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Posts de janeiro 2008

Luz infinda dos poetas

31 de janeiro de 2008 3

Ah, meus poetas portugueses e brasileiros que me formaram em letras quando eu era apenas um adolescente.

Ler-vos já valia por um curso de gramática e de filosofia. E eu me embebedando nos vossos versos, decorando as mais belas páginas de poesia romântica e lírica dos que manejavam a flor do Lácio, que nunca mais se encontraria depois de vós e de Vieira.

Acabei de recitar para o Olyr Zavaschi, aqui na sala em que me encontro, alguns poucos dos mais belos e definitivos quartetos ou tercetos de nossa língua.

Entre eles, estas eternas tábuas de verdade da autoria do grande Vicente de Carvalho, só elas bastariam para explicar toda a perplexidade humana:

Essa felicidade que supomos
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arriada de dourados pomos
Existe, sim, mas nós não a encontramos
Porque está sempre apenas onde a pomos
Mas é que nunca a pomos
onde estamos.

Ou quando Olavo Bilac, tendo sido abandonado pela noiva por estar tuberculoso, tendo ela imediatamente se casado com um capitão da Marinha de Guerra, 20 anos depois encontrou-a de mãos dadas numa solenidade com o esposo, já então almirante.

E, diante de centenas de convidados, Bilac recitou com voz enérgica e embargada:

Se por vinte anos, nesta furna escura,
Deixei dormir a minha maldição,
Hoje, velha e cansada da amargura,
Minhalma se abrirá como um vulcão.

E em torrentes de cólera e loucura,
Sobre a tua cabeça ferverão
Vinte anos de silêncio e de tortura,
Vinte anos de agonia e solidão…

Maldita sejas pelo ideal perdido!
Pelo mal que fizeste sem querer!
Pelo amor que morreu sem ter nascido!
Pelas horas vividas sem prazer!

Pela tristeza do que eu tenho sido!
Pelo esplendor do que deixei de ser!

A senhora deixou-se cair desmaiada nos braços do almirante.


Ou como quando o pernambucano Maciel Monteiro fez elogio insuperável à beleza de uma mulher que conhecera e desejava conquistar:

Formosa, qual pincel em tela fina
Debuxar jamais pôde ou nunca ousara;
Formosa, qual jamais desabrochara
Na primavera a rosa purpurina;

Formosa, qual se a natureza e a arte,
Dando as mãos em seus dons, em seus lavores
Jamais soube imitar no todo ou parte;
Mulher celeste, oh! anjo de primores!

Quem pode ver-te, sem querer amar-te?
Quem pode amar-te, sem morrer de amores?

(Crônica publicada em 01/02/05)

Postado por Sant`Ana

Tatuagem

30 de janeiro de 2008 3

Descobri em mim há pouco tempo uma capacidade: eu estou apto para todos os encontros. Se, como disse o Vinícius, a vida é a arte do encontro, então eu sou um artista. Mas eu contrariaria o grande poetinha, afirmando que a vida consiste também na arte da despedida. Porque muitas vezes um novo encontro depende vitalmente de uma anterior despedida. E eu não tenho nenhuma aptidão para as despedidas, daí porque sinto-me incapacitado para a vida.

Ninguém que não conseguiu despedir-se é capaz de encontrar-se novamente. Todo encontro é sempre informal, não o presidem quaisquer compromissos, nem o sucesso dele próprio. Já as despedidas, estas são solenes e formais, pesadas, derrubadoras, repletas e gritantes, de fracasso, até mesmo as despedidas agradáveis, imaginem as indesejáveis. Livrem-me de todos os adeuses, até mesmo porque todos são hipócritas, ninguém pode separar-se daquilo ou de quem já amou, mesmo que não ame mais. Mais atroz que uma chacina será então um adeus ao que ainda se ama. Eu expliquei isso uma vez aqui, quando afirmei que as pessoas que largam o cigarro o fazem por não terem amado o cigarro. Como vou deixar um vício que amo e me consome? Todos os amores são vícios que consomem.

Ainda tentando desmentir o grande poeta: o amor e a afeição não são infinitos enquanto durem, são eternos mesmo depois que acabam.

