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Posts de novembro 2007

O homem é a fera do homem

30 de novembro de 2007 12

O meu bedelho eu meto numa preocupação. Hoje foi anunciado que o número de homicícidos em Porto Alegre aumentou em 60%. É morte por todo lado. Além da morte, os bandidos querem a dor de seu semelhante. Vivemos cercados de dramas criminais.

Assista ao meu comentário sobre o assunto:

Postado por Sant`Ana

Gaúchos metidos

30 de novembro de 2007 34

Não é da nossa conta quem vai cair ou escapar da Segunda Divisão. Por que queremos ser atores principais de uma peça em que somos reles coadjuvantes?

O Campeonato Brasileiro já acabou para a dupla Gre-Nal. Se vai cair o Corinthians ou o Goiás ou o Paraná, não temos que meter o nosso bedelho.


Assista ao meu comentário sobre o assunto:

Postado por Sant`Ana

Vai engarrafar!

30 de novembro de 2007 17

E depois ainda subestimam o valor do jornalismo especializado em determinados assuntos.

Olhem o que escreveu Rosane de Oliveira na sua página de ontem em Zero Hora: %22Há mil formas de boicotar uma CPI. A mais eficiente delas é dominar os postos de comando e fazer marola com os requerimentos%22.

Esse tipo de observação percuciente do metabolismo parlamentar só pode ser feito por uma jornalista que se dedica há anos ao mesmo campo de atividade.

***

Fui saber ontem que cortar o interior de shoppings com o carro para encurtar trajetos urbanos ou evitar o engarrafamento das ruas é mania arraigadíssima em Porto Alegre, não só nos dois shoppings que citei ontem, mas em vários outros também.

E sobre o mesmo tema, no qual insisto, do excesso de carros que já há nas ruas de Porto Alegre e das grandes cidades brasileiras, acode-me o médico Paulo José Di Nardo, afirmando que por várias vezes foi até o aeroporto Salgado Filho e lá viu um saguão completamente vazio, sem passageiros de saída e chegada; no entanto, minutos antes, não havia vaga para nenhum carro na garagem.

Ou seja, uma frota imensa de carros num aeroporto sem passageiros. Já sei que vão me dizer que as pessoas costumam deixar seus carros no aeroporto e embarcam nos aviões. Mas até isso favorece a minha tese.

Ou seja, mesmo que vão para Rio, São Paulo ou para o Camboja, entopem as ruas e avenidas com seus carros, não usam táxi nem ônibus. E deixam seus carros nos estacionamentos dos aeroportos, tirando as vagas das pessoas que vão até lá para receber ou despachar seus familiares e colegas. Falo de cadeira, porque cansei de incorrer nesse defeito.

Além do excesso de carros na rua, existe a obsessiva e sedentária mania nossa de não tirarmos nossos traseiros dos bancos de nossos carros. Uma dependência doentia. Mas depois não digam que não avisei: vai engarrafar total, vai haver colapso no trânsito.

***

É que ontem o Diário Gaúcho botou na manchete de sua capa o sonho realizado de quem está comprando carro usado em financiamento de 60 meses. Ou seja, sem nenhum tostão de entrada, um gaúcho pode comprar hoje um carro usado ou seminovo por, pasmem, zero reais de entrada e R$ 40 ou R$ 50 por mês.

É um negócio inacreditável este milagre econômico do governo Lula, que distribui carros zero e usados para os brasileiros de menor poder aquisitivo, que afinal ganharam sublimemente o direito de ter carro como os mais possuídos. Metrôs, trens, transporte coletivo de melhor qualidade, nada.

%22Oh, bendito o que semeia / carros, carros à mancheia / e manda o povo rodar / o carro caindo nalma / é chuva que faz a palma / é água que faz o mar%22

Só que este mar, este oceano de engarrafamento, vai nos afogar.

