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A competência do coração

25 de janeiro de 2008 6

O coração não sente ciúme. O coração só ama. Quem sente ciúme é o cérebro. Por isso se diz que o ciúme é coisa da cabeça da gente.

O ciúme é um sentimento tão pérfido, que não cabe no coração. O ódio também não é detonado pelo coração, ao contrário do que muito já se disse. O ódio também vem do cérebro. Por isso é que se diz que estamos com a cabeça quente.

O coração só ama. Ternura vem do coração. Tolerância vem do coração. Bondade só vem do coração.

Quando alguém trai a quem ama ou estima, é porque o coração foi superado na luta que ele mantém contra os outros órgãos.

Não existe mau caráter original. O caráter só será mau quando o coração não tiver influência sobre ele. E será bom quando o coração o tiver envolvido.

Tanto prova, que é corrente a expressão %22mau-caráter%22. Mas nunca se ouviu dizer %22mau coração%22. Porque no coração só cabem as coisas boas. A lixeira do homem está em outras partes, algumas bem notáveis, do seu corpo. No coração não cabe nem um argueiro.

O coração é a parte nobre do corpo humano, todas as outras são plebéias, porque se conspurcam.

A bênção sai do coração, o impropério salta do cérebro. Saudade nasce no coração, rancor vem do cérebro.

Quem dispara a lágrima é o coração. Quem dispara o revólver é o cérebro.

E sempre se travará a luta, descrita pelos filósofos, entre o cérebro e o coração. E o incrível é que nessa luta, vença quem vencer, a razão sempre está com o coração.

Quando enfrenta o coração, o cérebro perde a razão. %22E o coração tem razões que a própria razão desconhece.%22

Razão só tem aquele que tiver coração. Coração só tem aquele que mostrar boa razão.

O cérebro é, portanto, um mero rival do coração. E o homem se corrompe quando o cérebro toma o lugar do coração.

Eu às vezes amo tanto, que penso que tenho dois corações, o segundo no lugar do cérebro. Sem cérebro, eu enlouqueço de tanto amar, porque só o cérebro pode travar a corrida alucinada do coração para o amor.

Daí que quem pensa não ama, e quem ama não pensa.

Se o destino tiver que escolher entre me avariar o cérebro e o coração, que me preserve o coração e dane-se meu cérebro. Mil vezes ser um encefalopata do que um cardiopata.

Prefiro vegetar como um idiota, mas tonto de amor.

(Crônica publicada em 28/01/1997)

Postado por Sant`Ana

Comentários (6)

  • Juliana Cardoso diz: 7 de fevereiro de 2008

    Ué mas tu não é pessimista? Como que tu poderia preferir o coração, se com coração a gente sofre, e com o cérebro sofremos menos…

  • Claudete Maria Fischer Puhl diz: 25 de janeiro de 2008

    Nos tempos idos…nunca fui muito fã do Santana; mas hoje costume ler seus artigos, e, a cada dia fico mais apaixonada pelo que ele escreve. Santana; Paulo; Pablo… quem quer que seja…Te admiro e com o coração, não com o cérebro.
    Um grande abraço. Claudete.

  • Rodrigo “Moa” Dias diz: 25 de janeiro de 2008

    Pablo, (se me permites esta intimidade) emociona-me com esta postagem. Que aula… Sinto-me um tanto confortado, se levar em consideração a veradicidade desta crônica… Se for assim, compreendo algumas coisas que passei nesta vida e algumas que passo hoje… Um tópico de meditação é esta crônica!
    Parabéns por usar este espaço com semelhante obra! Espero que outros também consigam absorver este conteúdo com tal sucesso como o meu! Um abraço. Sou colorado, mas teu fã de carteirinha!

  • Lúcia diz: 25 de janeiro de 2008

    grande Paulo Santana !!! emociona-me … és só vida … lindo! amo-te! o que dizes é princípio e fim …

  • Edson diz: 25 de janeiro de 2008

    Respeito por que gosto do debate, mas…Estimulem o cultivo das paxiões nos homens para que eles jamais tenham tempo de investigar a razão de por que são infelizes. Continue cegando-os querido Santana. Admiração e força !

  • christian diz: 17 de março de 2010

    De mais tricolor!! Muito bom sou seu fâ e tu não faz idéia a falta que me faz ler tua coluna diariamente . morando em floripa á dois anos e meio sinto muitas saudades do Rio Grande e de seus perssonagens ilustres. Grande abraço e fica com Deus sempre

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