo que você imaginava que era viver em Paris (deixar o frio lá fora e ficar bebendo vinho, ou, num bar de indie rock, ser surpreendida pela canção “Jesus Cristo” interpretada por sei lá quem em algum vinil posto pelo sujeito de casaco de papai noel e calças apertadas de couro). Tudo bem, estar em Paris também é tomar chimarrão e ouvir Nei Lisboa anos oitenta, ir pra biblioteca traduzir uma história em quadrinhos porque na mesa de casa não cabe um notebook e um livro aberto ao mesmo tempo, e encontrar todos aqueles velhinhos e velhinhas solitários, às vezes com as roupas meio rasgadas, fazendo tempo em lugar quentinho, falando pra si mesmos ou pra alguém que der a mínima oportunidade, que fizer a mínima boa ação de ouvi-los por um pouco que seja.
Não acredito em Natal e em metas anuais. Não acredito que um acontecimeto condene um ano inteiro e que tudo só possa mudar quando o número troca, como um regime que sempre começa na segunda-feira e fracassa. Todo dia é dia de mudar, ou de deixar tudo igual.
Tive uns dias de longas análises de coolzice e retrospectivas de tendências, sociologia da moda I com uma dose de Baileys, depois n buscas por uma calça jeans skinny verde-bandeira, maldizendo a cidade e pensando que seria tão fácil em Amsterdam, tão fácil em Londres ou mesmo em São Paulo, até então achar a “rua do rock” e entender pra onde iam todos aqueles jovens góticos que às vezes passam pela margem do canal St-Martin. Achei a calça, e por uma bagatela.
Foi também nos últimos dias que peguei aquela bela edição do Richard Yates comprada na Shakespeare & Company e li Revolutionary Road. Quando penso que isso tudo só aconteceu porque eu vi o filme do Sam Mendes com a Kate Winslet e o Leonardo DiCaprio (“Apenas um sonho” no Brasil), acho engraçado: o filme é bom filme, mas nada além disso. Por outro lado, parecia sinalizar o tempo todo que estava escondendo uma grande obra literária. No fim, eu tinha razão, e Revolutionary Road entrou instantaneamente na minha lista de livros favoritos.
Uma recomendação fervorosa para um amigo paulista, via msn, fez com que ele fosse atrás do livro e provavelmente arruinou o que poderia ser uma tranquila mini férias de final de ano com questões sem fim sobre adequar-se ou não aos modelos sociais.
E tudo terminou num planejamento antecipado de uma viagem à América, costa à costa. Clichê de liberdade? Provavelmente.
Louca para escrever, mas incapaz de escrever, vou acumulando livros das bibliotecas municipais à esquerda da poltrona violeta, e lendo, e descartando. Mais uma cuia, mais um mail respondido, mais um disco ouvido até o final.
Hoje talvez seja dia de negrinho/brigadeiro de panela.

Postado por Carol Bensimon

Ponto de cozimento

28 de dezembro de 2009 2

Esse banner da rede de casas de carnes Hippopotamus é o suficiente para entender toda a relação dos franceses com o ponto de cozimento da carne:

Postado por Carol Bensimon

5 filmes

15 de dezembro de 2009 5

É quase certo que, em termos de cinema, Paris é o melhor lugar para se estar, e não digo isso por nenhuma adoração especial pelo cinema francês ou romantismo bizarro; digo simplesmente porque há muitas e muitas salas e uma opção inacreditável de filmes de todo o mundo, e com a vantagem de que todos são legendados (pelo que me dizem, em muitos países da Europa ou mesmo no interior da França, predominam as cópias dubladas). Como tenho aquele cartão ilimitado sobre o qual já falei aqui, vou ao cinema sempre que possível, arriscando gregos, islandeses com ares de dogma 95 e animações australianas, bastando que o trailer me atraia. Poucas foram as vezes que me dei realmente mal.
Portanto, quero comentar alguns filmes aqui, e vou me abster de falar sobre o “último do fulano” – Jim Jarmusch, Jean-Pierre Jeunet, Ang Lee, Michael Moore, Woody Allen, Michel Haneke, e ainda outros. Esses provavelmente logo estarão chegando aí no Brasil, e outras pessoas tecerão comentários mais interessantes do que os que eu poderia tecer.
Os filmes que escolhi então – cinco – são filmes que talvez apareçam direto nas lojas e nas locadoras (certamente nos torrents da vida), e que você talvez não ouvisse falar se não estivesse lendo esse post (ou eu posso estar sendo muito pessimista).