Quando me entrego a alguém ou algo nunca mais disso me libertarei. Em pouco tempo verei que aquilo que eram laços, embora desatados, permanecendo como grilhões. Só para dar um exemplo, é apenas um exemplo, nada tem com o concreto que faz desabafar assim: venho encontrando mais de uma vintena de amigos que se tornaram ex-fumantes, a quem interrogo sobre sua experiência. Quase todos eles me dizem que às vezes sonham com o cigarro, têm pesadelos desejantes de cigarro, vacilam dramaticamente em voltar ao cigarro, a maioria não volta de vergonha, medo da vaia íntima ou exterior, ou porque seria um retrocesso desperdiçante do enorme sacrifício imposto pela renúncia.

É isto. Tudo que nosso coração conquista ou o que por ele é conquistado, disso ele se torna para sempre prisioneiro. Não há jamais como fugir-se daquilo ou de quem se amou, mesmo que agora se o odeie. E é mortal que a gente se afaste de quem ou de que se ama. Tolice o que se ouve: só um outro amor pode substituir um grande amor. Nada há que cure o que se cravou uma vez no coração, mesmo que já se tenha desencravado.

No coração plasmam-se impressões digitais indestrutíveis, são definitivamente dele, ele nunca conseguirá abdicar delas podem até despegar-se dele suas substâncias, mas lá continuará o desenho de suas linhas, como uma tatuagem inapagável.

Esqueça de esquecer o que um dia incendiou o seu coração. São labaredas eternas. O sopro de um vento ou de um tufão podem amainá-las, mas logo em seguida elas voltam a crepitar. Nós somos vassalos do que bem queremos e escravos eternos de nossos ex-amores. Ninguém servirá dedicadamente a um novo amor, desde que já tenha assim se entregue o outro.

O que passou não passou. A não ser que não tenha se passado.

(Crônica publicada em 21/06/94)

Postado por Sant`Ana

O retrato de Jesus

29 de janeiro de 2008 9

Eu me emocionei quando li, por gentileza do leitor Jair Wingert, de Campo Bom, repercutindo aquela coluna que fiz sobre a frase desesperada de Jesus antes de morrer.

É o mais abrangente escrito que já me passou pelos olhos sobre a figura de Jesus e explica muito, profunda e comovedoramente, o significado e a importância para a humanidade da passagem do mais ilustre homem sobre a Terra.

Não vou furtar meus leitores deste documento de impacto, que está arquivado e exposto em Jerusalém, cuja cópia me veio ontem às mãos. Faço-o até para deixá-lo registrado nos arquivos de Zero Hora como o mais fiel perfil de Jesus, superior até à imagem que se retira dos textos bíblicos.

É o mais impressionante depoimento que li sobre Jesus Cristo, eis que o retrata física e espiritualmente e foi prestado por um romano que servia o imperador na Judéia, portanto uma testemunha ocular da presença de Jesus naquelas paragens, homem que assistiu a muitos comícios do Nazareno e que mandou a seguinte carta ao imperador Tibério César, antes, é claro, da morte de Jesus:

%22Sabendo que desejais conhecer quanto vou narrar-vos, escrevo-vos esta carta.

Nestes tempos apareceu na Judéia um homem de virtudes singulares, que se chama Jesus e que pelo povo é chamado de O Grande Profeta. Seus discípulos dizem ser ele o Filho de Deus.

Em verdade, ó César, cada dia dele se contam raros prodígios: ressuscita os mortos, cura todas as enfermidades e tem assombrado Jerusalém com sua extraordinária doutrina.

É de estatura elevada e nobre, e há tanta majestade em seu rosto que aqueles que o vêem são levados a amá-lo ou a temê-lo. Tem os cabelos cor de amêndoa madura, separados ao meio, os quais descem ondulados sobre os ombros, ao estilo dos nazarenos. Tem fronte larga e aspecto sereno. Sua pele é límpida e corada: o nariz e a boca são de admirável simetria.

A barba é espessa e tem a mesma cor dos cabelos. Suas mãos são finas e longas e seus braços de uma graça harmoniosa. Seus olhos são plácidos e brilhantes, e o que surpreende é que resplandem no seu rosto como raios do sol, de modo que ninguém pode olhar fixo o seu semblante, pois quando refulge, faz temer, e quando ameniza, faz chorar%22.

Prossegue o relato estupendo:

%22É alegre e grave ao mesmo tempo. É sóbrio e comedido em seus discursos. Condenando e repreendendo, é terrível; instruindo e exortando, sua palavra é doce e acariciadora. Ninguém o tem visto rir. Muitos, porém, o têm visto chorar. Anda com os pés descalços e com a cabeça descoberta.