***

Com carros usados financiados a R$ 40 mensais, não fosse a gasolina, o seguro, o IPVA, a carteira de motorista — que a nova direção do Detran teima em não reduzir para a metade seu atual preço, depois que se viu que 50% do que pagaram candidatos à habilitação ia para o escândalo do Detran —, não fossem todas essas despesas e se poderia dizer que comprar carro a R$ 40 de prestação por mês significa vantagem financeira muito maior do que pagar passagens de ônibus.

E podem ter certeza de que, com essas facilidades de financiamento, muita gente financiada vai concluir que sai mais barato andar de carro do que andar de ônibus.

Tola e trágica ilusão!
Mas vai engarrafar total.

Postado por Sant`Ana

A preço de banana

29 de novembro de 2007 15

Ricardo Duarte
A manchete do Diário Gaúcho de hoje diz que carro usado é um sonho a prestação.

Agora, qualquer um pode comprar um carro usado em 60 parcelas. Estava eu calculando aqui: sabem quanto sai a prestação de um carro popular usado? Quarenta, cinqüenta reais. É inacreditável um carro a 50 reais. Preço de caneta!

No trânsito, agora, começam a ingressar, incontrolavente, pilhas de carros zero — que já podem ser financiados em até 99 vezes — e carros que poderiam estar no ferro-velho. Todos terão carro. Será um engarrafamento absurdo por todos os cantos da cidade.

Já é um inferno dirigir em Porto Alegre e, agora, são lançados a preço de banana automóveis de todos os tipos. Há quem pense que estou falando mal dos assalariados, que sou contra a democratização do mercado de automóveis no Brasil. Não é isto.

Estou preocupado com os engarrafamentos intermináveis que cada vez mais se alastram, irritam e arrebentam a paciência de qualquer um.

Postado por Sant`Ana

Quando ganhar é perder

29 de novembro de 2007 96

Repito: como não tenho absolutamente nada a esconder, publico aqui neste blog o motivo das milhares de ligações que congestionam, desde o início da tarde, os telefones nas redações da Rádio Gaúcha e da Zero Hora.

Ouça, e chame quem quiser para ouvir, o embate que travei com meu amigo Wianey Carlet no programa Sala de Redação, porque defendi, como grande gremista que sou, que O GRÊMIO TEM  A OBRIGAÇÃO MORAL DE PERDER NO DOMINGO, CONTRA O CORINTHIANS.

Em represália a esta perversidade de torcedores colorados que querem que o Inter perca para o Goiás para rebaixar o Corinthians, peço — se não posso exigir — que o Grêmio perca o jogo contra o clube paulista neste domingo.

Ouça o bloco mais polêmico da história do Sala de Redação

Postado por Sant`Ana

Atrito com Wianey

29 de novembro de 2007 24

Dezenas de ouvintes estão telefonando para as redações da Rádio Gaúcha e da Zero Hora tentando entender qual foi o motivo do atrito entre mim e o Wianey Carlet, no programa Sala de Redação, agora há pouco.

Como não tenho nada a esconder, publicarei em instantes, neste blog, o áudio com a íntegra da primeira parte do programa, quando ocorreu este desentedimento. Não precisam mais perguntar às telefonistas.

Postado por Sant`Ana

A volta das abelhas

29 de novembro de 2007 5

Ontem, abelhas assassinas voltaram a atacar e matar em Porto Alegre. Desta vez no bairro Hípica, extremo sul de Porto Alegre.

Avançaram sobre um cavalo que, ao contrário daquele que morreu por ferroadas dias atrás na Redenção, não estava amarrado e conseguiu fugir. Relinchou, corcoveou e saiu em disparada. Foi parar em Itapuã.

Mataram, então, num massacre impressionante, uma cadelinha poodle que estava amarrada. Eram tantas abelhas, milhares delas, que não se enxergava um só fio do pêlo da cadelinha. A veterinária depôs que, antes de morrer, o animal teve três paradas cardíacas.