L`enfer

L`enfer é um documentário sobre o filme inacabado de Henri-Georges Clouzot, cuja história girava em torno de um homem louco de ciúme que acha que a sua mulher está o traindo o tempo todo. Era um filme visualmente ambicioso, que queria distorcer a realidade para representar a mente perturbada do marido, e portanto Clouzot gravava cenas e testes sem parar – maquiagem, mudanças de luz, figurinos, optical art, distorções sonoras. Em resumo: a equipe inteira enlouquecia com o perfeccionismo excessivo do diretor, Serge Reggiani, que fazia o marido ciumento, deixou o set, Romy Schneider já estava possessa, e o próprio Clouzot não aguentou o tranco, teve um infarto, e foi afastado das filmagens.
Se o documentário peca nas reconstituições de partes do roteiro, as imagens de arquivo são espetaculares, e é incrível como o filme sobre o filme fala mais sobre obsessão e loucura (do processo) do que provavelmente falaria o filme acabado de Clouzot. Ah e, além do mais, como comentou um amigo: “o filme é infinitamente mais sensual que muita coisa que se esfrega de sexy no cinema hoje”.
(o primeiro vídeo é do trailer e o segundo, de uma série de ensaios com Romy Schneider)

My Winnipeg

O cineasta Guy Maddin é uma espécie de David Lynch das antigas (a estéticas de alguns filmes lembra Eraserhead), com uma influência forte de filmes mudos e todo climinha retrô que às vezes é demais para mim. Mas My Winnipeg, espécie de documentário sobre a cidade de Guy Maddin com a qual ele mantém uma relação de amor e ódio, é incrivelmente bem dosado, e talvez seja meu filme favorito do ano. Uma das coisas mais criativas que eu já vi.

Mary & Max

Bonita animação sobre a solidão de um velho americano e uma menininha australiana que se correspondem por anos e anos, fadados a jamais se encontrarem. Trechos impagáveis com um humor bastante particular.

El niño pez

O filme é da diretora argentina Lucía Puenzo, que já havia abordado questões sexuais e de gênero no seu outro longa, XXY. Em El niño pez, baseado num romance que ela mesmo escreveu, temos a relação amorosa entre uma menina argentina de classe média e a empregada da família, do Paraguai. O final não me desceu muito, mas, ainda assim, o filme ficou um bom tempo ressoando em mim. Lucía Puenzo tem muito a manha dos silêncios e dos diálogos certeiros. 

Amerrika (ou “Amreeka”)

É a história de uma mulher palestina que emigra com o filho adolescente para os Estados Unidos. A personagem é ótima e cativante, e minha origem-África-do-Norte de família judia expatriada fez com que eu me sentisse um pouco parte da história. Chorei litros. Ah, aviso que o trailer (peguei o americano, pensando em vocês, leitores) está puxando um pouco pro melodrama banal, mas não se deixe enganar: o filme é bom, e não cai nos estereótipos que poderia facilmente cair.

Postado por Carol Bensimon

Inverno, o retorno

15 de dezembro de 2009 15

Provavelmente eu não lembrava que o inverno era tão ruim. Entre um inverno e outro, talvez muito se esqueçam mesmo da sensação -6 graus,e isso evita uma debandada à Martinica ou à Guiana Francesa. Eu não lembrava que era tão ruim e que a vontade de estocar alimentos e não ter mais nenhuma obrigação fora de casa era tão grande. Provavelmente eu mal me lembro de que vai ficar pior do que isso.
Agora pelo menos não me queixo mais do quesito muita-informação, uma dessas vantagens e ao mesmo tempo desvantagens de se morar em capital europeia, ouvir as línguas e tentar adivinhá-las, observar as roupas e tentar, sempre tentar, entender a moda, porque o rosto vai indo virado pro chão, que é pra manter o pescoço no quentinho da manta e, se calhar, uma ponta de nariz. Quanto às nuances da moda, não há muito mais o que ver de qualquer maneira, todos obrigados a enfiar seus casacos pretos, fechados até o último milímetro possível.
É a época na qual nós, os exilados, ouviremos de quem está no Brasil: “vocês reclamam demais. É bom um friozinho”. Se o brasileiro em questão não for do Rio Grande do Sul, e o exilado um gaúcho, soma-se então esse outro comentário: “Mas vocês de sul já estão acostumados”. Hm. Talvez em São José dos Ausentes, onde jamais pus os pés.
O que é deprimente de muitas maneiras é que não parece muito humano gostar desse frio, e de fato não é, de modo que a esmagadora maioria dos franceses fica “esperando o inverno passar”. Tenho vontade de chorar ao imaginar essa vida de “esperar algo passar”. Corta para a fala de uma canadense, amiga de uma amiga, reclamando de um verão chuvoso em Vancouver: “Esperamos 11 meses para o verão chegar e, quando chega, só chove”. Note que o verão dura UM MÊS nessas terras geladas da América do Norte (isso me lembra a frase-piada, já não sei mais a origem: “Espero que o próximo verão caia num fim de semana”).
É, meus amigos. Quando está marcando -1 grau lá fora, a única coisa que me consola é saber que em Winnipeg, Canadá, está fazendo -26, e que eu não tenho nada a ver com isso.