Há quem o despreze vendo-o à distância, mas estando em sua presença não há quem não estremeça com profundo respeito. Dizem que este Jesus nunca fez mal a ninguém, mas, ao contrário, aqueles que o conhecem e com ele têm andado, afirmam ter dele recebido grandes benefícios e saúde.

Afirma-se que um homem como esse nunca foi visto por estas partes. Em verdade, segundo me dizem os hebreus, nunca se viram tão sábios conselhos e tão belas doutrinas. Há todavia os que o acusam de ser contra a lei de Vossa Majestade, porquanto afirma que reis e escravos são iguais perante Deus. Vale, da Majestade Vossa, fidelíssimo e obrigadíssimo. (ass.) Públio Lêntulo, Presidente da Judéia%22.

(Crônica publicada em 26/02/97)

Postado por Sant`Ana

A cruz dos pessimistas

28 de janeiro de 2008 3

Eu não sei se já me confessei pessimista aqui nesta coluna. Se ainda não o fiz, faço-o agora: eu sou um incorrigível pessimista.

Sei lá qual é a origem desta face do meu caráter, até desconfio de que possa ser uma infância áspera, malsucedida. Tem tudo para ser pessimista um adulto que foi uma criança para quem a vida foi apresentada como uma companheira mal-encarada, mal-humorada e adversa, além de inseparável.

O que sei é que nós, os pessimistas, temos muito menores chances de sermos felizes que os otimistas. Por exemplo, peguemos dois jovens, um pessimista, outro otimista. Ambos se inscrevem no vestibular. Nos seis meses que antecedem o vestibular, o jovem pessimista sofre esses 180 dias de forma dilacerante: simplesmente porque ele crê que não vai passar no vestibular.

O pessimista é assim: ele antecipa a tristeza e a tragédia. Então ele fica demolido durante 180 dias porque vai ser reprovado no vestibular. Bota tristeza e depressão nisso.

Voltemos nossa atenção agora para o jovem otimista. Ele crê convictamente que vai ser aprovado no vestibular. E durante os 180 dias o nosso jovem otimista goza intensamente a alegria que vai ser sua aprovação. Ele se mostra contente, faz planos, sua vida se torna leve, ele se mostra bem-humorado com os outros, a existência lhe sorri promissoramente.

Enquanto isso, o nosso jovem pessimista carrega a cruz da reprovação antecipada no vestibular, todos seus dias decorrem sob a sombra da catástrofe, sobrevém-lhe até a vontade de desaparecer da face da Terra, não lhe dá vontade nem de conversar com ninguém. E com o jovem otimista é festa e festa, ele já está até gastando por conta da sua aprovação.

Até que chega o dia do vestibular e logo em seguida o dia da divulgação do resultado do vestibular. Para a legitimidade da minha tese, o resultado do vestibular tem de ser igual para os dois.

Pois o resultado é o seguinte: os dois jovens, o pessimista e o otimista, são reprovados no vestibular. Qual é então o balanço na vida dos dois jovens? Evidentemente que os dois ficam arrasados com a reprovação.

Só que o pessimista resta triste, infeliz, desolado, depois do vestibular, mas antes do vestibular ele já era um farrapo humano, um homem destroçado.

Enquanto que o otimista só resta infeliz, triste e desolado após o vestibular, antes ele foi um ser alegre, realizado e festivo.

Visivelmente, quem sofreu mais foi o pessimista. O otimista só sofreu a metade do que sofreu o pessimista.

Mesmo que os dois tivessem passado no vestibular, a conta seria a mesma: alegres os dois seriam depois do vestibular.

Mas é preciso levar em conta a tristeza, a desolação, o arrasamento do pessimista antes do vestibular, nos longos e massacrantes 180 dias que ele passou massacrado pela certeza da desaprovação.

Este é o malsinado destino nosso, os pessimistas: nós vivenciamos catástrofes que não nos acontecerão, nós nos adiantamos aos fatos, julgando que eles, quando sobrevierem, nos serão desfavoráveis.

E mesmo quando somos brindados pela vida ou pelo destino com fartas e estupendas benesses existenciais, logo imaginamos que em seguida elas cessarão os seus efeitos e darão lugar a largas e extensas amarguras. Já os otimistas, pelo contrário, podem ser atingidos pelos maiores desastres, a seguir põem na cabeça que se safarão dessa dificuldade e o sol da vida lhes nascerá fértil e esplendoroso.

