clicRBS
Nova busca - outros
29 ago14:47

“O segredo é ouvir de olhos abertos”

Por Rafael Zanolla e Fernanda da Costa


A busca pela valorização da arte independente teve seu espaço em Passo Fundo, durante a 6ª Jornadinha de Literatura. Em duas apresentações, a trupe d’O Teatro Mágico, levou a magia do circo, a rima de sua
poesia inteligente e o batuque dos ritmos brasileiros para um público de cerca de 5 mil crianças e adolescentes.

Pela primeira vez na cidade do Norte gaúcho,
o vocalista Fernando Anitelli conversou com o ClicRBS Passo Fundo, destrinchando um pouco da complexidade do grupo pouco antes de seguir rumo a Porto Alegre, onde a trupe apresentou-se no fim de semana.

clicRBS Passo Fundo: Fernando, o Teatro Mágico, aqui em Passo Fundo, tocou na Jornadinha, para um público quase que exclusivamente infantil. Como foi essa experiência?

Fernando Anitelli:
Na verdade uma vez já tínhamos feito algo parecido. Em certa ocasião nós fomos tocar em um teatro, onde entraram umas 400, 500 crianças correndo, e então a professora falou “Calma, que o mágico já vem!” (risos). Ficamos pensando: “Meu deus, tem um monte de crianças esperando um mágico!” (risos). O nosso trabalho não é exatamente para um público infantil, mas também, de certa forma, não deixa de ser. Nós conseguimos dialogar com as crianças e os mais jovens, que gostam da magia, da estética da coisa. Com os mais adolescentes, que gostam da crítica, da poesia. E com os mais velhos, que gostam das duas coisas. Então é interessante porque você consegue falar de coisas do cotidiano de maneira crítica, com política, com a festa que é poetizar o circo, e falar com famílias. Ficamos muito felizes de vir até aqui, participar desse evento, afinal, são trinta anos de literatura, sempre trazendo conteúdos interessantes. Sermos recebidos de forma tão carinhosa foi muito bacana, nos sentimos em casa.

clicRBS
:
E qual o segredo para que as crianças e os mais jovens também possam entender essas críticas, presentes em boa parte das letras das músicas da trupe?

Anitelli
:
O segredo é ouvir de coração aberto, ou talvez nem tenha segredo. Quando ouvimos as crianças falando, repetindo a palavra, elas são curiosas, querem saber o que é aquilo, o que significa. O jovem também é assim, e ainda mais o jovem universitário, que está cheio de hormônios, quer inovar, revolucionar… A começar por si mesmos. Acho que o segredo é ouvir com outros olhos as coisas que são apresentadas pelo Teatro Mágico. Tem sempre uma moral da história, um porquê. É dentro desse espírito que a gente apresenta o projeto.


clicRBS
:
O novo disco A Sociedade do Espetáculo tem o mesmo nome do livro de Guy Debord. Quanto de literatura existe e qual o poder dela, nas letras do Teatro Mágico?

Anitelli: O nosso novo álbum teve o nome inspirado no livro, mas o CD mesmo, não foi uma tentativa de traduzir o que o livro passa. Até porque o livro ainda é algo que eu preciso ler e digerir de maneira intensa, tem muito conteúdo interessante ali. É fundamental você não somente entreter as pessoas, fazer uma música dançante, mas você levar ao debate, à provocação, ao questionamento. Tudo isso, por incrível que pareça, quando você faz de cara pintada, é aceito de uma maneira muito mais tranquila pelas pessoas. O palhaço não tem tribo, ele consegue chegar a qualquer lugar, seja para o cara do reggae, do clubber, do roqueiro… Ele chega e traz o debate de forma acessível. Eu creio que é esse papel que a gente cumpre. Cada vez mais tentamos amadurecer a maneira como a gente escreve, para que faça sentido. Você tem um figurino legal, um arranjo de música legal, mas também uma poesia à altura, um questionamento, com conteúdo.

clicRBS: O Teatro Mágico se posiciona a favor da música independente, não paga “jabá”  para tocar em rádios e disponibiliza todas as músicas para download gratuito. Qual a opinião do grupo sobre a revolução da internet e a relação com o Ministério da Cultura?

Anitelli:
Estamos passando por um momento inédito. Hoje, com um celular, você aperta alguns botões e recebe fotos, vídeos e músicas. Não há razão para criminalizarmos quem baixa música, quem é interessado em descobrir novos sons, compartilhar coisas interessantes. A nossa ministra é um tanto quanto equivocada em relação ao Creative Commons, justamente uma oportunidade que você tem de editar seu próprio material, dizer se você quer que ele seja remixado, compartilhado, duplicado, que é o caso d’O Teatro Mágico. Você pode baixar e compartilhar nossas músicas da forma que quiser, só é necessário entrar em contato com a banda se for fazer uso comercial. É uma possibilidade de trabalhar com uma economia mais solidária, de cultura livre. Não perdemos o direito autoral e não deixamos de ganhar frutos econômicos, porque a música roda o país todo. O pessoal do estúdio já foi remunerado quando gravou o CD, todo mundo que é da produção já foi remunerado. A música é um bem imaterial. Devemos olhar com bons olhos para os 90% de músicos que estão por aí, numa “pindaíba danada”, tocando a troco de suco de laranja e misto quente e não somente para aqueles 10% de amigos que recebem sempre os mesmos editais e estão toda hora na mídia.


clicRBS:
Muitas músicas do grupo são inspiradas em criações literárias. Algum dos autores convidados para a 14ª Jornada Nacional de Literatura foi influência para vocês?

Anitelli: Sem dúvida. O Maurício de Souza, os irmãos Caruso a Elisa Lucinda. Temos os textos do Maurício de Souza, que influenciam toda uma geração e a Elisa Lucinda com os textos de poesia. Acho isso fundamental. Eu consegui falar com a Elisa, com o Humberto Gessinger e com o Maurício de Souza. Para mim foi uma oportunidade muito bacana de poder tietá-los e ver o quanto é importante ser humilde e ter caráter.

Por

Comentários