Postado por Carol Bensimon

Genebra

26 de novembro de 2009 11

Decepção absoluta. Na beira do lago, mas o lago parece um poço de poluição, um Tâmisa, cravado ali no meio de carros e mais carros em grandes avenidas onde os prédios ostentam, no alto, grandes logotipos de bancos. 
Genebra parece ser isso, turismo financeiro e turismo para rico. Querem que você compre, no mínimo, um rolex, e, pelo preço de um hotel em zona nobre de Paris (que é considerada uma cidade cara), você acha só uma pocilga perto da estação ferroviária, com neon h-o-t-e-l (tem o seu charme) e banheiro no corredor.
Já devíamos ter desconfiado. Se a atração turística é um relógio feito de flores numa praça sem graça, bem… ah, há também um JATO D`ÁGUA – estava em manutenção.
A cidade velha é até interessante, com seu monte de subidinhas e fontes inesperadas surgindo pelos cantos, mas o ambiente é opressivo, deprimente. Pelo cantos – como fontes – você de repente tem uns insights, e entende suicídio, entende loucura, entende alcoolismo, entende a Áustria, e toda a literatura de Thomas Bernhard.
Uma foto é capaz de resumir isso que estou dizendo (creeeeepy)

Pontos altos: batata suíça (rösti) que comemos na janta; McRaclette, que pelo menos serviu pelo inusitado; praça onde homens jogam xadrez em formato gigante, o que parece ser algo meio tipicamente suíço; ter decidido sair depois do café, na manhã do dia seguinte, rumo ao terceiro e último destino.

Postado por Carol Bensimon

Annecy

23 de novembro de 2009 10

Volto de uma viagem curta por três cidades (duas muito bacanas, uma decepcionante). Tudo começou em Annecy, nos alpes franceses, cidade de 50.000 habitantes à beira de um lago que, dizem, é o mais cristalino dos alpes. A cidade eu já conhecia, tinha ido na primavera (essa péssima e ao mesmo tempo adorável mania de repetir lugares), e portanto tudo era bastante diferente. Agora, novembro, outono, outras cores  e um entre-temporadas bizarro em que as sorveterias estão todas fechadas, e parte dos restaurantes, e o aluguel de pedalinhos, e o minigolfe, e, claro, as praias. Nada disso, porém, tirou a graça da viagem, bem ao contrário: tendo minha obsessão por lugares abandonados alimentada a toda hora, eu estava mais feliz que pinto no lixo.
Sou cada vez mais fã dessas viagens para cidades pequenas e médias. Nada contra quem cultiva desejos de querer conhecer todas as capitais europeias, mas, a certa altura, parece que as coisas começam a se repetir. Além disso, começo a pegar certa implicância com as “atrações imperdíveis” das grandes cidades: torre disso, catedral daquilo, museu tal – se alguém já programou a viagem para mim, qual é a graça?
Nos lugares pequenos, você segue o curso de um córrego e está feliz. Compra um chocolate e senta num banco de frente para o lago, ou fica olhando três meninos andarem de skate. Desbrava ruazinhas estreitas, espia casas.

Depois posto sobre as duas outras cidades (tchan tchan tchan tchan). Seguem algumas fotos que tirei em Annecy. E, para quem quiser, tem o álbum inteiro.