Graças a Deus, a vítima novamente não foi um ser humano. Temos compaixão pelos animais, mas felizmente ainda não foi uma pessoa trucidada.

Nunca vi isso em minha vida. Dois animais, em uma semana, morrem por ataque de abelhas mortíferas. Tem algo errado aí. O leitor não acha?

Postado por Sant`Ana

O motivo da minha ausência

29 de novembro de 2007 15

Carlinhos Rodrigues
Hoje minha parótida desinchou, embora ontem tivesse dilatado assustadoramente. Parótida é cada uma das duas glândulas salivares situadas abaixo da orelha — eu sei o que é porque já retirei dois tumores de uma delas.

Sinto-me encorajado, também, porque uma escara que restara da cirurgia que fiz de um tumor no meu pé, há 15 dias, está lenta mas animadoramente transformando-se numa cicatriz. Espero que minha parótida não inche novamente e, mais uma vez, me impeça de manter-me presente neste blog.

Por enquanto, estou aqui.

Postado por Sant`Ana

O apocalipse do trânsito

29 de novembro de 2007 9

As concessionárias gaúchas de carros venderam 100 mil veículos este ano, até agora. Isto quer dizer que as concessionárias brasileiras já venderam 2 milhões e 100 mil carros até novembro.

Eu levo 30 minutos para vir do Iguatemi, onde moro, para o Morro Santa Teresa, na televisão. Este tempo, há poucos anos, se levava para vir de Novo Hamburgo a Porto Alegre.

O trânsito engarrafado de Porto Alegre está tão irritante, que há pessoas que cortam trajetos passando por dentro dos shoppings, ainda que tenham de tirar um tíquete na entrada e entregá-lo gratuitamente na saída. Sai mais em conta no tempo do que permanecerem no engarrafamento. Dois shoppings que encurtam o trajeto são o Total e o Zaffari da Bordini.

***

A impressão que dão as avenidas de Porto Alegre é de que há mais carros na cidade do que habitantes. Vocês acham que estou brincando? Pois saibam que esses dias li um anúncio no ZH Classificados de venda de um apartamento de um quarto com duas vagas na garagem.

Em Porto Alegre, há edifícios, que já foram ou estão sendo entregues aos novos moradores, que têm o triplo de vagas na garagem do que o número de apartamentos. E muito em breve as áreas de estacionamento dos edifícios terão o dobro do espaço reservado aos apartamentos.

Tanto no Hospital São Lucas da PUC quanto no Hospital Moinhos de Vento, há mais carros estacionados nas garagens do que a soma de médicos e pacientes.

***

Na marcha que vai, já sei como será o trânsito nas vias de Porto Alegre e das grandes cidades nas próximas décadas: haverá, como acontece com o sistema de saúde, avenidas destinadas aos motoristas do SUS e outras avenidas, as mais rápidas, para os motoristas da Golden Cross, que pagarão pedágio altíssimo para fugirem do sistema gratuito do tráfego.

E para sair com o seu carro às ruas por um só dia, os motoristas do sistema gratuito terão de inscrever-se com uma semana de antecedência nas filas, como acontece nas filas de cirurgia do SUS.

***

Não sei qual será a solução para este Apocalipse do trânsito que já começamos a sofrer e vislumbrar.

A idéia de que num dia só podem trafegar as placas de final ímpar e no dia seguinte as de final par é pífia: ela é fraudada ao natural pelas pessoas que vão ter um carro de final ímpar e outro de final par.

E à medida que forem afunilando a restrição, é tão grande a facilidade para comprar carros a crédito atualmente, que se na segunda-feira só puderem trafegar os carros de placas com final 1, na terça-feira com final 2, na quarta-feira com final 3 e assim por diante, cada pessoa vai comprar carros com todas as 10 unidades finais das placas.