Pode até não existir a felicidade, mas se ela existir, os otimistas serão aqueles que a abraçarão.

(Crônica publicada em 8/07/2001)

Postado por Sant`Ana

A magia dos pés

26 de janeiro de 2008 6

É imprescindível esmalte nas unhas do pé, das mãos nem tanto. São indispensáveis dedos simétricos, tanto nos pés quanto nas mãos.

O dedão do pé não pode ser exatamente um dedão redondo e largo, tem de guardar uma justa proporção geométrica com os outros quatro dedos, sem agredi-los pelo vulto.

É preferencial que o pé seja pequeno ou médio, embora se encontre sem muito grande freqüência pés grandes de harmonia estética e apelo afrodisíaco consideráveis.

O dedo limítrofe do dedão, sob pena de sacrilégio e veto inapelável, não poderá jamais exceder em comprimento ao dedão.

E os três dedos seguintes irão gradativa e discretamente diminuindo de comprimento na relação de um com o outro, até o quinto dedo, que terá de ter a graça desafiadora de uma cereja.

O corte das unhas dos pés tem de ser desenhado em linha convexa, isto é, com curva mais elevada no meio que nas bordas.

Fica fora de concurso o pé que contenha unhas cortadas em linha reta, do tipo para não encravar. Não há nada mais desanimador.

Há pés tão encantadores e espirituais, que o aperto de mãos deveria ser dado com eles.

Se os olhos são as janelas da alma, os pés são os portais do instinto.

Os pés são a credencial da sensualidade, as outras partes do corpo se constituem apenas em insígnias suplementares.

Os pés têm tal poder hipnótico, que, quando dotados de sedução irresistível, fazem emanar uma tal atração, que não resta outro recurso aos seus espectadores, mesmo que nenhuma palavra tenha sido ainda pronunciada, senão sucumbirem de paixão.

E esta paixão será mais duradoura que as outras paixões todas, porque os pés têm a capacidade incrível de envelhecer menos ou quase nada na relação com os outros redutos corporais.

A lascívia pelos pés é eterna.

As sandálias são os biquínis dos pés, porque os desnudam. Os sapatos são os véus dos pés, porque os ocultam sedutoramente.

Conheço maníacos de pés que se apaixonam por sapatos de salto alto, basta-lhes curtir o delírio lúbrico do imaginário concupiscente dos pés que os portam ou portaram.

O pecado ancestral da escultura e da pintura foi não ter dado relevo aos pés.

Só recentemente a moda vingou-se desse cochilo monumental dos mestres das artes plásticas, criando graciosos modelos de calçados femininos, que realçam a importância e o destaque dos pés na sensualidade da mulher.

A julgar pelos novos anéis de dedos dos pés que estão sendo lançados aos magotes, os anéis e alianças de silicone para os dedos dos pés, as tatuagens de hena, as tornozeleiras que vão acabar tornando superadas as pulseiras, esses emergentes e luzidios adereços que irrompem vitoriosos nos pés femininos, em breve as jóias mais cintilantes e mais caras se transferirão dos pescoços, dos dedos da mão e dos pulsos femininos para os pés.

Isso só demonstra que nós, os ardorosos amantes dos pés, os fanáticos podófilos de todos os tempos, é que estávamos com a razão.

O mundo descobriu finalmente a nossa secreta e deliciosa usufruição.

E o nosso fetiche privativo virou finalmente uma mania universal.

(Crônica publicada em 22/12/2002)

Postado por Sant`Ana

A competência do coração

25 de janeiro de 2008 6

O coração não sente ciúme. O coração só ama. Quem sente ciúme é o cérebro. Por isso se diz que o ciúme é coisa da cabeça da gente.

O ciúme é um sentimento tão pérfido, que não cabe no coração. O ódio também não é detonado pelo coração, ao contrário do que muito já se disse. O ódio também vem do cérebro. Por isso é que se diz que estamos com a cabeça quente.

O coração só ama. Ternura vem do coração. Tolerância vem do coração. Bondade só vem do coração.

Quando alguém trai a quem ama ou estima, é porque o coração foi superado na luta que ele mantém contra os outros órgãos.

Não existe mau caráter original. O caráter só será mau quando o coração não tiver influência sobre ele. E será bom quando o coração o tiver envolvido.

