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Luz infinda dos poetas

31 de janeiro de 2008 3

Ah, meus poetas portugueses e brasileiros que me formaram em letras quando eu era apenas um adolescente.

Ler-vos já valia por um curso de gramática e de filosofia. E eu me embebedando nos vossos versos, decorando as mais belas páginas de poesia romântica e lírica dos que manejavam a flor do Lácio, que nunca mais se encontraria depois de vós e de Vieira.

Acabei de recitar para o Olyr Zavaschi, aqui na sala em que me encontro, alguns poucos dos mais belos e definitivos quartetos ou tercetos de nossa língua.

Entre eles, estas eternas tábuas de verdade da autoria do grande Vicente de Carvalho, só elas bastariam para explicar toda a perplexidade humana:

Essa felicidade que supomos
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arriada de dourados pomos
Existe, sim, mas nós não a encontramos
Porque está sempre apenas onde a pomos
Mas é que nunca a pomos
onde estamos.

Ou quando Olavo Bilac, tendo sido abandonado pela noiva por estar tuberculoso, tendo ela imediatamente se casado com um capitão da Marinha de Guerra, 20 anos depois encontrou-a de mãos dadas numa solenidade com o esposo, já então almirante.

E, diante de centenas de convidados, Bilac recitou com voz enérgica e embargada:

Se por vinte anos, nesta furna escura,
Deixei dormir a minha maldição,
Hoje, velha e cansada da amargura,
Minhalma se abrirá como um vulcão.

E em torrentes de cólera e loucura,
Sobre a tua cabeça ferverão
Vinte anos de silêncio e de tortura,
Vinte anos de agonia e solidão…

Maldita sejas pelo ideal perdido!
Pelo mal que fizeste sem querer!
Pelo amor que morreu sem ter nascido!
Pelas horas vividas sem prazer!

Pela tristeza do que eu tenho sido!
Pelo esplendor do que deixei de ser!

A senhora deixou-se cair desmaiada nos braços do almirante.


Ou como quando o pernambucano Maciel Monteiro fez elogio insuperável à beleza de uma mulher que conhecera e desejava conquistar:

Formosa, qual pincel em tela fina
Debuxar jamais pôde ou nunca ousara;
Formosa, qual jamais desabrochara
Na primavera a rosa purpurina;

Formosa, qual se a natureza e a arte,
Dando as mãos em seus dons, em seus lavores
Jamais soube imitar no todo ou parte;
Mulher celeste, oh! anjo de primores!

Quem pode ver-te, sem querer amar-te?
Quem pode amar-te, sem morrer de amores?

(Crônica publicada em 01/02/05)

Postado por Sant`Ana

Comentários (3)

  • Anderson schmitz diz: 1 de fevereiro de 2008

    Parabéns pelo blog, sou seu fã.

  • ary da Silva Martini diz: 31 de janeiro de 2008

    Um poeta que consegue fazer uma mulher desmaiar com um simples recitar de versos tem o seu valor. Não devemos esquecer que mulher é um “bicho” duro na queda: sangra cinco dias e não morre!

  • Ernesto diz: 31 de janeiro de 2008

    Paulo… me permita chama-lo assim, pois é como trato os que tenho intimidade, pelo primeiro nome. Sei que sou um estranho para você, mas lhe conheço e admiro há quase três décadas. Dos comentários apaixonados e sempre sensatos sobre o nosso Grêmio Campeão do Mundo na década de 80, das críticas sócio-políticas da década de 90 e das citações poéticas dos anos 2000. Parabéns, continue sendo uma alento de cultura e bom senso na mídia gaúcha e brasileira.

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