***

Já há e haverá cada vez mais casos de famílias que têm mais carros do que membros, pais que têm mais carros do que filhos. Antigamente, quando um filho se formava na universidade, os pais davam-lhe uma caneta de presente. Hoje, dão um carro zero. O segundo, porque o primeiro já tinha sido ganho quando completou a maioridade.

Está um inferno dirigir em Porto Alegre e cada vez mais são lançados carros zero no mercado. No meu edifício, há duas empregadas domésticas que têm carros populares.

E esses dias, na sinaleira, um mendigo me pediu dois reais dirigindo um Corsa. A situação está tão braba, que nas sinaleiras tem motorista pedindo esmola pra pedestre.

Postado por Sant`Ana

O fim de tudo e de todos

28 de novembro de 2007 15

Recebi ontem da revista Press o título de melhor colunista de jornal, empatado com o Fernando Albrecht, do Jornal do Comércio. Subi ao palco e fiz o seguinte improviso:

Como dizia um gênio nosso, falecido recentemente, o Jayme Caetano Braun, num verso do poema Galo de Rinha: %22Porque na rinha da vida / já me bastava o empate%22. Pablo Neruda, outro gênio, escreveu à sua amada: %22Existem outras mais altas do que tu / existem outras mais inteligentes do que tu / e existem até outras mais belas do que tu / Mas tu és a rainha%22.

Repetindo Neruda, quero dizer que o Juremir Machado da Silva é mais polêmico do que eu. O Fernando Albrecht é mais aguçado do que eu. O David Coimbra é mais fulgurantemente emergente do que eu. E indubitavelmente o Luis Fernando Verissimo é mais talentoso do que eu.

Mas eu sou o mais ansiosa e famintamente consumido pelo público todos os dias. Eu sou visivelmente o mais lido. Então passa merecidamente para cá este troféu.

***

O médico e filósofo holandês que mata os pacientes terminais que suplicam para que ele acabe definitivamente com seus sofrimentos, na entrevista que deu para o Fantástico, surpreendeu-se que a entrevistadora estivesse tão espantada que um médico elegesse a morte como objetivo de seu trabalho, apoiado pela lei do seu país.

E minimizou os efeitos da morte: %22Nós todos morremos todas as noites, quando dormimos. A morte não é outra coisa que o sono sem sonho. E estas 25 pessoas que matei a pedido delas apenas mergulharam num sono definitivo. Não tem nenhuma importância para elas a sua morte, assim como não teve para o mundo a sua inexistência durante os 65 milhões de anos que decorreram na Terra antes que elas tivessem nascido%22.

***

Interessante o que o médico disse. Parece óbvia, mas é curiosa a comparação do sono com a morte. E se a morte é o sono sem sonho, talvez o sonho então seja um aviso que recebemos, quando estamos dormindo, de que ainda não morremos. O sonho no sono, portanto, é um alento, uma manifestação de vida.

***

Eu gosto deste assunto porque sempre acreditei que com a nossa morte não é só a nossa vida que acaba. Acaba o mundo, acaba a vida dos outros também. Não existe vida para os que sobrevivem a nós, só existe vida nos outros e em tudo quando podemos sensorialmente reconhecê-la.

Se nós morremos, tudo acaba também, as selvas, os mares, os ares, a Terra, os astros, os animais e todos os terráqueos. Porque eles só existem enquanto nossos sentidos os registram, tudo isso se apagará quando nós nos findarmos individualmente.

Não é assim nada megalomaníaca a idéia de que cada um de nós é o centro do mundo, o mundo só existe porque ele é captado pela nossa percepção. E se com a nossa morte está extinta a nossa percepção, quando morremos fica decretado um Nada, só não definitivo porque dele emanará nova realidade quando outra criatura nascer ou outra coisa for criada.

Por essa minha teoria, as pessoas não têm nada que lamentar a possibilidade da morte, não há qualquer desperdício em deixar de viver. Ninguém ficará aqui na Terra gozando a vida depois que morrermos. E também mais ninguém terá qualquer sofrimento. Pelo motivo de que a vida nossa, de tudo e de todos só existe no curto e exíguo espaço que vai do nosso nascimento até a nossa morte.