Tanto prova, que é corrente a expressão %22mau-caráter%22. Mas nunca se ouviu dizer %22mau coração%22. Porque no coração só cabem as coisas boas. A lixeira do homem está em outras partes, algumas bem notáveis, do seu corpo. No coração não cabe nem um argueiro.

O coração é a parte nobre do corpo humano, todas as outras são plebéias, porque se conspurcam.

A bênção sai do coração, o impropério salta do cérebro. Saudade nasce no coração, rancor vem do cérebro.

Quem dispara a lágrima é o coração. Quem dispara o revólver é o cérebro.

E sempre se travará a luta, descrita pelos filósofos, entre o cérebro e o coração. E o incrível é que nessa luta, vença quem vencer, a razão sempre está com o coração.

Quando enfrenta o coração, o cérebro perde a razão. %22E o coração tem razões que a própria razão desconhece.%22

Razão só tem aquele que tiver coração. Coração só tem aquele que mostrar boa razão.

O cérebro é, portanto, um mero rival do coração. E o homem se corrompe quando o cérebro toma o lugar do coração.

Eu às vezes amo tanto, que penso que tenho dois corações, o segundo no lugar do cérebro. Sem cérebro, eu enlouqueço de tanto amar, porque só o cérebro pode travar a corrida alucinada do coração para o amor.

Daí que quem pensa não ama, e quem ama não pensa.

Se o destino tiver que escolher entre me avariar o cérebro e o coração, que me preserve o coração e dane-se meu cérebro. Mil vezes ser um encefalopata do que um cardiopata.

Prefiro vegetar como um idiota, mas tonto de amor.

(Crônica publicada em 28/01/1997)

Postado por Sant`Ana

Morar separados

24 de janeiro de 2008 13

Quando preguei aqui nesta coluna uma modificação idealística no casamento, dizendo que será mais apropriado que ele comece a se dirigir no início deste século para a transformação de marido e mulher morarem em casas separadas, nem de longe eu quis bombardear a instituição da família.

Só um louco poderia querer extinguir a família, que é ainda a mais eficiente fortaleza contra as adversidades morais e materiais do tecido social.

O que eu quis dizer é que o casamento assim como está instituído atenta contra a liberdade das pessoas, que é afinal o maior valor a ser perseguido pelo homem no seu dever de busca da felicidade.

Consta da liberdade, logicamente, o exercício espontâneo da vontade pessoal. As pessoas têm também o direito de morar juntas se assim o decidirem.

Mas acontece que o casamento contém amarras que impedem na maioria das vezes a felicidade. Uma delas é o senso aguçado de %22propriedade%22 que se estabelece entre marido e mulher.

Desde que se casam, se transformam em %22meu marido%22 e %22minha mulher%22. E se desde já assim se pertencem, nada mais há que conquistar dali para a frente.

E o mesmo acontece com os filhos. Já que é %22meu filho%22 ou é %22meu pai%22, isto é definitivo e desobriga os que estão envolvidos nesta relação a aprimorarem na prática este conceito, tornando-se dignos da condição de filhos ou de pais pelo aprofundamento e aperfeiçoamento dos vínculos afetivos. Se já é %22meu%22, nada mais preciso fazer para vir a ganhá-lo.

O melhor seria que o casamento funcionasse como uma venda em prestações, que se tivesse de quitar em período longo. E não como uma compra à vista, cuja aquisição é definitiva, não tendo doravante de se prestar mais nada.

Quando na verdade é no decorrer da vida que o marido poderá vir a ser verdadeiramente um marido; a mulher, uma mulher; um filho, o filho. Ou seja, isto só acontecerá em realidade na aferição das condutas recíprocas. E não pelo decreto do registro civil oficializado.

No caso do casamento, a idéia de morar separados é brilhante. Porque não finda o namoro. Porque permanece o encanto da incerteza. Porque será constante o fascínio do encontro, sem a obrigatoriedade cansativa dele, que o domicílio conjunto impõe.

Um casal que mora separado se perfuma e se veste com apuro e jeito para encontrar-se, enquanto que o casal que mora junto vai deixando perigosamente de lado esses cuidados pessoais, deixando cair pouco a pouco a peteca da sedução e se precipitando no abismo do fastio e da rotina.

Mas o principal condão utilitário que o domicílio separado no casamento encerra é que, no caso do fim da paixão, do amor ou da amizade profunda, o trauma da separação será quase que irrelevante perto da explosão dramática e inapagável que as rupturas dos que moram juntos significa. As vidas separadas já tinham até ensaiado despropositadamente esse desenlace, que será suave e facilmente suportado.

