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O desafio do pão

26 de setembro de 2007 8

Divulgação
Entre os vários colegas que me substituíram nesta coluna no fim de semana passado, esteve o Ricardo Chaves, que foi interino neste espaço na segunda-feira.

Em mensagem enviada para o Ricardo Stefanelli, editor-chefe de ZH, ele diz:

%22Quero te agradecer por ter aberto espaço a este fotógrafo que ousa, vez por outra, perpetrar algumas linhas e dado abrigo (e voz) a essa minha velha bronca. Como já disse alguém (só que sobre os gols de Pelé): Difícil não é fazer mil crônicas como o SantAna… Difícil é fazer uma crônica como o SantAna. Certamente não consegui. Certamente não consegui, mas estou muito honrado e feliz. (ass) Kadão%22.

Honrado e feliz fico eu, Kadão, vindo de ti isso.

E para os amigos leitores do blog, reproduzo abaixo o belissímo texto do fotógrafo de ZH.

%22O desafio do pão

Chega ao fim a Semana Farroupilha. Depois de tanta demonstração de orgulho, tanta bravura para enfrentar… a chuva e a lama, quando se faz de tudo para preservar as nossas mais caras tradições, eu, comovido, tento fazer esforço para manter o senso crítico e, num acesso de lucidez, sou obrigado a ouvir minha consciência. Ela me diz: – Cultura é algo mais que um acampamento à beira de um rio.

Cultura vem de looonge, como dizia o %22velho%22, que, infelizmente, já morreu. Ela se manifesta em hábitos simples do cotidiano. Como, por exemplo: fazer e comer pão. Taí um quesito de índice civilizatório que aqui é um problema.

Em Porto Alegre, o pão é péssimo. Tudo bem. Alguém vai saltar e dizer: conheço uma padaria que vende um pão ótimo! Pode ser. Mas o fato de existir um bom restaurante numa cidade (e tem, pelo menos um, em quase todas) não significa que se possa dizer que, nessa cidade, se come bem. As virtudes devem estar disseminadas para que determinado ponto se destaque. Aprender e fazer direito alguma coisa pode levar tempo.

Talvez seja apenas neurastenia própria da idade (já fiz 56 anos), ou ainda pode ser que eu ande meio sem paciência, mas levando em conta que o pão surgiu na Mesopotâmia há 12 mil anos, e os egípcios já os levavam ao forno 7 mil anos atrás, acho que já dava para termos aprendido.

Porto-alegrense, morei no Rio, em São Paulo (duas vezes) e em Brasília em função de minha atividade profissional. Comparando, a cidade onde nasci oferece aos seus cidadãos o pior pão do Brasil. Nem vamos falar do resto do mundo. Ou vamos. Para citar pelo menos o Vietnã, país pobre que, não sei se por influência francesa, tem um pão ótimo que é vendido primitivamente, uns sobre os outros, empilhados nas calçadas.

Aqui na minha terra, apesar da forte presença da imigração italiana, a arte de fazer pão italiano não veio junto. Não é só o formato redondo que caracteriza esse tipo de pão. A casca é mais dura, a massa mais pesada e muito saborosa.

Tenho pena de quem acha que faz ou come pão italiano por aqui. Se pensam que estou exagerando, procurem experimentar o pão italiano das padarias São Domingos ou Basilicata, ambas em São Paulo. Agora, se eu quisesse complicar, ou fosse muito exigente, estaria em busca do croissant perfeito ou, quem sabe, de saborosos brioches, mas não.

Estou falando de pão. Aquele comum, que antigamente chamávamos de pão dágua. Meio quilo. Quarto de quilo. Aquele que se fazia na praia e que chegava a nosso chalé de Capão da Canoa já sem o bico, que era consumido enquanto caminhávamos sobre as calçadas de grama da Avenida Paraguassu.

Evocações? Nada comparável às madeleines de Proust, a quem mal conheço. Apenas memórias, relativamente recentes, que nos advertem que, se sabíamos, desaprendemos. Pior. Tudo indica que perdemos as referências. Mas tem os que se acham espertos. Para driblar a lenda (ou a prática) segundo a qual os pães mais tostadinhos assim estão porque são sobras que fizeram uma segunda visita ao forno, pedem, sem a menor cerimônia – os mais clarinhos…

A massa quase crua. Consolidam uma versão, e um paladar, tão exclusivamente local quanto equivocado: o carboidrato mal passado. Ora, pão é assado, vai ao forno, portanto, tem de ser dourado por fora, casca crocante, massa porosa e leve. Bem diferente de isopor ou de picanha.

Não quero que ninguém se sinta ofendido, mas, como gaúcho orgulhoso que sou, também prezo determinados valores. Como a franqueza, por exemplo. E sendo assim: pão, pão, queijo, queijo.%22

Postado por Sant`Ana

Comentários (8)

  • Victor Guglielmi diz: 20 de janeiro de 2008

    é realmente é uma pena, sou Paulista e moro aqui a 08 anos, como nossos padeiros vão saber fazer pão se nem as padarias eles abrem antes das 08horas? Falta a tradição de se comer um bom pão no Estado.

  • Paulo Gilberto Mença diz: 26 de setembro de 2007

    Legal esta cronica, sobre o pão nosso de cada dia. Eu, que tenho 57 anos, acho que os paes do meu(nosso)tempo eram muito melhor.Tambem chegava na minha casa sem as pontas dos pão.Mesmo com as brocas da minha mãe, todos os dias era repetido.Atenciosamente

  • Braulio Maroco diz: 26 de setembro de 2007

    Sant`Ana te cuida, eu lí a crônica escrita pelo fotógrafo e nem percebí que não eras tu quem a escrevía. Mas tu continuas um gênio.

  • joão luis oaim diz: 26 de setembro de 2007

    meu caro pablo
    Nossos senadores são piores do que os seus históricos antepassados romanos. Essa é a verdade,o que vale para eles é sua corja e sua laia, isso mesmo hoje politica virou sinônimo de lixo.
    pensam só neles e para eles o povo que se rale obrigado

  • Adilson MInossi de Oliveira diz: 26 de setembro de 2007

    Caro Sant`ana,
    Li e gostei do artigo do Kadão sobre o pão.Acho que ser tradicionalista é ótimo, mas antes de tudo precisamos aprender a votar. Principalmenter agora quando a CPMF for votada no Senado. Fiquemos de olho nos senadores gaúchos…

  • Aury Lopes diz: 26 de setembro de 2007

    Até que um dia aparece alguem que se interesse pelo Pão Nosso de cada dia! Sempre fui um inveterado consumidor de pão d`água, mas onde encontrá-lo? Moro no campo, e não tenho acesso diário à padaria! E o day after? Amargo, com sabor à fermento azedo… Se alguem souber me indicar uma padaria…

  • CARLOS ISAIA FILHO diz: 26 de setembro de 2007

    Até que enfim encontrei alguem que confirmou o que acho. Nosso pão é vergonhoso! e o pior, sem diferença entre os diversos locais que vendem pães.

  • Flavio G diz: 26 de setembro de 2007

    E eu que degustava o pão italiano do Zaffari, achando que estava comendo o próprio…

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