Tudo o mais que nos cerca na vida só existe porque pertence ao nosso conhecimento e por isso vai morrer junto conosco. Por essa minha idéia, o testamento é documento da mais completa inutilidade.

Postado por Sant`Ana

Romance urbano

27 de novembro de 2007 3

Ilustração: Bebel
Conheceram-se num daqueles lugares que o povo escolhe para divertir-se, sem propaganda nas rádios e nos jornais, aquela milagrosa índole das multidões para encontrarem-se, independentemente da crise, da inflação ou dos dramas particulares que se desenrolam em todas as vidas.

Ele viu o vulto dela, fixou-se nela, ela inicialmente fingiu que ele lhe passara despercebido, fazia parte da estratégia da atração. Ele insinuou-se até ela em meio ao burburinho de gente. Ela ainda manteve-se fria, embora atenciosa, na tentativa de dificultar um pouco a ligação.

E conversaram. Ela gradualmente foi cedendo às forças da reação que intentara, à medida que ele falava e lhe dizia do encantamento de que se tomara ao vê-la e mais ainda agora, que se dirigia a ela e por vezes até a tocava inocentemente. Ela e ele estavam se apaixonando, ali no entrevero das músicas e das danças, entre tanta gente desnorteada, à procura daquela sintonia que, no entanto, obtiveram como que por uma mágica.

Ela tinha consciência da sua beleza, embora duvidasse de que fosse o tipo dele. E desafiou-o: %22Por que, entre tantas que estão aqui, mais altas do que eu, mais jovens do que eu, tu me escolheste?%22 Ele notou logo que ela oferecia ao seu próprio vulto feminino uma restrição, esses complexos ou sentimentos de inferioridade tão comuns em tantos, depois de se autoconhecerem por largo tempo e cotejarem as suas virtudes e defeitos com os dos outros: achava-se baixa, talvez quisesse ser mais alta.

Foi a hora de ele esconder o seu segredo: era fixado em mulheres de meia-altura, gostava de ter a sensação de domínio e superioridade física. E não disse a ela que seu tipo físico e altura eram o que sempre idealizara, esperando que a sonegação dessa sua preferência fosse lhe trazer os lucros de quem não se entrega nas primeiras escaramuças. Achou que era vantagem mantê-la, por enquanto, insegura.

Mas respondeu a ela com o poema de Neruda, vindo estupendamente a calhar, dito ao seu ouvido: %22Tu és a rainha / existem outras mais altas / existem outras mais belas / existem outras mais puras / mas tu és a rainha!%22

Quando do segundo encontro, já estavam a sós. E doidamente enamorados. Conversaram durante horas, ele conquistando ela, ela conquistando ele. Era uma paixão súbita, arrebatadora. Permitiram-se as carícias e os beijos mais duradouros e deliciosos, sem no entanto chegarem ao congresso carnal, ela com medo de que isso determinasse o fastio e o adeus dele, ele pensando o mesmo e querendo prorrogar até o fim da sua vida aquele amor inédito em seu coração há tanto tempo estéril.

Quando terminaram aquela sessão histórica da pedra de lançamento de mais um retumbante romance urbano, entre tantas dádivas, aprofundamentos espirituais e doces e instigantes primícias do sexo, ele despediu-se dela na porta, balbuciando:

— Saio daqui repleto de ternura e sedento de desejo.
— Calma, este teu desejo eu mato logo, logo.
— Mas cuida de não matar nunca esta ternura.


Coluna publicada em Zero Hora, em 17/12/2001

Postado por Sant`Ana

A morte piedosa

27 de novembro de 2007 11

Outro dia, contarei sobre minhas experimentações com os médicos e medicamentos nos quatro dias em que estive hospitalizado no Moinhos de Vento.