Enquanto que a separação dos que moram juntos deixa marcas indeléveis de sofrimento.

O que acontece mais freqüentemente é que casais que notoriamente já estão separados, se moram juntos, continuam morando juntos, para evitar o estrondo da separação física e domiciliar, o que lhes acarreta um martírio contristador.

Enquanto os casais que morarem separados terão até diante de si a vantagem da possibilidade atraente e luminosa, depois de assegurados da solidez indestrutível daquela relação, de um dia passarem a morar juntos.

Entre os que morarem separados, a união logicamente será sempre mais duradoura. Com chances bem maiores de ser imorredoura.

(Crônica publicada em 5/03/2000)

Postado por Sant`Ana

A pressa moderna

23 de janeiro de 2008 3

O homem primitivo, o das cavernas e o das tribos, com o advento agora das grandes cidades e até das megalópoles, era muito mais social e afetivo com seus circunstantes do que o homem moderno.

O homem moderno não tem tempo para os amigos. O homem primitivo tinha os amigos todos os dias dentro da sua caverna ou no centro da sua aldeia, além das horas quase sempre vagas do seu ócio naturista para bater papo com os amigos.

Hoje, os amigos se gostam de longe. Têm que tratar dos seus negócios, dos seus empregos ou dos seus desempregos. Estamos todos na grande cidade condenados à lei animal das selvas, à competição bárbara e antropofágica ou pelo lucro ou pela carreira profissional.

O homem primitivo andava de cipó, no máximo no lombo de um lhama ou de um cavalo, tudo absolutamente gratuito, caído do céu. O homem moderno tem a luta corporal do vale-transporte, do IPVA ou contra o azulzinho para se locomover.

E essa batalha diária do homem moderno pela sobrevivência afastou-o dos seus amigos e dos seus amores. Está bem, concedo, nem para a família o homem moderno tem mais tempo a dar.

É absolutamente irracional que eu não visite os meus amigos ou não seja visitado por eles. Sinto que os amo, sei que eles me querem, mas o que é bem bom e essencial, nada: o encontro.

O homem moderno criou a cidade para aproximar-se dos outros homens, acabou a sua invenção criando uma distância polar entre ele e as pessoas que ele mais preza.

O homem primitivo se encontrava com seus amigos todas as manhãs bem cedinho, quando os primeiros raios de sol invadiam a sua oca e ele dava de cara no chão batido ou em cima da árvore com todos os seus afetos.

O homem moderno sai cedo e apressado de casa, na maioria das vezes para se encontrar com seus rivais, competidores e inimigos, fingindo cordialidade. Os amigos ficam para depois, num tempo que nunca encontrará por serem demasiados e cruentos os combates pela vida, que lhe tomam todo o tempo.

Os primatas e os indígenas se viam toda hora, os humanos modernos só se vêem com hora marcada. Tem pai hoje em dia marcando hora para receber filho.

Na antigüidade, todos os homens se encontravam todos os dias e todas as horas espontaneamente, ao natural. Hoje em dia todos os homens se encontram com hora marcada, o que quer dizer que se encontram por obrigação.

Tem hora marcada para sair de casa, pegar o ônibus, começar a aula, iniciar o trabalho. Hora marcada para namorar e para transar. Com prazo inicial e prazo terminal. Sempre com pressa.

Hora marcada para o espetáculo, para o médico, para o comício, para a greve, para escrever a coluna e para ler o jornal.

Às vezes não é só hora marcada, é dia, é semana, é mês e ano marcados com antecedência, como nos casos da Justiça do Trabalho, o que por si só já é uma brutal injustiça.

É um olho no relógio e outro no futuro, isto não é vida. É um rali.

Eu ainda peguei o tempo, em Tapes e São Jerônimo, de todos os dias me encontrar com meus amigos, pela manhã, ao meio-dia, à tarde e à noite, nos intervalos do trabalho ou durante o seu curso.

Hoje, só encontramos tempo para o trabalho e para os pagamentos de DOCs nos bancos.

E nunca encontramos tempo para aquele papo furado de fim de tarde no bar da esquina, um chope pra distrair, ouvir um soneto ou um cavaquinho, uma mulher que desfila na calçada, que tempos, já não há mais nem tempo pra trair.