Postado por Carol Bensimon

Legítimos asiáticos

16 de novembro de 2009 3

Todo mundo sabe que Paris, como qualquer outra cidade ocidental, está cheia de restaurantes asiáticos. Sim, os traiteurs asiatiques abundam aqui, expondo seus pratos sempre iguais atrás de uma vitrine. Você pede, eles esquentam no microondas. Aham, no microondas. O que você precisa ter em mente é que, bem, você está pagando em torno de 5 euros por um prato de comida. Impossível achar um prato de comida (fora dos restaurantes universitários) por esse preço. Ou seja: não é nenhuma delícia, mas cumpre seu papel. Acho válido.
Mas a culinária oriental não está representada só por esses modelos fakes e cujas cozinhas você prefere não conhecer (vai no banheiro de olhos fechados para não ter nenhuma surpresa): há também restaurantes pouco, ou nada adaptados, ao paladar de um ocidental médio.
Sobre um deles, o Higuma, já falei nesse outro post. Em resumo, é um japonês especializado em lámen (sopa com massa dentro e outros ingredientes variáveis), barato e sempre cheio de gente. Apesar de já ter ido algumas vezes lá, e ter comido muito bem em todas elas, ontem foi a primeira vez que resolvi encarar o carro-chefe da casa, os tais lámens. Não lembro do nome do prato, mas a imagem abaixo dirá mais que qualquer palavra estranha. Pedi um menu com 5 gyozas de entrada e mais a sopa, por 10 euros. Os lámens sozinhos custam de 7 a 8 euros (os preços, que já eram baratos, baixaram por conta da redução da TVA [imposto]). O Higuma fica no 32 bis, Rue Saint-Anne.

Para me afastar ainda mais do paladar ocidental, volto duas ou três semanas no tempo para relatar brevemente minha experiência num vietnamita do Quartier Latin. Antes de qualquer coisa, é preciso dizer que vietnamitas também abundam por aqui, mas já entraram na mesma lógica dos chineses e japoneses: comida padronizada e completamente adulterada em razão do “gosto” do ocidental. Bem, tal não é o caso do Pho 76 (59, rue Galande), cuja existência descobri por acaso, ao passar pela rua e ver a quantidade enorme de recomendações de revistas de culinária e guias turísticos colados na vitrine.
A sopa pho é uma especialidade vietnamita e, pelo que li, é vendida em todo o canto no Vietnã. Não raro, os vietnamitas tomam a sopa de café da manhã. Por outro lado, parece que a penetração dela no mundo ocidental não é grandes coisas (certamente pelo gosto um tanto peculiar do prato).
A sopa pho custou 13 euros e veio enorme, em dois recipientes, como você poderá ver abaixo, e o sujeito tem que pegar o caldo do da esquerda e jogar no da direita – caldo quentíssimo que, aliás, faz cozinhar a carne bovina que, inicialmente, está crua. Muito boa, e certamente a coisa mais estranha que comi em toda minha vida. O gosto dos temperos é pra lá de proeminente (não, ela não é apimentada). A sopa é um perfume só. Difícil explicar. Talvez o verbete na wikipedia faça melhor do que eu. Ou as fotos, simplesmente.

Postado por Carol Bensimon

Apagão I e II

16 de novembro de 2009 5

A Folha de S. Paulo me convidou para escrever um conto com o tema “duas horas na escuridão”. Foi publicado ontem, no caderno Cotidiano, o meu e o de outros quatro: Joca Reiners Terron, Ricardo Lísias, Bruno Zeni e Tatiana Salem Levy. Tive um dia e meio e 2.200 caracteres de limite. Como não dá pra encontrar online (talvez só os assinantes), reproduzo o texto aqui embaixo.


11 de março

Meu pai desapareceu no apagão de 1999. Antes, era bom o escuro. Vinha com chuva, e geralmente depois de um estouro, no tempo que o pai ligava para a companhia de energia elétrica e só dava ocupado. Tão ocupado que ele desistia (era fácil desistir quando os telefones eram de disco). Meu pai então me chamava para ir até a janela, e dali dava para ver um bocado de cidade: zona leste, um pedaço de sul, e quase todas as casas dos primos. A gente ficava ali, mergulhados na falta de lógica das manchas pretas e amarelas. Não era raro inclusive estarmos numa situação fronteiriça, nosso prédio como o próprio limite entre o claro e o escuro, dali para frente luz e para trás escuridão.
Depois de mapear a cidade, era hora de pegar a lanterna e,  na parede branca, o pai tentava fazer um coelho com as mãos. Saía meio rinoceronte.

Cresci. E de repente o pai ficou estranho a sua maneira e eu fiquei estranha a minha maneira. O pai: 500ml diários de uísque (nacional) e um interesse além da conta por taxidermia. Eu: sombra preta, blusa preta e algum amor platônico. Luz continuava faltando, interrompendo disco ou programa de tevê, mas agora era cada um no seu quarto, eu me escondendo em mim, meu pai se escondendo nele. Em temporal, a janela batia. Ninguém dava bola. Comecei a esquecer o nome das ruas.