Por sinal, saí do hospital com a convicção de que só há dois lugares do mundo em que circulam as idéias: o hospital e o fumódromo. Os outros lugares todos são um perigoso deserto de raciocínios.

***

Exatamente o hospital e o fumódromo são ideais para que se pense: eu verifiquei só agora que só pode pensar quem tiver tempo para pensar. Quem ama não tem tempo para pensar. Quem trabalha não tem tempo para pensar.

Só quem está sozinho num leito de hospital ou quem está compartilhando com outras pessoas o prazer de fumar, conversando, num fumódromo, lhe verá surgir uma idéia aproveitável ou magistral.

***

Estava eu no meu catre hospitalar de cabeceira reclinável, quando apareceu na tela de televisão o programa Fantástico. Eu, para ver o Fantástico, só se estiver no leito de enfermo.

E aí uma repórter entrevistou um médico e filósofo holandês que pratica a eutanásia em pacientes terminais, é preciso tanto notar que na Holanda é permitido o assassinato piedoso de doentes terminais quanto que aquele médico idoso só mata os pacientes terminais que imploram para serem mortos.

***

Foi quando a repórter fez ao médico e filósofo a pergunta mais imbecil que já ouvi em toda a minha vida: %22O senhor, que é médico e estudou e se preparou para salvar vidas, como então mata as pessoas?%22.

O médico não deu uma resposta satisfatória, mas eu levantei do meu leito hospitalar e gritava pela sacada: %22Será que essa menina tola não vê que, quando se trata de um doente terminal que pede para ser morto, salvar a sua vida significa matá-lo?%22

Eu, por sinal, vou mais adiante na questão da eutanásia, que me apaixona, há muitos anos.

Tecnicamente, aqui no Brasil, um médico que praticar eutanásia num paciente responderá na Justiça Criminal por homicídio. Errado, erradíssimo, qualquer dia vou me mudar para a Holanda, ando numa fase em que a qualquer momento devo convocar um médico para pôr fim a este meu suplício terreno.

É antiga a minha tese, convalidada inteiramente pelo Código Penal, que não pune a autoflagelação e a tentativa de suicídio, de que pertence ao indivíduo, somente a ele, o direito de dispor sobre sua própria vida, podendo até impunemente tentar eliminá-la.

E eu vou tão longe nesta minha convicção, que afirmo audaciosamente que eutanásia e suicídio para mim são sinônimos. Então por que esta estultice de condenarem-se médicos pela eutanásia no Brasil?

***

Decidi agora que vou escrever mais amanhã sobre este médico holandês que é chamado pelos pacientes terminais ou por suas famílias para, numa decisão dos pacientes, matá-los. Porque o espaço de hoje não é o bastante para dissecar este assunto intelectual, jurídica e filosoficamente empolgante.

Acontece — e isto tenho explicado até mesmo a médicos estupefatos — que a palavra médico é originada do vocábulo latino %22medicare%22. E sabem o que quer dizer %22medicare%22, em latim? Eu pensei que era curar.

Mas não é curar. Em latim, %22medicare%22 quer dizer tirar a dor.

Ou seja, o primeiro e fundamental dever do médico não é curar, é tirar a dor. Curar ou não curar fica para depois.

E no caso da eutanásia, portanto, meus queridos leitores, o médico tem de ter o direito, ainda mais quando a pedido do paciente terminal, de tirar-lhe a vida, pois só assim acabará com seu cruel e insuportável sofrimento.

Não há outra verdade.

Postado por Sant`Ana

Continuamos na idade da pedra

26 de novembro de 2007 12

Depois de cinco dias internado, deixei o hospital apoquentado por uma sensação tão devastadora como qualquer doença. Concluí que vivo em um país de barbárie, que vivo no tempo das cavernas.