E principalmente não há mais tempo para ver os amigos, o que se constitui na negação da vida e na autodecretação preventiva, antecipada e anunciada da morte. E, quando se encontra um tempinho para um amigo, ele não tem tempo para a gente.

(Crônica publicada em 15 de março de 2000)

Postado por Sant`Ana

Trocando em miúdos

22 de janeiro de 2008 22

Anuncio aqui nesta coluna, solenemente, que estou entrando em férias a partir de hoje.

E pela primeira vez em 15 anos não escreverei durante as dezenas de dias em que estarei ausente. Sempre escrevi quando tirava %22férias%22, escrevia de Jurerê, escrevia de Alegrete, mas sempre escrevi durante minhas férias.

Escrevia até quando para escrever uma coluna eu demorava oito ou 10 horas, aflito em busca de inspiração. Mas escrevia nas %22férias%22.

Desta vez não escreverei. Porque me foi prescrito pelos doutores da medicina que devo parar de trabalhar durante todos os momentos de minhas, agora sim, férias.

E a direção de Zero Hora decidiu ontem que, durante os dias em que eu estiver de férias, serão publicadas colunas minhas antigas, de preferência as que causaram maior repercussão durante os meus 36 anos de colunista de ZH, se é que elas serão alcançadas pela pesquisa que será eficiente e talentosa do Henrique Erni Gräwer, nosso companheiro de retaguarda.

Os leitores portanto não deixarão de me ler. Serão as colunas do meu passado, enquanto isso, nas férias, estarei elaborando, com anotações, as colunas do meu futuro (quando eu voltar).

Portanto, durante dezenas de dias fiquem sem Paulo SantAna os leitores, mas fiquem os leitores com Pablo e suas colunas antigas.

Serei, portanto, de amanhã em diante, interino de mim mesmo.

O meu fantasma se refugiará durante minhas férias neste espaço, serei também meu próprio ghost-writer.

Garanto que vocês relerão colunas antológicas minhas escritas no passado.

Assino embaixo do que disse Cassius Clay: como posso ser humilde, sendo tudo que sou?

E sou assim quem sou por serdes vós quem sois, sensíveis e bondosos leitores.

Postado por Sant`Ana

Reflexão

22 de janeiro de 2008 10

A situação até o momento é a seguinte: estou nadando de poncho contra a correnteza. Se conseguir chegar a uma das margens do rio, baterei em retirada com pouca munição.

Postado por Sant`Ana

O dentista e o psicanalista

22 de janeiro de 2008 1

Mas agora vejam só como está sendo este início de ano para mim. Ontem, fiquei seis horas submetido à cadeira da minha dentista, nada de dor, tudo de medo. E depois que virei um verdadeiro Indiana Jones na cadeira de minha competente e admirável dentista, não só pela sua extraordinária técnica em restauração dos meus três dentes cariados, mas principalmente pela sua inexorável paciência em suportar os meus fiascos escandalosos, terei hoje à tarde uma prova mais severa.

É que, se ontem fui à dentista para tratar de minha esfera sensório-cognitiva, hoje à tarde irei a um psicanalista para me submeter a um tratamento de canal.

Comigo é assim, dentista trata da minha alma, porque me inspira dor, psicanalista esburaca o meu corpo.

Tratamento de canal quem me faz é psicanalista, que entra lá no fundo, no âmago, nas raízes da minhas arcadas sensoriais e intelectivas e tenta devolver-me o equilíbrio neuronial.

É preciso salientar que faço também tratamento de canal com psicanalista em face de um masoquismo que possuo desde criança: com psicanalista, tratamento de canal é sem anestesia.

Como dói confessar a verdade para o psicanalista.

Enquanto com a dentista eu exercito o meu prazer hedônico de vê-la apavorada e atrapalhada com meu insano medo, ou seja, com a dentista eu exercito meu sadismo.

Postado por Sant`Ana

A folga do Carnaval

21 de janeiro de 2008 6

Eu (D), sambando e gritando no Carnaval de 1975/Banco de Dados
Aproveitem o Carnaval, dancem, sambem e gritem. É o que peço, é o que desejo a todos.

São tantos os problemas que nos afligem, que nos angustiam dia após dia, minuto a minuto. Por favor, sejam felizes neste Carnaval.

Assista ao meu comentário sobre o assunto:


Postado por Sant`Ana

Enquanto isso, no Olímpico...

