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27 ago11:38

Bate-boca marca fim da Jornada

Carlos André  Moreira| carlos.moreira@zerohora.com.br


O clima esquentou ontem, no último dia da 14ª Jornada. Não só fora do Circo da Cultura, com o sol forte marcando o fim da festa, mas no próprio palco de debates, no qual os críticos argentinos Alberto Manguel e Beatriz Sarlo partiram para o confronto com a editora escocesa Kate Wilson por suas ideias com relação à tecnologia aplicada à leitura das crianças.











> O QUE ELES DISSERAM.


Foi no último debate da Jornada, que contou ainda com os brasileiros Fabiano dos Santos e Affonso Romano de Sant’Anna. Sant’Anna abriu a conversa com um relato de como o Brasil abraçou um projeto de desenvolvimento que separou leitura e educação e que não previu o incentivo à leitura. Manguel e Sarlo compararam a leitura à sexualidade, duas atividades pessoais e subversivas de ensino “muito mais complexas do que se pensa”.


– Alfabetizar alguém é diferente de torná-lo um leitor – disse Manguel.


A discussão se acalorou após a intervenção de Kate Wilson. A editora, que produz livros e aplicativos para leitura digital, apresentou números segundo os quais as crianças convivem cada vez mais com a tecnologia. É por meio da tecnologia, portanto, que deve-se buscar os novos leitores, defendeu. Quando concluiu a apresentação, Manguel imediatamente tomou o microfone e, em espanhol, promoveu um ataque frontal ao que havia ouvido:


– Achei que esta mesa falaria de formação de leitores, e não de deformação. Leitura não é comércio.


Kate Wilson respondeu dizendo que, embora não compreendesse espanhol, havia entendido aquilo. Manguel, que é naturalizado canadense, ofereceu-se para traduzir para o inglês. Ignorando o comentário, Kate Wilson afirmou:


– Não me importo com o que as pessoas leiam, desde que leiam. Como elas passam muito tempo diante de telas, se não levarmos a leitura às telas elas podem não ler mais.


– Esse tipo de raciocínio não forma leitor algum – retrucou Manguel.


– Quem você pensa que é para decidir isso? – perguntou a escocesa, curvando-se de indignação na cadeira.


Beatriz Sarlo também falou:


– Ninguém aqui trouxe livros próprios. Se você fez isso, deve estar aberta à crítica. Não vou criticar sua pessoa, mas seu trabalho. Esteticamente, seu livro é um retrocesso de 40 anos.


A plateia parecia querer que o circo pegasse fogo, metáfora apropriada para um debate sob uma lona: cada intervenção era recebida com aplausos acalorados, mesmo que defendesse o contrário da anterior. O chargista Paulo Caruso, sentado em frente ao palco, aproveitou para fazer desenhos nos quais Beatriz, Manguel e Kate são vistos num ringue de box, em confronto apaziguado por Affonso Romano de Sant’Anna (veja no alto da página).


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