Refleti muito durante esses dias, no hospital. Dei-me conta de que o crime mais hediondo e execrável da história policial brasileira não foi cometido pelos bandidos, mas pelas autoridades. Essa aparência de civilidade que encontrei ao sair do hospital e rever automóveis, homens de gravata e crianças indo à escola é falsa. Eu vivo na idade da pedra.


Assista ao meu comentário sobre o assunto:


Em tempo: muito obrigado aos leitores que, no post abaixo, trouxeram-me alegria ao enviar mensagens de solidariedade.

Postado por Sant`Ana

Sant`Ana volta em breve

23 de novembro de 2007 59

Zerohora.com informa que o colunista Paulo Sant%27Ana, após sofrer um mal-estar na tarde de quinta-feira, afastou-se temporariamente deste blog e de outras atividades no Grupo RBS.

Internado em um hospital de Porto Alegre, Sant%27Ana se recupera e passa por uma bateria de exames para voltar em breve a este e a outros espaços. Para manter aberto este canal com o colunista, zerohora.com sugere que os leitores deixem uma mensagem para Sant%27Ana.

Postado por Equipe zerohora.com

O fastio das relações

22 de novembro de 2007 7

Ilustração: Fraga
Eu diria que 90% das relações amorosas terminam neste impasse: eu não te amo mais, mas me recuso a separar-me de ti.

Eu não te amo mais como te amava, não se manifesta mais em mim aquele furor corporal que me arremessava até tua figura sedutora, mas permanecem ainda me ligando a ti valores afetivos e tradicionais respeitáveis. Não sinto mais aquela vontade indômita de estar sempre junto de ti, mas gosto de te ver ao fim do dia e saber que existes e estás próxima.

Não penso em me desligar de ti porque o risco de que sejas de outro me perturba enquanto for só risco, acho que me amassaria se se tornasse um fato.

Tanto se modificou assim esta nossa relação que já não sinto culpa se te traio, aquela que amei antigamente não mereceria este meu deslize, mas agora ele chega a parecer natural. Quando te amava intensamente, minha felicidade era total. Hoje, sinto apenas estabilizada a nossa união. Eu antes era o intruso em busca da conquista, hoje sou o arraigado dono de um território que não cobiço mais.

Fui teu amante, hoje sou só teu companheiro. Valorizava só a ti, não importavam as tuas cercanias. Hoje valorizo só as tuas e as minhas circunstâncias conjugadas.

Antes, eu me ligava em ti por ti, tu te ligavas em mim por mim. Só por nós. Hoje me ligo em ti por nossos filhos, te ligas a mim também por eles, notaste que nós pessoalmente perdemos totalmente para cada um de nós a importância?

E que bravos tempos aqueles em que queríamos nos avistar por toda hora! E que não nos fartávamos de estar juntos! E que não nos entediávamos do tanto que falávamos! E que não nos faltavam os lugares onde ir! Que bravos tempos aqueles em que nos amávamos loucamente e tínhamos pressa em nos acordar pela manhã para nos amarmos! E não tínhamos nenhuma pressa em dormir para podermos continuar nos amando! Bravos tempos!

Confessemos que nossos dias de hoje são repletos de fastio e despedaçados pela rotina. É um maldito cumprimento de carnê. Em verdade perdemos o horizonte. Vivemos na procura afanosa de outros prazeres, como se não tivéssemos mais direito ao amor. Em verdade, nossas vidas restaram áridas. Por ser impossível, deixamos de buscar a felicidade. Contentamo-nos só em sermos menos infelizes.

Mas incrivelmente não queremos separarmo-nos. Nem sei se é falta de coragem, acho que não é. É que foi tão grande o nosso amor e tão fatal que nos uníssemos, que inconscientemente cultivamos o orgulho de sermos únicos e que é inútil nos dividirmos pela separação.

Na verdade, nós dois constituímos uma história. E, como a história, só nos resta envelhecer.


Coluna publicada em Zero Hora, em 09/07/2000

Postado por Sant`Ana