Na noite que o pai sumiu, meu disco do Iron Maiden parou num falsete.  Fiquei um tempo ali no quarto escuro, ouvindo os ruídos que vinham da sala. Pedras de gelo no copo, palavrão, rádio de pilha, e logo mais um berro: “Rá! Eu não votei nesse presidente”. O pai tinha degringolado, fazendo um luto ao contrário: primeiro aceitou para depois se revoltar (a mãe morrera de uma doença improvável). O escuro deixava tudo mais difícil, e tanto, que ele dormia agora com a luz do banheiro acesa.
A porta da frente bateu. Fui para a janela e vi a cidade inteira sem luz, um buraco negro que havia tragado todas as ruas. Fiquei ali por muito tempo. Ouvia as buzinas soando numa avenida distante. Como seria ter mãe durante um blecaute? Enquanto isso, o pai caminhava no breu. Ia conseguir chegar ao fim da cidade antes de a luz voltar? Parecia o único jeito de não desistir do próprio sumiço.
No próximo apagão, era minha vez.

Postado por Carol Bensimon

Sobre acenos, chuvas, e seguradas de porta

03 de novembro de 2009 14

Tem um costume bonito aqui de segurar a porta pra quem vem atrás. Rola direto no cinema, onde há muitas portas e muita gente e daí uma sucessão de mercis. Podem questionar a validade disso, dizer que é um gesto automático e nada sincero, mas na verdade eu não sei se isso – o fato de ser algo que se aprende desde a infância como “educação” ou o fato de ser algo realmente simpático e visando o bem-estar de um terceiro – faz alguma diferença. Na verdade, não sei nem se é possível fazer essa distinção, sem cair em fronteiras meio indefinidas.
Bem, digo isso para chegar em outra boba reflexão de diferenças culturais: ontem eu estava entrando na sala de cinema, e claro que a menina na minha frente (mais ou menos da minha idade) segurou a primeira porta, eu agradeci, e lá foi ela abrir a segunda, a que daria efetivamente na sala de cinema. Acontece que ela abriu a porta da ESQUERDA, e logo o que enxergávamos era a sala de projeção (primeira vez, aliás, que vi, ainda que de relance, uma sala de projeção). Esbocei um risinho, já imaginado que ela olharia pra mim sorrindo e se divertindo com seu próprio erro, e que então trocaríamos esse olhar cúmplice, por um segundo unidas por essa bobagem, como costuma acontecer – você, leitor, certamente sabe do que falo. Mas então qual é não é minha surpresa quando vejo a menina olhar pra mim sem nenhuma expressão reconhecível de zombaria de si mesmo e rapidamente então abrir a porta certa para a sala de cinema, enquanto eu escondia o meu riso-desencadeador-de-cumplicidade-existencial e dava meu mecânico merci.
Conclusão: a capacidade de rir de si mesmo não é algo usual por aqui, o que eu acho uma pena. A capacidade de sorrir, aliás, eu começo a questionar cada vez que entro no banheiro de muitas portas de algum estabelecimento comercial e troco um sorrisinho-de-boca-fechada com alguém que está saindo da cabine na qual logo vou entrar – você, leitor, certamente sabe do que falo. Não sei se posso tomar isso como um traço de brasileirismo, de qualquer maneira. Talvez seja simplesmente algo que aprendi com minha mãe. Aqui, por outro lado, sempre fico meio paranóica, achando que estou correndo o risco de ser mal-interpretada. Mas sorrio (se já está condicionado, qual é a validade? E voltamos à questão inicial)
Sem contar as vezes, inúmeras vezes, em que, sem me dar conta, ao sair de um restaurante, dou uma acenadinha para o garçom, junto com o Au revoir, merci. Acenadinha é algo que não existe por aqui, como, aliás, qualquer tipo de linguagem gestual. Saio do restaurante, me dou conta que dei a acenadinha, me recrimino em voz alta, e o Diego faz alguma piada do tipo que talvez a acenadinha signifique sexo anal ou coisa parecida.
Outra coisa que podemos concluir sem sombra de dúvida: franceses não correm da chuva. Simplesmente deixam que ela caia sobre suas cabeças, o semblante sem nenhuma marca de qualquer incômodo.

Postado por Carol Bensimon