21 de janeiro de 2008 4

Willian Magrão comemora o gol ao lado de Felipe/Fernando Gomes
Vi o jogo inteiro do Grêmio, que ganhou do 15 de Novembro de Campo Bom por três a zero.

Queria dizer que fiquei com uma impressão muito favorável do Grêmio. Não depois que um jogador do 15 ter sido expulso, mas antes.

No final da partida, o jogador Eduardo Costa fez referência àqueles da imprensa que criticaram o time do Grêmio sobre os jogos-treinos contra times amadores:

— Viu, nos criticaram. Falaram que nosso time não tinha credencial. Agora fizemos uma boa exibição.

Ora, se o jogador disse claramente que foi uma resposta aos críticos que desancaram o pau no time do Grêmio lá na Serra, isso quer dizer que esses críticos, que eu não sei quem são, sinceramente, tiveram um papel importante.

Foram chamados de aves agourentas os que estavam sobre má impressão sobre o time do Grêmio que estava se formando neste início de ano. Então, eu quero destacar o papel das aves agourentas.

Servem para cutucar o time. Para mexer no brio do time, para fazer com que o time procure dar em campo uma resposta a estas aves agourentas. Eu, por exemplo, há muitos anos que sou uma ave agourenta. O Grêmio quando começa a formar um time novo eu já digo:

— Ih, será rebaixado.

Conforme eu digo isso, os dirigentes começam a reforçar o time do Grêmio e ocorre o contrário. Então, essa é a vida.

De qualquer forma, gostei da velocidade desenvolvida pelo Wagner Mancini no time. Gostei de algumas atuações individuais, como a do Anderson Pico. E fiquei impressionado com o time.

Eu sei, como qualquer criança sabe, que se fosse disputar um campeonato nacional, o Grêmio seria rebaixado. Mas não é disso que eu falo. Estou analisando a potencialidade do time e do treinador. E nesse ponto, o Grêmio entusiasmou a sua torcida.

Postado por Sant`Ana

Os pequenos superam os grandes

21 de janeiro de 2008 11

O empate foi uma vitória para o Inter de Santa Maria/Lauro Alves
De quem o Inter ganhou no torneio de Dubai? Do Stuttgart e da Inter de Milão. E ai vai a Santa Maria, antigo centro ferroviário do RS, e empata com o Inter de Santa Maria. Aí é que está o fascínio do futebol.

Os torcedores do Inter de Santa Maria foram para o estádio com a remota esperança de ter um resultado digno contra o grande Inter que há pouco foi o campeão do mundo. E realizaram esta esperança.

Aí é que está o fascínio do futebol: é talvez o esporte onde os pequenos tem mais chances contra os grandes.

Postado por Sant`Ana

Os solistas - parte III

21 de janeiro de 2008 2

Esses dias, testei um solista num coquetel. Ele estava a sós comigo. Começou a falar e não parou mais. Então eu tentei um truque para confundi-lo: enquanto falava, eu me afastei, pensando que iria calá-lo. Que nada, por um sinistro automatismo que domina os solistas, mesmo afastado pude ver e ouvir que o solista não parara de falar, continuou falando sem mim, na esperança de não desacelerar pela minha ausência e para que se mantivesse embalado até minha provável volta.

Existem solistas em todas as empresas, em todos os grupos, até na religião. Esses dias, fui a um culto evangélico no Sarandi em que durante toda a tarde só falou um pastor, as intervenções dos outros pastores e de algum fiel que se atrevesse a dar um chega para lá no pastor dominante se resumiam a gemidos de %22aleluia%22.

Ele preparava preces de 20 minutos de duração e parecia contrariado quando o auditório o interrompia ao fim das prédicas dizendo alto e em uníssono: %22Amém%22.

Ele demonstrava tacitamente que queria que o %22amém%22 fosse pronunciado também só por ele.

É demais. O solista é tão obsessivo em seu caudal verborréico, que faz cara de misto de insatisfação e fúria quando alguém lhe pede um aparte ou aproveita que ele faz uma minúscula pausa para interrompê-lo.

O que me consola pelo massacre diário que sofro com os solistas do meu cotidiano é que me disseram que Moisés e Cristo foram os dois maiores solistas da humanidade.

O primeiro levou 12 dias para anunciar e explicar as tábuas que continham os 10 mandamentos, e o segundo gastou oito horas para pronunciar o Sermão da Montanha.

Os dois sem apartes.

Postado por Sant`Ana